Jesus e o nosso sofrimento

Jesus e o nosso sofrimento

Texto básico: Hebreus 2.17,18

Leitura diária
D Is 53.1-12 Fruto do penoso trabalho
S Mt 16.13-23 Perfeita consciência
T Mt 16.24-28 Tome a cruz e siga-me
QCl 2.8-15 O triunfo na cruz
QJo 16.25-33 Aflições e vitória
S Mt 26.31-35,56 A aparente solidão
S Hb 4.14-16 Acheguemo-nos a ele

Introdução

O Credo Apostólico declara que Jesus “Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado…”. Essa confissão, feita pela Igreja até os nossos dias, é ampla e fortemente embasada nas Escrituras. Estudemos agora o que a Bíblia nos ensina a respeito dos sofrimentos de Cristo e como esse aspecto tão visível em seu ministério terreno tem relação direta conosco.

I. As causas do sofrimento de Cristo

 A. O pecado humano

O pecado de nossos primeiros pais bem como o de toda a humanidade (Rm 3.23; 5.12), mergulhou a natureza em maldição e juízo (Gn 3.17-19; Rm 8.20-23); tendo agora o homem de arcar com as conseqüências de sua escolha, estando irremediavelmente perdido, impossibilitado de agradar a Deus, de se reconciliar com ele. Agora, o homem se tornou escravo do pecado, tendo a sua vontade governada por esse tirano (Jo 8.34).

É na impossibilidade do homem que muitas vezes ele se lembra do Deus Todo-Poderoso. O pecado do homem, permitido por Deus, pôs em andamento a execução histórica do plano eterno e sábio de Deus, para salvar o seu povo escolhido desde a eternidade. Sem o pecado não seria necessário o sacrifício de Cristo. As conseqüências do pecado foram levadas voluntariamente por Cristo na cruz, a fim de conduzir o seu povo de forma definitiva a vencer o mal.

B. A justiça e o amor de Deus

Deus sempre age em harmonia com o seu Ser. O homem é pecador e, por isso, precisa ser punido pela sua rebelião; a disciplina faz parte da execução da justiça divina. Por outro lado, em seu amor eterno e infinito, Deus deseja salvar o homem (Jr 31.3; Ef 1.3-14). A justiça de Deus é santa e o seu amor é real; a graça de Deus não é barata, o preço para ele foi alto. Ela é a própria fonte do evangelho; sem ela não haveria boas novas de salvação; todos nós herdaríamos as conseqüências eternas dos nossos pecados. Todavia, a graça reina e Jesus é a sua personificação; ele encarna a graça e a verdade (Jo 1.17; 14.6). Jesus é a causa, o conteúdo e a manifestação da graça de Deus; falar de Cristo é falar da graça. Desse modo, Deus tornou-se um de nós (Jo 1.14; Gl 4.4,5), a fim de resgatar-nos do poder e maldição do pecado.

Os sacrifícios do Antigo Testamento falam da iniciativa do Deus Justo e Amoroso que providencia a reconciliação de seu povo pecador consigo mesmo. Cristo, o Verbo Encarnado, é a plenitude desse processo. Mesmo no Antigo Testamento, os patriarcas, os profetas e o povo em geral foram perdoados, não porque ofereceram sacrifícios, mas sim, pela fé no Cristo que viria. A obra de Cristo envolve todos os crentes do passado, presente e futuro. Envolve todo o seu povo. Jamais houve ou haverá redenção fora do sacrifício único e vicário de Cristo. Sua obra é completa e suficiente.

É importante observar que a Bíblia não faz distinção entre o amor de Deus Pai, do Deus Filho e do Deus Espírito Santo. O sacrifício do Filho revela o amor do Trino Deus: o Filho morreu por nós porque o Trino Deus eternamente nos amou e confiou-nos ao Filho (Jo 3.16; 10.22-30; 15.16; 17.6-26; Rm 5.8; 1Jo 4.9). O Filho reconciliou-nos com o Pai e com o nosso próximo por meio da cruz (Ef 2.11-22; Cl 1.19,20).

C. A voluntariedade do Filho

A vinda de Cristo e todos os seus atos foram norteados pela sua obediência ao Pai, tendo sempre como meta glorificar a Deus e salvar o seu povo (Jo 4.34; 5.30; 6.38,39; 10.10-18; 17.1-8). Dessa forma, a obra de Cristo foi feita com espírito voluntário; ele assumiu o nosso lugar morrendo sob o estigma da maldição, resgatando-nos da condenação por sua livre graça (Gl 3.13,14). Assim, o que era impossível ao homem – ter acesso a Deus e expiar o seu próprio pecado –, Jesus realizou perfeita e vicariamente (1Pe 3.18; Hb 7.26-28; 9.23-28; 10.10-18).

II. A consciência de Jesus

Jesus tinha perfeita consciência do que teria de passar (Is 53), sabia que a sua vida de obediência espontânea ao Pai tinha como rota obrigatória a cruz. Ele sempre soube que não havia desvios nem atalhos; a cruz era a sua missão. Não que houvesse com isso um prazer na própria morte, mas, sim, a certeza de ser essa a única opção para a salvação de seu povo. As profecias do Antigo Testamento, na esteira de Gênesis 3.15, já indicavam as dores do Messias e ele as conhecia bem, já que tais profecias foram reveladas pelo Espírito de Cristo (Lc 24.26,46; Is 53.1-12; At 3.18; Jo 17.1-3; 1Pe 1.10,11). Por isso, após a declaração por parte de Pedro de ser ele o Cristo (Messias, Ungido; Mt 16.13-17), “…começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto, e ressuscitado no terceiro dia” (Mt 16.21; Mt 17.12; Lc 17.25). Jesus não tinha ilusões; por isso, ele administrava o tempo do qual era Senhor, levando adiante a sua obra, tendo ciência perfeita da sua hora; do momento de se revelar, ser preso, torturado, morrer e ressuscitar (Lc 22.14-16; Jo 7.1-9; 12.23-33; 16.32; 17.1).

III. A obediência perfeita

É possível que alguém assuma uma missão sem saber seu alcance, perigos e implicações; todavia, caso esses dados tenham sido ocultados propositadamente, ao tomar ciência deles, a tendência do ser humano é de se revoltar contra quem o enganou. Como já vimos, esse não foi o caso de Jesus; ele sabia perfeitamente o que teria de realizar e os sofrimentos pelos quais passaria; contudo, ele veio assim mesmo para cumprir a sua missão, conforme o Pacto selado na eternidade entre ele mesmo, como representante dos eleitos e o Pai, como representante da Trindade.

A grandeza da obediência de Cristo assume um papel ainda mais notável se atentarmos para o fato de que ele é igual ao Pai, mas, que abriu mão de sua glória para cumprir o seu ministério terreno (Fp 2.6-8). A obediência de Cristo foi em favor do seu povo; ele viveu em constante harmonia com a vontade do Pai; o preço da obediência era o sofrimento; assim nosso Senhor foi batizado, submeteu-se às leis do povo, foi ultrajado, torturado, contado entre os transgressores, morto e sepultado (Is 50.4- 7; 53.4-7; Jo 4.34; Hb 5.8).

A obediência de Cristo foi voluntária e ativa; se ele não se dispusesse a cumprir as demandas da lei em nosso lugar, apresentando um sacrifício perfeito, expiando os nossos pecados, a graça de Deus não seria diminuída; mas não haveria salvação para ninguém. Jesus foi o único homem que não precisava padecer, todavia, ele voluntariamente o fez por nós (Jo 10.17,18; Hb 2.9), deixando-nos exemplo (1Pe 2.21), a fim de nos conduzir a Deus em santidade (Hb 13.12; 1Pe 3.18).

IV. Intensidade e extensão

Quando assim pensamos nos sofrimentos de Cristo apenas no Calvário, nos esquecemos da extensão terrena dos sofrimentos que o acompanharam durante todo o seu ministério.

O que já foi estudado aqui realça ainda mais a extensão e intensidade dos seus sofrimentos. Basta recordar que o Logos eterno sempre soube dos seus futuros sofrimentos na carne (1Pe 4.1). Durante todo o seu ministério terreno, Jesus convivia numa atmosfera pecaminosa e hostil. Satanás o tentou mais de uma vez, inclusive usando o próprio Pedro (Lc 4.1- 13; Mt 16.21-23; Hb 2.18); a incredulidade do povo e até mesmo de seus familiares (Mt 17.17; Jo 7.5); as armadilhas das autoridades judaicas (Jo 11.47-52); a traição de Judas, a omissão de Pedro e o abandono de todos os seus discípulos (Mt 26.14-16,20-25,35,56; Jo 18.1- 11,15-18,25-27); o tipo de morte que teria, fazendo-se maldição em nosso lugar (Gl 3.13,14), etc., tudo isso contribuiu para intensificar a sua dor e sofrimento.

Embora santo, Jesus morreu como um maldito condenado (2Co 5.21); morreu em sacrifício por aqueles que nem ainda criam nele (Jo 1.29; 17.20,21; 1Co 5.7; Ef 5.2; Hb 7.14,27; 9.23,26; 10.12). Jesus tornou-se responsável por nós, levando sobre si os nossos pecados que lhe foram imputados; a justiça condenatória de Deus caiu sobre ele.

Os sofrimentos de Cristo foram físicos e espirituais (Mt 26.36-42; 1Pe 4.1); no Getsêmani, horas antes do seu martírio, ele sente o peso ainda mais forte da aproximação da experiência mais temida: a separação de Deus, que é a morte; a ira de Deus sendo derramada sobre ele, o Justo (Is 53.3), como representante do seu povo. Jesus, porém, entregouse à vontade do Pai, vontade determinante para ele e para o seu ministério. Nessa autoentrega está a vitória de Deus sobre o pecado e sobre Satanás, redimindo para si um povo comprado com o “sangue de Deus” (At 20.28; 1Co 6.20; 1Pe 1.18,19).

É impossível descrever de forma perfeita os sofrimentos de Cristo; ninguém jamais poderá aquilatar de forma completa as dores do Messias; elas foram únicas e suficientes. Mas todos os eleitos desfrutam dos benefícios salvadores da obra sacrificial de Cristo. A Igreja é o resultado efetivo e histórico do ministério sacrificial; o sacrifício de Cristo não foi em vão.

Conclusão

A Igreja é conclamada a participar dos sofrimentos e das vitórias de Cristo (1Pe 4.12-19). Um desafio constante a nós é deixar de olhar para o problema e concentrarmos a nossa atenção em Deus, colocando diante dele as nossas angústias, esperando nele a sua resposta. Davi, quando fugia de seu filho Absalão escreveu o salmo 3; ali ele narra o aumento de seus adversários e o juízo condenatório deles, no entanto, longe de se deter nisso, expõe a Deus as suas angústias, confiante de que Deus é o seu escudo, glória e salvação. Calvino (1509-1564) comentando essa passagem, diz: “Davi, assim, nos ensina, por meio de seu próprio exemplo, que, mesmo que o mundo inteiro, a uma só voz, tente infundir-nos desespero, em vez de atentar para ele, devemos, antes, dar ouvidos unicamente a Deus, e acalentar sempre a esperança da salvação que ele prometeu; e como os ímpios empregam seus esforços com o fim de destruir nossas almas, temos de defender-nos deles recorrendo às nossas orações”.[1]1

Aplicação

Jesus se identificou com as nossas fraquezas e tentações. Essa identificação foi possível porque ele se tornou “semelhante aos irmãos” (Hb 2.17; Hb 4.15). Cristo se identificou completamente com o homem. O socorro amparador de Deus deve ser um estímulo à nossa resistência na fé, a permanecermos firmes diante das variadas tentações que visam nos afastar de Deus e da sua Palavra.


Nota
[1] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 3.1-2), p. 83.

>> Estudo publicado originalmente na revista Palavra Viva, série publicada pela Editora Cultura Cristã. Usado com permissão.

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