Escrever, às vezes, é caminhar descansadamente.
No entanto, por outras, é carregar o peso das palavras;
Ditas, empilhadas nas linhas do papel.

Escrever é construir castelos frágeis,
Belos, mas à mercê das ondas do mar.
Palavras marcadas pela fraqueza do coração.

Mas escrever é também subverter o efêmero,
É cravar na materialidade da tinta o que nunca ficaria.
Frases que desenham a história do mundo.

Escrevo porque caminho,
Porque enfrento a fragilidade,
Subverto o finito,
E canso. Ou porque, cansado, escrevo.

Escrevo um poema duro, seco.
Na esperança de tê-lo regado por quem o lê.
E leia.

 

 

O culto começara há meia hora. O pregador sobe ao púlpito e toma a palavra. Gosto de seus sermões. Estou atento para ouvi-lo. Mas meu filho Miguel, de 4 meses, que está em meu colo, começa a chorar. Tenho que sair do templo. Fico no pátio, com os ouvidos tentando não perder a fala do pregador ao fundo. Ele prega sobre como Jesus perdoou a mulher pega em adultério e como confrontou os seus acusadores hipócritas.

Meu filho, sempre observador, começa a prender o olhar no cartaz com fotos de dezenas de missionários. Nesta altura, ele já está no colo do diácono. Miguel não para de olhar para o cartaz. Ele está fascinado com tantos rostos diferentes em um só lugar.

Claro, não tenho ideia do quanto meu filho entende esta informação, mas não faz mal. Este momento já serve como metáfora para meu coração. Miguel “pregou” junto com o pregador da noite. Enquanto a Palavra me ensinava que o pecado agride a Deus, o próximo e a mim mesmo, e que a vida redimida é relacional, o pequeno Miguel me ilustra que meu olhar deve ser para as pessoas, e não para as coisas ou os rituais. Ele me ensina que meu coração contaminado está em ataque constante para que eu não viva a santidade relacional. E que esta santidade começa na aceitação do amor de Deus e desemboca na maturidade em lidar com os pecados próprios e os pecados dos outros. O perdão me faz olhar, de verdade, para a imperfeição; enfrentá-la, mas não ser refém dela.

Não anotei nada do sermão. Geralmente anoto. Mas, tanto ele quanto a metáfora que Deus me deu por meio do Miguel, ainda estão guardados em minha memória.

 

O tempo não é coisa para amadores. É preciso esperteza para fazer amizade com ele. Além disso, não é qualquer um que aproveita o melhor que esse amigo oferece.

Por muitas vezes, queremos o tempo, mas não queremos aprender o que ele ensina. O exploramos indiscriminadamente, sem dó nem piedade. O que sobra (quase sempre) é um vazio que as futilidades não foram capazes de preencher.

“Poderia ter vivido mais…”, você lembra a música; como se viver fosse fazer escolhas que só dizem “sim”. Nem sempre o “sim” significa “sim”. Todo “sim” é um “não” para outra coisa. Toda escolha pressupõe “sim” para um e “não” para outro.

E no meio desta tensão constante entre “sim” e “não” ai está o tempo, que realmente nunca para, mas que pode andar mais junto de nós se aproveitarmos sua companhia.

No final das contas, vazio não se preenche com o efêmero, mas sim com a plenitude do eterno de cada experiência. A eternidade está mais perto do que imaginamos. Aproveite enquanto há tempo.

O som do facão cortando o mato me faz parar de fazer o que me prendia a atenção. A memória atravessou o tempo mais rapidamente que qualquer coisa. De repente, veio à mente a imagem dos braços fortes de meu pai limpando o quintal de casa. Ele, que sempre passou a imagem de firmeza moral, enfrentava folhas e galhos com vontade, como se fosse um tipo de desabafo diante da frustração de um mundo inadequado.

O barulho de hoje de manhã veio do vizinho, um senhor de mais de 70 anos. Na conversa que tivemos logo em seguida, conheci um pouco da sua história. Filho temporão, de jovem mãe negra e pai branco já idoso. Meu vizinho cortava o mato como se fosse uma missão. A missão de evitar esconderijos para insetos perigosos. Zelo de proteção.

Minha memória entende a lição. A firmeza da vida é, por vezes, um peso grande demais quando precisamos manejar com cuidado o que amamos. Carecemos de sabedoria para usá-la. Mas inevitavelmente o mato cresce, e nos cabe usar da firmeza para limpar o que a imperfeição sujou. Mesmo que o som seja bruto.