A Bíblia me fascina nas suas mais variadas formas: nas surpresas da narrativa, na inteligência das reflexões, na reverência da revelação divina. Mas é a poesia bíblica – e as imagens que nascem dela – que mais me encoraja, me fortalece, me renova. A poesia bíblica é companheira da fé. Juntas – poesia e fé -, nos fazem enxergar além do presente. São como portas que se abrem para a esperança. Ao entrar, a esperança toma assento e conversa longamente comigo. E mesmo que a chuva caia do lado de fora, não deixo de crer que a vida será plena.

É uma pena que muitos dos nossos sábios evangélicos ignoram o poder da poética bíblica e reduzem a uma prosa seca e fria a beleza dos versos, das rimas e das metáforas.

A estética do texto não é um mero detalhe. Salmos (com seu paralelismo invertido) e Isaías (com suas imagens fortes e agudas), por exemplo, são dois livros que valorizam grandemente não somente o conteúdo, mas também a forma da Palavra:

Os passarinhos encontram espaço em tua casa;
os pardais e as andorinhas fazem ninhos nos beirais.
Eles botam ovos e criam seus filhotes,
cantando tuas canções no lugar em que adoramos.
Senhor dos Exércitos de Anjos! Rei! Deus!
Como são abençoados por viver e cantar ali!
(Salmos 84.3-4)

 

Os que cantam e os que dançam dão crédito a Sião:
“Todas as minhas fontes estão em você!”
(Salmos 87.7)

 

“Cante, mulher estéril, que nunca teve filho.
Encha o ar de canções você, que nunca deu à luz!
Você vai ter muito mais filhos que aquelas mulheres que têm marido”, diz o Eterno!
(Isaías 54.1)

 

“Assim como a chuva e a neve descem do céu
e não voltam sem antes ter irrigado a terra,
Cumprindo a tarefa de fazer que as coisas brotem e cresçam,
produzindo sementes para o agricultor e comida para os famintos,
As palavras que saem da minha boca
não voltarão vazias para mim.
Elas cumprirão a missão de que as incumbi
e cumprirão a tarefa que lhes dei”.
(Isaías 55.11)

 

Em tempos da espetacularização dos literatos, vale lembrar que mais importante que o autor é sua obra. E assim o é porque a literatura é universal e eterna, enquanto que nós somos finitos e limitados em nossa vã maneira de viver.

A Bíblia é literatura. E assim sendo nos fala de geração em geração o que o coração humano experimenta em sua relação com Deus, com o próximo e com sua própria cultura.

Mas a Bíblia também é revelação. E assim sendo nos torna leitores cheios de expectativas. Como ela nos surpreenderá desta vez? O que os meus olhos ainda não viram? O que meu raciocínio ainda não captou? Como meu coração será tocado? Como Deus me desafiará?

Quando o leitor reúne sensibilidade com expectativa, as páginas da Bíblia se tornam profundas experiências de Graça e Verdade (personificadas no próprio Cristo – Jo 1.17).

Suspeito que nós, cristãos, somos culpados por um grave desperdício. Jogamos fora a riqueza de um banquete único (a Palavra de Deus) e nos contentamos com migalhas místicas ou de autoajuda. A Bíblia já não é mais nossa companheira de fé e lágrimas. Já não perseveramos em sua leitura e já não nos dedicamos com disciplina a entendê-la. De leitores ávidos nos tornamos meros espectadores de um espetáculo religioso onde a voz do pregador é mais importante do que a voz do Autor.

Aventure-se a ler a Bíblia com prazer, com expectativas e com a sensibilidade poética. Entregue-se a esta experiência de fé, de graça e de verdade. Não se deixe levar pela preguiça ou pela falta de disciplina. Persevere. Deixa a Palavra de Deus encantá-lo mais uma vez. Permita que o Espírito Santo renove a chama do seu espírito. Que a poesia do Poeta-Mor encha de luz o seu coração — mesmo nos dias tristes.

A despeito dos trechos difíceis, das histórias trágicas e das palavras duras, as Escrituras nos testemunham ainda hoje que a redenção é mais forte que o pecado. Que Deus é mais poderoso que o Inimigo de nossas almas. E que na morada do futuro há, sim, um lugar preparado para os que caminham com Cristo hoje.

 

****

Em tempos de celebração dos 500 anos da Reforma Protestante, eu gostaria de celebrar as Escrituras, assim como fez a revista Ultimato 366 (Julho/Agosto). Vale a pena ler ambas – a Bíblia e a Ultimato.

Nota: Textos bíblicos na versão A Mensagem.

  1. I Samuel 15:2-3 nos informa de que Deus ordenou a morte de amalequitas: “Vai, pois, agora e fere a Amaleque; e destrói totalmente a tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até à mulher, desde os meninos até aos de peito, desde os bois até às ovelhas, e desde os camelos até aos jumentos”.

    Até os camelos, não é Lissânder? E as crianças de peito? Se Deus nivela tudo, as de peito, pouco Lhe interesse, certo amigo?

    Vou ler de novo o título seu: “Bíblia sem poesia, sem sensibilidade e sem expectativas”. Que fascinação, não amigo? Deixaste a ‘sensibilidade’ em algum lugar do Tibet, foi?

    Pelo menos você foi um pouco ‘honesto’, só um pouco, porque escamoteou o texto o tanto que pode, quando apensou o parágrafo final do que você escreveu.

    Se você ainda não foi, tome uma bicicleta, lá tem muitas, e dê uma voltinha por Cracóvia e depois pedale até Auschwitz-Birkenau. Depois pergunte a você: “onde Deus estava e o que fazia, quando milhões viravam cinzas em fornos crematórios!”

    • Caro Eduardo,
      Suas palavras são duras, e quero crer que são honestas. Então parto deste ponto, ok?
      Sendo assim, é honesto dizer que a vida é muito mais difícil do que este blog ou estas linhas podem dissecar. Leio a Bíblia, não porque acho que encontrarei todas as respostas completas nela. Leio porque confio em Deus, mesmo que por vezes não o entenda. E, cá entre nós, se eu achasse que minha compreensão sobre Deus estava completa, desconfiaria deste “deus”.
      Sobre Auschwitz, não posso falar muito. Leio e vejo filmes sobre esta tragédia e, na maioria da vezes, me sinto impotente diante de tamanha maldade. Apesar disso, creio que esta pergunta feita por tantos na história (“onde Deus estava?”), eu não tenho capacidade de responder. Se não consigo provar que Deus “estava lá”, ao mesmo tempo não posso decretar sua “falência”. De outra forma, o mundo seria inabitável pós-guerra. Por alguma razão, a esperança não morreu, apesar da guerra. Como explicar isso? Prefiro tentar responder esta pergunta do que as outras que ninguém, na verdade, conseguirá responder. Ou você consegue?
      POR QUE A ESPERANÇA NÃO MORREU?

  2. “Em tempos de celebração dos 500 anos da Reforma Protestante,”
    Tomem um pouco de juízo editorial. Não fará mal algum.

    “eu gostaria de celebrar as Escrituras,”
    Celebre sim, mas não esconda a verdade porque tem muita gente que sabe ler e entender.

    “assim como fez a revista Ultimato 366 (Julho/Agosto). Vale a pena ler ambas – a Bíblia e a Ultimato.”
    Sempre fazendo auto-crítica, certo? Para não nivelar ULTIMATO com a Bíblia.

    “A Mensagem”
    Aproveite também para informar sua audiência que o Eugene H. Peterson não traduz coisa alguma, mas desinformando o leitor, produziu uma excrescência. Ainda bem que tem gente de juízo e é capaz de desmascara-lo. Cito a fonte para alimentar o juízo dessa propaganda, Nestle Aland Novum Testamentum Graece.

  3. Eu nem daria bola para as suas travessuras teológicas que não assumo que sejam honestas. Elas SÃO honestas. A questão é a honestidade de muitos de seus artigos vem ‘envelopada’, nesse sentido, como as minhas. Ninguém escreve como se tábula rasa fosse. Com o que a gente entra no mundo, a gente agrega.

    E leio você por duas razões: primeiro você responde, pelo menos as minhas indagações. Segundo, porque você é um dos poucos ‘moicanos’ editoriais que sobraram em ULTIMATO. Isto é, capaz ainda de produzir alguma devocional que ainda me instila concordância, interesse, e uma certa bondade no que escreves.

    Se escreves para mercadejar a palavra (via marketing, evangelização simplória, obviedades inúteis e ‘fuleragem’ teológica) eu não veio assim. O que veio é um desejo ardente de desenrolar novelos de lã que o gato da vida ou o Deus que impera no evangelicalismo troncha é incapaz de aborda-los sem cair naquela rítmica da mesmice aguada. Exemplo? Se em Auschwitz não há resposta, pelo menos você não puxa alguma nota de rodapé de algum livro de teologia gasto pelo tempo que me reporta a um déjà vu de escola dominical tipo cordeirinhos de Jesus, mas você pelo menos alega inocência. Tá aí uma modéstia honesta.

    Vá a Aushwitz-Birkenau. Acho mesmo que com esse dom seu de escrever terias um livro a produzir. Não faça como a minha esposa, porém. Foi mas depois resolveu, como muitos cristãos, enfiar a cabeça na areia.

    • Caro Eduardo,
      Agradeço seu voto de confiança em minha honestidade. Isso é raro nos dias de hoje.
      Se você indicou as razões pelas quais ler meus textos, aproveito para dizer que leio e comento seus comentários porque, apesar das discordâncias, entendo que nosso diálogo é nutritivo.
      Ao mesmo tempo, sei que você tem uma certa dose de desconfiança. No início, parece algo chato, mas sei que é bom. Só não pode blefar, ok? Não afirme o que não pode sustentar. Por exemplo: não trabalho mais na Ultimato. Sou um simples colaborador que nada ganha em termos financeiros. Não me julgue como teólogo, não sou. Não citarei grandes autores, não dissecarei conceitos. Isso pode deixá-lo frustrado, mas é a realidade. Minha pena talvez abra mais buracos do que aplaine o caminho (gostaria que fosse o contrário). E você, que “gosta deste mundo” (como disse em seu artigo), talvez precise de um caminho menos acidentado para aliviar as exigências de sua mente. Mas se, por pura misericórdia, tem alguma simpatia para comigo, obrigado. Vamos cavar buracos juntos, na esperança de que isso nos ajude a caminhar mais um pouco. Pela graça de Deus.
      PS.: Eu gostaria muito de ir a Aushwitz-Birkenau, sem dúvida. Você foi? Se sim, escreveu um livro? Ou enfiou a cabeça na areia também?
      Abraços!

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