O som do facão cortando o mato me faz parar de fazer o que me prendia a atenção. A memória atravessou o tempo mais rapidamente que qualquer coisa. De repente, veio à mente a imagem dos braços fortes de meu pai limpando o quintal de casa. Ele, que sempre passou a imagem de firmeza moral, enfrentava folhas e galhos com vontade, como se fosse um tipo de desabafo diante da frustração de um mundo inadequado.

O barulho de hoje de manhã veio do vizinho, um senhor de mais de 70 anos. Na conversa que tivemos logo em seguida, conheci um pouco da sua história. Filho temporão, de jovem mãe negra e pai branco já idoso. Meu vizinho cortava o mato como se fosse uma missão. A missão de evitar esconderijos para insetos perigosos. Zelo de proteção.

Minha memória entende a lição. A firmeza da vida é, por vezes, um peso grande demais quando precisamos manejar com cuidado o que amamos. Carecemos de sabedoria para usá-la. Mas inevitavelmente o mato cresce, e nos cabe usar da firmeza para limpar o que a imperfeição sujou. Mesmo que o som seja bruto.

Chegamos para a consulta de rotina de minha esposa. Também à espera do ginecologista, duas mulheres. Uma, jovem, grávida de oito meses; a outra, com feição triste e aparentando uns 30 anos, carregava uma pasta cinza nas mãos. O médico está atrasado, e minha esposa aproveita para fazer umas compras no supermercado ao lado, e deixa nosso filho em meu colo.

De repente então, me vi na seguinte cena: eu, desajeitado com meu filho de três meses nos braços. Em minha frente, duas mulheres: uma jovem quase mãe e outra na espera impaciente do médico. A grávida puxa assunto com a colega que acaba de conhecer. Descubro então que a tal mulher também estivera grávida, mas ainda no início perdera o bebê. Tudo bem recente. Ela estava voltando ao médico para apresentar os exames feitos após a interrupção da gravidez. Mesmo já tendo filhos, a tristeza pela perda é evidente.

Veja bem. A vida, suas circunstâncias e suas estações condensadas em um único momento. Tantas perguntas! Tanto mistério entre a vida celebrada, a vida esperada e a vida perdida.

Por um lado, sinto pena e sou tentado a pensar que não deveria ser assim. Esses encontros entre circunstâncias tão opostas não deveriam existir. Por outro lado, devo admitir que a vida real é mais parecida com o que vejo neste momento do que com o que elaboram os que não a querem enfrentar. Encarar a vida não é idealizá-la, mas sim admiti-la, mesmo quando nos encontramos com sua face misteriosa.

Ainda estou com meu filho no colo, ele que já dorme há alguns minutos. Começo a imaginar no que essas duas mulheres estariam pensando a meu respeito. “Ele não sabe carregar o bebê!”. “Onde está a mãe desta criança?”. “Por que eu, que sou mulher, estou com as mãos vazias, e ele, que é homem, não está?”. Sinto-me um pouco constrangido tanto diante da possibilidade de que elas realmente tenham pensado isso quanto da minha imaginação absurda.

Sinto calor. Saio do local e vou para a calçada. Meus braços estão cansados. Elas continuam lá à espera do médico que não chega.

Ah, essa vida estranha que nos faz esperar enquanto sofremos, e sofrer enquanto esperamos!

 

Senhor, não permita que o vazio nos afogue
Na solidão de uma noite silenciosa.

Não deixe que as cicatrizes escondam nossos olhos
Do sol que nascerá — límpido.

Nas noites solitárias dos nossos quartos,
As palavras realmente importantes fogem,
E nossas almas ficam órfãs na casa suja da alma.

Pousa então tuas asas sobre nós, com vento alentador
E nos faça amar; amar de verdade,
Com a plenitude única
de quem ama a Deus e o outro.

Nos liberta, ó Senhor, de uma vida menor
do que a que o amor pode gerar.

Que a cura chegue, e chegue logo!