Quase 7 da manhã. Quarta-feira, início do meu terceiro e último dia em Recife (PE), e eu só havia visto a praia de longe. Daí minha resolução: acordar cedo e apreciá-la.

Sentei-me em uma cadeira da estrutura de madeira montada sobre as águas, e tentei ficar em silêncio para ouvir os sons que tanto gosto. Não fosse a sujeira deixada pelos boêmios da noite anterior e a presença incômoda de uma cadela grávida, eu teria conseguido me concentrar mais.
Ao sair, vi uma canoa chegando. Tive a ideia de ir ao outro lado e visitar a famosa praia de Mangue Seco (aquela aonde a novela Tieta foi filmada). Lembrei que não tinha dinheiro. Cheguei próximo de Chico, o dono do barco, e perguntei o preço de ida e volta. “Dois reais para ir e dois para voltar”. Revirei o bolso da minha mochila e encontrei, por sorte, 3 moedas de um real. Ele aceitou o novo preço e me levou até o outro lado.
Munido de minha máquina fotográfica e curiosidade, cheguei às margens da praia. Alguns pescadores, areia meio escura, e uma sensação de decadência. Caminhei vários metros para a direita, mas encontrei pouco encanto. Mato, sujeira, cachorros, alguns homens bebendo aguardente. As poucas casas existentes eram cercadas de grades e algumas com cãos de guarda. Nem pareciam casas de praia.
Segui em frente, procurando boas imagens para fotografar. Encontrei um pedaço de pano com vários rasgos, em fortes movimentos causados pelo vento. No fundo, um sol preguiçoso. Bati duas fotos da cena.
Caminhei um pouco mais, e encontrei uma fila de árvores em tamanho ordenadamente crescentes. Foi a foto que mais gostei.
Encontrei um jovem pescador que, apressado, contou-me a razão de ilha estar tão vazia de gente. “Ainda está cedo, e além disso os turistas gostam de vir no fim de semana”. Com uma vara nos ombros, o pescador seguiu em frente, como que não considerando interessante continuar conversando com um turista que fazia perguntas óbvias.
Cheguei então no local onde estavam os diversos bares-restaurantes. E percebi que ali sim é que os turistas ficavam, mas naquela hora do dia havia apenas um casal de namorados e um homem em outra mesa. As dezenas de palmeiras enfileiradas davam o ar turístico ao ambiente. Não pude seguir em frente; precisava voltar ao hotel para o início do evento em que participava.
Ao sentar-se no barco e tomar o caminho de volta à praia, comecei a conversar com Chico, o remador. Ele foi apontando as casas que pertenciam à família do dono de uma empresa de cimento. Casas lindas e com tamanhos desproporcionais às propriedades dos nativos de Mangue Seco. Ao perguntar a ele se o dono das casas ajudava de alguma maneira a população local, ele sorriu e respondeu, com ironia: “ajuda nada. Ele vem nos fins de semana, anda na lancha e vai embora”.
Voltei para o hotel com uma incômoda sensação de tristeza. A realidade de desigualdade do país se reproduz em cada espaço local. Uma vez, outra vez, sempre. Mais recentemente, na praia de Mangue Seco.
Curiosamente, fui à praia, mas não molhei os pés. As ondas me convidavam, mas sem razão aparente, não quis. Minhas sandálias continuaram secas, apesar de sujas de areia.
Cometemos o mesmo absurdo. Vamos à praia, tiramos fotos, mas não molhamos pés. Mangue Seco, em decadência, é um recorte de nosso Brasil, desproporcionadamente lindo e desigual.