Ainda sobre a trágica foto de Aylan, o menino sírio encontrado morto na beira da praia, que rodou o mundo. Li os comentários ao meu pequeno texto (pelos quais agradeço) e ponderei algumas questões:

  1. Escrevi o texto no calor dos sentimentos. Fui movido mais pela indignação do que por uma análise mais apurada do assunto.
  2. Entendo a importância que a foto teve para sensibilizar autoridades, tornar o assunto prioritário nas agendas tão apertadas e mobilizar a opinião pública. Ela entrou para a História.
  3. Muitas boas ações começam a partir de uma tragédia. A tragédia é ruim, mas ela tem o potencial de mover (mesmo que por sentimentos imediatistas) pessoas para um inconformismo que pode mudar o mundo. Neste sentido, a foto teve um caráter revolucionário.
  4. O jornalismo teve uma  decisão muito difícil a tomar. Por isso, não devemos generalizar a qualidade e a intenção jornalística de quem publicou a foto. Fazer isso é ter pouca noção da complexidade da decisão. Errei ao subestimar o jornalismo.

No entanto, gostaria de ponderar mais algumas coisas:

  • Mesmo que a foto do pequeno Aylan tenha se tornado um ícone contra a situação triste dos refugiados, não podemos nos esquecer de que ela era uma criança, que tinha uma história própria, sonhos só dele e uma roupinha pronta para conhecer um novo lugar para morar. Mesmo que eu considere que a foto gerou efeitos fantásticos, ainda assim ela não tira da minha mente a sensação de indignidade que o corpo do pequeno teve. A outra foto – do policial carregando o corpo da criança – também é trágica, mas menos indigna.
  • Fico pensando quais critérios que usamos para definir que uma foto deve ou não ser publicada. Acho que quase todos são baseados na importância política do assunto. Entendo. Mas não caberia um espaço _ mesmo que um palmo apenas – para pensarmos que não estamos lidando apenas com manchetes e informações, mas com pessoas? E neste sentido, uma criança morta na praia pode ser retratada de várias formas. Quero relativizar o absoluto aqui. A criança precisaria ser fotografada naquele jeito mesmo? É difícil levantar este ponto depois que a foto fez sucesso. Mesmo assim, o faço.
  • A compaixão pode ser facilmente transformada em fetichismo. A imagem da criança se tornou matéria-prima para desenhos, ilustrações e formas. Não parece meio macabro fazer isso? Que humanidade é essa que não respeita uma morte, mas a transforma em “bandeira”, mesmo que seja justa? Não há alguma coisa errada quando não nos incomodamos nenhum um pouco com isso?
  • Reitero que meu olhar para a foto não viu primeiramente uma causa política, mas uma pessoa criada à imagem e semelhança do Criador. Minha análise, portanto, foi impulsionada mais por este sentimento de indignação pelo “templo sagrado de Deus” ter sido profanado do que pelos efeitos que a imagem causaria. E devo dizer: ainda sinto o mesmo, ainda que reconsiderando a validade dos efeitos.
  • Trabalhei no jornalismo diário de uma rádio de notícias. Acompanhei casos de assassinatos, mortes trágicas, injustiças. E percebi que com o tempo todos nós, jornalistas, corremos o risco de ficar indiferentes ao drama de cada história contada. É preciso nadar contra a maré para não perder a sensibilidade, mesmo que seja necessário também desenvolver “muros de proteção emocionais” para dar conta do trabalho. Nunca me esqueço de um colega setorizado na seção de polícia contando alegremente o caso de uma pessoa decapitada. Não que ele tivesse alegria com o fim trágico, mas ele não tinha compaixão. O caso de Aylan deve lembrar ao jornalismo que não conseguiremos contar a verdade dos fatos sem compaixão. A grandeza da verdade exige de nós mais do que precisão.

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