Arquivo de julho 2006

Jumento

A abordagem que C.S. Lewis faz do amor romântico ou “eros”, como ele prefere chamar, é muito profunda, talvez a parte mais produnda do seu livro, e ainda assim divertida em certas partes.

Ele faz alusão a Francisco de Assis, que chamava seu próprio corpo de “Irmão Jumento”.

“O termo Jumento está muito bem empregado porque ninguem em sã consciência pode venerar ou odiar um jumento. Ele é um animal útil, resistente, malandro, obstinado, paciente, adorável e irritante; às vezes merecendo chicote, às vezes cenoura; ridículo e absurdamente belo. Assim é o nosso corpo” (C.S. Lewis The Four Loves, p. 101).

amizade ou cumplicidade

“A amizade (como diziam os antigos) pode ser uma escola de virtude; mas também (como eles não percebiam) uma escola do vício” (C.S. Lewis, Four Loves, p. 80).

Faca de dois legumes.

a pergunta é o que vale

“A pessoa que concorda conosco que uma questão, pouco valorizada pelos demais, é importante pode ser nosso Amigo. Ele não precisa concordar conosco sobre a resposta” (C.S. Lewis, Four Loves, 66).

a amizade é inclusiva

“Lamb diz em algum lugar que se, de três amigos (A, B e C), o A morrer, então o B perde não apenas o A mas um pedaço do A que está no C, enquanto o C perde não apenas o A mas a parte do A que está no B. Em cada um dos meus amigos há algo que apenas um outro amigo pode extrair plenamente. Por mim mesmo, não sou grande o bastante para invocar a inteireza de um ser humano; preciso de luzes que não a minha para revelar todas as suas facetas. Agora que Charles está morto, nunca mais verei a reação de Ronald a uma brincadeira qualquer de Caroline. Longe de ter mais do Ronald, tê-lo para mim mesmo, agora que Charles se foi, eu tenho menos do Ronald. Portanto, a verdadeira amizade é o menos ciumento dos amores. Dois amigos se alegram ao receberem um terceiro, e três ao receberem um quarto amigo, se aquele que vier for mesmo um amigo verdadeiro. Eles podem então dizer como as almas benditas em Dante: ‘Ali vem alguém que fará aumentar nosso amor'” (C.S. Lewis, Four Loves, p. 61).

é namoro ou amizade?

Não são muitos os pensadores cristãos que se debruçaram especificamente sobre o tema da amizade. Dietrich Bonhoeffer e C.S. Lewis parecem ser duas pedras preciosas para quem deseja refletir mais profundamente sobre a comunhão humana.

É muito interessante a distinção que C.S. Lewis traça entre amor romântico e amizade pura e simples: “Os amantes estão sempre falando um ao outro sobre seu amor; os amigos quase não comentam sobre a amizade. Os amantes estão geralmente face a face, absortos um no outro; os amigos, lado a lado, estão absortos em algum interesse comum. Acima de tudo, Eros (quando dura) é necessariamente entre duas pessoas apenas. Mas dois, longe de ser o número necessário para uma amizade, ainda nem é o número ideal” (Four Loves, p. 61).