É óbvio que a marcha triunfal de Jesus começou imediatamente após a queda, quando Deus deu aos primeiros transgressores a boa e distante notícia de que o descendente da mulher feriria a cabeça da serpente, a causadora de todo o mal (Gn 3.15).

Continuou com a misericordiosa e soberana chamada de Abraão em Ur dos caldeus, alguns anos depois do dilúvio (Gn 12.1-3), a cujos descendentes foram confiados os oráculos de Deus (Rm 3.2).

Quando, na agenda da redenção, chegou a plenitude do tempo, Deus então enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido da descendência de Abraão, a fim de redimir os que estavam sob a lei, sob a dura lex, sob a condenação da queda, do pecado coletivo e do pecado pessoal, para que recebessem a redenção aqueles que o reconhecem como Senhor e Salvador (Gl 4.4).

Embora, segundo os critérios deste mundo, a marcha de Jesus rumo a Jerusalém, rumo ao Getsêmani, rumo ao Gólgota e rumo ao cemitério particular de José de Arimateia pareça uma melancólica e fatídica marcha fúnebre, ela foi, sem exagero algum, a mais difícil e a mais encantadora marcha triunfal de todos os tempos. Para chegar até a cruz, Jesus experimentou uma tristeza mortal (Mt 26.38), suou sangue (Lc 22.44), dispensou a interferência das doze legiões de anjos à sua disposição (Mt 26.53), negou-se a si mesmo (Mt 26.39), não abriu a boca e deixou-se levar para o matadouro (Is 53.7; Jo 10.18).

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A saudade coletiva e universal não é só da criação original, não danificada, não poluída, mas também e especialmente do Criador. A reconciliação é com a criação e com o Criador.

O brasileiro que está ganhando dinheiro nos Estados Unidos, na Espanha ou no Japão tem saudade do Brasil. O soldado americano que está lutando no Iraque tem saudade dos Estados Unidos. O boliviano que trabalha em São Paulo tem saudade da Bolívia.

Eles também têm outra saudade, mais misteriosa, mais inquieta, mais arraigada. Essa segunda saudade, todo ser humano tem, tanto o pobre como o rico, tanto o analfabeto como o doutor, tanto o índio como o não índio, tanto o crente como o não crente. Em todo lugar e em todo tempo. Trata-se daquilo que o ensaísta francês Albert Camus (1913-1960) chama de nostalgia do paraíso perdido.

Mas não será a despoluição do planeta que vai nos curar dessa nostalgia do paraíso perdido, como sugeriu outro dia o jornalista Carlos Heitor Cony: “Sem eletricidade, sem plásticos, sem fábricas despejando detritos industriais nos rios, sem fumantes e sem predadores de florestas, o planeta vencerá a ameaça do aquecimento global, as geleiras continuarão geladas, sem derreter, e os oceanos permanecerão no mesmo nível dos primeiros dias da Criação”.

A saudade coletiva e universal não é só da criação original, não danificada, não poluída, mas também e especialmente do Criador. A reconciliação é com a criação e com o Criador. Quando se fala no paraíso perdido e no paraíso recuperado na perspectiva cristã, estamos falando mais da beleza e perfeição de Deus do que da beleza e perfeição da natureza. O último livro da Bíblia mostra que o paraíso recuperado será paraíso recuperado porque “a morada de Deus está entre os seres humanos”. E acrescenta: “O próprio Deus estará com eles e será o Deus deles. Ele enxugará dos olhos todas as lágrimas. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. As coisas velhas [especialmente a nostalgia de um paraíso perdido] já passaram” (Ap 21.3-4, NTLH).

Texto originalmente publicado na edição 310 de Ultimato.

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Há 130 anos  |  17 de janeiro de 1888

Morreu, em Edimburgo, Reino Unido, o doutor Robert R. Kalley, médico e missionário escocês, que veio para o Brasil em 1855. Ele fundou em Petrópolis a primeira Escola Dominical e é o pai da Igreja Evangélica Congregacional brasileira.

Robert era um jovem escocês diplomado em cirurgia, farmácia e medicina. A princípio era ateu, mas a admirável calma e resignação de um cliente verdadeiramente cristã, levou-o a estudar as Escrituras. O resultado foi a sua conversão e a sua consagração total á pregação do Evangelho.

Com a idade de 29 anos chegou à ilha da Madeira, Portugal, como missionário. As inúmeras conversões despertaram sérias perseguições religiosas e Robert foi obrigado a fugir, depois de dar cinco anos de sua vida aos madeirenses.

Alguns anos depois, no dia 10 de maio de 1855, com 46 anos, este Robert e sua segunda esposa, desembarcaram no Rio de Janeiro com o propósito de anunciarem aqui o Evangelho. Coube a ele a glória de inaugurar no Brasil o primeiro trabalho estável e permanente de evangelização em português. Talvez por causa da idade e por causa das amargas experiências em Funchal (capital de Madeira), Kalley agia com acentuada prudência e recomendava aos crentes portugueses, que vieram para ajudá-lo, que tivessem “grande cuidado com os padres e as irmãs de caridade”.

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Com pesar recebi a notícia da partida do Pr. Elben César, fundador da Revista Ultimato. A última vez que o vi foi no Centro Evangélico de Missões (CEM), em Viçosa, MG. Tomamos café juntos e demos boas risadas. Gosto de ver a história do outro lado. E é pensando assim que resolvi imaginar como foi a partida do Reve, como era chamado carinhosamente por muita gente.

O Resgaste do Soldado Elben

Ouve-se uma ordem no céu:
– Meu Filho, vá buscar o seu irmão porque ele já mostra sinais de cansaço na batalha.
– Sim, Senhor! Posso ordenar a um grupo de anjos que o busquem agora?
– Não! Quero que você mesmo vá e o traga para mim.
– Sim, Senhor! Farei como ordenas e farei já.
– Miguel, sele meu cavalo branco. Prepare a escolta de honra para cavalgar comigo – disse o Filho.

Em pouco tempo, o barulho do galope se fazia ouvir no céu. Cavalos e cavaleiros prontos para cumprir a missão, provocavam faíscas nas ruas de ouro. Os grandes portões se abriram e a tropa alcançou a imensidão do universo. No comando da missão, Aquele que tem na sua coxa escrito Rei dos Reis e Senhor dos Senhores.

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A prática da restauração é a arte de se colocar outra vez nas mãos do divino Oleiro para que ele refaça o vaso quebrado e lhe dê a forma e a beleza de outrora, depois de qualquer crise ou desastre de ordem religiosa.

Chama-se restauração aquele processo de tratamento a que se submete a pessoa espiritualmente doente, a partir do reconhecimento desse fato. Começa com a intranquilidade gerada pelo peso da mão do Senhor, passa pela confissão de pecado, pela apropriação do perdão de Deus e pela agradável experiência da remoção de qualquer sujidade da alma, e termina com a recuperação da plena comunhão com Deus e da perfeita paz de espírito (Sl 32.1-5).

O tempo de tratamento não é uniforme. Depende naturalmente da extensão e da duração do envolvimento pecaminoso do paciente e de suas respostas à graça de Deus. Não há caso incurável, senão o daquele que comete o “pecado eterno” (Mc 3.29), ou o “pecado para a morte” (1Jo 5.16), que pode ser entendido como uma apostasia total (Calvino) ou “uma hostilidade descarada contra Deus e uma rejeição séria contra Jesus, depois de a pessoa ter sido exposta ao conhecimento da verdade” (G. M. Burger).1

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Só Deus sabe o quanto a distribuição de Ultimato abrandou o antiprotestantismo da parte dos católicos e o anticatolicismo da parte dos protestantes

Católicos “versus” protestantes

Alguns anos depois da morte de meu pai, encontrei na biblioteca dele alguns livros bem antigos sobre a polêmica entre católicos e protestantes. Por seu valor histórico, trouxe-os para minha própria biblioteca.

Um dos mais antigos chama-se “Palhaçada Protestante”, do conhecido missionário Júlio Maria de Lombaerde, nascido em 1878, na pequena vila de Waereghen, na fronteira da Holanda com a Bélgica. Exerceu grande parte do ministério dele em Manhumirim, MG, onde fundou, em 1928, “O Lutador”, um “jornal militante de primeira linha, cujo fim é desmascarar a perfídia protestante e responder às objeções insensatas que atiram à nossa Santa Religião”. O livro de 186 páginas é, na verdade, uma compilação de catorze artigos publicados por ele em “O Lutador”, que circula até hoje, há muito tempo com outra linha e outros propósitos.

Para Júlio Maria, protestante era “um chimpanzé africano, metido na pele de urso americano, feito rabicho, que só tem de brasileiro o nome”.

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