Circuito Batatinha anima foliões em Salvador -Valter Pontes/Agência Brasil

Foliões em Salvador -Valter Pontes/Agência Brasil

Você pode até gostar de Carnaval: o clima é de leveza, brincadeira e é um encontro de amigos. Faz parte da cultura brasileira, porque reflete um pouco do que somos (ou gostaríamos de ser) em nossos relacionamentos.

Mas não, o Carnaval não é o clímax da alegria, nem uma prova de uma vida verdadeiramente feliz. Não dá para acreditar no que a cultura midiática prega. Não dá para ser ingênuo. Não é tão fácil assim.

Por outro lado, não gostar de Carnaval não é sinônimo de que se é mais feliz do que nossa fútil geração. Não é sendo tristes que encontraremos a alegria. Isso é fuga, não busca.

Com Carnaval ou não, a busca pela alegria é uma tarefa um tanto quanto misteriosa. Não há fórmulas, mas há pistas. Não é uma busca momentânea que termina na quarta-feira de cinzas, mas é uma jornada que começa desde o início e que durará a vida inteira. É como se, finalmente, conseguíssemos encaixar as partes desconexas de nossas ordinárias vidas. É fazer tudo que já fazemos, mas com uma paz de espírito que surge porque “acertamos as contas”… com Deus, com nós mesmos e com os outros. Alegria tem muito mais a ver com perdão do que com êxtase.

Neste sentido, a alegria pode ser a coisa mais singela do mundo. Ou pode ser a expressão da coisa mais extraordinária. Não começa com as circunstâncias, mas sim com as causas. Não começa com o fogo, mas com a fagulha que o acende. Não está no que vemos, mas no que é invisível, mesmo que deva necessariamente revelar-se enquanto vivemos.

Os céus gritam de alegria, a aurora lança seus raios como fogos de artifício, a noite faz da lua um presente que ilumina a graça.

Vendo tudo isso, o homem se maravilha com a festa espontânea que a natureza faz para Deus. E ele se vê envolto à “voz sem palavras” dos céus, da terra, do dia, da noite. Quase uma epifania. Uma plenitude de sentidos em direção a quem criou a luz e o calor do sol.

Que efeito este maravilhamento traz ao coração do homem? Ele se rende não somente à presença de Deus, mas ao seu caráter, à sua “lei”. Esta lei tem sabor, textura, aroma. Não é uma invenção humana para aprisionar outros. É uma trilha que conduz ao destino, uma sombra que leva à realidade, uma cerca que protege-nos da fragilidade interior, das maldades do Inimigo e dos enganos do mundo.

O homem que vê uma “festa natural” a Deus, também reconhece quem Deus é e o que ele espera do homem. Porque não há como transformar Deus em um mero símbolo, sem vida, sem vontade, sem escolhas, sem propósito. Porque não há como distanciar Deus de quem somos e de nossos erros. Porque não há como proibir Deus de invadir-nos ao ponto de transformarmos de dentro para fora.

Não há amor a Deus sem amor à sua vontade. Não há amor à vontade de Deus sem amor a Ele próprio.

 

***

 

Salmo 19

Os céus declaram a glória de Deus;
o firmamento proclama a obra das suas mãos.
Um dia fala disso a outro dia;
uma noite o revela a outra noite.
Sem discurso nem palavras,
não se ouve a sua voz.
Mas a sua voz ressoa por toda a terra
e as suas palavras até os confins do mundo.
Nos céus ele armou uma tenda para o sol,
que é como um noivo que sai de seu aposento
e se lança em sua carreira com a alegria de um herói.
Sai de uma extremidade dos céus
e faz o seu trajeto até a outra;
nada escapa ao seu calor.
A lei do Senhor é perfeita e revigora a alma.
Os testemunhos do Senhor
são dignos de confiança
e tornam sábios os inexperientes.
Os preceitos do Senhor são justos
e dão alegria ao coração.
Os mandamentos do Senhor são límpidos
e trazem luz aos olhos.
O temor do Senhor é puro
e dura para sempre.
As ordenanças do Senhor são verdadeiras,
são todas elas justas.
São mais desejáveis do que o ouro,
do que muito ouro puro;
são mais doces do que o mel,
do que as gotas do favo.
Por elas o teu servo é advertido;
há grande recompensa em obedecer-lhes.
Quem pode discernir os próprios erros?
Absolve-me dos que desconheço!
Também guarda o teu servo dos pecados intencionais;
que eles não me dominem!
Então serei íntegro,
inocente de grande transgressão.
Que as palavras da minha boca e a meditação do meu coração
sejam agradáveis a ti,
Senhor, minha Rocha e meu Resgatador!

(NVI)

Volto às palavras para registrar a existência no dia exato que em que a vida imprimiu em mim os contornos de quem sou.

Chego aos 37 anos ainda ignorante, mas um pouco mais consciente disso. Talvez só na teoria, mas já é alguma coisa, né?

Em meio a coisas concretas (meu filho dormindo, um beijo de minha esposa, um carinho dos meus pais, o perdão de Deus), me vejo envolto na tentação de viver refém do abstrato. Demancha no ar a imagem que desenhei de mim mesmo. Desmancha no ar a reputação, as palavras moralistas, a sensação de ser expert em alguma coisa ou mesmo a ilusão da autossuficiencia.

Sobra muito pouco, se não enxergo a vida como ela é.

Mas isso não significa descrer que ela – a vida – pode ser mais do que é (ou menos, se isso for para melhor). Ainda tenho fé. E agradeço a Deus por está dádiva. Ele que é “galardoador daqueles que o temem”, me sustenta nas pontas dos seus dedos, quando eu sei que não consigo nem permanecer em pé por um segundo.

Neste dia do meu aniversário, só me resta celebrar a vida — não a minha simplesmente, mas todas, porque é a existência, por si só, que me faz ver um pouco melhor a minha própria vida.

E se posso pedir algum presente, que seja a capacidade de agradecer. Não é tão fácil como parece. Exige contentamento, clareza, simplicidade. Exige, acima de tudo, relacionamento com aquele que é a bondade em pessoa.

A Ele, o Bom Pastor, agradeço a vida, e todas as surpresas que isso envolve.

Meu pequeno Miguel se encaixa em meus braços, enquanto a longa viagem de ônibus segue. De fato, ele dorme tão tranquilamente que eu fico imaginando se há outra maneira de ser feliz.

Quero dizer com isso que neste exato momento me imagino no lugar dele, e descubro que é isso que a gente procura pela vida toda: a certeza de ser acolhido por quem você confia totalmente. Uma sensação de entrega plena — não sacrificial, mas apenas natural, consequente.

Quando ficamos mais velhos, vamos descobrindo que aqueles que pensávamos perfeitos, não são, e então nos tornamos reticentes em confiar. A experiência de entrega se torna mais rara, e decidimos buscá-la ainda em todas as outras fontes aparentemente legítimas. E não achamos.

Hoje, véspera de Natal, revisito minha fé e enxergo Deus, tanto no menino que se entrega quanto no Pai que o acolhe. Isso é fantástico. É revelação.

O Deus que resolveu revelar-se menino, não deixou de ser Deus. Vimos no unigênito sua face como a glória do Pai. Nele, encontramos a segurança divina, enquanto nos vemos em sua fragilidade humana. E somos acolhidos de toda forma necessária.

Glória a Deus nas alturas e paz na terra!