O que esperar de um corrupto? De um capacho dos exploradores? De um baixinho ordinário que enriqueceu às custas dos impostos do povo? Linchamento? Tortura? Cadeia?

Zaqueu, o cobrador de impostos do Império, chefe dos publicanos em Jericó, mais uma vez não era maioria naquele dia. Não conseguiu acompanhar a multidão; teve que subir em uma figueira brava, por causa da sua baixa estatura. Por que tomar uma atitude tão constrangedora? Zaquel era movido por um forte e súbito desejo: ver quem era Jesus. Ver e conhecer. Não esperava, no entanto, que Jesus também queria vê-lo; não só vê-lo, mas conhecê-lo; não só conhecê-lo, mas estar com ele. “Desde daí, homem! Vou para sua casa”. Continue lendo →

Reproduzo aqui a crônica “Juntando os cacos” da estudante de jornalismo Agnes Sofia. Além do seu talento para a escrita, Agnes se mostrou realmente interessada em aperfeiçoar sua habilidade. Com isso, ela me encorajou a continuar escrevendo, pelo qual agradeço e espero também encorajar os leitores. Vale a pena ler a crônica abaixo.

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João Cabral de Melo Neto diz que poesia é “catar feijão”. Por muito tempo procurei por uma definição para a crônica. Sentia que ela era a “ovelha negra” da “produção textual”. E digo esse nome pomposo porque se eu dissesse literatura, só pioraria ainda mais a já vida severina dos cronistas, que já jogam no escanteio do jornalismo.

Então como defini-la?

Tentei descobrir a resposta no último sábado. Desde o final de janeiro, viajo toda semana a São Paulo, para o curso “Descobrir São Paulo, Descobrir-se Repórter”. Ao todo, são quase doze horas de viagem, já que agora moro no interior. E nesse único e precioso dia da semana, respiro os ares de uma cidade psicodélica para mim, pois me sinto perdida no deslumbramento de descobrir recortes dos recortes nas ocasiões mais tímidas, mesmo quando tudo indica que elas não estão lá.

E para quem toda semana se sente um gaiato no navio, uma turista que nada tem a ver com a cidade, descobrir esses recortes inusitados é como encontrar as chaves de casa, e sentir-se, finalmente, a par dos acontecimentos, antenada, de volta ao mundo.

Um desses recortes encontrei numa velha pessoa conhecida: o Zé. Ele estava retraído no sábado, com ares de maresia, e tenho autoridade para dizer isso porque, assim como ele, passei boa parte da minha vida na praia e sei o que é viver o eterno porre de transformar o que era rotina em feriado.

É como nascer no oásis e ter que morrer no deserto e usando a suposta generosidade que a ascendência caiçara me permitiria, eu me esqueci, por um momento, do esnobismo dos santistas, e me solidarizei com meu amigo adiado.

Mas por que adiado? A palavra surgiu adiada, emprestada das imagens que a frustração projeta no tico do meu cérebro enquanto o teco enlouquece com o tempo do deadline. Então explicarei por três “sketches” porque ele é um amigo adiado e porque ele me respondeu sobre a crônica. No primeiro, tenho doze anos e estou preocupada, pois a professora de português nos disse que Castro Alves declamava poemas em praça pública na nossa idade. Procuro por saraus, entro em grupos de poetas, quero viver a boemia literária. Mas só tenho doze anos e tudo isso é em Santos, e para ir preciso que a minha mãe vá comigo.

Contam para nós que depois do grupo de leitura tem uma palestra muito bacana, de um projeto chamado Terceiras Terças, e que os convidados são escritores “famosérrimos”. Vejo a primeira, com o consagrado Milton Hatoum, e depois que ele declama um poema em francês, não vejo mais nada além dele. Nem o Zé, responsável por entrevistar o convidado.

No mês seguinte, Zuenir Ventura, e demorei cinco anos para saber sua importância na área que escolhi. Afoita, faço minha pergunta, sobre a única crônica que eu lera de um livro que ganhara alguns meses antes, em alguma feira literária de Santos, quando consegui o autógrafo do escritor(e jornalista, ou vice-versa?).

Ventura responde, e eu aproveito para dizer que era um prazer revê-lo.

Ele faz um gracejo inocente, mas que na época eu não entendo, e todos riem, inclusive o Zé. Eu volto ao meu lugar, envergonhada e com certo frisson por ter agradado a plateia, de maioria universitária.

No mês seguinte, não vejo nem a metade da palestra com Luís Fernando Veríssimo.

Nem sombra do Zé. Mas ele estava lá.

Os anos se passam e vou rever as senhoras do grupo de leitura. Cada mês elas escolhem um autor para estudar, e me contam que, no último dezembro, o afortunado foi um escritor, roteirista santista, orgulho de Santos. E que ele foi lá conversar com elas, todo prosa, distribuindo livros e simpatia. Lamentei horrores. Mais uma tertúlia adiada com alguém que, percebi naquele instante, era meu amigo, fora testemunha da minha primeira paixão, pelos livros, e o final de Casablanca nos ensina que as testemunhas de grandes romances também podem começar grandes amizades conosco.

Mas no último sábado, eis que surge um último “sketch”, aquele que comentei em que o Zé está todo tímido. Mas é com essa timidez que ele resolve minha questão, por meio de outra, menos capciosa, é verdade: o que um santista como ele estava fazendo num encontro sobre histórias de São Paulo? Por acaso queria solidarizar comigo, uma das únicas que não possuía, até então, vínculos com a cidade?

Foi um passe de mestre a sua resposta. Timidamente ele leu duas crônicas suas, da época em que escrevia sobre futebol. Eram histórias relacionadas a times de São Paulo, como o Juventus, e num parágrafo ou outro, como na história do sorveteiro, encontrávamos grandes pautas para pensar sobre a cidade, como o sempre atual problema das desigualdades sociais.

Cacos, foi isso que vi na minha frente após ouvir as suas crônicas e suas considerações sobre a crônica e o jornalismo. Cacos da realidade, perdidos por aí e que se juntadas de qualquer jeito, são pesadas demais para nossas mãos. Para isso, existe o refino e a desenvoltura da crônica.

Ah! Nesse “sketch”, eu falei com o Zé. Apenas comentei sobre nossa mesma procedência regional, pois a garota de doze anos deu lugar a uma universitária atrapalhada e tímida, e esqueci de cobrar todas as conversas perdidas. Será que ele aceitaria essa breja adiada?

 

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Agnes Sofia Guimarães Cruz é estudante de jornalismo da Unesp. Nasceu na cidade de Praia Grande/SP, mas agora mora em Bauru, onde estuda. Passou a adolescência entre o livros, mas desistiu de fazer letras pois queria algo que a colocasse no mundo, e que a deixasse fazer poesia com o asfalto das ruas. Desde janeiro, ela vai para São Paulo todos os sábados para o 6° Módulo `Descobrir São Paulo, Descobrir-se Repórter`, do Projeto Repórter do Futuro, curso de complementação universitária promovido pela ABRAJI – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e pela OBORÉ – Projetos Especiais em Comunicação.

 

 

Escrever, às vezes, é caminhar descansadamente.
No entanto, por outras, é carregar o peso das palavras;
Ditas, empilhadas nas linhas do papel.

Escrever é construir castelos frágeis,
Belos, mas à mercê das ondas do mar.
Palavras marcadas pela fraqueza do coração.

Mas escrever é também subverter o efêmero,
É cravar na materialidade da tinta o que nunca ficaria.
Frases que desenham a história do mundo.

Escrevo porque caminho,
Porque enfrento a fragilidade,
Subverto o finito,
E canso. Ou porque, cansado, escrevo.

Escrevo um poema duro, seco.
Na esperança de tê-lo regado por quem o lê.
E leia.

 

 

O culto começara há meia hora. O pregador sobe ao púlpito e toma a palavra. Gosto de seus sermões. Estou atento para ouvi-lo. Mas meu filho Miguel, de 4 meses, que está em meu colo, começa a chorar. Tenho que sair do templo. Fico no pátio, com os ouvidos tentando não perder a fala do pregador ao fundo. Ele prega sobre como Jesus perdoou a mulher pega em adultério e como confrontou os seus acusadores hipócritas.

Meu filho, sempre observador, começa a prender o olhar no cartaz com fotos de dezenas de missionários. Nesta altura, ele já está no colo do diácono. Miguel não para de olhar para o cartaz. Ele está fascinado com tantos rostos diferentes em um só lugar.

Claro, não tenho ideia do quanto meu filho entende esta informação, mas não faz mal. Este momento já serve como metáfora para meu coração. Miguel “pregou” junto com o pregador da noite. Enquanto a Palavra me ensinava que o pecado agride a Deus, o próximo e a mim mesmo, e que a vida redimida é relacional, o pequeno Miguel me ilustra que meu olhar deve ser para as pessoas, e não para as coisas ou os rituais. Ele me ensina que meu coração contaminado está em ataque constante para que eu não viva a santidade relacional. E que esta santidade começa na aceitação do amor de Deus e desemboca na maturidade em lidar com os pecados próprios e os pecados dos outros. O perdão me faz olhar, de verdade, para a imperfeição; enfrentá-la, mas não ser refém dela.

Não anotei nada do sermão. Geralmente anoto. Mas, tanto ele quanto a metáfora que Deus me deu por meio do Miguel, ainda estão guardados em minha memória.