Ele não tinha grandes convicções, mas tinha muitas simpatias por tudo que desestruturava: do jeito diferente do corte de cabelo até opções sexuais. Aparentemente, era um cara aberto para o novo – e, julgava assim, portanto, mais inteligente.

Mas, no fundo, seu coração era tão confuso quanto um novato em uma cidade grande. No fundo, não se apegava a nada, nem às bandeiras que ele mesmo defendia. Sua busca deveria ser mais profunda – ele necessitava disso -, mas a verdade é que não tinha coragem de ir até o fim nesta caminhada existencial. Não tinha coragem de encarar suas próprias carências. Contentava-se então com “migalhas” que a sociedade lhe dava, como os “pombos na praça” de Raul Seixas.

O tempo foi passando, e ele já não queria sair de casa, a não ser para sua obrigação diária do emprego que há tempos já não o animava nem desafiava. Uma ocupação mecânica que no início era até ideal: ele trabalhava sem precisar pensar muito durante a semana, e aproveitava o fim de semana para divertir-se. Aliás, não tem coisa melhor para mascarar nosso vazio do que a diversão, não é?

Pois bem, e o tempo passou mesmo. Nosso personagem, que já não tinha grandes convicções, também já não tinha muitas simpatias. Tornou-se um burocrático (no pior sentido da palavra). Pousava de intelectual, mas não passava de um adulto necessitado de uma inocência perdida.

Nosso personagem nunca descobriu que sua vida era uma contradição trágica: a liberdade que havia conquistado não o ajudou e ser mais gente nem o fez mais maduro. Tornou-se mais culto, mas pouco sábio. Ainda hoje, ele suspeita que o colega de trabalho conspira contra ele. Ainda hoje ele pensa que é possível ganhar a vida transformando-se em alguém que não existe.

Coitado do nosso personagem! Vive como se não tivesse nada a perder. Mas mal ele sabe que já perdeu quase tudo.

 

PS.: Qualquer semelhança, talvez seja mera coincidência.

    • Pelo que entendo Zumaran, acaba que o sujeito ficou acabado, perdeu sua vida inteira dedicando-se a coisas rotineiras julgando-se superior, inteligente e esqueceu que o tempo presente estava ali, para ele, para descobrir o mundo de verdade, usufruir das coisas que nos tem, claro que isso é questão de ponto de vista, o que é bom pra ele e o que é bom para mim. “[…] ele trabalhava sem precisar pensar muito durante a semana, e aproveitava o fim de semana para divertir-se. Aliás, não tem coisa melhor para mascarar nosso vazio do que a diversão, não é? […] Pousava de intelectual, mas não passava de um adulto necessitado de uma inocência perdida.”

  1. Estava à procura de algumas crônicas para minha aula de hoje quando entrei na sua página, agora não sei nem qual escolher, mas acho que vou ficar com esta.
    Gostaria de dizer que você é muito bom escritor Lissânder, não pare tão cedo, suas crônicas são ótimas.

    • Olá Gisele!
      Muito obrigado pelo incentivo.
      Fique à vontade para usar os textos em sala de aula. Seria muito legal saber como a turma reagiu aos textos. Você poderia me dar um “feedback”?
      Grande abraço!

  2. O personagem da atual crônica reflete, ao meu ver, uma grande parcela da humanidade, perdida em seu trabalho enfadonho, buscando satisfação em bens, poder e tantas outras coisas passageiras. As pessoas não conseguem mais sentir satisfação na simplicidade, no som dos pássaros. Tem se tornado mecânicas, vazias e fúteis. Se irritam com bobagens e estão dispostas a contradizer qualquer um que lhe diga algo que não lhe agrade, não conhecem o silêncio. No fim o que resta é um vazio.

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