Amar
(Carlos Drummond de Andrade)

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

  1. Poema investigativo esse… nos remota à razão do amor!!!

    Que nossos corações sejam sempre alvos do amar.

    Um grande abraço querido “verso de um poema”

    Deus te abençoe!

  2. Olá, professor Gladir!
    Adorei teu site, muito material interessante!
    Parabéns!!
    Este poema é belíssimo e para quem tenha interesse é muito fácil de encontrar no youtube na interpretação espetacular do imortal Paulo Autran.
    Abraços Gladir
    Sucesso!!

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