Brasileiros bem-vindos

Assim que nos apresentamos como brasileiros, a receptividade aumenta

Querida equipe da Ultimato*, 

Ontem, dia livre, saímos do hotel (Délnia, Lissânder, Marcos Orison e eu) e caminhamos por uma rua, em que não circulam carros, arborizada dos dois lados, com cerca de 1,5 km. Ao longo dela há vários edifícios históricos – o Centro do Livro e muitos outros. Há muitos pássaros na região e alguns esquilos, um dos quais comeu na mão da Délnia e subiu em suas costas. Esta rua termina ao lado da St. George Cathedral .
Foi desta igreja anglicana que saiu a Marcha para a Paz, em setembro de 1989. Há um pequeno museu com fotos da Marcha e outras sobre a luta pelos direitos dos negros. A igreja é muito imponente e bonita, pé direito altíssimo, muitos vitrais. Há uma grande escultura, na qual Maria é retratada como uma negra cheinha e Jesus, negro, está em seus braços. Ao lado um quadro de São George, um convite para que se ore ao ícon, e abaixo dele uma oração modelo.
As construções nesta área são todas no estilo europeu. Passeamos e fizemos algumas compras na feira de artesanato na Green Market Square. Muita variedade, beleza e cultura nestas pecas de vários países da África. Assim que nos apresentamos como brasileiros a receptividade aumenta. Sentimo-nos incomodados com a forma com que negociam seus produtos. Ao perguntarmos How much cust, eles nos dão o preco e logo aguardam um pedido de desconto. Mas não pára aí. Se a gente não compra, eles isistentemente nos perguntam: How much do pay? 

Há pedintes na rua. Estes são humilhantemente insistentes. A gente nega uma, duas, três vezes, mas eles continuam a andar ao nosso lado, com cara de doentes e com fisionomia de tristeza. A pobreza tira a dignidade. 

Disseram-nos que aqui bicicleta é um esporte nacional. Há lojas especializadas e alguns circuitos planejados. Disseram-nos também que caminhadas são muito comuns, algumas famílias aos sábados sobem a Table Montain

Comemos cachorro quente na rua. Um pão com uma salsicha enorme mais catchup e mostarda. Depois passamos mais de 2 horas em uma lan house apertadíssima, trabalhando. A esta altura, Marcos Orison já havia ido embora. 

Passeamos mais, vimos outros lugares bonitos, o tempo mudou, fez frio e choveu um pouco. Entramos para conhecer um restaurante, que é também pizzaria e padaria, com uma linda decoração. Na parede um quadro com várias frases sobre pão e comida. Fotografamos. O forno fica a vista e é todo ele revestido com pedacinhos de aluzejos coloridos. 

Este restaurante fica no Prédio Nelson Mandela. Na galeria interna há uma grande foto e várias frases inspirativas deste herói nacional (há esculturas, pinturas e artesanato com sua imagem em todos os lugares). Uma das frases é sobre coragem e sobre vencer o medo, o que levou Délnia a lembrar-se de uma frase de Eugene Peterson no livro Corra com os Cavalos e a mim da música do Milton Nascimento: “nada a temer senão enfrentar o medo”. 

Ao lado deste prédio há um outro onde está a sede de 5 jornais, talvez pertencentes todos a uma mesma rede. Nas paredes externas há uma rica exposição de fotos e a estampa de algumas capas dos jornais dos últimos anos. Riquíssimas as fotos jornalísticas! Fotografamos para lembrar de fazer algo semelhante no prédio da Ultimato. 

Comemos uma cheese cake de limão e um brawnie acompanhandos de café num local bem agradável. O proprietário é grego. Foram muitos gentis conosco. Puseram música brasileira no som. 

Num dos guias turísticos de Cidade do Cabo há uma seção que indica bares gays e há anúncios perto do Hotel que divulgam o Out in Africa, festival de filmes de gays e lésbicas. 

Regressemos ao Hotel quando escurecia. Paisagens lindas! O céu, as pedras no horizonte, as árvores, as construções, os pássaros, o dia morrendo e a noite chegando. 

Comentamos o quanto temos gostando daqui. Ao mesmo tempo compartilhamos um certo sentimento de culpa, pois isto aqui não é a África verdadeira. É Europa mais do que qualquer outra coisa. Aos negros, até pouco tempo, não lhes era permitido circular nesta áreas. 

Precisaríamos alternar estes passeios com passeios aos bairros pobres e a outras áreas onde estao os negros, para se ter uma ideia mais real daqui. O bispo Robinson Cavalcanti (uma enciclopédia ambulante) nos disse que Joanhesburg, uma das capitais da África do Sul, é como uma roda de bicicleta: no centro estão os prédios ricos, no final da roda estão os negros em Soweto, vivendo em condições de muita pobreza. 

Tudo isto tem a ver com o chamado “espírito de Lausanne” e com o tema do Congresso “Deus em Cristo reconciliando consigo o mundo”. 

* Carta de Klênia Fassoni para a equipe da Editora Ultimato

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