Lembrar é preciso: os marcos memoriais do povo de Deus

Lembrar é preciso: os marcos memoriais do povo de Deus

SÉRIE REVISTA ULTIMATO
Artigo: A igreja e a (pós) pandemia, Ultimato 384

 Texto básico: Deuteronômio 16. 1-17

 Textos de apoio
– Êxodo 12. 1-20, 34.22
– Levítico 23. 33-43
– Isaías 1. 10-17
– Lucas 2. 41-47
– Atos 2. 1-11
– Salmos 145. 4-13

Introdução

Perdoem-me pelo pleonasmo, mas é de fundamental importância atentarmos para os “marcos” que marcam a nossa vida! Eles podem se repetir de tempos em tempos, como as datas comemorativas ou as festas religiosas. Ou podem ter se apresentado uma única vez. Isso não é o mais importante. O que importa é que cada um destes “marcos”, ao serem (re)visitados, nos convidem a rememorar a presença e intervenção de Deus na nossa história e no mundo em que vivemos. Ele é o Emanuel, o “Deus com a gente”!

Os “marcos memoriais” arejam a nossa mente, movimentam os nossos afetos e revitalizam a nossa esperança. Eles podem nos ajudar a “tomar distância” do cotidiano muitas vezes caótico e sem sentido, e nos fazer experimentar o mesmo consolo do profeta Jeremias diante de sua tristeza, solidão e sofrimento: “Mas a esperança volta quando penso no seguinte: o amor do Senhor Deus não se acaba, e a sua bondade não tem fim. Esse amor e essa bondade são novos todas as manhãs, e como é grande a fidelidade do Senhor!” (Lamentações 3. 21-23, NTLH).                  

Qual a importância das principais festas judaicas como “marcos memoriais” da ação de Deus na vida e história do seu povo? Que valores e percepções estas celebrações procuravam “imprimir” na consciência e na visão de mundo dos israelitas? E nós, o que podemos aprender aqui sobre os nossos próprios “marcos memoriais” e sua relação com a adoração a Deus?        

Para entender o que a Bíblia fala

1. O livro de Deuteronômio (“dêuteros nomos” = “uma segunda lei”, termo oriundo da Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento) apresenta uma “repetição da aliança para uma nova geração de israelitas imediatamente antes da conquista [da terra prometida]” (Gordon Fee e Douglas Stuart, Como Ler a Bíblia Livro por Livro, Vida Nova). O que a celebração anual destas três festas, citadas em nosso trecho de estudo, buscavam preservar (vv. 1, 3b, 12, 15, 16)?

2. As três festas estavam distribuídas ao longo do ano: Páscoa/pães sem fermento, em abril, para celebrar o êxodo do Egito; festa das semanas (ou “pentekoste” = 50 dias, segunda a Septuaginta), em junho, para celebrar a entrega da lei; e festa das tendas (dos tabernáculos), em outubro, como ação de graças pela colheita. Que efeitos este “calendário litúrgico” poderia desencadear na visão de mundo (cosmovisão) do povo de Deus? Que valores (ou virtudes) eles aprenderiam a desenvolver?

3. Obviamente, mais importante do que o calendário em si, era o “espírito” com que os israelitas deveriam celebrar cada momento. Que sentimentos ou atitudes o povo deveria cultivar durante as celebrações (vv. 3, 8, 10-12, 14-15)?

4. Qual a importância de celebrarem as festas em comunidade, não se esquecendo das pessoas socialmente vulneráveis (“estrangeiros, órfãos e viúvas” – vv. 7, 11, 14)? O que isso nos revela sobre o caráter de Deus?

5. O convite de Deus era para todo o povo (v.16)? Porque ninguém poderia se ausentar com a justificativa de que não possuía recursos para uma “oferta digna” (vv. 16b-17)?

Para Refletir

“Há vários marcos memoriais citados na história do povo de Israel: um monumento – ainda que seja um pequeno amontoado de pedras –, uma nova canção ou poema, paramentos, um novo nome para uma mesma pessoa, uma nova forma de designar um lugar, a instituição de festas e de alimentos específicos para ocasiões específicas, entre outros. A maior parte desses marcos é executada a partir de uma ordem de Deus. As gerações seguintes, ao ver o marco memorial, se lembrariam não só do fato para o qual ele aponta, mas também das lições aprendidas e do caráter de Deus.” (Introdução à matéria de capa, Ultimato 384)

“O festejo liga o ser humano às suas raízes. (…) Assim, a celebração das festas é necessária à vida, nos dá a força de que precisamos para comandar nossa vida. Mas não podemos celebrar aleatoriamente. Uma verdadeira festa é aquela que dá vida, aquela que expressa algo capaz de proporcionar uma visão nova de nós mesmos e do nosso viver, um novo sentimento de existência. Na visão dos antigos, a única festa genuína era aquela que celebrasse Deus e seus atos. Uma festa totalmente profana era, para eles, inconcebível. Uma festa que eu celebro por puro prazer, uma espécie de ‘party’ a que compareço atrás de divertimento, não tem nada a ver com o conceito de festa dos antigos. Eles se reuniam em festas associadas a algo além deles mesmos, um ato de Deus, um acontecimento sagrado; e desejavam, na festa, tomar parte desses feitos, queriam renovar-se através da festa, reafirmar sua condição humana pela celebração de um ato divino, como gente conhecedora de sua dignidade, das próprias raízes e capacidades, gente que não vive no esquecimento nem leva uma vida diária desprovida de espírito.” (Anselm Grun e Michael Reepen, em O Ano Litúrgico como ritmo para uma vida plena de sentido, Editora Vozes)

Para Terminar

1. Você tem preservado alguns “marcos memoriais” em sua vida pessoal, familiar, comunitária (igreja, cidade…) que lhe ajudam a celebrar, de tempos em tempos, a presença e ação de Deus em sua história de vida? Que tipo de “renovação” esses “marcos” têm produzido em você, e nas pessoas próximas?

2. Em seu contexto de vida (família, igreja, vizinhança…), como tem sido a celebração de eventos importantes do calendário litúrgico cristão – Advento, Natal, Epifania, Semana Santa, Páscoa, Ascensão de Cristo, e outros? Somente um “feriado a mais”, ou um momento significativo que lança luz sobre os atos divinos que trazem um novo frescor à sua existência (sua identidade, seu trabalho, seus relacionamentos…)? Se não tem sido assim, que contribuições simples você poderia fazer, no seu contexto, para promover uma celebração mais “sagrada” (“mais voltada a Deus”)?

Eu e Deus

Lembrem-se disso os confins de toda a terra,
para que voltem ao Senhor e se convertam,
e se prostrem, adorando, diante dele,
todos os povos e as famílias das nações.
Pois ao Senhor é que pertence a realeza;
ele domina sobre todas as nações.
Somente a ele adorarão os poderosos,
e os que voltam para o pó o louvarão.
Para ele há de viver a minha alma,
toda a minha descendência há de servi-lo;
às futuras  gerações anunciará
o poder e a justiça do Senhor;
ao povo novo que há de vir, ela dirá:
“Eis a obra que o Senhor realizou!”
(Salmo 22. 28-32 – no Saltério Monástico, Abadia da Ressurreição, 2011)

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