Por Guilherme de Carvalho


Por favor, ceda à tentação desta vez. Celebre o Natal também (sem solstícios ou outras piadas, por favor). Não imponha a você mesmo essa penitência negacionista de fim-de-ano…

“Celebrar o quê? O Cristianismo só trouxe opressão para o mundo!”

Sim, o Cristianismo não é inocente. Não me esqueci das cruzadas, de Servetus, do genocídio indígena pelos colonizadores “cristãos”, da perseguição dos hereges, das guerras da religião na Europa, da pedofilia dos padres, do Edir Macedo, dos beliscões e tapas da sua mãe carola, etc… Mas é que esses males já estavam no mundo antes de Jesus aparecer. Até a perseguição dos “hereges”, Antíoco Epifânio (pagão) já fazia – tá tudo lá, no livro dos Macabeus. Razões para fazer essas coisas ruins o homem sempre teve. Não é preciso um gênio ou inspiração especial para praticá-las. (Minto: acho que o Edir foi uma inovação brasileira mesmo!)

Mas mesmo que você não creia que Jesus é o Logos divino em carne humana e esteja revoltado com o dízimo, o fato é que sem ele não haveria algumas inovações que exigem inspiração, gênio e virtude.Sem Jesus não haveria a antropologia cristã, nem o universalismo cristão, nem o apóstolo Paulo (vide Slavoj Zizek), nem as missões de São Patrício e Columba, nem a síntese filosófico-religiosa da mente semítica com a mente grega para formar a Europa, nem a linearização da história, nem a dessacralização da natureza, nem a ruptura do racionalismo grego, nem Agostinho (e no futuro, a idéia de Self), nem abolição do infanticídio e repressão à escravatura, nem a “caritas” cristã, nem a preservação da herança latina e grega depois da queda do Império Romano…

E daí não haveria Ocidente, nem os primeiros hospitais, nem aristotelismo cristão nem ruptura com o aristotelismo cristão, nem Cambridge e Oxford, nem Dante Alighieri, nem Pico Della Mirandola, nem Renascimento, nem Rafael, nem Reforma, nem Lutero com sua liberdade da consciência, nem escolas públicas para ensinar a ler a Bíblia (e outras coisas), nem Johan Sebastian Bach, nem Rembrandt, nem empirismo, nem Royal Society (vide Hooykas), nem revolução científica, nem Pascal, nem Martin Bucer, nem constituição moderna, nem “Lex Rex” (vide Rutheford), nem huguenotes franceses, nem revolução Francesa, nem revolução Americana (nem Marx também, como queira), nem Harvard, Yale e Princeton com suas igrejas fundadoras, nem a ideia moderna de direitos humanos (vide Wolterstorff), nem William Carey e o fim da queima de viúvas na Índia, nem abolição da escravatura (vide Wilberforce), nem Comenius, nem Kierkegaard, nem Dostoyevski, nem negro spirituals (nem Jazz, nem Blues, nem Gospel, nem Rock’n’Roll e talvez até… nem Metal!) nem Cruz Vermelha, nem Maritain, nem a moderna declaração universal dos direitos humanos, nem Martin Luther King (nem “I Have a Dream”), nem o sindicato Solidariedade na Polônia, nem Tarkovski, nem Arvo Part, nem Malick, nem Desmond Tutu e a Comissão para a Verdade e a Reconciliação, na África do Sul, e por aí vai…

Sim, você pode praguejar e amaldiçoar as misérias da religião, mas seja honesto e realize um ato racional de resposta proporcional. Gostando ou não, você tem uma dívida com a fé que inspirou e movimentou mudanças positivas, que você desfruta agora.

Assim, como eu disse, não imponha a você mesmo essa penitência. Esqueça a sua descrença por uns momentos (não é tão difícil. Você não faz isso com a sua vida toda sexta-feira à noite?) e agradeça… ao universo (?) por Jesus Cristo. Se depois de se informar sobre a história cristã (eu disse história, não Dan Brown e assemelhados) um sentimento de gratidão nascer em você, não o reprima – mesmo que você não tenha para onde direcioná-lo. Na ausência de alternativas, agradeça ao vento. Ainda assim, será melhor do que dormir na sarjeta de novo, nesse Natal.

Celebre Jesus Cristo, seja ele quem for!

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Guilherme de Carvalho é pastor da Igreja Esperança em Belo Horizonte (MG), é obreiro de L’Abri no Brasil e presidente da Associação Kuyper para Estudos Transdisciplinares. É também organizador e autor de Cosmovisão Cristã e Transformação e membro da associação Christians in Science (CiS).

  1. “… nem o apóstolo Paulo (vide Slavoj Zizek),…”.

    Achei um artigo de um certo Moisés Sbardelotto da Unisinos (AQUI http://www.psbjamericana.com.br/site/index.php?secao=noticias&cod=227&titulo=Leituras+pol%EDticas+de+Paulo+de+Tarso) com destaque para Paulo que, segundo ele, passa a ser retomado fora do âmbito teológico e exegético fundando, o artigo, em algumas observações pontuais de José Antônio Zamora onde ele afirma que há sim vivo interesse pela figura e pela mensagem do apóstolo entre alguns pensadores políticos de esquerda.

    Zizek entra aqui no artigo lá: “São Paulo e a recuperação política do NÚCLEO NÃO PERVERSO do cristianismo.” (destaques meus). Seria o perverso aqui alguns exemplos que você citou?

    Zizek, segundo Zamora, “… considera o apóstolo Paulo como um ‘leninista avant la lettre’. E, “… a dimensão-chave do gesto de Paulo é sua ruptura com qualquer forma de comunitarismo: seu universo já não é o da multidão de grupos que querem ´encontrar sua voz´ e afirmar sua identidade particular, seu ´estilo de vida´, senão o de uma coletividade em luta baseada na referência a um universalismo incondicional”. Hummmmm…

    O que é que isso quer dizer eu não sei exatamente (mas suspeito!), mesmo porque li muito pouco de Zizek em profundidade. Do pouco que li, tive a impressão de que ele defende o terrorismo, esculhamba com a democracia e arrasa com o capitalismo. Com certeza acha que democracia e capitalismo são necessariamente incompatíveis. Imagino o que não proporia então para acabar com um em benefício do outro! Vide seu discurso em NY para os OCCUPY WALL STREET. Wow!

    Zamora, porém, me diz”… o que se apreende de uma leitura de Paulo sob esse viés é que o apóstolo ‘não é um patrimônio exclusivo dos cristãos e das igrejas e menos ainda dos teólogos’ ”. Mas exatamente como? Há uma obviedade enorme aqui, claro, a não ser que…

    Um comentarista anônimo em o blog do Aírton (Patos de Minas, professor de hebraico) acha que o comunista/terrorista de quatro costados Zizek não vale a pena. Como não conheço a fundo, não assinaria em baixo.

    Se Zamora, porém, acha PERVERSO O NÚCLEO do Cristianismo, eu acho 150 milhões de mortos (http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/a-filha-de-chavez-os-dolares-e-como-vivem-os-esquerdistas/) pelo comunismo no mínimo, é sinistro!

    Há muita coisa sobre Zizek na internet, escolhi uma para assistir. A partir dos 10:15 do vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=FJhFpKdNFnI) ele fala sobre terrorismo.

    Detalhe, a figura do homem que defende TERRORISMO trás estampada na camiseta a figura de uma pessoa muito especial justamente na área… terrorismo!

    PARA OS QUE NÃO CELEBRAM O NATAL, a recomendação seria aceita de bom grado por um André Comte-Sponville (p. 35 “O que resta do Ocidente cristão, quando ele já não é cristão” – in, O Espírito do Ateísmo). O preâmbulo do livro é fascinante. André não é amargo!

    O ponto desse longo arrazoado que já vai longe é esse: você não disse qual artigo ou livro que recomendava para a leitura de “vide” Zizek com respeito à abrangência de Paulo fora do mundo ‘teológico/exegético’. Poderia ter escolhido melhor, pelo menos para mim. Quero distância de Zamora e Zizek!

    É sinistro lembrar do Natal até para quem é ateu, como um Dawkins, servindo-se de uma figura (Zizek) que defende a própria destruição do Ocidente na forma e nas tradições que a conhecemos.

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