Arquivo de dezembro 2006

luta interior


O menino Sundar Singh estava em grande conflito espiritual depois da morte de sua mãe. Os livros sagrados já não lhe traziam alento, ao mesmo tempo apareceram missionários cristãos, que lhe confundiam a cabeça com um conceito novo de Deus, uma outra visão de mundo. A primeira reação do menino era a rejeição completa dessa nova alternativa de fé, reação até violenta.

“Essa não é a verdade de minha mãe, de nossos ancestrais, de nossa cultura. Essa é uma verdade estrangeira, que nos foi trazida do exterior por pessoas que não entendem nosso jeito de ser. Mas então porque meu pai me faz freqüentar uma escola cristã? Prefiro uma escola pública em Sanewal. Estou disposto a caminhar 16 quilômetros através do deserto. Eu sou um Sikh. Vou mostrar a eles. Vou mostrar ao meu pai o que é que penso desses colonizadores e seu estilo de vida ocidental, sua fé estrangeira…”

Sundar Singh chegou a jogar pedras em seus professores, atrapalhar as aulas, ridicularizar os missionários e rasgar e lançar no fogo as Escrituras Sagradas dos cristãos, coisa que nunca foi feita naquele vilarejo. Desesperado, o pai de Sundar Singh vai até ele, para exortá-lo:

“Você está louco? Por que fazer isso? É esse o respeito pelas coisas sagradas que você aprendeu de sua mãe? É assim que você agradece aos que lhe dão o ensino? Não cometa tal blasfêmia em minha presença. Como seu pai e chefe da casa, eu lhe ordeno a parar com essa insanidade. Chega de livros queimados!” (Sundar Singh, The Wisdom of the Sadhu, p. 17-8).

sede


Em sua busca, o menino veio ao sadhu que vivia na floresta:

Sadhu-ji, você diz que minha fome e minha sede são ilusão, armadilhas de maya. Somente Brahma é a verdade. Brahma é a fonte divina de todas as coisas, você diz; Brahma é Deus. Você diz que eu verei que sou uma parte de Brahma, e que assim que isso acontecer, minhas necessidades cessarão de preocupar-me. Perdoe-me, Sadhu-ji, e não fiques irritado comigo, mas como isso pode acontecer? Se eu sou Brahma ou parte dele, como posso ser enganado por maya? Como pode a ilusão ter poder sobre mim? Pois se a ilusão tem poder sobre a verdade, então a verdade é em si mesma ilusão. É a ilusão então mais forte que a verdade?

Sadhu-ji, você diz que eu tenho que esperar. Você diz que ganharei conhecimento das coisas espirituais quando crescer. Minha sede será saciada. Mas será que isso vai acontecer? Não é a comida a resposta para a fome? Não é a água a resposta para a sede? Se um garoto faminto pede pão, pode seu pai responder: ‘Vá brincar! Quando você ficar mais velho, entenderá a fome e então não precisará mais de pão?’ Se você, Sadhu-ji, encontrou o entendimento que procuro, se você encontrou certeza e paz, por favor me diz como posso encontrá-los. Se não, então me diz, e eu continuarei minha busca. Não posso descansar até encontrar paz” (Wisdom of the Sadhu, p. 15-6).

santi

Quando menino, Sundar Singh ficava horas e horas aos pés de seu mestre guru aprendendo os conceitos fundamentais da sua religião, como maya (ilusão) ou jnana (fome de certeza e conhecimento). Sacerdotes Sikhs haviam ensinado muitas coisas a ele, mas o menino ainda não estava satisfeito.

Sundar Singh podia recitar o Guru Granth Sahib inteiro, que era o livro sagrado dos Sikhs, mas não havia como matar a sua sede. Sabia recitar de cor os Upanishads, os Darsanas, o Bhagavad Gita e os Shastaras dos hindus; até mesmo o Alcorão e o Hadis da religião islâmica. Sua mãe era temente a Deus e reconhecia que seu filho era um peregrino, um sadhu.

Seu pai é que ficava preocupado. Ele perguntou a Sundar certa vez: “Por que você se atormenta com questões religiosas?”. O garoto respondeu: “Eu preciso de santi. Eu preciso de paz”.

na caverna


Um dia, nos Himalaias, Sadhu Sundar Singh ficou sabendo de um lama budista que vivia numa caverna nas montanhas. Ele havia fechado a entrada da caverna com um muro, deixando apenas uma pequena abertura para a passagem do ar. Vivia apenas de chá e cevada tostada. Como já vivia há muitos anos na completa escuridão, ficou cego. Queria ficar ali para o resto da sua vida. Sundar Singh foi visitá-lo e encontrou-o orando e meditando; ficou esperando do lado de fora da caverna, até o lama terminar suas orações. Então perguntou se podia conversar com ele um pouco através do buraco na parede. Primeiro, Sundar Singh perguntou: “O que você tem ganho ao viver uma vida de isolamento e meditação? Buddha não havia ensinado nada sobre um Deus a quem se pudesse orar. A quem ele orava, então?”

Ele respondeu: “Eu oro a Buddha, mas não espero ganhar nada com minha oração nem com minha vida de isolamento. É justamente o oposto, eu procuro libertar-me de todo desejo de ganho. Eu busco o nirvana, a eliminação de todos os sentimentos e todos os desejos – seja de dor ou de paz. Mas ainda vivo em trevas espirituais. Não sei qual será o meu fim, mas estou certo que seja qual for que me falte neste vida, alcançarei na outra”.

Sundar Singh então respondeu: “Certamente seus desejos e sentimentos brotam do Deus que o criou. Eles certamente foram criados a fim de serem satisfeitos, não reprimidos. A destruição de todos os desejos não pode levar ao alívio, mas somente ao suicídio. Nossos desejos não são inseparavelmente ligados à continuação da vida? Até mesmo a idéia da eliminação dos desejos é infrutífera. O desejo de eliminar todo desejo já é em si um desejo. Como podemos encontrar alívio e paz pela simples substituição de um desejo por outro? Certamente, não se acha paz pela eliminação do desejo, mas pelo encontro da sua realização e satisfação nAquele que o criou.

O lama terminou a conversa dizendo: “Veremos o que veremos”.

posso brincar com Jesus?

Leia: Isaías 9:1-7

“O menino crescia e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele”.
Lucas 2:40

No dia seguinte, enquanto José e Maria reformavam e limpavam sua casinha, Jesus brincava sobre uma esteira colocada à sombra de uma oliveira florida. Ainda era cedo quando o pequeno Perez apareceu junto ao portão:

– Tio José, posso brincar com Jesus?

– Claro, meu filho, pode entrar. Mas cuidado, ele ainda é pequeno. Não deixa ele colocar esses toquinhos de madeira na boca.

E assim Perez passava horas e horas na companhia de seus tios, brincando com o curioso e esperto menino chamado Jesus.

Como toda criança, Jesus dava boas gargalhadas com as caretas do primo. E acompanhava com olhar atento e sério a cavalgada veloz de um toquinho de madeira que acabara de virar um cavalo alazão. Mais adiante, as areias do quintal viravam montanhas onde pastavam ovelhas, que antes eram pedrinhas espalhadas pelo chão. Jesus acompanha o movimento de uma certa ovelhinha teimosa que acaba se perdendo do rebanho. Então, Perez mostra a Jesus o pastorzinho (que antes era apenas um graveto de oliveira) ir em busca da ovelhinha perdida. Mais adiante, Perez mostra a Jesus duas cascas de nozes, que agora são dois barquinhos navegando pelo mar, pelo mar da Galiléia, logo ao lado da esteira onde Jesus está sentado, e acaba de fazer xixi.

– Tia Maria!

ORAÇÃO

Como seria bom que toda criança pudesse brincar contigo, Jesus. Mas podemos deixar nossos filhos brincarem aos teus pés e serem abençoados por tua alegria.

voto de silêncio

“No dia seguinte, fui ver um sadhu que havia feito voto de silêncio. Ele era um autêntico buscador da verdade. Não falava há seis anos. Fui a ele e fiz algumas perguntas: ‘Deus não nos deu língua para que pudéssemos falar? Por que não usar a sua para louvar e adorar o Criador em vez de ficar em silêncio?’

Sem qualquer sinal de orgulho ou arrogância, ele respondeu-me escrevendo numa losa: ‘Você está certo, mas minha natureza é tão maligna que eu não tenho esperança de que nada de bom saia de minha boca. Tenho permanecido em silêncio por seis anos, mas minha natureza permanece má, então é melhor ficar em silêncio até receber alguma bênção ou uma menssagem que possa ajudar outras pessoas’” (Sadhu Sundar Singh, The Wisdom of the Sadhu, p. 11).

cinco fogueiras


“Mais tarde, encontrei outro sadhu. No calor do verão, ele ficava sentado entre as cinco fogueiras – isto é, quatro ao redor dele e o sol queimando em sua cabeça. No inverno ele ficava horas em pé dentro da água gelada. Mas a expressão do seu rosto era marcada pela tristeza e pelo desespero. Fiquei sabendo que aquele homem vinha fazendo esse exercício há cinco anos. Aproximei-me dele e perguntei: ‘O que você ganhou com essa disciplina? O que aprendeu?’ Ele respondeu com tristeza: ‘Não espero ganhar nada nem aprender nada nesta vida, e sobre o futuro nada posso dizer’” (Sadhu Sundar Singh, The Wisdom of the Sadhu, p. 11).