Empoeirado por causa dos exageros de uma teologia evangélica individualista, o convite pessoal de Jesus – “venha a mim” – parece não ser mais levado em conta. O capítulo 6 do Evangelho de João me despertou novamente para este poderoso chamado de Cristo.

Ele insiste pelo menos nove vezes* a nos convidar para irmos até ele, para “comermos” e “bebermos” dele, para nos alimentarmos dele, para nos satisfazermos nele, o “pão da vida”. É um convite para acolhimento definitivo, satisfação completa, vida integral, esperança eterna, ressurreição no última dia.

Por mais nobre e necessária a tarefa de pensar a respeito de Jesus, de formar uma teologia contextual ou sistemática, nada substitui a decisão de se alimentar diretamente na fonte do Deus que faz questão de se revelar pessoal, mesmo que isso cause espanto, revolta ou escândalo (Jo 6.60-65). Até os próprios discípulos foram desafiados a tomar esta decisão: “Porventura, quereis também vós outros retirar-vos?” (Jo 6.67). Daí a tocante resposta de Pedro: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna” (6.68).

As afirmações duras de Jesus a respeito de si mesmo assim o são porque a verdade é que nada podemos fazer por completo sem este encontro pessoal com ele. Não que não possamos praticar o bem ou desenvolver uma moralidade agradável e necessária. Mas sem o encontro com ele, sempre seremos como que ocos por dentro. Eu sei, esta afirmação pode parecer arrogante, mas foi o próprio Cristo quem a pronunciou: “Se vocês não comerem a carne do Filho do homem e não beberem o seu sangue, não terão vida em si mesmos” (6.53, NVI).

O que vem depois deste encontro único e inigualável deve ser coerente com a força dele. O caráter de Cristo não se conforma com menos. Ele não quer simplesmente nos levar a um êxtase religioso ou a uma experiência íntima sobrenatural. Quer sim moldar toda a nossa vida, a começar pela limpeza do que tem de mais podre em nós, para que vivamos “vida, e vida em abundância” (Jo 10.10). Assim, amaremos o próximo, serviremos o ferido, lutaremos por justiça, proclamaremos a verdade e buscaremos a santidade.

A plenitude da vida está em Cristo. E se, de fato, acreditamos, esta verdade deveria nos levar imediata e desesperadamente até ele para que possamos beber da água que acaba para sempre com a sede mais profunda (Jo 4).

* João 6. 35, 37, 39, 40, 44, 51, 53, 56, 57