Arquivo de janeiro 2008

pastores e modelos

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Eugene Peterson em entrevista à editora Eerdmans publicada em fevereiro de 2005:

Quando me tornei pastor, eu não sabia o que é ser pastor. Eu percebi que era uma vida muito complicada em que eu tinha de lidar não somente com o Pai, Filho e Espírito Santo, mas com almas preciosas da congregação. Mas quando olhei ao redor, parecia que muitos pastores do meu país tinham adotado a linguagem do mercado e dos empresários (despersonalizando as “almas” e transformando-as em consumidores ou clientes) e tornado os sociólogos e psicólogos seus mestres (desprezando o auxílio dos teólogos e dos artistas). Eles adaptaram a vocação pastoral para servir ao critério de sucesso tal qual é definido pela cultura norte-americana. Eu quis recuperar, para mim mesmo, as condições bíblicas e teológicas em que eu pudesse ser um pastor com integridade — e sendo um escritor, escrever era uma forma de descobrir e articular o que eu estava procurando. Escrevi meus livros antes de tudo para mim mesmo, tentando entender e viver em minha congregação o que notei que os pastores que me precederam haviam feito por 2.000 anos. Nesse processo, desenvolvi um senso de urgência e responsabilidade no sentido de resgatar o entendimento do que é vocação pastoral para meus irmãos e irmãs que pastoreiam.

morcegos e burocratas

coisa ruim

Estou lendo Cartas do Coisa Ruim, de C.S. Lewis. No prefácio escrito em 1960 ele fala sobre diabo e inferno. Em certa altura ele diz:

Prefiro os morcegos aos burocratas. Vivo nesta época de administradores. Os maiores males já não são verificados naqueles sórdidos ‘antros de crimes’ que Dickens tanto gostava de descrever. Já não são verificados nem mesmo nos campos de concentração. Em tais campos, apenas temos a visão dos resultados decorrentes dos males que se praticam. A verdade, porém, é que os maiores males são concebidos e engendrados (acionados, secundados, efetuados e articulados em todas as suas minúcias) em escritórios bem limpos, atapetados, aquecidos e devidamente iluminados, através de homens de colarinho engomado, que têm unhas tratadas; estão sempre bem barbeados e nem mesmo precisam falar em voz alta. Disto resulta que, como é natural, os símbolos que adoto para falar sobre o inferno são oriundos da burocracia de um estado em que a polícia domina ou do ambiente característico dos escritórios de certos estabelecimentos comerciais horrivelmente imundos (C.S. Lewis, Cartas do Coisa Ruim, 10-11).

entrevista para a Cristianismo Criativo

Meus queridos amigos: segue uma entrevista concedida à revista virtual Cristianismo Criativo. Visitem o site: http://www.cristianismocriativo.com.br.

10 de January de 2008

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“Minha voz é apenas uma pequenina e desconcertada interferência neste grande debate sobre a realidade e a vida”. Esta fala, do professor, poeta e músico Gladir Cabral, inspira a poesia correndo em suas veias. Tendo a docência como ofício – já que Gladir é professor universitário na área de Literatura, o poeta-músico diz que tem a fé como seu “norte”, sua fonte de “inspiração”, e as festas bíblicas como pinceladas capazes de refletir a plenitude da vida. Leia, a seguir, a entrevista que ele concedeu ao Portal Cristianismo Criativo.

Cristianismo Criativo – Gostaria que vc falasse um pouco sobre você e seu trabalho… neste mundo pós-moderno, marcado por contrastes, rupturas, falta de tempo… o que inspira um poeta-músico?

Gladir Cabral – Meu trabalho é muito simples: propõe-se apenas a ouvir e responder a alguns poemas, canções e vozes no mundo conturbado em que vivemos. É claro, a voz primeira a ser ouvida e respondida é a própria Palavra de Deus, que traz respostas e perguntas inevitáveis nos dias de hoje. Mas há também as vozes dos poetas brasileiros, chilenos, argentinos, uruguaios. Violeta Parra cantou e Thiago de Mello respondeu: “Gracias a la vida”. Drummond perguntou: “E agora, José…” Chico Buarque, Gilberto Gil, Elomar cantam sobre o ser brasileiro. Vozes que chegam de todo canto do Brasil. Minha voz é apenas uma pequenina e desconcertada interferência neste grande debate sobre a realidade e a vida.

CC – Quando li a letra da sua canção “Dança de roda”, do CD Água no Deserto, percebi que você fala da ‘festa’ como quem fala das coisas simples da vida, que trazem alegria… me parece um paralelo bíblico sobre a plenitude da vida, como quem fala de Deus de uma forma não-religiosa…

GC – Sim, a metáfora da festa é muito valiosa nas Escrituras. O Velho Testamento é cheio de festas de caráter religioso, apontando para a redenção do povo, celebração da vida, salvação: festa das colheitas, festa páscoa, festa dos tabernáculos. O Novo Testamento traz Jesus começando seu ministério em Caná da Galiléia, numa festa de casamento. Gosto disso, de saber que nosso Deus é de alegria, de vida plena.

CC – Como um professor, com tantos compromissos acadêmicos, encontra tempo para dedicar-se à música e à poesia?

GC – A música é um canal de expressão e criação muito importante para mim. A poesia também, embora a poesia é também parte de meu ofício, já que sou professor de teoria literária e literatura. Música e poesia: canção — eis o veículo mais versátil que encontrei para exprimir as coisas que penso, sinto e desejo.

CC – Para você, quais são os poetas-músicos da contemporaneidade, pertencentes à Igreja (de forma geral) ou não?

GC – Já citei alguns poetas no início, mas há que acrescentar Quintana, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Adélia Prado. Entre os mais jovens intérpretes e compositores, lembro-me de Lenine, Jorge Drexler, Monica Salmaso. Entre os cristãos há muitos queridos amigos de caminhada e sonho: Stênio Marcius, Carlinhos Veiga, Tiago Vianna, João Alexandre, Josué, Jorge Camargo, Gerson Borges, Roberto Diamanso… Não há como lembrar de todos.

CC – Qual a música/poesia que você gostaria de dedicar aos nossos leitores?

GC – Há uma canção recente que quero compartilhar. Chama-se “Terra em Transe”, uma referência ao filme de Glauber e um questionamento quanto à nossa relação com a natureza. A canção ainda não foi gravada.

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Se era pra matar,
Por que deram os nomes aos bichos?
Se era pra cortar,
Por que tanto estudaram as plantas?

Se era pra revirar a terra
E cimentar o campo
Empacotar o vento
Plastificar o encanto

Se era pra morrer
De cansaço na beira do asfalto,
Se era pra esquecer
A beleza da água no salto,

Se era pra derramar o vinho
E semear o pranto
Emudecer o pinho
E sufocar o canto

Se era pra perder
Por que foram buscar a esperança?
Se era pra correr
Por que foi que chamaram pra dança?

Se era pra desejar o muito
E usufruir o pouco,
Acalentar o intento
E acabar tão inerte e louco

Se era pra não ser
E evitar a questão do poeta
Se era só pra ter
E virar um produto em oferta

Se era pra ver a Terra em transe
A calçada cobrindo o mangue
A mata vazando sangue
E a cobiça fazendo a festa

Não é para responder
É apenas para se repensar
E quem sabe recomeçar
Replantar / Refazer

CC – Como a fé influencia sua arte?

GC – A fé é o norte, a fonte de inspiração de minhas canções. Só se faz canção quando se tem esperança, seja pelo menos de ressonância. E a nossa fé cristã é fundamentada na esperança, como nos ensinam as Escrituras. Essa esperança aparece em cada canção, às vezes é apenas uma referência discreta, como em “Terra em Transe”, às vezes é declaração explícita, como em “Fina Esperança”, uma velha canção gravada em 1996.

CC – Na sua opinião, qual o papel da arte na Igreja?

GC – No contexto da Igreja, a arte preenche várias funções, tanto na adoração, no louvor, quanto na edificação, na vida devocional, na atuação da Igreja, na evangelização, na vocação profética da comunidade cristã, na denuncia do mal, do erro, na proclamação de uma palavra de Deus para os tempos atuais, no exercício do lamento, que também tem seu lugar em nossa vida cristã.

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CC – O jornalista Steve Turner, autor do livro “Cristianismo Criativo?” (W4 Editora), afirma que “muitos se envolvem no exercício da arte porque desejam melhorar a qualidade de vida das pessoas”. Você concorda com esta afirmação? poderia comentá-la?

GC – Sem dúvida, evangelho é vida em abundância, vida plena, e isso tem tudo a ver com qualidade de vida. Todos os que compreendem o evangelho como uma mensagem de redenção que envolve todas as áreas da vida humana sabem que precisamos desenvolver temas não apenas diretamente religiosos, mas sociais, históricos, políticos, humanos, enfim.

CC – Você acredita que a arte seja uma forma de alcançar as pessoas para o Evangelho?

GC – Também, mas não só. Arte não é só evangelização. É também celebração, edificação, aprendizado, profecia, criticidade, lamento, compartilhamento, declaração de amor e de fé.

CC – Como podemos influenciar a Igreja, saindo do lugar-comum?

GC – Ouvindo mais o que o povo fala, ouvindo os poetas do povo, ouvindo as canções, as danças do povo, e respondendo adequadamente, com paciência, humildade, carinho e respeito.

CC – Bem, agradeço muitíssimo pela entrevista. Obrigada por participar do Portal Cristianismo Criativo.

GC – Eu é que agradeço pela oportunidade de participar.

antes que eu me esqueça

Apresento aqui uma versão alternativa da canção “Antes que eu me esqueça”, que está no CD Luz para o Caminho. Uma celebração do amor e da vida.

familia

Verdade seja dita,
Já não vivo mais sem teu amor
E a minha alma aflita.
Procura o teu lume, a tua cor.
À sombra do teu corpo
Cresceram as flores do jardim,
A força do teu sopro
Anima o alento que há em mim.
 
Bendita é a senhora
Das horas que passo por aqui,
Benditas as palavras
Tão doces que só ouvi de ti.
Justiça seja feita,
 
Palavra perfeita não me cabe,
Pois tudo o que se diga
É parcela de um todo, é só metade.
O quadro na parede
É espelho, é janela bem discreta,
O risco do tapete,
O bordado, a cortina entreaberta.
 
Juntando nossas vidas,
Criamos um ninho alegre e vivo.
Não falta o alimento
E Deus acrescenta o que é preciso.
O tempo vai passando
E o mundo celebra um novo ano,
Mas antes que eu me esqueça
Só deixa dizer-te que te amo.


bela valsa

tiago e gladir

Mais um fruto de uma parceria que promete. É uma canção de amor e um convite à dança. Tá certo, eu não sei dançar, pelo menos não na prática, mas a teoria eu sei muito bem. E daí, eu também nunca naveguei pelos sete mares. Mas calma, isso é poesia!

Veja a dança leve dos planetas

Em derredor de um sol dourado

Que não se cansa de rodopiar

Os ponteiros vivos do relógio

Indicando o compasso de um novo tempo

E o nosso passo em relação ao vento

Brilho de farol cruzando os sete mares

Aviso a todo navegante

No instante desta preamar

Vem comigo navegar em plena maré alta

É hora de bailar ao som da bela valsa

(Tiago Vianna & Gladir Cabral)