Arquivo de março 2008

quintana e os ateus

Lendo o livro Baú de Espantos, de Mário Quintana, topei com este poeminha:”Espantos”

Neste mundo de tantos espantos,
cheio das mágicas de Deus,
O que existe de mais sobrenatural
São os ateus…

quintana1

ressuscita-me

Ultimamente, tenho pensado muito na letra de uma antiga canção intitulada “O amor”. A letra foi escrita pelo famoso poeta russo do século XX, Wladimir Maiakovski, e a música foi composta por Caetano Veloso. A letra fala da chegada do amor como um momento de milagre e renovação da vida. Maiakovski foi um homem que viveu grandes e intensos conflitos em sua vida pessoal, amando uma mulher que jamais seria de fato sua, sonhando com uma sociedade em que a justiça e a igualdade fossem plenamente alcançadas, tentando fazer de sua arte um ato político. Desesperado, suicidou-se em 1930, com apenas 37 anos de idade.

De qualquer maneira, o grito de Maiakovski, que ecoa em Caetano, configura-se como um autêntico anseio por vida e ressurreição. É um desejo profundo de amor e reciprocidade que acabam presos na garganta do poeta. Nossos poetas clamam por vida, clamam por ressurreição, clamam por uma Páscoa que, no caso deles, parece ainda distante e inalcançável.

Talvez, quem sabe, um dia
Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa
eles a ressuscitarão
O século 30 vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo que não podemos amar na vida
Com o estrelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me
Ainda que mais não seja
Porque sou poeta e ansiava o futuro
Ressuscita-me
Lutando contra as misérias do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me
Quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida
Para que não mais exista amores servis
Ressuscita-me
Para que ninguém mais tenha
De sacrificar-se por uma casa ou um buraco
Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja, pelo menos, o universo
E a mãe
Seja, no mínimo, a terra
A terra, a terra

Eis a interpretação que Renato Braz desta canção:

homens no mar

Esta é uma das mais belas canções do poeta Glauber Plaça. Está no seu disco Homens no mar, trabalho muito bem produzido e que pode ser adquirido pelo site: http://www.buenaonda.com.br/html/trabalhos5.html. São 12 canções que falam de terras, mares e desertos, são salmos e orações, declarações de amor e gratidão a Deus pela vida, pela paz, pelo perdão.

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O Glauber deu uma bela entrevista ao programa Buena Onda. Confira no site: http://www.buenaonda.com.br/html/primeira_temporada.html

Segue a letra de “Homens no mar”:

sobe o clarão da lua
por trás do horizonte
coberto de estrelas
descem os homens descalços
que vão para os barcos na beira do mar

águas do cotidiano encobrem a esperança
os sonhos e os medos
mãos calejadas marcadas
por redes da vida no eterno pescar

vem madrugada sopra o vento
redes vazias peixes não há
faz alguns dias esquecimento
de uma promessa que o Mestre iria voltar

um novo dia já vem clareando
o Mestre na praia está a chamar
pede pra continuarem pescando
e novamente a rede lançar
e peixes irão encontrar

puxam a rede cheia
puxam a rede cheia e voltam para areia
puxam a rede cheia e voltam para areia pra comemorar
puxam a rede cheia e voltam para areia com o Mestre cear

Esta canção me faz lembrar a arte do grande pintor catarinense Telomar Florêncio (de Blumenau), que sabe como ninguém representar pescadores, barcos, peixes e mares.

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um tecelão e um tear

Eis aqui mais uma canção de Roberto Diamanso. Poesia pura.

Nós temos as linhas musicais
Eu tenho as cordas das minhas
Voz e viola

Se não encanto enquanto canto
E o que toco não te toca
A porção que me toca
É calar

Mas quando todas as linhas
Se engancham nos teus pontos
A ponto de te emocionar
Começa a se “delinearte”
De ambas as partes

Ficamos ao Deus dará
E Deus nos deu
Nos deu lã para a canção
Fez-nos de um só coração
Um tecelão e um tear

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conta comigo

Aqui vai uma velha canção. Ela foi gravada num CD comemorativo pela formatura da primeira turma de História da Unesc. O CD é uma raridade; quem tem, tem. Tem uma foto de uma criança ianomami na capa e leva o título Músicas e poemas: verdades que vi.

Uma cidade precisa de espaço preciso
De luz verdadeira, de chão repartido,
Por onde se encontrem o amor e o saber,
Um universo de gente que pinta o futuro
Na tela, no quadro, na cara, no muro,
Na face de tudo o que busca viver.

Conta comigo no sonho e na vida!
Conta comigo na mão estendida!
Conta comigo, que a história não pode esperar pelo trem.
Conta comigo, levanta a bandeira!
Conta comigo, sacode a poeira!
Conta comigo, que o tempo é de quem quer lutar por alguém.

Uma pessoa precisa de amor partilhado,
De pontes inteiras, caminho traçado,
Por onde circulem perdão e querer,
Uma floresta encantada de frutos e flores,
De trilhas abertas e diversas cores,
De aromas e cantos que fazem viver.


dia de festa

O último final de semana foi de festa para mim. A Igreja Presbiteriana na Trindade recebeu a visita de Roberto Diamanso, América, Ariel, Glauber Plaça e Cris. Que maravilha. Muita música, muita reflexão, muito aprendizado, muita correria e muita comunhão. Na apresentação do sábado à noite, no Fé e Café, as canções do Diamanso e as do Glauber se encaixaram de modo impressionante. Não dava tempo nem de respirar, só para agradecer.

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joyful!

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Meu querido amigo Glauber está de CD novo. Trata-se do Joyful, um trabalho instrumental reunindo a sonoridade da flauta e do piano, o alento e o ritmo, o vento e as cordas. Tudo é gravado ao vivo, sem emendas, sem truques de estúdio. Tudo muito denso e verdadeiro. O CD se propõe a ser um diálogo entre piano e flauta, uma conversa, que começa com uma releitura de uma antiga canção medieval, “Greensleeves across a far horizon”, e faz citação ao tema, mas nos colocando sempre à distância, sempre a caminho em direção, quem sabe, ao horizonte. “Joyful” brinca com a nona sinfonia de Beethoven, numa interpretação meditativa em alguns momentos e intensa em outros. “Like a dove” começa com uma delicadeza deliciosa, sugerindo tom e atmosfera. Mas pouco a pouco vai alçando vôo. Se fecharmos os olhos, podemos ver o vôo da ave por sobre as praças, as torres das igrejas, por sobre os prédios da grande cidade. Há várias passagens muito variadas, como se o vôo nos levasse a diferentes lugares, diferentes paisagens. “Malacandra” tem um título misterioso que vem da obra ficcional de C.S. Lewis, é o planeta Marte. O tema se desenvolve calmamente, uma parada para olhar o espaço. “Breath” celebra o espírito da vida, a respiração que se torna som e sentimento no sopro da flauta, embora a primeira frase da música seja a do piano. A flauta entra como resposta, reagindo aos temas trazidos pelo piano. O ritmo da música se altera, passando a uma segunda fase em que a presença da flauta vai se tornando mais destacada. Outras variações transformam esta música numa peça bastante diversificada, complexa, num crescendo que desemboca num lago sonoro que leva ao final. “Words of the thunder” começa com a flauta parecendo anunciar um dia de sol, que vê o vendo chegando, carregando folhas, trazendo ritmos mais marcados pelo piano, até chegar uma mudança alegre e agitada marcada pelo som de um apito inusitado. Que surpresa! O ritmo vira um redemoinho, que leva à calmaria do final. “Faithful friend” é uma ode à amizade, tudo a ver com a proposta do disco.

Parabéns ao Glauber e ao Jack Urban por mais este presente.