Meu pequeno Miguel se encaixa em meus braços, enquanto a longa viagem de ônibus segue. De fato, ele dorme tão tranquilamente que eu fico imaginando se há outra maneira de ser feliz.

Quero dizer com isso que neste exato momento me imagino no lugar dele, e descubro que é isso que a gente procura pela vida toda: a certeza de ser acolhido por quem você confia totalmente. Uma sensação de entrega plena — não sacrificial, mas apenas natural, consequente.

Quando ficamos mais velhos, vamos descobrindo que aqueles que pensávamos perfeitos, não são, e então nos tornamos reticentes em confiar. A experiência de entrega se torna mais rara, e decidimos buscá-la ainda em todas as outras fontes aparentemente legítimas. E não achamos.

Hoje, véspera de Natal, revisito minha fé e enxergo Deus, tanto no menino que se entrega quanto no Pai que o acolhe. Isso é fantástico. É revelação.

O Deus que resolveu revelar-se menino, não deixou de ser Deus. Vimos no unigênito sua face como a glória do Pai. Nele, encontramos a segurança divina, enquanto nos vemos em sua fragilidade humana. E somos acolhidos de toda forma necessária.

Glória a Deus nas alturas e paz na terra!

A cura é uma resposta a uma crise na vida de outra pessoa. É uma resposta suficiente, uma resposta satisfatória a uma crise na vida de outrem. E sempre que a palavra crise é usada no Novo Testamento grego, é traduzida em inglês por juízo ou julgamento. Exatamente isso – juízo. A cura é uma resposta que eu dou a um momento decisivo na vida de um irmão ou irmã; quer eu responda, quer não, eu exerci um juízo.

A cura passa a ser a oportunidade de transmitir a outro ser humano o que recebi do Senhor Jesus; a saber, sua aceitação incondicional de mim como sou, não como deveria ser. Ele me ama, seja em estado de graça, seja de desgraça, quer eu viva de acordo com as expectativas elevadas de seu evangelho, quer não. Ele vem a mim onde eu vivo e ama-me como sou.

(…)

Quando uma pessoa é despertada para aquilo que ela é e não para aquilo que ela deixou de ser, o resultado mais frequente será a cura interior de seu coração por meio do toque da afirmação.

Finalmente, irmãos, tudo o que for
verdadeiro, tudo o que for nobre,
tudo o que for correto, tudo o que for puro,
tudo o que for amável, tudo o que for
de boa fama, se houver algo excelente
ou digno de louvor, pensem nessas coisas.
Filipenses 4.8

— Brennan Manning. O Anseio Furioso de Deus. Editora Mundo Cristão.

 

 

Eu a encontro todos os dias. No ponto de ônibus. Nunca conversarmos. Mas me chama a atenção seu jeito triste. Sempre com um fone nos ouvidos. Sempre com um cigarro na boca. Nunca ri. Nunca fala com ninguém. Não tem amigos. Pelo menos é o que eu percebo nos cinco minutos que a vejo todos os dias no ponto de ônibus.

A moça triste talvez não seja triste. Talvez esteja apenas cansada. Talvez não goste de falar nem sorrir logo após acordar. Talvez ela seja feliz, muito feliz. Mas meus olhos a veem daquele jeito, e isso me faz pensar em como a tristeza está presente em nós. Em mim.

A moça triste é a metáfora para meu coração. Ela me lembra que minha tristeza anda comigo, mesmo sabendo que o que me faz caminhar seja a alegria.

A moça triste fuma para sentir um pouco de satisfação em algo. Mas isso só denuncia seu vazio, sua solidão. Talvez seja daí que venha sua tristeza: do desamparo, da rejeição por ser pobre, negra e mulher. Talvez.

A moça triste não ouve os sons do mundo. Ela está sempre com o fone nos ouvidos. Talvez ouça músicas alegres para espantar os pensamentos tristes que insistem em lembrá-la o enfado do dia a dia. Mas talvez goste simplesmente de esquecer que a realidade emite sons desagradáveis. Talvez ela queira apenas fugir no barulho de um rádio ou em uma canção que a faça acreditar que a vida será melhor, que ela ainda vai encontrar seu amor.

A moça triste continua sentada no banco do ponto de ônibus. Eu entro no carro que me levará ao trabalho. Não há despedidas. Eu sei que a encontrarei no próximo dia. Sem o sorriso que nunca vem e com a tristeza que a acompanha.

 

Há dentro de você um cordeiro e um leão. A maturidade espiritual é a habilidade de permitir que o cordeiro e o leão deitem-se juntos. Seu leão é o “eu” adulto e agressivo. É seu “eu” que toma iniciativas e decisões. Contudo, há também o seu cordeiro amedrontado e vulnerável; a parte de você que precisa de afeição, apoio, afirmação e cuidado.

Atentando somente para o leão, você se verá além de seus limites, e chegará à exaustão. Quando prestar atenção somente no cordeiro, você facilmente se tornará uma vítima de sua necessidade de receber atenção de outras pessoas. A arte da vida espiritual é sustentar plenamente tanto seu leão quanto seu cordeiro. Assim, você poderá agir de maneira positiva, sem negar suas próprias necessidades. E poderá pedir afeição e cuidado sem trair sua vocação de líder.

Desenvolver sua identidade como um filho de Deus não significa, de forma alguma, abrir mão de suas responsabilidades no mundo. Assim como afirmar seu “eu” adulto não significa, de forma alguma, que você não possa se tornar um filho cada vez mais dependente de Deus. Na realidade, o oposto é verdadeiro. Quanto mais segurança você puder sentir como um filho de Deus, mais livre estará para sustentar sua missão no mundo como um ser humano responsável. E quanto mais consciente você estiver que tem uma tarefa singular e única a cumprir para Deus, mais aberto estará para permitir que sua necessidade mais profunda seja suprida.

Henri Nouwen
Meditações com Henri J. M. Nouwen – Leituras e Reflexões. Editorial Habacuc.

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Henri Nouwen captou uma boa metáfora para descrever a dualidade que vivemos. A crise é dupla. Temos leões que não são cordeiros, e cordeiros que não são leões. No final, temos líderes ou irresponsáveis ou autoritários, e cristãos ou subservientes ou superficiais. Precisamos do equilíbrio e da transparência que só o Espírito Santo nos dá.