Efeitos perniciosos da Queda nas relações entre homem e mulher

EFEITOS PERNICIOSOS DA QUEDA NAS RELAÇÕES ENTRE HOMEM E MULHER

 

Texto básico: Gênesis 3.12

Leitura diária
D Gn 1.26-27 Homem e mulher
S Gn 2.24-25 Uma só carne
T Gn 4.19-24 Primeiro relato de poligamia
Q 1Rs 11.1-8 A poligamia de Salomão
Q Mt 19.3-9 Compromisso exclusivo e vitalício
S Ef 5.22-33 Cristo e a igreja
S Ef 6.2-3 Preceito a ser respeitado

 

Introdução

Como a relação conjugal é a relação mais íntima que pode existir entre duas pessoas pelo fato de se tornarem as duas uma só carne, não é de se estranhar que ela também tenha sofrido as consequências danosas da Queda. Aliás, isso era de se esperar. Hoje, de modo muito acentuado, vemos a manifestação das consequências da Queda nos relacionamentos conjugais em geral. Na lição de hoje, veremos como era o relacionamento conjugal antes do cometimento do primeiro pecado, isto é, como ele era segundo o propósito de Deus, e veremos o estrago que o pecado fez nesta relação tão importante da vida humana.

I. A relação original

Originalmente, segundo a Escritura, homem e mulher viviam em completa harmonia. Quando, porém, o primeiro pecado foi cometido, esta relação também sofreu uma grave transformação, o que demonstra que ela também foi contaminada pelo pecado. Esta transformação pode ser percebida logo depois que é cometido o primeiro pecado. Compare a profunda intimidade existente entre a relação homem/mulher antes do pecado com sua relação depois do pecado. Antes do pecado, os dois se completavam mutuamente, formando uma só carne, e não sentiam vergonha um do outro porque sua interação era perfeita (Gn 2.24-25). No entanto, logo depois que o primeiro pecado foi cometido, Adão procura se justificar colocando a culpa na mulher: “A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi” (Gn 3.12). Isso mostra que a relação entre eles havia perdido sua perfeição original. Vejamos como isso aconteceu.

Tendo formado o homem do pó da terra (Gn 2.7), Deus viu que não era bom que ele ficasse só (Gn 3.18). Esta observação não foi feita pelo homem. Não foi o homem que reclamou com Deus que não queria ficar sem uma companheira. Foi o próprio Deus quem enxergou esta necessidade no homem que havia criado e tomou a iniciativa de supri-la. Isso acontece porque Deus é uma pluralidade perfeita dentro de uma unidade perfeita: ele é três em um, o Deus triúno: um só Deus, que subsiste em três pessoas, iguais em poder majestade e glória, e que se relacionam entre si dentro da própria divindade. Tendo sido formado à imagem e semelhança de Deus, o homem não podia ficar sozinho. Ele não foi feito para ser solitário. Ele precisa de uma companheira que seja idônea, isto é, do mesmo tipo e da mesma qualidade que ele.

Para suprir a necessidade do homem, Deus tomou a decisão de fazer para ele uma auxiliadora idônea. Ninguém, no entanto, deve imaginar que ser uma “ajudadora” seja algo depreciativo para a mulher. O que deprecia o ser humano em geral e a mulher em particular é o pecado, não a ação graciosa de Deus. O termo “ajudador” é usado para descrever Deus em seu apoio a Israel (Êx 18.4; Dt 33.7; Sl 20.2; 124.8). Embora as traduções portuguesas tragam os termos “ajuda” e “socorro”, permanece o fato de que Deus, nestes textos, é revelado como aquele que ajuda Israel e isso de modo nenhum é algo depreciativo para ele. Pelo contrário, ele é louvado por estar presente com seu povo em todos os momentos, inclusive nos momentos de maior angústia, quando os crentes se refugiam nele e encontram abrigo seguro.

Nas relações entre homem e mulher, a função da ajudadora é complementar o homem. A mulher é a contraparte do homem e, como sua contraparte “idônea”, isto é, do mesmo tipo e da mesma qualidade, ela foi criada pelo mesmo Deus, tem a mesma natureza de seu companheiro (foi criada da mesma matéria que ele) e, assim como ele, é portadora da imagem de Deus (Gn 2.22; 1.27). Esta é a dignidade com que a mulher foi criada por Deus.

Antes, porém, de criar a mulher, Deus faz com que o homem sinta falta dela. Para isso, ele dá ao homem a tarefa de dar nome aos animais (Gn 2.19). Enquanto Adão cumpria sua tarefa, conhecendo os animais para dar-lhes nome segundo suas características, ele percebeu que os animais haviam sido criados como macho e fêmea, mas não havia uma fêmea que fizesse par com ele mesmo. Ele não tinha uma companheira. Por isso, ao fim de sua tarefa, o homem percebeu que lhe faltava uma companheira (Gn 2.20). Deus estava preparando o homem para receber e valorizar sua companheira.

O fato de a mulher ter sido criada a partir da costela de Adão também não é depreciativo para ela. Isso significa apenas, como já foi mencionado, que ambos possuem a mesma matéria. O universo foi criado do nada, mas Adão não. Ele foi criado do pó da terra. Eva também não foi criada do nada. Ela também não foi criada do pó da terra para que ninguém imagine a possibilidade de cada um ter sido criado de um tipo de terra diferente e, assim, tentarem afirmar que homem e mulher não são seres humanos da mesma categoria. Eva foi criada a partir de uma parte do corpo do homem para deixar claro que ambos compartilham a mesma carne, isto é, são exatamente do mesmo tipo e da mesma qualidade como seres humanos.

Tendo criado a mulher, Deus a trouxe ao homem, instituindo, assim, o casamento. A relação matrimonial foi estabelecida na forma de uma aliança pública entre o homem e a mulher. Deixar pai e mãe e unir-se à mulher é um reconhecimento público da existência de uma aliança cujo estabelecimento requer uma declaração pública diante de Deus, do povo de Deus (a igreja), da família e até do Estado.

II. Casamento, cerimônia e cultura

É importante abordar a questão cultural envolvida no casamento porque, por incrível que pareça, grande número de cristãos confundem o valor do casamento com o valor da festa ou com a suntuosidade da cerimônia. Muitos cristãos pensam que a única forma pela qual um casamento deve começar é realizando-se uma luxuosa cerimônia na qual nenhum detalhe pode estar ausente: buquê, tapete vermelho, flores por toda a igreja, enfeites de várias formas e tamanhos acomodados pelo templo e pelo salão… mas será mesmo que é esta a essência do ensino bíblico sobre casamento?

Considerando a ausência que qualquer detalhe sobre a cerimônia de casamento nas Escrituras (buquês, vestidos, daminhas, etc.) e a variedade de costumes adotados ao longo da história cristã, podemos, de fato, afirmar que existe somente um modo certo de se realizar um casamento?

Nas sociedades ocidentais contemporâneas, o casamento acontece por iniciativa de um casal que está convencido de que se ama (pelo menos isto é o normal), como aconteceu no caso de Jacó e Raquel. Em alguns casos, o casamento ocorre sem o consentimento ou até mesmo sem o conhecimento dos membros da família. Isto é muito importante, especialmente para os cristãos, pois eles devem seguir o princípio de honrar pai e mãe (Êx 20.12; Ef 6.2-3). Em muitas outras culturas, os casamentos são arranjados através de acordos familiares, como aconteceu no caso de Isaque e Rebeca. Eles só se conheceram quando Rebeca estava chegando “de mala e cuia” para se casar com ele. Quanto a isso, não há uma norma na Escritura. Portanto, podemos ter convicções pessoais sobre isso, mas não podemos rejeitar quem tem uma convicção diferente da nossa. O fato é que, nos dois casos, os cônjuges precisam honrar a aliança conjugal que foi estabelecida.

Os conceitos de casamento também foram afetados pelo aumento da expectativa de vida. Até pouco tempo atrás, a promessa “até que a morte os separe” era equivalente a uma média de vinte e cinco anos. A estimativa de vida era bem mais baixa do que hoje e poucos casais faziam cinquenta anos de casamento porque, geralmente, um dos cônjuges morria antes disso (havia uma alta taxa de mortalidade de mulheres durante o parto e uma grande quantidade de homens morria durante as guerras). Hoje, a expectativa de vida de um homem é de cerca de 77 anos. Isso significa que, se um casal se casar quando os noivos tiverem vinte anos e ambos viverem até o limite da sua expectativa de vida, eles terão mais de cinquenta anos de casados, certo? Errado. Se, no passado, poucos casais conseguiam comemorar Bodas de Ouro por causa da mortalidade, hoje, poucos casais conseguem isso por causa do divórcio. Esta mudança ocorrida na sociedade, porém, não invalida o fato de que o propósito de Deus é que a aliança matrimonial seja permanente.

Isto torna necessário que os noivos entrem no casamento de modo realista, prontos para crescer, adaptar-se e mudar. Muitos, porém, não estão dispostos a isso e enxergam o casamento como um companheirismo temporário, que, como diz o poeta, “não seja eterno, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”1. Posições como estas consideram o casamento apenas como um acordo entre dois indivíduos, com pouco ou nenhum aspecto de instituição divina.

Há, porém, sociedades que enxergam o casamento em si como algo comunitário, uma poligamia. Na África, por exemplo, isso é comum em muitas tribos. Os missionários que trabalham com estas tribos enfrentam grande dificuldade para lidar com grupos poligâmicos (um marido e várias esposas) quando alguém dentro do grupo se converte. Além da poligamia oficial, isto é, estabelecida em sociedades que possuem este elemento em sua cultura, há uma forma moderna de poligamia com a qual temos que lidar. Trata-se da prática de troca de casais, na qual vários casais se unem para manter relações sexuais em grupo.

Os praticantes desta atividade sexual alegam que não há traição porque tudo é feito de comum acordo. No entanto, embora esta forma de relacionamento seja consensual, ela não reflete o ideal de Deus para a relação conjugal.

Diante de tudo isso, como podemos definir o conceito bíblico de casamento? Casamento é uma festa? É um vestido branco? É um tapete vermelho? É o ajuntamento de um casal? De acordo com o ensino bíblico, casamento é um compromisso vitalício e exclusivo estabelecido entre um homem e uma mulher (Mt 19.3-12). Os detalhes sobre a forma como é feita a escolha dos cônjuges e como a cerimônia deve ser realizada não são definidos na Escritura, o que nos dá uma certa liberdade, desde que os preceitos que encontramos na Escritura não sejam contrariados. O estudo destes preceitos levou a igreja a definir os “bens” que o casamento oferece (procriação, companhia e intimidade sexual) e a explorar seu sentido, significando a união entre a Igreja e Cristo (Ef 5.32).

Diante de tudo o que foi exposto nesta divisão, percebe-se que uma variedade de expressões culturais é permitida na cerimônia e na vivência do casamento, sem que os preceitos bíblicos sejam quebrados. Por exemplo, nas cerimônias de casamento realizadas na igreja, qual é a importância de a noiva entrar com o pai, sozinha ou com o noivo? Com ou sem daminhas? Com um buquê de rosas ou de flores do campo? Como o custo de todo o aparato de uma cerimônia de casamento e de uma festa de casamento, que envolve uma dívida grande e longa, deve ser visto pela perspectiva da mordomia cristã? Qual relação existe entre o casamento e o noivado? O noivado precisa ser longo? Quanto tempo um casal precisa namorar antes de se casar?

Questões como essas ilustram aquilo que não é encontrado nos preceitos bíblicos acerca do casamento. Acredito que muitos cristãos tenham convicções sobre tudo isso, mas é preciso que eles saibam respeitar aqueles que têm convicções diferentes, já elas, neste caso, são apenas expressões da preferência pessoal.

III. A relação depois do pecado

O texto de Gênesis 4.19-24 narra o cometimento do primeiro grande atentado contra o modo como o Senhor havia instituído a relação conjugal antes do pecado. Este é o primeiro registro bíblico que menciona a poligamia. Lameque, um dos descendentes de Caim, tomou para si duas esposas, em vez de uma, como Deus planejou e instituiu. O nome de uma era Ada, com quem teve dois filhos: Jabal e Jubal. O nome da outra era Zilá, com quem tem um filho e uma filha: Tubalcaim e Naamá.

Este afastamento da vontade de Deus ocorreu tanto na linhagem de Caim, como vemos aqui, quanto na linhagem de Sete. Lembrese, por exemplo, da poligamia de Abraão e de Jacó. Abraão era marido de Sara, que era estéril. Ansioso pelo cumprimento da promessa de Deus, que havia lhe dito que lhe daria uma descendência numerosa, Abraão aceitou a sugestão de Sara para que tivesse um filho com Agar, sua escrava egípcia. Ismael foi gerado nesta relação ilícita (Gn 16.1-16). Jacó teve uma relação poligâmica mais definida e mais ousada. Ele se casou com Raquel e com Lia, as duas filhas de Labão. A Escritura tem a virtude de não esconder os pecados dos grandes vultos da fé. Tendo reconhecido o pecado como um mal que atinge toda a humanidade, ela nunca se preocupa em tentar apresentar homens e mulheres de fé como se fossem perfeitos. A prática da poligamia se alastrou pela linhagem de Caim e também pela linhagem de Sete, tornando-se bastante comum. Há até mesmo um mandamento na lei de Moisés que tem o objetivo de salvaguardar o direito de primogenitura do filho da mulher que não fosse a preferida. De acordo com este preceito da lei, o pai não podia dar o direito de primogenitura ao filho da mulher preferida se ele não fosse, de fato, o filho mais velho (Dt 21.15-17). Isto mostra o quanto esta prática era comum. No entanto, o fato de ser comum não significa, de modo nenhum, que esta fosse uma prática certa ou que esta prática estivesse de acordo com o propósito de Deus para o matrimônio. Este propósito foi afirmado com clareza em Gênesis 2.24: “Deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne”. Este propósito é retomado no Novo Testamento, onde não encontramos uma só referência que pareça ou sugira a inclusão de mais de duas pessoas no relacionamento conjugal (Mt 19.3-9). Além disso, somente a monogamia, isto é, a relação conjugal entre um marido e uma esposa, faz justiça ao ensino bíblico sobre a companheira idônea, isto é, uma companheira do mesmo tipo e da mesma qualidade do marido.

Conclusão

Deus instituiu a relação conjugal. Ela é uma das grandes bênçãos que recebemos de Deus. O propósito de Deus para o casamento é que homem e mulher se complementem mutuamente em uma relação pactual vitalícia e exclusiva. No entanto, esta importante relação humana, assim como todas as outras, também foi atingida pelos efeitos perniciosos da Queda, por isso, encontramos nela, hoje, todos os tipos de distanciamento do propósito para o qual Deus a criou e também aqui precisamos agir de modo a minimizar as consequências temporais do pecado e nos aproximar o máximo possível do propósito de Deus para o casamento.

Aplicação

– Você percebeu como o pecado contaminou a relação conjugal instituída por Deus?
– Você consegue fazer uma lista com cinco formas pelas quais o pecado pode desvirtuar o relacionamento conjugal instituído pelo Senhor?
– Como um casal pode se manter dentro da vontade de Deus a esse respeito?

>> Estudo publicado originalmente pela Editora Cultura Cristã, na série Palavra Viva – Ser humano e a queda. Usado com permissão.

1. Vinícius de Morais. Soneto de Fidelidade

 

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Um comentário para “Efeitos perniciosos da Queda nas relações entre homem e mulher”

  1. DANÚBIO VELLOSO 15 de outubro de 2014 at 10:45 #

    SIMPLESMENTE, ESPETACULAR ESSES ESTUDOS !!
    PARABENS, COMO ME ALIMENTOU E MELHOROU MEUS CONHECIMENTOS NA PALAVRA.
    ABRIGADO.

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