Arquivo de outubro 2008

pássaros

cardealOs passarinhos são nossos grandes mestres. Tenho um punhado de canções falando deles e tem até uma falando a eles. Entre os livros que ando saboreando ultimamente, estou com o Beyond Words, do Frederick Buechner. Alimento para a cabeça e para o coração.

Rolando pelo céu do verão, pousando no topo das árvores, alimentando seus filhotes, os pássaros vão cuidando de sua vida como sempre sem prestar muita atenção na raça humana, assim como a raça humana geralmente nem se preocupa com eles. Mas eis que senão quando eles fazem alguma coisa que chama nossa atenção. Os gansos do Canadá voando para o sul em bando na forma de V. Um bem-te-vi cantando Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi! Um cardeal voando entre os arbustos como uma chama. Por um momento ou dois, até o mais tolo de nós compreende vagamente que o mundo seria um lugar mais pobre sem eles.

Pode-se pensar de vez em quando que os pássaros sentem o mesmo em relação a nós. Um homem com um guarda-chuva caminhando pela calçada. Uma mulher colhendo amoras. A cantiga de uma criança de dois anos brincando na caixa de areia. Será que os pássaros de vez em quando olham para nós como nós olhamos para eles, basicamente com indiferença, mas às vezes com a curiosidade de uma olhadela, o bater de umas asas, as primeiras notas de uma canção?

Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça

eugene petersonCompartilho este surpreendente poema de Eugene Peterson.

A descrença implume cairia como uma pedra

Através da plenitude de ventos ascendentes, em camadas; o falcão

De cauda vermelha voa e paira, sem pressa

Embora faminto, despreza preguiçoso

As refeições fáceis de refugo putrefato,

Esperando astutamente a presa esquiva: um vazio visível

Sobre uma invisível plenitude.

O sol pinta de cobre a cauda japonesa em leque, estampando

Penas contra o imenso céu

Para minha delícia, e abençoa

Com um feixe de luz o pássaro de melhor visão

Que se atira veloz sobre uma serpente

Em uma morte determinada pelo Gênesis

(Eugene Peterson, tradução de Neyd Siqueira, O Pastor Contemplativo, p. 111)

eita, bakhtin!

Enquanto publicava as fotos no post anterior, ia tocando adiante minha leitura de Bakhtin. Tenho aula amanhã no Mestrado em Educação da Unesc. Entre uma página e outra, topei com a seguinte frase que me fez parar:

A palavra não é um objeto, mas um meio constantemente ativo, constantemente mutável de comunicação dialógica. Ela nunca basta a uma consciência, a uma voz. Sua vida está na passagem de boca em boca, de um contexto para outro, de um grupo social para outro, de uma geração para outra” (Problemas da Poética de Dostoiévski, p. 176).

Eita, Bakhtin! Isso tem tudo a ver com a proposta deste site, e desta frágil vida humana. Estou cada vez mais impressionado pela perspectiva que ele abre em relação à linguagem e ao fenômeno da cultura. Acho que estou virando fã.

casa grande – o dvd

Aqui estão algumas fotos tiradas com o trio Azeviche, de Campinas. Os músicos são: Bruno Mangueira (arranjos, violões), Marcos Souza (baixo acústico) e Roberto Peres “Magrão” (percussão). Eu sei, músicos de primeira linha para acompanhar um cantor de quinta. Que se há de fazer?

casa grande 2

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O local das gravações foi a Fazenda Mato Dentro, hoje um museu.

casa grande 1

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O vídeo está sendo editado e mixado. Ainda não temos previsão para lançamento. Mas virá, que vi, “impávido que nem Mohammad Ali”.

casa grande 4

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Ficar à janela da casa grande e imaginar as tantas pessoas que passaram por ali, andar pelos corredores, descer ao porão daquele casario, tudo me impressionou profundamente. Nunca mais cantarei “Casa Grande” do mesmo jeito

casa grande 5

gideões internacionais

Depois de ter sobrevivido por 227 dias no mar e lembrando-se de sua aventura em seu pequeno bote salva-vidas perdido no meio do Oceano Pacífico e acompanhado apenas do perigoso tigre chamado Richard Parker, o herói do livro Life of Pi lembra-se da falta que sentiu de um bom livro para ler, um livro que fosse longo e que tivesse uma história que jamais terminasse. Ele pensou na Bíblia e, para minha surpresa, começou a falar do trabalho dos Gideões Internacionais:

A primeira vez que encontrei uma Bíblia na mesa de cabeceira de um quarto de hotel no Canadá, rompi em lágrimas. Mandei uma oferta de contribuição para os Gideões no dia seguinte, com uma nota suplicando que eles aumentem ainda mais sua atuação em todos os lugares onde viajantes cansados e quebrados possam repousar suas cabeças, não apenas quartos de hotel, e sugeri que eles distribuissem não apenas Bíblias, mas outros textos sagrados também. Não consigo pensar em um jeito melhor de espalhar a fé. Nada de raios e trovões vindos de um púlpito, nada de condenações vindas de igrejas ruins, nada de pressão, apenas um livro das Escrituras calmamente esperando para dizer olá, tão gentilmente e poderosamente como o beijo de uma criança no seu rosto.

o medo

life of piTerminei de ler recentemente o livro Life of Pi, de Yann Martel. O livro conta a história de Piscine Patel, um menino indiano que sobrevive a um naufrágio num pequeno bote salva-vidas juntamente com um tigre de bengala, uma hiena e uma gorila. Qualquer semelhança com as aventuras de Robison Crusoe, Gulliver, o Ishmail de Moby Dick, O Velho e o Mar, de Hemingway, e Max e os Felinos, do Moacyr Scliar, não é mera coincidência. O livro é uma retomada do grande tema da condição humana e a confrontação dos elementos.

Em certa altura da história (cap. 56), Pi começa a meditar sobre o medo. Ele diz:

Devo dizer alguma coisa sobre o medo: Ele é o verdadeiro oponente da vida. Somente o medo pode derrotar a vida. Sei muito bem que ele é um adversário sagaz e traiçoeiro. Ele não tem decência, não respeita lei nenhuma nem acordo, não mostra misericórdia alguma. Ele busca seu ponto mais fraco, que geralmente encontra com facilidade certeira. Ele começa em sua mente, sempre. Num momento você está se sentindo calmo, controlado, feliz. Então o medo, disfarçado nas vestes da fina dúvida, desliza para dentro da sua mente como um espião. A dúvida se encontra com a descrença e a descrença tenta expulsá-la. Mas a descrença é um soldado muito mal preparado. A dúvida acaba com ela sem muito esforço. Você fica ansioso. A razão vem lutar por você. Você se sente fortalecido de novo. A razão está totalmente equipada com as mais recentes armas da tecnologia. Mas, para sua surpreza, a despeito das táticas superiores e de algumas inegáveis vitórias, a razão é derrotada. Você se sente enfraquecido e cambaleante. Sua ansiedade se torna pavor.

O medo, então, toma conta de todo o seu corpo, que já percebe que alguma coisa terrivelmente errada está acontecendo. Seus pulmões já voaram para longe como um pássaro e suas entranhas deslizam como uma serpente. Agora sua língua cai morta como um gambá, enquanto sua mandíbula começa a galopar dentro de você. Seus ouvidos ficam surdos. Seus músculos começam a tremer como se tivessem malária e seus joelhos chacoalham como se estivessem dançando. Seu coração bate forte demais, enquanto seu esfíncter relaxa. E assim acontece com o resto do seu corpo. Cada parte de você, da maneira mais apropriada, se parte. Somente os seus olhos funcionam bem. Eles sempre prestam a devida atenção ao medo.

Rapidamente você toma decisões precipitadas. Você dispensa seus últimos aliados: a esperança e a confiança. Nesse momento, você derrotou a si mesmo. O medo, que é apenas uma impressão, triunfou sobre você.

O assunto é difícil de colocar em palavras. Pois o medo, medo de verdade, daqueles que o fazem tremer até aos fundamentos, como o que você sente quando está face a face com seu fim mortal, aninha-se em sua memória como uma gangrena: ele quer apodrecer tudo, até mesmo as palavras com as quais você fala. Por isso você tem de lutar muito para se expressar. Você tem de lutar muito para fazer brilhar a luz das palavras sobre ele. Porque se você não consegue isso, se o seu medo se torna uma escuridão sem palavras que você evita, talvez até esqueça, você se abre para futuros ataques do medo, pois você não lutou de verdade contra o oponente que derrotou você (Yann Martel, Life of Pi, p. 178).