Eu a encontro todos os dias. No ponto de ônibus. Nunca conversarmos. Mas me chama a atenção seu jeito triste. Sempre com um fone nos ouvidos. Sempre com um cigarro na boca. Nunca ri. Nunca fala com ninguém. Não tem amigos. Pelo menos é o que eu percebo nos cinco minutos que a vejo todos os dias no ponto de ônibus.

A moça triste talvez não seja triste. Talvez esteja apenas cansada. Talvez não goste de falar nem sorrir logo após acordar. Talvez ela seja feliz, muito feliz. Mas meus olhos a veem daquele jeito, e isso me faz pensar em como a tristeza está presente em nós. Em mim.

A moça triste é a metáfora para meu coração. Ela me lembra que minha tristeza anda comigo, mesmo sabendo que o que me faz caminhar seja a alegria.

A moça triste fuma para sentir um pouco de satisfação em algo. Mas isso só denuncia seu vazio, sua solidão. Talvez seja daí que venha sua tristeza: do desamparo, da rejeição por ser pobre, negra e mulher. Talvez.

A moça triste não ouve os sons do mundo. Ela está sempre com o fone nos ouvidos. Talvez ouça músicas alegres para espantar os pensamentos tristes que insistem em lembrá-la o enfado do dia a dia. Mas talvez goste simplesmente de esquecer que a realidade emite sons desagradáveis. Talvez ela queira apenas fugir no barulho de um rádio ou em uma canção que a faça acreditar que a vida será melhor, que ela ainda vai encontrar seu amor.

A moça triste continua sentada no banco do ponto de ônibus. Eu entro no carro que me levará ao trabalho. Não há despedidas. Eu sei que a encontrarei no próximo dia. Sem o sorriso que nunca vem e com a tristeza que a acompanha.

 

Há dentro de você um cordeiro e um leão. A maturidade espiritual é a habilidade de permitir que o cordeiro e o leão deitem-se juntos. Seu leão é o “eu” adulto e agressivo. É seu “eu” que toma iniciativas e decisões. Contudo, há também o seu cordeiro amedrontado e vulnerável; a parte de você que precisa de afeição, apoio, afirmação e cuidado.

Atentando somente para o leão, você se verá além de seus limites, e chegará à exaustão. Quando prestar atenção somente no cordeiro, você facilmente se tornará uma vítima de sua necessidade de receber atenção de outras pessoas. A arte da vida espiritual é sustentar plenamente tanto seu leão quanto seu cordeiro. Assim, você poderá agir de maneira positiva, sem negar suas próprias necessidades. E poderá pedir afeição e cuidado sem trair sua vocação de líder.

Desenvolver sua identidade como um filho de Deus não significa, de forma alguma, abrir mão de suas responsabilidades no mundo. Assim como afirmar seu “eu” adulto não significa, de forma alguma, que você não possa se tornar um filho cada vez mais dependente de Deus. Na realidade, o oposto é verdadeiro. Quanto mais segurança você puder sentir como um filho de Deus, mais livre estará para sustentar sua missão no mundo como um ser humano responsável. E quanto mais consciente você estiver que tem uma tarefa singular e única a cumprir para Deus, mais aberto estará para permitir que sua necessidade mais profunda seja suprida.

Henri Nouwen
Meditações com Henri J. M. Nouwen – Leituras e Reflexões. Editorial Habacuc.

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Henri Nouwen captou uma boa metáfora para descrever a dualidade que vivemos. A crise é dupla. Temos leões que não são cordeiros, e cordeiros que não são leões. No final, temos líderes ou irresponsáveis ou autoritários, e cristãos ou subservientes ou superficiais. Precisamos do equilíbrio e da transparência que só o Espírito Santo nos dá.

Ainda sobre a trágica foto de Aylan, o menino sírio encontrado morto na beira da praia, que rodou o mundo. Li os comentários ao meu pequeno texto (pelos quais agradeço) e ponderei algumas questões:

  1. Escrevi o texto no calor dos sentimentos. Fui movido mais pela indignação do que por uma análise mais apurada do assunto.
  2. Entendo a importância que a foto teve para sensibilizar autoridades, tornar o assunto prioritário nas agendas tão apertadas e mobilizar a opinião pública. Ela entrou para a História.
  3. Muitas boas ações começam a partir de uma tragédia. A tragédia é ruim, mas ela tem o potencial de mover (mesmo que por sentimentos imediatistas) pessoas para um inconformismo que pode mudar o mundo. Neste sentido, a foto teve um caráter revolucionário.
  4. O jornalismo teve uma  decisão muito difícil a tomar. Por isso, não devemos generalizar a qualidade e a intenção jornalística de quem publicou a foto. Fazer isso é ter pouca noção da complexidade da decisão. Errei ao subestimar o jornalismo.

No entanto, gostaria de ponderar mais algumas coisas:

  • Mesmo que a foto do pequeno Aylan tenha se tornado um ícone contra a situação triste dos refugiados, não podemos nos esquecer de que ela era uma criança, que tinha uma história própria, sonhos só dele e uma roupinha pronta para conhecer um novo lugar para morar. Mesmo que eu considere que a foto gerou efeitos fantásticos, ainda assim ela não tira da minha mente a sensação de indignidade que o corpo do pequeno teve. A outra foto – do policial carregando o corpo da criança – também é trágica, mas menos indigna.
  • Fico pensando quais critérios que usamos para definir que uma foto deve ou não ser publicada. Acho que quase todos são baseados na importância política do assunto. Entendo. Mas não caberia um espaço _ mesmo que um palmo apenas – para pensarmos que não estamos lidando apenas com manchetes e informações, mas com pessoas? E neste sentido, uma criança morta na praia pode ser retratada de várias formas. Quero relativizar o absoluto aqui. A criança precisaria ser fotografada naquele jeito mesmo? É difícil levantar este ponto depois que a foto fez sucesso. Mesmo assim, o faço.
  • A compaixão pode ser facilmente transformada em fetichismo. A imagem da criança se tornou matéria-prima para desenhos, ilustrações e formas. Não parece meio macabro fazer isso? Que humanidade é essa que não respeita uma morte, mas a transforma em “bandeira”, mesmo que seja justa? Não há alguma coisa errada quando não nos incomodamos nenhum um pouco com isso?
  • Reitero que meu olhar para a foto não viu primeiramente uma causa política, mas uma pessoa criada à imagem e semelhança do Criador. Minha análise, portanto, foi impulsionada mais por este sentimento de indignação pelo “templo sagrado de Deus” ter sido profanado do que pelos efeitos que a imagem causaria. E devo dizer: ainda sinto o mesmo, ainda que reconsiderando a validade dos efeitos.
  • Trabalhei no jornalismo diário de uma rádio de notícias. Acompanhei casos de assassinatos, mortes trágicas, injustiças. E percebi que com o tempo todos nós, jornalistas, corremos o risco de ficar indiferentes ao drama de cada história contada. É preciso nadar contra a maré para não perder a sensibilidade, mesmo que seja necessário também desenvolver “muros de proteção emocionais” para dar conta do trabalho. Nunca me esqueço de um colega setorizado na seção de polícia contando alegremente o caso de uma pessoa decapitada. Não que ele tivesse alegria com o fim trágico, mas ele não tinha compaixão. O caso de Aylan deve lembrar ao jornalismo que não conseguiremos contar a verdade dos fatos sem compaixão. A grandeza da verdade exige de nós mais do que precisão.

O UOL publicou e justificou dizendo que jornalismo serve para informar. Mas há muitas formas de informar — algumas éticas, outras sensacionalistas. Eu me recuso a publicar ou compartilhar a foto da criança refugiada morta. É verdade que não faz diferença, já que todo mundo vai vê-la de qualquer forma. Mas não acredito neste jornalismo que indigna um ser tão pequeno, tão vítima que já foi da injustiça. Não há enxurradas de manchetes que justifiquem.

Ao mesmo tempo, imagino como deve ter sido difícil tomar a decisão. O fato está ali, registrado. O que fazer? É verdade também que já entraram para a história outras imagens trágicas. Mas, diferentemente, esta imagem era de uma criança morta, inerte, sem nenhuma esperança de reação. Aquela criança afogada na beira da praia não deveria ser vista meramente como símbolo de nada. Ela era uma pessoa, uma vítima de sei lá o quê! Maldade? Fanatismo religioso?

Os que concordam com a publicação da imagem devem ter mil razões para justificá-la. Mas, neste momento, meu coração e minha compreensão de que o ser humano foi criado à imagem de Deus não me permitem fazer qualquer concessão. Se abrirmos mão, já não haverá mais limites éticos para o jornalismo.

Nota:
O menino da foto, de no máximo 2 anos de idade, era provavelmente um dos cerca de 12 refugiados sírios que morreram afogados após seus botes afundarem próximo à península de Bodrum numa tentativa de ir à Ilha de Kos, na Grécia. Segundo a polícia, eles fugiam do Estado Islâmico na Síria.

‪#‎KiyiyaVuranInsanlik‬