Arquivo de maio 2005

sino ao longe

Gosto de apresentar velhos poemas a novos e velhos amigos.

Bate o sino ao longe
E o coração mendigo geme
Porque o som distante lhe traz a falta.
Falta do que mesmo?
Falta do não vivido,
Do jamais tocado,
Do infinito nada,
Da existência atempo,
A que nunca houve,
E até da que era uma vez
Mas findou-se.

Bate o coração ao longe
E perto do mendigo o sino,
A catedral,
O vitral misterioso,
O cheiro da eternidade,
A sombra do templo,
O sagrado.
E o que falta mesmo?
Falta nada.
Tudo se completa
No mínimo instante
Em que um sino ausente toca
Para um coração vazio.

simplicidade

“Seguir nu o Cristo nu” (São Gerômino, que traduziu a Bíblia para o latim).

things we leave behind

No saguão de embarque do aeroporto de Congonhas (SP) há uma caixa de acrílico, logo na entrada onde as bagagens de mão são vistoriadas por um aparelho de raio X. Nessa caixa estão contidos vários objetos que os passageiros não puderam levar para dentro do avião: tesouras de cabelereiro, tesouras escolares, facas, canivetes suiços, réguas de metal e objetos cortantes de vários tamanhos. Muitos desses objetos são caros, outros são completamente banais, outros ainda parecem ser caseiros, gastos pelo uso, improvisados. Tem até um ursinho de pelúcia! Deve ter sido doloroso para aquela criança deixar para trás tal objeto de afeto e desejo.

Certos momentos de nossa vida exigem que tomemos difíceis decisões. Certas coisas que cultivamos, certos hábitos, certos valores, certos desejos que trazemos no bolso devem ser deixados para trás. Para continuar a viagem, é preciso abrir mão deles. Isso é sempre necessário, às vezes doloroso, nunca fácil. Por outro lado, só assim nossas mãos e corações podem ficam mais livres de apegos e interesses menores. Na verdade, nem podemos imaginar a liberdade que encontramos ao deixar essas coisas para trás — “We can’t imagine the freedom we find from things we leave behind” (Michael Card).

eixo

No fundo do poço
há plena paz de águas puras e límpidas,
ainda que abscônditas.

No centro da roda de engenho
o movimento é mínimo
quase nulo, neutro,
pois no eixo está a força contida
que sustém os braços abertos de quem gira.

No centro da Terra,
no coração quente e escuro da Terra,
ignorando tempestades, metrópoles,
aviões e bombardeios,
ondas e navios bravios,
pulsa a vida.