saint-francis-1Há um grande agito na floresta, pássaros cantando por toda parte, vozes de gente, gritos de animais e passos apressados. Até as folhas das árvores parecem diferentes. O que estará acontecendo? Será que alguém está caçando ou maltratando os animais?

Nada disso. É Francisco de Assis que vem chegando e cantando suas doces canções, rodeado por seus bons amigos e discípulos. O seu canto é acompanhado por inúmeros pardais e rouxinóis que estão ao seu redor. Até o gato do mato arrisca um versinho. E Francisco ergue a voz:

— “Como vai, Irmão Vento! Como vai, irmão Sol! Tudo bem, irmã Lua! Vamos louvar ao Senhor?”

E seu canto é acompanhado por toda a natureza.

Francisco era filho de um comerciante muito rico. Quando criança, foi cercado de amor e carinho. Na sua juventude, buscou pelo mundo afora o que a vida tinha de bom—bebeu, festou, farreou, correu, ganhou e perdeu muito dinheiro. Francisco provou a doçura do vinho e o amargura das tavernas. Era sempre o primeiro na busca de farra e folia. Mas dentro do seu coração havia o desejo de algo mais.

Francisco virou soldado, foi à guerra, quis ser um herói famoso, cheio de glórias e honras. Mas seu exército sofreu uma grande derrota e muitos foram mortos. Francisco acabou preso num sombrio calabouço, um lugar horrível, úmido e frio. Ficou ali durante um ano inteiro, acorrentado. Mesmo assim, Francisco jamais perdeu a alegria e sempre alimentou no coracão o desejo de liberdade. Até que um dia o seu resgate foi pago.

saint-francis-2Mais tarde, Francisco quis alistar-se entre os cavaleiros que iam lutar nas Cruzadas contra os mouros. Mas depois de um dia de uma longa caminhada, Francisco deu meia volta e veio embora para casa. O fiasco foi grande. Todos na cidade riram dele e o tomaram por covarde.

— E aí, Francisco, a guerra nem começou e você já está de volta!

Humilhado, Francisco engolia o seu fracasso.

Vinte e cinco anos se passaram. Francisco sentia uma vontade muito grande de estar sempre perto de Deus. Ele passava horas em oração, nas montanhas, nas cavernas, lamentando seus erros do passado e buscando um rumo pra vida. Muitas vezes seu coração era enchido por uma intensa alegria vinda de Deus.

Certa vez, Francisco vinha cavalgando pela estrada, quando um homem leproso usando roupas muito sujas, velhas e rasgadas ia passando por ali. Francisco gostava muito das coisas bonitas e agradáveis. Ora, a lepra era uma doença que não tinha cura naquela época, e era muito contagiosa. Ao sentir o mal-cheiro que vinha daquele homem, Francisco sentiu uma grande aversão. Mas uma força muito maior agia no seu coração, e ele desceu do cavalo e foi ao encontro do homem e beijou as mãos dele.

Os dois conversaram por um tempo. Francisco pode conhecer de perto a dor que o homem sentia. Depois de se despedirem, cada um foi seguindo o seu caminho. Francisco, ao olhar para trás para dar o último aceno de adeus, não viu mais o homem. Francisco jamais esqueceu o rosto marcado daquele homem. E tomou aquele encontro por um teste de Deus.

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Outro dia Francisco entrou numa antiga igreja de São Damião para orar. Seu coração estava fervendo de vontade de fazer alguma coisa de boa para Deus. De repente uma voz veio ao seu coração:

— Francisco, restaura a minha igreja!

Ele olhou para os lados e viu que aquela igreja estava em ruínas, as pedras caídas, os bancos velhos e estragados, o altar completamente abandonado. Francisco pensou que Deus o estava chamando para consertar aquela capela. E foi o que ele fez. Sem esperar autorização, vendeu tecidos que eram de seu pai e juntou dinheiro o suficiente para fazer a reforma.

Seu pai ficou uma fera; pensou que seu filho estava ficando maluco, só querendo saber de coisas de Deus. E até que ele tinha razão. O Evangelho parece loucura para quem não crê. O pai quis o dinheiro de volta e quis ainda deserdar o seu filho. Francisco devolveu o dinheiro, e também as sandálias, a capa e suas roupas do corpo.

Francisco saiu de casa usando apenas uns farrapos velhos e foi em direção à floresta gelada, dizendo:

— Bom, Pietro Bernardone não é mais meu pai. Agora posso orar com toda a liberdade, “Pai Nosso que estás nos céus…”

E assim Francisco seguiu mundo afora, dono de coisa nenhuma, possuindo todas as coisas. E pedindo a ajuda de muitas pessoas, ele reconstruiu a igreja de São Damião.

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Pessoas e mais pessoas se juntaram a Francisco em seu voto de pobreza e despreendimento. Eles dormiam ao relento, vivendo como andarilhos. Aprendiam com ele a repartir e socorrer os que não tinham nada. Aprendiam que a gente precisa de bem pouco para ser felizes, que é possível ser pobre mas ter dignidade, que é preciso ser solidário com os outros, pois somos todos irmãos, e este mundo em ruínas tem que ser reconstruído.

Para Francisco de Assis, toda a natureza faz parte da grande família de Deus: estrelas, planetas, animais, plantas, e seres humanos. Dizem que certa vez Francisco estava caminhando com seus discípulos e viu vários pássaros à beira da estrada: canários, pardais, corvos, pombos… Francisco deixou seus irmãos na estrada e foi para perto dos pássaros. Quando Francisco chegou perto deles, os pássaros não fugiram. Impressionado, ele perguntou se eles queriam ouvir a palavra de Deus.

Assim, ele começou a pregar aos pássaros que ouviam com atenção:

— Meus queridos irmãos, Deus deu a vocês roupagens tão lindas, penas coloridas, asas tão belas e leves. O nosso Pai também tem dado a vocês as sementes para comer todos os dias. Além de tudo isso, ele lhes deu uma voz tão harmoniosa e bela. O Pai os proteje e sustenta, por isso devemos louvá-lo a cada novo dia.

Parece que ao ouvirem isso os pássaros começaram a cantar ainda mais intensamente, como se entendessem o que Francisco estava dizendo. Francisco os abençou e voltou para a estrada entusiasmado:

—Puxa vida, por que eu não fiz isso antes? Foi maravilhoso!

Francisco socorreu muitas pessoas, consolou, exortou, animou. Com o passar do tempo, a sua saúde foi ficando cada vez mais frágil. Ele ainda era jovem, mas pouco a pouco foi perdendo a visão. Deve ter sido muito doloroso para ele, que amava tanto a natureza, as cores dos pássaros, do céu, das nuvens, dos rios, não poder mais enxergar a beleza da criação. Mas é justamente nesse período mais difícil de sua vida que ele compôs o maravilhoso “Cântico do Irmão Sol”.

Pela sombra longa da tarde ele vem cantando,

Repartindo tudo o que tem de melhor.

A floresta faz uma festa quando o vê passando,

E o seu canto, todos já sabem de cor.

Como vai irmão Sol? Veja só quem chegou?

Uma estrela no céu! Irmã Lua brilhou!

Sou Francisco e estou tão feliz por viver!

.

Irmão Vento, me diz: Amanhã vai chover?

Irmão Fogo, que bom é poder te rever.

São Francisco, é isto aí, muito prazer!

.

Quando a noite abraça a Irmã Terra já adormecida,

Ele conta belas histórias de amor.

Seus amigos, tão comovidos, sonham com a vida

Que será mais cheia de luz e calor.

são francisco

  1. “Irmão Vento, me diz: Amanhã vai chover? irmão Fogo, que bom é poder te rever. São Francisco, é isto aí, muito prazer!”
    Que saudade da minha infância!! Tinha uma coleção de livros e um cd com músicas essa era minha preferida.. Bom matar essa saudade!

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