Arquivo de janeiro 2009

eu sou feliz

arthurFiquei sabendo, um passarinho me contou, que esta é uma das canções preferidas do meu amigo Arthur Bousfield. Meu amigo, não, meu super-herói. Então, resolvi compartilhar mais uma canção. Um grande abraço a você, Arthur.

Eu sou feliz! Eu sou feliz e é pra valer.
Ah, mas como é bom estar aqui com vocês!
Eu sou feliz! Eu sou feliz!
Porque o amor de Deus me quis pra estar bem junto de vocês.

Eu sou feliz! Eu sou feliz! Nem sei dizer.
Ah, mas como é bom estar aqui com vocês!
Aquela voz tão doce foi que chamou
E aqui estou porque enfim chegou a minha vez.

Eu vou cantar até o sol nascer mais cedo,
Continuar até fazê-lo compreender
Que eu sou feliz! Eu sou feliz!
Agora sou feliz! E muito mais feliz!

Eu vou falar até que o príncipe me escute
E ame o povo que precisa de atenção
Pra ser feliz! E ser feliz!
Viver e ser feliz! Amar e ser feliz!

Eu vou dizer pra quem lamenta a sua sorte
Que Deus é forte e faz a gente desejar
E ser feliz! E ser feliz!
Sonhar e ser feliz! E muito mais feliz!

eu sou feliz

nossa terra

Victor Hugo conheceu o exílio. Ao descrever as ruas de Paris no passado, depois de um afastamento de 12 anos, ele não esconde sua emoção e faz uma tocante reflexão sobre a pátria vista a partir de longe. Creio que essa experiência deve ser comum a muitos brasileiros que hoje caminham por ruas e estradas distantes.

Enquanto vivemos na nossa terra, parece-nos que aquelas ruas nos são indiferentes, que aquelas janelas, telhados e portas nada significam, que aquelas paredes são completamente estranhas, que aquelas árvores nasceram ontem, que aquelas casas, onde nunca entramos, são inúteis, que as ruas por onde andamos não passam de simples pedras. Mais tarde, quando estamos longe, é que percebemos como nos são queridas aquelas ruas, como nos fazem falta aqueles telhados, aquelas janelas e portas, como nos são indispensáveis aquelas paredes, como gostamos daquelas árvores, como aquelas casas, onde nunca entramos, faziam parte de nossa vida, e que deixamos entranhas, sangue e coração nas pedras daquelas ruas. Todos esses lugares, que não vemos mais, que talvez nunca mais tornaremos a ver, e cuja imagem guardamos em nossa mente, tomam um encanto nostálgico, voltam com a melancolia e uma aparição, tornam-nos visível a terra santa, e são, podemos dizer, a própria alma da França; então, gostamos de relembrá-las tais como as conhecemos, do mesmo modo, obstinadamente, sem querer mudar coisa alguma, porque a imagem da pátria é como o retrato de uma mãe (Victor Hugo, Os Miseráveis, p. 405).

waterloo

waterlooPassei pelo quebramar da batalha de Waterloo. Capítulo muito rico dos Miseráveis, cheio de reflexões sobre guerra, paz, nações, vida humana e com humor em certas passagens. Victor Hugo faz um curioso comentário sobre a suposta importância da batalha de Waterloo para nações como a Inglaterra e a Alemanha. Ele diz:

… Graças aos céus, os povos são grandes sem precisar das lúgubres aventuras da espada. Nem a Alemanha, nem a Inglaterra, nem a França tiram sua grandeza da bainha de uma espada. Nessa época, em que Waterloo nada mais é que um retinir de sabres, acima de Blücher a Alemanha tem Goethe, e acima de Wellington a Inglaterra tem Byron; um vasto renascer de idéias é a característica de nosso século, e nessa aurora, a Inglaterra e a Alemanha têm brilho magnífico. São majestosas porque sabem pensar. A elevação de nível que trazem à civilização é-lhes intrínseco; vem delas mesmas e não de um acidente. O que elas têm de progresso no século XIX não tem como origem Waterloo.Somente povos bárbaros sentem súbitas indigestões após uma vitória. É a vaidade passageira das torrentes infladas pelo aguaceiro. Os povos civilizados, sobretudo nos tempos atuais, não se levantam nem se abaixam conforme a boa ou má sorte de um capitão. Seu peso específico no gênero humano resulta de algo mais que um simples combate. Sua honra, graças a Deus, sua dignidade, sua luz, seu gênio, não são números que esses jogadores, os heróis e os conquistadores, possam arriscar na loteria das batalhas. Quase sempre, batalha perdida é progresso adquirido. Menos glória e mais liberdade. Os tambores se calam e a razão toma a palavra. É um jogo de perde-ganha. Falemos, pois, de Waterloo friamente, dos dois lados. Demos ao acaso o que lhe pertence e a Deus o que é de Deus. Que foi Waterloo? Uma vitória? Não. Uma partida. Partida ganha pela Europe e paga pela França (Victor Hugo, Os Miseráveis, p. 317-8).

o infinito dentro da gente

Mais um pouquinho de Victor Hugo. Desta vez sobre a alma humana, a vida interior, que ele chama de infinito dentro da gente:

Existe uma coisa que é maior que o mar: o céu. Existe um espetáculo maior que o céu: é o interior de uma alma.

Que coisa mais sombria é esse infinito que todo homem leva em si mesmo, pelo qual desesperadamente mede os desejos do seu cérebro e as ações da sua vida! (Victor Hugo, Os Miseráveis, p. 211).

Existe um infinito fora de nós? Esse infinito é uno, imanente, peermanente; necessariamente substancial, desde que é infinito, se tivesse necessidade da matéria, seria por ela limitado; necessariamente inteligente, pois é infinito, faltando-lhe a inteligência, seria por ela circunscrito? Esse mesmo infinito desperta em nós a idéia de essência, enquanto não podemos atribuir a nós mesmos senão a idéia de existência? Em outros termos, não é ele absoluto, enquanto nós somos relativos?

Ao mesmo tempo que existe um infinito ao nosso redor, há algum infinito dentro de nós? Esses dois infinitos (plural medonho!) não se sobrepõem um ao outro? O segundo infinito não está, por assim dizer, sob o primeiro? Não é, por acaso, o espelho, o reflexo, o eco, o abismo concêntrico de outro abismo? Esse segundo infinito é também inteligente? Pensa? Ama? Quer? Se os dois infinitos são inteligentes, cada um deles tem um princípio volitivo, e existe um ego tanto no infinito superior como no inferior. O ego inferior é a alma; o ego superior é Deus.

Pôr, pelo pensamento, o infinito interior em contato com o infinito superior chama-se rezar.

Nada roubemos ao espírito humano; suprimir não é bom. É preciso reformar, transformar. Algumas faculdades do homem são dirigidas para o Desconhecido: o pensamento, o sonho, a oração” (462).

obrigado, glauber

Relembo antigos e-mails que recebi durante 2008, reencontrei este do Glauber Ribeiro, que faço questão de postar. Nele, meu amigo reflete sobre a importância de saber lidar com as imperfeições em nossa arte e em nossa vida. O texto é breve e profundo, para meditar nestes dias de chuva de verão:

Eu acredito que as nossas imperfeições são parte do
que somos e devem ser celebradas. Imperfeição é parte
do que significa sermos humanos. Perfeição só a
máquina.

Por isto, o melhor tipo de música é ao vivo,
acontecendo na frente da gente, e melhor ainda se a
gente pode participar.

Eu acredito que é importante trabalhar com a matéria
ou o material que Deus nos deu. É melhor fazer música
imperfeita do que não fazer. Eu li em algum livro que
um certo artesão japonês, trabalhando com barro,
fazendo um conjunto de xícaras de chá, chegou um
momento em que acabou o material que ele estava usando
para laquear as xícaras. Ao invés de jogar todas fora,
ele deixou o conjunto inacabado, testemunhando o
momento exato em que acabou o material.

Eu tenho uma “cabeça” de flauta feita à mão, de
madeira, feita por um homem que mora na Austrália. Um
dia eu tive que mandá-la de volta para reparos. Ele me
perguntou se eu queria aproveitar a ocasião para ele
consertar um certo defeito que ele, agora com mais
experiência em fazer essas cabeças, tinha percebido.
Eu disse a ele que não, que eu gosto do som da flauta
como ele é, e que é trabalhando junto com a flauta
para unir minhas imperfeições à dela, que espero criar
uma música que vá além delas.

Tendo dito tudo isto, eu reconheço que também sou
consciente de cada nota desafinada nos meus dois CDs.
Mas apesar dos problemas, as pessoas que pararam para
escutar disseram que a música lhes fez bem, então para
que reclamar? 🙂

glauber