A batalha contra a carne

A batalha contra a carne

Texto básico: Mateus 26.36-46

Leitura diária
D – Jo 1.1-14 – O Verbo se fez carne
S – Ec 9.3 – Coração cheio de maldade
T – Mt 15.1-20 – Do coração procede o mal
Q – Cl 2.16-19 – A mente carnal
Q – Gl 5.16-21 – As obras da carne
S – Gl 5.22-26 – O fruto do Espírito
S – Ef 5.3-21 – O mal sequer se nomeie

Introdução

“O espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26.41). Essas palavras expressam uma luta interior que é uma realidade para cada filho de Deus. O Novo Testamento fala de uma guerra entre a carne e o espírito. A carne é parte da tríade de inimigos de Lutero: o mundo, a carne e o diabo. O que é, então, a “carne” da qual a Escritura fala? O que ocorre com a carne que pode afastar um crente de uma vida centralizada em Deus e que agrada a Deus?

I. A carne – física ou caída?

Em nosso dia a dia, quando usamos a palavra “carne”, geralmente estamos falando de nossa natureza física. A palavra “carne” se refere à substância que compõe nosso corpo. Falamos de pessoas que são parecidas “na carne”, de “carne e sangue” e de família, que é “minha própria carne”.

Como nossa carne humana é algo físico, somos tentados a ver a luta bíblica entre a carne e o espírito como se referindo a uma luta entre o corpo e a alma. Pensando assim, criamos uma divisão entre o que é físico e o que é espiritual. Depois, consideramos mau tudo o que é físico e tem a ver com a carne, e consideramos bom tudo o que é espiritual e tem a ver com o espírito. Porém, essa é uma interpretação incorreta. Tanto o que é físico ou material quanto o que é espiritual foi criado por Deus como sendo muito bom (Gn 1.31). Com a Queda, tanto a matéria quanto o espírito passaram a sofrer os efeitos do pecado e a precisar de redenção. Como demonstração de sua graça e para sua própria glória, Deus providenciou redenção em Cristo para o ser humano inteiro (corpo e alma), de modo que, quando a obra de redenção estiver totalmente consumada, os salvos estarão para sempre com ele, no reino eterno, de corpo e alma. A própria criação será redimida. Portanto, não há nenhum fundamento bíblico para essa divisão entre o físico considerado como algo mau e o espiritual considerado como algo bom. Em termos bíblicos, às vezes a palavra “carne” se refere ao corpo e, em outras, dá um sentido diferente. Tentaremos mostrar os diversos modos em que a Bíblia usa essa palavra.

No Novo Testamento encontramos duas palavras gregas que geralmente são traduzidas pela palavra “carne”. As duas palavras gregas são soma e sarx. A palavra soma é normalmente usada para fazer referência ao corpo físico. Normalmente, a palavra soma no Novo Testamento não tem um sentido de pecaminosidade. É simplesmente a palavra usada para fazer referência ao corpo físico.

Com a palavra sarx, a coisa é diferente. Às vezes, a palavra se refere claramente ao corpo físico, mas, em outras ocasiões, à natureza humana caída.

Quando o Evangelho de João diz que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14), isso não significa que o Verbo (Jesus) assumiu a natureza humana caída. Significa simplesmente que o Logos eterno, o Verbo, atribuiu a si mesmo uma natureza humana. O Verbo se encarnou. Da mesma maneira, Paulo fala de seus compatriotas “segundo a carne” (Rm 9.3). Aqui ele está se referindo não à humanidade caída, mas ao seu próprio povo, os judeus, como membros da mesma nação que ele. A parentela de Paulo segundo a carne são seus companheiros israelitas. O apóstolo fala exatamente como nós, quando nos referimos aos nossos parentes como nossa “própria carne”.

Porém, na Bíblia, existem ocasiões especiais em que a palavra sarx é usada para fazer referência especialmente à nossa natureza caída. Nesse caso, sarx descreve nossa corrupção, que de maneira nenhuma está limitada ao nosso corpo. O ser humano inteiro está caído. O pecado contamina cada aspecto de nossa existência. Ele se alojou no coração humano: “O coração dos homens está cheio de maldade, nele há desvarios enquanto vivem” (Ec 9.3). Jesus ensina que “do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mt 15.19). Por natureza, temos uma “mente carnal” (Cl 2.18). A mente e a carne estão igualmente caídas. Ambas estão ajustadas para agradar a nós mesmos, não a Deus.

II. A mente carnal

A expressão “mente carnal” não se refere simplesmente aos “maus pensamentos sobre vícios físicos”, como bebedeira, glutonaria e fornicação, por exemplo. A mente carnal envolve um propósito determinado contra Deus. Essa é a mente de uma humanidade caída, que não quer Deus em seus pensamentos. É a mente de uma pessoa que não é guiada pelo Espírito Santo.

Paulo fala sobre uma guerra contínua entre a carne e o Espírito.

Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne. Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer. Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais sob a lei. Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissenções, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam. (Gl 5.16-21)

O contraste aqui não é entre a carne e o espírito humano, mas entre a vida que serve à carne, isto é, à natureza humana caída, e a vida guiada pelo Espírito.

Aqui vemos o nítido contraste entre a carne e Espírito. Não é um conflito entre o corpo e a alma, mas entre o velho homem, que é guiado pela sua natureza humana degenerada, e o novo homem, cheio do Espírito de Deus. Carne e Espírito estão em conflito irreconciliável. Nossa natureza caída resiste ao domínio do Espírito Santo e procura dominá-lo. Da mesma maneira, o Espírito é inimigo da carne. Ele anseia pela glória de Deus, que a carne abomina, e procura gerar seu fruto, que também é apresentado em uma lista em Gálatas 5.22-23: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio”.

O contraste é visto claramente nas duas listas (Gl 5.20-21; 22-23). A segunda lista, que apresenta o fruto do Espírito, é bem conhecida pelos cristãos. Por enquanto, porém, vamos manter nossa atenção na primeira lista, que apresenta as obras da carne.

Quando examinamos a lista das obras da carne, um elemento não deve passar despercebido. A lista inclui pecados que envolvem nosso corpo e pecados que são de caráter não físico. Na lista encontramos prostituição e bebedice. Esses são pecados que cometemos com nossos apetites físicos e funções corporais. Na mesma lista encontramos referência a ciúme, inveja, idolatria e coisas semelhantes, que são pecados do coração.

Concluímos, então, que, quando o Novo Testamento fala da carne em contraste com o Espírito, a referência não é ao nosso corpo físico, mas à nossa natureza pecaminosa, que inclui a pessoa toda. É o conflito entre dois estilos de vida: a vida da carne, que é controlada pela tendência ao pecado; e a vida do Espírito, que nos leva à retidão, a agradar a Deus.

III. Controlado pelo Espírito

É essencial entendermos este ponto para não cairmos no erro mortal de pensar que a justiça consiste principalmente em expressões físicas exteriores. O reino de Deus envolve muito mais do que comida e bebida. Se dermos atenção somente às coisas exteriores, corremos o risco de cair na cilada do farisaísmo, que mede a justiça pelas ações exteriores. Um sorriso doce pode ocultar um espírito invejoso. O Espírito Santo busca limpar toda a nossa vida, tanto exterior como interiormente.

Ao mesmo tempo, devemos nos guardar do erro oposto, isto é, restringir a justiça à esfera interior. Podemos nos enganar ao pensar que tudo o que importa é a atitude interior. Contanto que nosso espírito esteja correto, não importa como agimos exteriormente. Esta é uma forma traiçoeira de autoengano. Por meio dela, as pessoas buscam justificar todo tipo de pecado. Dizemos a nós mesmos que o “amor” justifica o adultério (repare o quanto esse pensamento popular é explorado em filmes e novelas). O adolescente justifica sua fornicação dizendo que foi cometida por amor.

Também é importante compreender que, embora a palavra “carne” não se refira exclusivamente às inclinações ou aos pecados físicos, também os inclui. Nossos apetites e inclinações são forças poderosas em nossa vida, corrompidos e influenciados por nossa natureza caída.

O Espírito busca nos ensinar o domínio próprio. Somos chamados por Deus para dominar nossos desejos e mantê-los sob vigilância. O desejo de comer não é, em si mesmo, pecado, mas uma função normal do nosso corpo. Contudo, quando esse desejo fica fora de controle, permitimos que a glutonaria entre em nossa vida.

O impulso sexual também é um apetite natural que, em si mesmo, não é pecado. Deus proporciona o casamento como o contexto no qual a expressão do sexo é não somente permitida, mas ordenada. Temos direitos e responsabilidades conjugais. Fora do casamento, porém, devemos nos abster das atividades sexuais. Deus criou o sexo. Deus fez o corpo com inúmeras terminações nervosas que são altamente suscetíveis ao estímulo físico.

Deus poderia ter nos criado sem a capacidade de sentir prazer no contato físico. Também poderia ter nos criado sem a capacidade de sentir os prazeres do paladar. Contudo, o Criador escolheu um caminho mais excelente. O sexo, com todos os seus deleites físicos, e o paladar, com todos os seus prazeres, são dádivas de Deus. Contudo, a dádiva veio para nós com restrições. O pecado não é o uso das dádivas, mas o mau uso delas, é o uso delas de um modo que Deus não permite.

O domínio próprio é a regra da sexualidade. Somos responsáveis diante de Deus por nosso comportamento sexual. A Escritura declara: “Mas a impudicícia e toda sorte de impurezas ou cobiça nem sequer se nomeie entre vós, como convém a santos” (Ef 5.3). Essa proibição absoluta tem sido atacada por muitos argumentos seculares. Pode ser extremamente difícil para uma pessoa permanecer casta, particularmente em uma sociedade em que nossos sentidos são diariamente bombardeados por estímulos eróticos. Mas a lei de Deus é clara. Ela diz: “Não!” Ele nos chama para exercer o domínio próprio mesmo no meio de uma sociedade caída.

A castidade sexual é difícil de ser obtida por causa da fraqueza da nossa carne. Mas ela é possível, e Deus ordena que a busquemos. Se falharmos, cometemos pecado. Embora devamos ser pacientes com aqueles que caem no pecado, não fazemos favor a ninguém se mudarmos os padrões de Deus, baixando-os até nossos fracos níveis de desempenho. É escandaloso para Deus que mudemos seus padrões e chamemos o mal de bem e o bem de mal.

Conclusão

A carne é uma aliada do mundo. Ela busca sua justificação não por meio da justiça de Cristo, mas pelos padrões deste mundo. A carne é aliada do mundo e o mundo é aliado de Satanás. Aqui o inimigo busca nossa destruição, chamando-nos para longe do Espírito, para que nos rendamos à carne.

Porém, o Espírito é aliado do crente. Como é triste que todos os dias sejamos lembrados da aliança de nossa mente e nosso corpo com este mundo caído, enquanto nos esquecemos de que os filhos de Deus têm também o Espírito Santo para ajudá-los. Em um mundo em que a carne parece governar a atividade humana, o Espírito ainda está presente, capacitando o povo de Deus a agradá-lo.

Aplicação

Você consegue identificar em sua vida alguma área em que esteja perdendo a batalha contra a carne? Quando suas tentações são mais fortes? Quais são suas maiores dificuldades para controlar seus impulsos e apetites?

>> Estudo publicado originalmente pela Editora Cultura Cristã, usado com permissão.

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Um comentário para “A batalha contra a carne”

  1. Valmir Gomes dos Santos 28 de dezembro de 2016 at 7:11 #

    Sempre mostrei aos irmãos que não poderíamos dividir um ser criado por Deus e perfeito,em duas partes. Um ser completo, livre, dentro da soberania do Criado,não pode ser resumido à algo dividido e vivido como em duas dimensões distintas.

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