O que fazer diante de barreiras tão difusas? Não que eu queira delimitar à força o que deve ficar à esquerda ou à direita, mas tão somente me pergunto como viveremos sem discernimento? Como consolaremos sem clareza? Como esperaremos sem saber qual o próximo trem? Como nos prepararemos para o sol se a noite nunca passa?

Talvez eu consiga ler e interpretar a realidade a partir de lentes e ferramentas acadêmicas interessantes e reconhecidas. Mas isso não significa que eu poderei discernir a dinâmica da vida em seus surpreendentes tons de tragédia e alegria. Não significa que poderei acolher alguém em suas dores da alma. Muito menos me garante a revelação de segredos sobre céu e inferno, sobre amor e poder. Acreditar nessas ferramentas não é explicar a vida; pelo contrário, é reduzi-la.

Gostaria de conhecer mais homens e mulheres com discernimento. Não pessoas arrogantes que falam como se houvessem descoberto o último segredo da terra. Não pessoas mergulhadas na dúvida e nos tons impressionistas da confusão (“como pode um cego guiar outro cego”?). Gostaria de conhecer – e até ser amigo – de gente que enxerga a vida com honestidade. Não uma vida projetada pela auto-imagem ganha nos palanques ou nos púlpitos; na tela da TV ou na página de um jornal ou revista. De ilusão, a vida já está muito bem servida pelos competentes especialistas da tela grande e da telinha.

Eu suspeito que o discernimento é companheiro de caminhada da honestidade; e esta, por sua vez, não anda sem as mãos dadas à simplicidade. Minha impressão de hoje é que quanto mais palavras, mais confusão. Uma frase com discernimento vale mais que mil sem o tal.

Quanto menos discernimento temos, mais compramos (à vista ou a prestação) diálogos prontos, idéias pré-fabricadas, pensamentos moldados por quem não sabe diferenciar entre o claro e o escuro da existência humana. Novo verniz, mas velho recipiente. Novas palavras, mas velhos pecados.

Meu coração anda angustiado. Sinto que os tempos estão cada vez mais difíceis. A penumbra parece aumentar. O nevoeiro toma conta do horizonte. E o que peço a Deus é um pouco mais de discernimento para enxergar a luz, para viver radicalmente a vida de Cristo hoje e agora; lá e no futuro.

  1. Pior é que tem gente que parece ter prazer na penumbra e no nevoeiro! O pensamento delas é desconstrutivo, não consegue propor soluções ou alternativas, só problematizações! É a questão pela questão! A dúvida nunca foi tão exaltada e convicções esvaziadas!
    Quanta falta faz o equilíbrio de pessoas com discernimento!

    • Caro Carlos,
      Precisamos lembrar que o Cristianismo é baseado em uma revelação: o verbo que se fez carne. A verdadeira revelação dissipa o noveiro.
      Entendo, no entanto, que por causa da nossa própria corrupção, a compreensão desta revelação leva tempo, a vida toda, na verdade.
      Pela graça de Deus, olhamos fixamente para o autor e consumador da fé, e encontramos um Deus revelado, amoroso, compassivo e que nos ensina a viver.
      O nevoeiro existe, mas não podemos ser medíocres ao ponto de nos acostumarmos com ele.
      Que Deus nos dê discernimento!
      Grande abraço!

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