Arquivo de fevereiro 2008

asas da páscoa

A Páscoa vem chegando, eis aqui um belo poema de um poeta metafísico: George Herbert. Observe como seu poema é formalmente inovador. Você consegue imaginar o que estes versos desenham?

SENHOR, que criaste o homem em riqueza e bens,
embora ele tenha perdido tudo tolamente
decaindo mais e mais
até ele se tornar
mais pobre:
Contigo
deixa-me subir
como a cotovia, em harmonia,
e cantar neste dia tuas grandes vitórias:
Então minha queda alçará meu vôo em mim.

Minha tenra idade começou em tristeza:
e com enfermedidade e dor
Tu castigas o pecado,
até eu me tornar
assim, fino.
Contigo
deixa-me andar
e sentir neste dia tua vitória,
pois, se eu fincar minhas asas em ti,
a aflição vai impulsionar meu vôo em mim.

George Herbert (1593-1633)

 

 

Agora veja como fica muito melhor na língua original:

 

LORD, who createdst man in wealth and store,
Though foolishly he lost the same,
Decaying more and more,
Till he became
Most poor :
With thee
O let me rise
As larks, harmoniously,
And sing this day thy victories:
Then shall the fall further the flight in me.

My tender age in sorrow did beginne:
And still with sicknesses and shame
Thou didst so punish sinne,
That I became
Most thinne.
With thee
Let me combine,
And feel this day thy victorie,
For, if I imp my wing on thine,
Affliction shall advance the flight in me.

George Herbert (1593-1633)

Darrell Grayson: lamento por um poeta

Meu querido amigo Glauber estudou no Seminário de Campinas. Fomos contemporâneos lá pelo início da década de 1980. Músico admirável e mente brilhante, Glauber é um grande companheiro de papos teológicos, filosóficos, e muitas canções. Alma de flautista, cultivador da boa música clássica e de jazz, continua tocando e cantando. No início da década de 1990, foi para os Estados Unidos, casou-se com Henrieta e vive lá até hoje.

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Nos States, Glauber conheceu uma figura rara, um poeta condenado à morte. Quero compartilhar aqui seus registros sobre a perda de um amigo, de um grande amigo. Para os que quiserem conhecer o blog do Glauber, o endereço é: http://wsmusic.blogspot.com.

Hoje, há mais ou menos uma hora, meu amigo Darrell Grayson foi assassinado. Às 16h do dia 26 de julho de 2007, um oficial do estado de Alabama injetou nele três tipos diferentes de veneno. Três vezes morto — morto além da conta. As circunstâncias de sua vida e morte são muitas para que eu possa descrever agora, e são facilmente disponíveis na Internet. Darrell nasceu pobre e cresceu rodeado pela violência e pelo desespero. Em 1982 foi indiciado num crime terrível, representado por um advogado incompetente, condenado à morte, e viveu na fila de execução até hoje. Usando os pouquíssimos recursos que podia conseguir, ele superou a depressão, estudou sozinho, aprendeu a escrever poesia, publicou livros e tocou muitas vidas. Ele é uma inspiração para todos nós, e eu me considero abençoado por tê-lo conhecido um pouco. Cheguei em casa hoje, vindo do trabalho, no exato momento em que tudo se acabava. Tirei meu bandolim da caixa e toquei “Amazing Grace” tão alto quanto pude, em sua homenagem.

Até logo, Darrell!

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No dia seguinte, Glauber escreveu:

Darrell foi declarado morto às 16h16 CDT (2316 GMT) na prisão de Atmore prison. Um de seus amigos testemunhou sua morte. Sua última refeição foi queijo, omelete e tomates frescos. Sua última palavra foi: “paz”.

Agora ele se foi
Senhor, ele se foi
Como uma locomotiva
rolando pelo trilho
Ele se foi
Ele se foi
e nada vai fazê-lo voltar
Ele se foi
Para onde o vento não sopra tão estranho
Talvez em alguma montanha alta
Perdeu uma volta mas o preço não era nada
Faca nas costas e mais do mesmo
O mesmo velho rato no ralo do esgoto
Na encosta da montanha
Você sabe melhor mas eu o conheço
Agora ele se foi
Agora ele se foi
Como uma locomotiva
rolando pelo trilho
Ele se foi
Ele se foi
e nada pode trazê-lo de volta
Ele se foi….
(Robert Hunter)

fina esperança

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Eis uma canção que gosto muito de cantar. A versão que segue foi gravada entre 1992-1996, tem os arranjos de Churchill Street e a voz de Ismael Leandro. Imaginar Jesus brincando de bola de meia me faz sorrir de alegria. Imaginá-lo na Praça de Maio, em Buenos Aires, me faz suspirar e pensar sobre sua presença e ausência na história de nosso continente.

Nasceu na favela do mundo
No fundo de um velho porão
No berço da nossa pobreza
Nas sombras da nossa opressão.
Brincou pelas praças de maio
Caiu e rolou pelo chão,
Correu pelas bolas de meia
Ouvindo e fazendo canção.
E cresceu entre aquelas crianças
E as andanças que fez no sertão
Para ser a mais fina esperança
De uma paz com justiça e mais pão.

Contou casos desconhecidos
E outros que a vida ensinou
Ao povo mostrou o caminho
E pelo caminho andou.
O pão, ele deu aos famintos
E fome com eles sentiu,
A dor, o desejo de vida
E afeto nos dias de frio.
E plantou as sementes de um reino
Onde crescem os frutos do amor
A cor não separa os amigos
E a ternura é bem mais que um favor.

Tocou bem na alma do povo
Nas suas feridas também
Aos mortos fez nascer de novo
Chorou pela perda de alguém.
Deu voz aos que nunca falaram
Calou os que só tinham voz
Aos surdos deu som e sentido
E mão aos que andavam sós
E plantou-se no meio da terra
E regou-se de sangue e suor
Mas brotou feito vida de novo
Na virada de um mundo melhor.

somos um

Somos um, esse é o título do mais recente trabalho de Jorge Camargo. Um livro para ouvir; um CD para ler. São oito canções inspiradas no pensamento e na vida de oito figuras raras do cristianismo: Irineu de Lião, Agostinho, pseudo Dionísio Areopagita, Anselmo, Francisco de Assis, Tereza de Ávila, João da Cruz e Thomas Merton. Uma obra de grande sensibilidade, Somos um agrega arte, poesia, simplicidade e candura.

somos um

Eis uma das canções: “Mistério”

Quem tem todos os nomes
E ao mesmo tempo nome algum
Que em tudo põe limites
E cujo limite é nenhum
Quem vai além da oposição
Entre o que tem e não tem fim
Que sai em direção a tudo
E permanece em seu jardim

Acima de todo o saber
De todo o crer, toda razão
Além de toda a compreensão
De todo esforço sério
De toda a investigação
Eis que habita em nós,
Eis que habita em nós
Mistério

Tentar saber seu nome
É navegar na imensidão
Do mar que está dentro de si
É mergulhar no coração
E ao mesmo tempo se deixar
Sair além do próprio eu
Render-se por inteiro àquele
Que a alma insiste em chamar “Deus”

Acima de todo o saber
De todo o crer, toda razão
Além de toda a compreensão
De todo esforço sério
De toda a investigação
Eis que habita em nós,
Eis que habita em nós
Mistério

(Jorge Camargo)

Confira no site: www.jorgecamargo.com.br

a poda

No banquete final dos demônios, Murcegão pede a palavra, dá conselhos aos aprendizes todos e propõe um brinde. Em certa altura de seu discurso ele conta uma história:

Creio que você se lembram do que aconteceu quando um certo ditador dentre os gregos (naquele tempo ostentavam o nome de tiranos) enviou um embaixador a outro ditador vizinho para pedir-lhe lições a propósito de princípios de governo. O segundo ditador conduziu, então, o referido embaixador a um campo de cereais e pôs-se ali a decepar, com seu canivete, as pontas de todas as plantas que se salientassem sobre o nível das demais. A lição era demasiado objetiva. Queria ela dizer: não permita que nenhum de seus súditos se saliente. Não deixe ninguém viver que se mostre sábio, melhor, mais famoso ou mesmo mais insinuante do que a mediocridade geral. Nivele a todos os súditos de modo que fiquem perfeitamente iguais; todos escravos, todos nada mais do que meras cifras, todos verdadeiros ‘ninguéns’. Todos iguais.

(C.S. Lewis, Cartas do Inferno, p. 216-7)

a novidade

menino e pipa

Seguem os conselhos do tio Murcegão ao seu aprendiz de demônio:

O horror para com a mesma velha coisa é uma das obsessões mais vantajosas que temos suscitado no coração humano — sendo uma fonte inexaurível de heresias em religião, de insensatez nos parlamentos, de infidelidade na vida conjugal e de inconstância nas amizades. Os seres humanos existem no tempo e experimentam a realidade de modo sucessivo. Para experimentá-la de maneira abundante, eles têm de buscar muitas coisas diferentes; em outras palavras, têm de estar à cata de mudanças. E, uma vez que assim necessitam de mudança, o Inimigo (sendo hedonista como é), tornou-lhes prazeirosa essa experiência, embora não admita que tomem a mudança como fim em si mesma, como acontece, aliás, com o comer, por isso procurou equilibrar-lhes o gosto pela mudança com o reconhecimento do valor da permanência. O Inimigo tem envidado em satisfazer a ambos esses gostos no mundo que mediante a união da mudança com a permanência que designamos de ritmo. Ele lhes proporciona as estações, cada estação sendo diferente, não obstante, recorrendo todos os anos, de modo que a primavera pareça sempre uma novidade, embora não passe da repetição de um fato imemorial. Ele lhes outorga, através da Igreja, um ano espiritual; passam de um período de jejuns a um período de festas, mas é a mesma festa que antes existira.

Ora, exatamente como tomamos os prazeres relacionados com o comer e, pelo excesso, produzimos o vício da gulodice, também tomamos essa tendência natural para a adoção de mudanças e deturpâmo-la de modo que se degenera em exigência por novidades absolutas. Tal exigência é coisa de criação exclusivamente nossa. Se negligenciarmos os deveres, os homens terminarção não somente felizes, mas até mesmo extasiados, em face da novidade e familiaridade, ao mesmo tempo, da queda da neve na estação fria, do nascer e do pôr do sol pela manhã e à tarde de cada dia, e dos doces que constituem variedades de todo Natal. As crianças, até que as tornemos melhores para nós, sentir-se-ão perfeitamente felizes com uma recorrência de tipos de jogos e brincadeiras em que vemos os papagaios de papel a sucederem a outras distrações, consoante se trate da primavera, do verão, do outono ou do inverno. Devido tão somente a nossos esforços incessantes é que conseguimos fazer prevalecer a exigência no sentido da mudança indefinida e destituída de ritmo. Essa exigência nos é muito prestimosa por várias maneiras. Em primeiro lugar, ela diminui o prazer na mesma medida em que intensifica o desejo. O prazer da novidade, por sua própria natureza, fica mais exposto do que qualquer outro à lei da menor recompensa. E, a continuidade da novidade implica em dispêndio de recursos, de modo que o desejo correspondente concita à avareza e resulta em infelicidade, ou as duas coisas simultaneamente. E, ainda mais, quanto mais voraz se revelar esse desejo tanto mais cedo devorará todas as fontes inocentes de prazer, levando as vítimas a demandarem outros prazeres de entre os proibidos pelo Inimigo. Assim sendo, inflamando o horror para com a mesma velha coisa temos consgeuido fazer com que as artes, por exemplo, se venham tornando recentemente menos perigosas para nós do que foram em tempos idos, de modo que, tanto os artistas mais sérios como os menos sérios se vêem empolgados pela imposição de cada vez mais novos excessos nos domínios da lascívia, da insensatez, da crueldade e do orgulho. Finalmente, o desejo por novidades é indispensável, se é que temos de dar origem às modas e aos costumes em voga.

(C.S. Lewis, Cartas do Coisa Ruim, p. 156-9).

flor do cerrado

flor do cerrado

Eu vi nascer a flor do cerrado. Trata-se do mais belo trabalho já feito pelo músico cristão Carlinhos Veiga. O disco traz uma bela e ousada mescla de música cristã brasileira e música popular brasileira. “Rara flor”, de Carlinhos Veiga, é a mais singela e forte declaração de amor que alguém pode cantar. A “Canção para o Miguel” é de uma delicadeza, de uma ternura que só se encontra entre as flores mais raras do cerrado. Não há como ouvir “Poeira”, de Serafim Colombo Gomes e Luís Bonan, sem sentir o coração bater mais forte. Não há como não rir de alegria e surpresa ao ouvir esta versão de “Pagode em Brasília”, de Lourival dos Santos e Teddy Vieira.

Site do Carlinhos: http://www.carlinhosveiga.com.br/home.php

Blog do Carlinhos: http://carlinhosveiga.blogspot.com/