Eles sofrem por que são maus? [uma reflexão bíblica sobre o sofrimento]

ELES SOFREM POR QUE SÃO MAUS?
— uma reflexão bíblica sobre o sofrimento

 

INTRODUÇÃO

A dor da tragedia

As consequências do terremoto no Haiti, em 2010, e as milhares de pessoas mortas provocaram um certo desconcerto do mundo inteiro. E, além disso, nos fazem temer pelas pessoas que ficaram vivas. Nos faz doer os mortos e nos preocupam os vivos.

À dor da tragédia se soma também a dor das declarações concedidas por alguns líderes cristãos como o do Tele-evangelista Pat Robertson, que afirmou que o terremoto é uma forma de juizo divino pelas práticas satânicas dos haitianos, ou a do Bispo Católico Jose Ignacio Munilla, de San Sebastián, Espanha, que com evidente falta de sensibilidade cristã disse que havia males piores que o que havia sucedido em Haiti. (Também houveram as declarações racistas do cônsul geral do Haiti em São Paulo, George Samuel Antoine que sem saber que estava sendo gravado pela equipe do SBT, disse que a culpa do terremoto que destruiu o Haiti foi do Vodu, religião da origem africana popular naquele país. “Acho que de, tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo… O africano em si tem uma maldição” e afirma que a catástrofe, que vitimou centena de milhares de haitianos, foi boa para o Consulado “A desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui, fica conhecido”, afirmou o representante do país no Brasil. “Todo lugar que tem africano lá tá …”, completa)[1]. Alguns simples exemplos dos muitos que se poderiam citar sobre como se responde à dor e à tragédia com explicações teológicas e religiosas ausentes da solidariedade cristã.

Diante de nossa dor inexplicada e das explicações atrevidas, surge a necessidade de buscar na Bíblia e na teológia cristã respostas que dêem testemunho do caráter amoroso de Deus e seu rosto solidário. Com esse fim, meditaremos no texto de Lucas 13:1-5. Este é um texto que, ainda que não resolva todas nossas dúvidas acerca do porquê do sofrimento humano, nos aproxima de algumas premissas bíblicas para compreender a realidade do mal na existência humana.

PARA REFLETIR

Texto Básico: Lucas 13:1-5

1. O que nos diz o texto bíblico?

a)   Naquela mesma ocasião algumas pessoas chegaram e começaram a comentar com Jesus como Pilatos havia mandado matar vários galileus, no momento em que eles ofereciam sacrifícios a Deus.

b)   Então Jesus disse: – Vocês pensam que, se aqueles galileus foram mortos desse jeito, isso quer dizer que eles pecaram mais do que os outros galileus?

c)   De modo nenhum! Eu afirmo a vocês que, se não se arrependerem dos seus pecados, todos vocês vão morrer como eles morreram.

d)   E lembrem daqueles dezoito, do bairro de Siloé, que foram mortos quando a torre caiu em cima deles. Vocês pensam que eles eram piores do que os outros que moravam em Jerusalém?

e)   De modo nenhum! Eu afirmo a vocês que, se não se arrependerem dos seus pecados, todos vocês vão morrer como eles morreram.

2. Compreendendo o texto bíblico

– O texto menciona dois eventos diferentes: a tragédia sucedida a um grupo de galileus nas mãos de Pilatos (evento citado pelos interlocutores de Jesus) e um grupo de 18 pessoas que morreram na caída de uma torre (episodio mencionado por Jesus)

– Os dados sobre estes dois episódios não são precisos. Os historiadores propõem algumas conjecturas:

a) O episódio de Pilatos tem a ver com a construção de um aqueduto com o qual o governante propunha melhorar o abastecimento de água. Os Galileus, devido os protestos sociais, alegaram que a construção estava bem, porém reclamaram que se financiara com dinheiro do templo. Pilatos, então, ordenou a seus soldados que se misturassem com a multidão e ao sinal combinado, dispersassem a multidão com as armas que levavam. Foi feito assim, porém se aplicou mais violência do que havia sido combinado e houveram muitas mortes.

b) Com respeito à Torre de Siloé, se sugere que eram trabalhadores de Pilatos no odiado aqueduto. Nesse caso, eram pessoas que ganhavam dinheiro proveniente das ofertas do templo (“dinheiro de Deus”). Quando aconteceu o acidente da torre, as pessoas interpretaram que era um castigo justo de Deus, devido eles haverem aceitado trabalhar neste projeto.

– O problema de fundo é a mentalidade judia predominante naquela época. Eles criam que existia uma relação direta entre pecado e sofrimento. Problema que um supõe que deveria ter sido resolvido depois com o que está escrito no livro de Jó. Porém não se resolveu; essa mentalidade se manteve até o tempo de Jesus: quem sofre é porque está em pecado? (Jó 4:7; João 9:1-2)

– O versículo 5 aponta para um anúncio profético da destruição de Jerusalém (de fato aconteceu no ano 70 D.C.). Jesus sabia que se a situação nacional não melhorasse, todos  sofreriam uma catástrofe. Quer dizer, mesmo que o sofrimento não seja causa direta do pecado, a desordem pecaminosa de uma pessoa ou de uma nação nos expõe a consequências catastróficas.

3. Apropriação do texto para os dias atuais

se vamos falar de gente má, então devemos incluir a todos. A pressuposição teológica das pessoas que estavam falando com Jesus é que os que sofreram a tragédia ocasionada por Pilatos eram maus. Por causa de suas maldades, receberam o sofrimento. Jesus altera essa lógica e propõe outra: eles não sofreram por que eram pecadores. Ele acrescenta que se vamos falar de gente má, então devemos incluir a todos, os que morreram e os que não morreram. Em outras palavras, temos aqui a primeira afirmação teológica derivada do texto: o sofrimento não é um juízo divino originado devido ao pecado dos seres humano. Não se pode acusar a uma pessoa como má (pecadora e culpável) porque está sofrendo. Neste sentido, pecadores somos todos nós.

se é que vamos falar da origem do sofrimento, então vamos às raízes. A raiz, já dissemos,  não é a culpabilidade pecaminosa do que sofre. Jesus aprofunda na raiz e aponta que o sofrimento tem também uma origem humana. Neste caso, Jesus usa a expressão:  “se não se arrependerem” (13:3,5) para demonstrar que existem tragédias que podemos evitar quando mudamos de atitude e modificamos certos atos. Como podemos negar que muitas das tragédias mal chamadas de naturais tem uma razão política, ou no fundo provém de uma injustiça histórica? Nada de graça é a alusão à Pilatos no inicio do texto. Jesus não sai em defesa do governante para dizer que ele não é culpado. O povo sabia que por mãos de Pilatos se haviam produzido muitos sofrimentos. O mesmo Jesus estaria nas mãos de Pilatos alguns anos depois. De modo que, o elemento político surge aqui com muita claridade. Elemento que explica grande parte das tragédias dos povos mais pobres.

se vamos falar de soluções, então tenhamos em conta que todos podemos participar delas. Muitos males são possíveis de evitar. Certamente, hoje os especialistas na atenção às emergências fazem a diferença entre “desastres naturais” e “fenômenos naturais”. Os desastres não são naturais, pois são os fenômemos que os produzem. Em muitos casos, existem fenômenos naturais que não causam tantos desastres quando são feitas as devidas precauções. Em fim, o que se pode afirmar aqui é fato que muitas tragedias (não todas) podem ser evitadas quando se tomam certas decisões a tempo, incluídas as decisões políticas e a prática da justiça social. En nosso texto, Jesus chama a atenção sobre algumas mudanças que poderiam evitar acontecimentos ainda mais tristes e lamentaveis. Ele faz um chamado para fazer algo a tempo de evitar piores tragedias.

se é que realmente nos interessa o sofrimento das pessoas, façamos algo por elas. O sofrimento humano não serve somente para animadas conversas teológicas ou filosóficas. Estas, ainda que tem o seu valor, não são em si a resposta cristã. O cristão diante do sofrimento não deve discutir sobre o sofrimento, mas atuar com solidariedade e compaixão cristã.

As pessoas que vieram a Jesus chegaram com uma grande inquietação conceitual; Jesús mudou o tom das conversas para transforma-la num convite à ação e à mudança. Quando uma parte da humanidade sofre, nós, como seguidores de Jesus, não somente nos perguntamos porque elas sofrem, mas principalmente atuamos para aliviar o sofrimento e trabalhar a favor de um mundo mais justo e equitativo… onde Pilatos não sacrifique mais gente e onde todos possamos mudar para evitar tragedias futuras.

PARA PENSAR E ORAR

Uma oração por Haiti (Irmão Alois, Igreja da Reconciliação, Taizé. Janeiro 2010)

Deus, nossa esperança,
te confiamos as vítimas do terremoto no Haití
desconcertados pelo imcompreensível sofrimento de inocentes,
te pedimos que inspires os corações daqueles que buscam aportar a ajuda tão indispensável.
Conhecemos a fé profunda do povo haitiano.
Assiste aos que morrem, fortifica aos que estão abatidos,
Consola os que choram,
Derrama teu Espírito de compaixão sobre este povo tão sofrido.

Autor do estudo bíblico: Harold Segura
Tradução: João H. Diniz

[1] o texto em parêntesis foi adicionado ao original, não tendo sido escrito pelo Autor.

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6 Comentários para “Eles sofrem por que são maus? [uma reflexão bíblica sobre o sofrimento]”

  1. Ivani Medina 27 de agosto de 2015 at 15:43 #

    Quando iniciei minha pesquisa diletante acerca da origem do cristianismo, eu já tinha uma ideia formada: nada de Bíblia, teologia e história das religiões. Todos os que haviam explorado esse caminho haviam chegado à conclusão alguma. Contidos num cercadinho intelectual, no máximo, sabiam que o que se pensava saber não era verdade. É isso o que a nossa cultura espera de nós, pois não gosta de indiscrições. Como o mundo não havia parado para que o Novo Testamento fosse escrito, o que esse mesmo mundo poderia me contar a respeito dessa curiosidade histórica? Afinal, o que acontecia nos quatro primeiros séculos no mundo greco-romano, entre gregos, romanos e judeus? Ao comentar o livro “Jesus existiu ou não?”, de Bart D. Ehrman, exponho algumas das conclusões a que cheguei e as quais o meio acadêmico, de forma protecionista, insiste ignorar.

    http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/paguei-pra-ver

  2. daniela 3 de novembro de 2015 at 15:52 #

    Se na África eles sofrem por causa de seus pecados então na minha visão Deus e injusto,porque todos são pecadores e ainda o são mais os países ricos que exploram um povo sofrido e humilde,que não sabe a força que tem, e se unirem podem derrotar todos os seus inimigos,inimigos esses que se julgam superiores,ricos,desenvolvidos,mas as custas da exploração,destruição do seu semelhante.

    • Aryane 7 de janeiro de 2017 at 11:15 #

      Na minha opinião Deus não é injusto,muito pelo contrário Deus é o Deus da justiça,se eles sofrecem por causa dos seus pecados imagine nós brasileiros que desmatamos florestas,fazemos coisas erradas,como nós estaríamos?Eu acredito que os humilhados serão exaltados e vai chegar um dia que Deus recompensará cada um deles…

  3. Alice Criff 23 de setembro de 2016 at 3:20 #

    estava pesquisando sobre as razões sobrenaturais para o terremoto de 2010 no Haiti, e encontrei este texto. achei muito interessante. o Haiti, tem na sua história o peso das revoluções e traições humanas. segundo a wikipédia, assim que conquistou a independência da França, o país teve o seu primeiro lider, Jean Jacques de Salines, assassinado em uma imboscada por seus próprios partidários. depois disso, o povo vive em uma situação de miséria, que não melhorou com o século XX. na segunda metade do século XX, um ditador de nome Duvalier subiu ao poder, apenas para aumentar a repressão, expulsar a Igreja Católica, e favorecer a prática de vudu, religião que deu origem ao país, e que é seguida por 75% da população. a meu ver, a população daquele país não merecia o sofrimento de uma catástrofe destas, mas o mundo precisa parar de se enganar e buscar o verdadeiro Deus, pois só assim estaremos protegidos de eventos como esse. com certeza o ocultismo não faz bem para ninguém que o pratica. mas isso não torna os haitianos merecedores do sofrimento, e sim, nos torna obrigados a ajudá-los, e a nos concentrarmos na nossa própria busca por Deus.

  4. Jessica Aragão 28 de março de 2019 at 1:33 #

    Tenho essa visão, eles sofrem por falta de conhecimento; e o que faz a catástrofe ficar pior que é, são as condições do local, acredito que muitas coisas que passamos as vezes nem é pra nós mesmos, mas para o outro!
    Se vamos citar a bíblia
    Vamos falar do próprio Jesus, figura reta e Santa padeceu, foi cuspido, pisado, ferido,flagelado, crucificado, traído! sofreu!
    No entanto tudo que ele viveu não foi pra ele, mas para muitos outros
    O próprio Deus incita que oremos mais, clamemos pelos povos.

  5. GILSON SANTANA OLIVEIRA 5 de junho de 2019 at 11:34 #

    Também concordo que nem todas às tragédias ou na maioria delas que envolve nações é por conta de que aquela nação pecou mais do que outras e por isso Deus está pesando a mão. Mateus cap 5 ver 45 diz assim: “para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos”. Eu disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. João 16:33 “Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo.. .” Depois do pecado de Adão no Éden toda à terra foi condenada às mazelas em decorrência do pecado da desobediência dele. Porém o Senhor Jesus veio para dar ao homem a salvação e vida eterna.

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