Rio que corre e desliza
Que move e lava
Que embala navegantes
Companheiros do vento.

Rio de lágrimas
Límpidas, justas
Feridas pela ponta do barco
Que corta, separa, prossegue.

O som do motor
O cheiro do óleo diesel
O balanço da embarcação
Os golfinhos que saltitam.

Tudo segue
Menos as margens

Em frente
Segue

Em mim
Segue

Não, “viver bem a vida” não significa fundamentalmente aproveitar o máximo de eventos que geram prazer. Para isso, não se exige muito do que se exigiria de um animal. Não seria necessário quase nenhuma reflexão e nenhum esforço. Principalmente neste tempo em que vivemos debaixo de uma eficiente indústria do entretenimento, tudo o que desejamos é “entregue em domicílio”.

Para viver bem, é preciso muito mais: desenvolvimento de virtudes, sujeição ao aprendizado, relacionamentos integrais (com Deus e com o próximo), liberdade para fazer escolhas, etc.

No entanto, neste texto quero focar uma coisa apenas: para viver bem, precisamos adotar uma constrangedora e radical postura de realismo. Não confunda realismo com pessimismo, pragmatismo ou materialismo. Falo de um profundo senso de clareza a respeito de como as pessoas são e como as coisas funcionam. E qual o caminho para encontrarmos este nível de realismo?  Discernindo os tempos, as estações e as fases de vida. Mais do que contabilizar os dias, os meses, os anos, precisamos meditar e perceber as mudanças de fases. O jovem que se torna adulto; o adulto que se vê na meia-idade; e o de meia-idade que alcança a velhice.  Enxergarmos, de fato, quem somos enquanto mudamos, faz toda a diferença diante da jornada.

Tal discernimento vem, aos poucos, enquanto caminhamos no ordinário da vida. É neste ordinário que encontramos as pessoas e ouvimos a voz de Deus. É neste ordinário que encontramos a Bíblia, a comunidade de fé, a teologia, mas também as celebrações, o humor, a dor, a esperança… Ou tudo isso junto.

O prazer (por que não?) também pode ser encontrado na dimensão ordinária da vida, mas ele nunca deve ser o fim último ou o sentido único da caminhada, sob o peso de tornar a vida menos real e, de quebra, nos privar da maturidade que vem com a coragem de sorrir, mas também de chorar.

O endeusamento do prazer pode ser visto facilmente no Facebook ou em outra rede social qualquer. Fotos de pessoas em festas com copos de cerveja, como se isso fosse  única expressão legítima da felicidade. Mensagens egoístas de quem acha que se não encontrar o “amor da sua vida” não vale a pena viver. Frases ilustradas que expressam o pensamento de uma realidade faz-de-conta que só funciona mesmo em espaços virtuais e efêmeros, sem compromisso com as consequências destas frases.

Sinto dizer que a vida é bem maior (mais complexa, mais difícil, mais profunda e mais bela) que nossa vã filosofia de botequim (ou de timeline).

Ironicamente, a facilidade de mudar e a alta velocidade das mudanças têm impedido de percebermos quem somos, enquanto mudamos. Tornamo-nos confusos, enquanto cantarolamos “sou uma metamorfose ambulante”. Se assim é, a vida também não passa de um amontoado de informações fúteis que nos levam a lugar nenhum.

— O que é isso, papai?
— Chave.
— E isso, papai?
— Porta.
— E isso?
— Fechadura.
Assim Miguel dialoga comigo. Perguntas e mais perguntas – não sobre os mistérios da vida, mas sobre o que ele vê. Miguel presta atenção em minhas respostas. Ele as repete em outros momentos – se bem que também repete as perguntas. Parece gostar da investigação. Ou seria uma brincadeira?

Se Deus deu a Adão a tarefa cultural de dar nomes aos animais e às coisas, Miguel me deu a tarefa histórica de relembrar os nomes do que já existe.

Gosto da brincadeira. Vejo seu rostinho de satisfação. Não sei se o sorriso dele é porque recebeu as respostas ou porque ri de pai bobo que terá que responder todas as outras infindáveis perguntas que ainda lhe fará pelo resto da vida.