— O que é isso, papai?
— Chave.
— E isso, papai?
— Porta.
— E isso?
— Fechadura.
Assim Miguel dialoga comigo. Perguntas e mais perguntas – não sobre os mistérios da vida, mas sobre o que ele vê. Miguel presta atenção em minhas respostas. Ele as repete em outros momentos – se bem que também repete as perguntas. Parece gostar da investigação. Ou seria uma brincadeira?

Se Deus deu a Adão a tarefa cultural de dar nomes aos animais e às coisas, Miguel me deu a tarefa histórica de relembrar os nomes do que já existe.

Gosto da brincadeira. Vejo seu rostinho de satisfação. Não sei se o sorriso dele é porque recebeu as respostas ou porque ri de pai bobo que terá que responder todas as outras infindáveis perguntas que ainda lhe fará pelo resto da vida.

Ladeira abaixo, todos nos empurram
Vai ter com a pressa, menino!

O mundo corre,
e eu que gosto da vagareza do meio-dia, aprendo a correr também.

A vida nos empurra; não sem antes dar um sorriso irônico de quem se acha senhora do tempo.

A moto que ultrapassa o carro;
O carro que desafia a curva;
O pai que desaprende a olhar o filho;
A refeição que deixa de ser um momento para se tornar um intervalo.

Contam-se segundos, não estrelas.
Compram-se relógios, não livros.

Somos agitados, mas não conhecemos os movimentos da natureza.

De empurrão em empurrão,
A vida vai tornando-se artificial.
Sem encontros, sem história, sem longas caminhadas, sem planícies.

Apenas ladeiras e mais ladeiras.

A armadilha mais perigosa de se viver na fantasia não é fugir da realidade; é viver menos o que se poderia viver. Ao escolherem o irreal, os viciados em fantasia também escolhem viver miseravelmente, caminhar aquém do potencial de plenitude que a vida oferece.

Nossos olhos não enxergam mais tão bem o concreto, o tempo, o trabalho, a luta. Tudo é meio que desimportante diante dos benefícios de experimentarmos o que não conquistamos, mas que, de alguma forma, está tão facilmente à nossa disposição. Aparentemente fácil.

A ruína da nossa geração não está no uso das novas tecnologias, no excesso de trabalho ou na indiferença com o próximo. Isso sempre existiu (quero dizer, a apropriação dos instrumentos que inventamos, dedicarmo-nos desequilibradamente ao trabalho ou não sermos assim tão solidários). Nossa ruína é perder a sensibilidade para a vida, para a complexidade que é viver, para as derrotas, para os perigos, para as tentações, para a salvação.

Não, não é pessimismo. Ao contrário, é reconhecer todo o bem que há, e que só será realmente visto se não ignorarmos os desconfortos. A gratidão verdadeira nasce da luta que se vence, do perdão que se recebe diante dos erros, do consolo que surge quando a tristeza toma conta.

Nisso o convite de Jesus é completamente real: “vinde a mim todos os cansados e sobrecarregados”. Não se trata de uma fuga, mas de um encontro. Fugíamos antes. Agora não é mais necessário. Agora temos a vida.