Arquivo de janeiro 2011

canção de ninar

nicolas-e-wellingtonEsta é uma canção de ninar para tempos de turbulência, como os nossos, tempos em que olhamos para nossos filhos, depois para o futuro, depois para os nossos filhos…

Queremos dedicá-la às crianças que sofreram tanto com as enchentes no Rio de Janeiro, principalmente àquelas que perderam tudo, inclusive seus pais. Mas queremos dedicá-la de modo especial ao pequeno Nicolas, que se salvou dos escombros graças ao carinho e socorro do seu pai Wellington, depois de 15 horas soterrado.

Se um dia Deus permitir visitá-los, queremos cantar esta canção para eles, pessoalmente.

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Canção de ninar

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Menino, já é bem tarde

E está na hora de adormecer

Uma estrela já foi pra outra cidade

Que estava pra amanhecer

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Te conto alguma história

De aventuras e emoções

Com castelo dourado à beira do lago

Mocinhos e vilões

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Nós vamos sonhar um pouco

Com nuvens de algodão

No dia mais claro, o vento mais solto

Voando na imensidão

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Se a gente fechar os olhos

Consegue até ver o sol

Pousando de leve na nossa janela

Nas asas de um rouxinol

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Menino, não tenha medo

O meu abraço é todo seu

Ouve o meu coração contar um segredo

Que ainda não esqueceu

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O amor vence o perigo

E traz a luz pra escuridão

Fortalece o herói, socorre o amigo

E quem está no chão

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Nós vamos sonhar um pouco

Com nuvens de algodão

No dia mais claro, o vento mais solto

Voando na imensidão

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Se a gente fechar os olhos

Consegue até ver o sol

Pousando de leve na nossa janela

Nas asas de um rouxinol

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Thiago Azevedo, Fabrício Matheus, Gladir Cabral

cancao de ninar 2

zé barbosa

zé barbosaFazer esta canção foi um prazer. Ela expressa a importância de ter alguém desafiando a gente à comunhão, incomodando os acomodados, alertando para os espertalhões que existem por aí e andando junto dos que sofrem. Imaginamos três momentos: o primeiro, do mutirão pela reconstrução das casas destruídas em Teresópolis, Nova Friburgo e Petrópolis; o segundo, o alerta que o Zé nos deu quanto aos políticos e suas promessas muito insólitas e quanto à importância de ficarmos em cima, cobrando a distribuição justa dos recursos, o investimento em infra-estrutura para as cidades destruídas pelas águas, etc.; o terceiro, e ainda está para acontecer, o pagode na casa do Zé. O pagode surge como o símbolo da alegria da reconstrução, a festa da comunhão, a festa da esperança.

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Zé Barbosa

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Zé Barbosa falou que é pra gente ajudar

“O meu Rio de Janeiro”

Pois então, pessoal, é melhor começar

Mergulhar de corpo inteiro

Pega aquela madeira que tava guardada

E com prego e martelo faz nova morada

Tira a pá recolhe a areia

E a telha pra cá

Traz as coisas de fora de volta pra dentro

E no porta-retrato um novo momento

Tira a cinza da lareira e enfeita o lar

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Zé Barbosa falou que é pra recomeçar

Combinou tá combinado

Mas tem gente chegando pra se aproveitar

Sujeitinho mais folgado!

Eles chegam pra gente no meio do pranto

Eles pousam na foto com cara santo

E prometem tanta coisa, sinhô

Melhor é se antenar

Se os home não fazem o que estava escrito

E quiserem ganhar esse povo no grito

Não se pode dar bobeira, não, a gente vai cobrar

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Zé Barbosa falou que é pra gente chegar

Nesse Rio de Janeiro

E fazer um pagode pra comemorar

Que acorde o mundo inteiro

Olha quanta beleza, essa gente animada

A panela na mesa, a melhor feijoada

Vai dizer que tá no ponto, vai.

Tempero tá que tá!

Zé Barbosa cantando anima a moçada

Este samba rolando, a maior batucada

Porque a gente tem direito, sim, de junto celebrar

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Thiago Azevedo, Fabrício Matheus, Gladir Cabral

ze barbosa 2

valha-me, Deus

enchenteEsta canção foi uma das mais difíceis de serem escritas até aqui. Teve um tempo relativamente longo de gestação, talvez pela intensidade emocional que está ligada a ela. Quisemos usar a expressão popular entre os falantes da língua portuguesa: “Valha-me, Deus”, que geralmente sai de nossa boca em momentos de muito apuro ou desespero. Nossa intenção aqui é pegar esse momento de angústia intensa e ampliá-lo em forma de canção. É o grito de socorro do indivíduo na hora da dor. É busca aos céus por uma resposta.

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Valha-me Deus

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Valha-me, Deus

Por que já não tenho forças pra andar

Os meus pés estão cansados demais

E eu não sei qual o caminho

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Valha-me Deus

Não é fácil ter de recomeçar

E deixar o que ficou para trás

Eu me sinto tão sozinho

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Olha, meu Deus

Me perdoa esta amargura no olhar

Meu sorriso foi pra outro lugar

Vai demorar, eu sei

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Valha-me Deus

Minha vida é uma ponte a desabar

Brumas e breus

Passarinho que não sabe mais voar

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Olha, meu Deus

Se é sonho, manda alguém me acordar

Se é noite, faz o céu clarear

Faz-me querer viver

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Valha-me, Deus

Por que já não tenho forças pra andar

Os meus pés estão cansados demais

E eu não sei qual o caminho

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Valha-me Deus

Não é fácil ter de recomeçar

E deixar o que ficou para trás

Eu me sinto tão sozinho

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Olha, meu Deus

Estes braços estendidos no ar

Esta correnteza quer me levar

Vai me levar, eu sei

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Valha-me Deus

Pois parece que o céu vai despencar

Reis e plebeus

Esperando só o dia despertar

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Olha, meu Deus

Dorme alguém que não devia dormir

Parte alguém que não devia partir

Parte-se a vida, enfim

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Thiago Azevedo, Fabrício Matheus, Gladir Cabral

valha-me deus

o cartola falou

CartolaEsta canção faz parte do Projeto “Canção para o Rio” e tem duas intenções bem claras: fazer uma homenagem ao compositor popular que foi o Cartola e chamar os que sofrem para ouvir a voz da esperança. Acabou de nascer. Ainda ontem eu estava pensando: o que Cartola teria a dizer ao povo do Rio depois de tanto sofrimento com as chuvas? Bom, acho que seria uma lembrança daquilo que já disse em canção: “Finda a tempestade / O sol nascerá”. Se o Cartola falou, tá falado.

A canção quer dizer, àquele que está sozinho e abatido, que abra a janela, que olhe pra frente, pois ainda há uma vida pra viver e é preciso recomeçar, mesmo que isso seja muito difícil.

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O Cartola falou

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Se o Cartola falou

que o sol nascerá, é verdade

O aguaceiro passou,

o arco íris brilhou hoje à tarde

Mas o dia, só ele é que sabe

O que guarda no alforje pra nós

É preciso soltar essas velas

E amarrar esses nós

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Quando a lona da noite se estende

por sobre a cidade

ao mandar o faminto pra cama,

pois já é muito tarde,

picadeiro repousa em silêncio,

mas ainda conserva o calor.

O palhaço carrega o sorriso

Até mesmo na dor

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A manhã vai trazer alegria

pelos braços da aurora

mas o doce perfume das rosas

eu pressinto é agora

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Se essas águas que movem moinhos

Moerem teus dias

E ficares calado e sozinho nas horas vazias

Olha bem para a tua janela

E vê só quanta coisa mudou

Tanta gente que anda contigo

Tanto amigo que ainda restou

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Se essas águas que movem moinhos

Moerem teus sonhos

E acordares no meio da noite

Em suspiros tristonhos

Olha bem para a tua janela

E vê só quanta coisa mudou

Uma brisa suave devolve

O que o vento levou

.cartola 1

quando esta nuvem passar

nuvem

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As nuvens pesadas ameaçavam derramar dilúvios sobre as cidades já destruídas. Sombrias, pesadas, faiscando raios e trovões, tirando o sono e quem sabe até a esperança de muitos, elas dominavam a paisagem e raptavam o sol. Por mais ameaçadoras e destruidoras que sejam, as nuvens passam. Foi o Thiago que veio com essa idéia, uma menção inclusive à famosa canção “Vai passar”, do Chico Buarque. O Fabrício trouxe a melodia e mais alguns versos. Depois de uns ajustes, eis mais um samba lamento, com um raio de esperança.

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Quando esta nuvem passar

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Quando esta nuvem passar

Vamos arregaçar as mangas

Surdo, pandeiro e tam tam

Pra fazer da manhã um novo samba

Alvorada virá para nos ensinar

A sorrir e dançar uma ciranda

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Quando esta nuvem passar

Passará esta dor imensa

Um arco-íris de paz

Sorrirá para nós com esperança

Vida nova nascer, o jardim florescer

Alegria como um sonho de criança!

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Toda poesia, toda alegria

Povo na rua e festa no céu,

Riso no rosto e samba no pé

Na mesa, fartura de leite e mel

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Quando esta nuvem passar

Ela apenas será lembrança.

Melhores dias virão

E eles, sim, pesarão nesta balança

Todo mundo virá e também cantará

Na avenida a lição da nova dança

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Thiago Azevedo, Fabrício Matheus e Gladir Cabral

quando esta nuvem passar 2

solidar

solidarDepois de uma longa caminhada pelas áreas atingidas, conversando com pessoas, ouvindo histórias, levando mantimentos, vendo de perto a dor dos desabrigados, José Barbosa Junior volta pra casa e escreve isto:

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Solidar

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Só quem lida com a dor

sólida, forte e atroz

sofre o seu dissabor

garganta fechada em nós

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Solidão de quem espera

o filho que já não vem

tristeza que dilacera

o pouco que ainda tem

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Solidez que se esvai

ao simples rolar do rio

tão pesado ele cai

furioso no seu desvario

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Solitário o meu canto

ecoa por entre a chuva

as lágrimas e o pranto

do órfão e da viúva

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Solidar o que sobrou

dos cantos dessa cidade

e o canto que me restou

é o da solidariedade.

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José Barbosa Junior & Gladir Cabral

solidar 3

águas de março

tomQueridos amigos, respondendo a um grande desafio do momento, Thiago Azevedo, Fabrício Matheus, José Barbosa Júnior e eu estamos envolvidos num projeto de criar uma série de sambas de lamento. A idéia é desabafar junto com o povo e buscar consolação, solidariedade, alguma esperança possível diante da forte correnteza do desânimo e do abatimento geral.

Aqui está nossa segunda canção: “Águas de março”, clara citação à canção de Tom Jobim, feita em sua casa em São José do Vale do Rio Preto, infelizmente destruída pelas últimas chuvas.

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Águas de março

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Águas de março, tão fora do tempo,

Tão antes de a gente esperar

Tomam espaços, navegam no vento

E fazem o povo chorar

Rios de dores carregam as flores

E os nossos amores pro mar

Quem é que dá a palavra de ordem

E que faz toda água voltar?

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É pau, é pedra, é toco

É fim de mundo, é ribanceira

É samba que perdeu o tom [tudo]

É campo sem peroba

É matita sem pereira

É verso que não fica bom

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Águas de março, tão fora do tempo

Que até Deus se fez lagrimar

Velha mangueira ficou em silêncio

Pra longe se foi sabiá

Falta de teto, de chão e abrigo

O sol escondido do olhar

Rio de pranto, uma chuva de prata

O céu desatou a chorar

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Águas de março, tão fora do tempo

Que fazem o leito jorrar.

Boa lareira que fez-se poeira

E trouxe mais cinza ao luar.

Sonho contido, retrato perdido

Daquilo que um dia foi lar.

Lado de dentro jogado na rua

E a rua perdida a chorar.

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Rio quer tanto, uma nuvem de graça

Que faça essa gente cantar.

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Gladir Cabral, Thiago Azevedo e Fabrício Matheus

aguas de marco 3