A ressurreição preenche nossas expectativas de uma forma como nenhum outro evento remoto preenche ou poderia preencher. É a base da nossa certeza cristã em relação ao passado, ao presente e ao futuro. 

[A ressurreição de Jesus] aconteceu há cerca de dois mil anos. Como um evento tão antigo pode ter grande significado para nós hoje? Por que cargas d’água os cristãos compõem hinos e coreografias a partir desse acontecimento? Será que a ressurreição não é irrelevante? Entendo que […] ela é perfeita para a condição humana. Ela preenche nossas expectativas de uma forma como nenhum outro evento remoto preenche ou poderia preencher. É a base da nossa certeza cristã em relação ao passado, ao presente e ao futuro.

[Depois de sua ressurreição, Jesus] não era um defunto que voltou à vida normal, [nem um fantasma]. […] Na verdade, ele ressurgiu da morte e simultaneamente se vestiu de um novo ser para a sua personalidade. A ressurreição do nosso corpo será como a ressurreição de Jesus, a qual foi uma notável combinação de continuidade e descontinuidade. Por um lado, havia uma clara ligação entre os dois corpos. As cicatrizes ainda estavam nas mãos, nos pés, no lado. E Maria Madalena reconheceu a voz dele. Por outro lado, seu corpo atravessou as mortalhas, o sepulcro fechado e portas trancadas. Então evidentemente seu corpo tinha novos e inimagináveis poderes.

A esperança cristã diz respeito ao nosso futuro individual (a ressurreição do corpo), mas também ao nosso futuro cósmico (a renovação do universo). Esta promessa é muito relevante hoje, em vista do aquecimento global e da ameaça de desastre ambiental. Em geral, porém, nós cristãos tendemos a pensar e falar muito de um paraíso etéreo e a pensar e falar muito pouco sobre os novos céus e a nova terra. Mas toda a Escritura é entremeada por uma expectativa mais geral e mais física, [isto é, a renovação dos céus e da terra].

Nota
Trecho de A Bíblia Toda, o Ano Todo, de John Stott. Editora Ultimato, 2007.
Texto originalmente publicado na edição 304 da revista Ultimato.

“O Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar. O Espírito, porém, ora por nós com gemidos que não podem ser expressos em palavras” (Rm 8.26).

O problema hoje não é falta de oração, mas o mau uso dela (veja A profanação da oração). Precisamos de uma revolução no que diz respeito à oração. Em vez de engrossar o ter, devemos engrossar o ser.

Não é tão fácil orar de maneira aceitável a Deus. Há pelo menos duas passagens do Novo Testamento que confirmam isso. A primeira está no Evangelho de Lucas: “Quando Jesus acabou de orar, um dos seus discípulos pediu: Senhor, nos ensine a orar, como João [Batista] ensinou os discípulos dele” (Lc 11.1-2). A segunda está na Carta aos Romanos: “O Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar. O Espírito, porém, ora por nós com gemidos que não podem ser expressos em palavras” (Rm 8.26).

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A Bíblia é o livro mais copiado à mão (antes da invenção da imprensa), mais impresso, mais traduzido (a Bíblia inteira já foi traduzida para 485 línguas; o Novo Testamento, para 1.249; e alguma porção dela, para 810), mais vendido, mais presenteado, mais revisado, mais lido e mais querido, antes de Cristo (apenas o Antigo Testamento) e depois de Cristo.

Ilustração: Pri Sathler

Embora Deus nos fale por meio da beleza e da exuberância da criação e por meio daquela insistente sede interior que temos dele, o principal meio pelo qual ele se revela e se torna conhecido de nós é a Sagrada Escritura, também chamada, apropriadamente, de a Palavra de Deus. A cristandade e o mundo inteiro têm uma dívida enorme com o povo de Israel, pois foi por meio dele que a Bíblia chegou a nós. Com exceção apenas do Evangelho de Lucas e do livro de Atos dos Apóstolos, todos os demais 64 livros da Sagrada Escritura foram produzidos por patriarcas, profetas e apóstolos judeus (quanto à religião) e israelitas (quanto à nacionalidade).

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Nós conhecemos apenas parte da verdade e o que dizemos a respeito de Deus é sempre incompleto. Mas, quando o que é Completo chegar, tudo que é incompleto em nós deixará de existir. (1Co 13.9-10)

No tempo da Antiga Aliança havia muitas interrogações e alguns mistérios. Os crentes que viveram antes de Cristo não entendiam tudo. Aguardavam pela fé a revelação de Deus que daria sentido a certas promessas e esperanças. Um dos mistérios era o dos gentios como coerdeiros e coparticipantes do mesmo corpo (Ef 2.11; 3.13). Outra interrogação era sobre a estranha mistura de sofrimento e glória referentes a Cristo (1Pe 1.10-12). O tempo se incumbiu de responder a esta pergunta, mostrando não um acontecimento simultâneo, mas uma sequência de fatos: o sofrimento do primeiro advento e a glória do segundo.

Os crentes da Nova Aliança também têm as suas perguntas e os seus mistérios. Nada lhes falta para crer e sustentar essa fé até a consumação dos séculos e o início de novos céus e nova terra. Mas é preciso esperar a plenitude da revelação.

A plenitude da revelação é o levantar do véu que ainda encobre certas manifestações da graça, da sabedoria e do poder de Deus. E o apocalipse total. E o ponto final da história, o desfecho do enredo iniciado com a queda do homem.

Uma das maiores surpresas da plenitude da revelação é “a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Co 1.7). Trata-se do aparecimento de Jesus Cristo pela segunda vez (Hb 9.28), “com poder e muita glória” (Mt 24.30). A expressão “revelação de Jesus Cristo” aparece algumas vezes nas Escrituras do Novo Testamento (1Co 1.7; 1Pe 1.7, 13; Ap 1.1) e diz respeito a sua chegada ou presença (parusia) de modo pessoal (At 1.11) e visível (Ap 1.7). Com este desvendamento (apocalipse), dará para ver a sua glória excelsa (Rm 8.18; 1Pe 4.13), vista antecipadamente, por um relance, por Pedro, João e Tiago na cena da transfiguração de Jesus (Mt 17.1-2; Jo 1.14; 1Pe 1.16-18).

Texto publicado em Cuide das Raízes, Espere Pelos Frutos. Editora Ultimato.

Pedro e Paulo disseram: “Estou pronto”. O primeiro afirmou: “Estou pronto a ir contigo tanto para a prisão como para a morte” (Lc 22.33).

O segundo declarou: “Estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém, pelo nome do Senhor” (At 21.13). Na verdade, porém, Pedro ainda não estava totalmente pronto, fosse para a prisão, fosse para a morte. Ele precisou amadurecer um pouco mais e aprender a confiar em Deus mais do que nele mesmo. Não muito tempo depois, ficou pronto. Mas Paulo estava de fato disposto a enfrentar a prisão e o martírio.

Não é com poucos anos de carreira cristã que você pode considerar-se pronto para enfrentar qualquer obstáculo, qualquer provação, qualquer oposição, qualquer tortura ou qualquer sofrimento. O arroubo e a impetuosidade não são suficientes para enfrentar certas gargantas muito apertadas do testemunho cristão. Você precisa ter lastro, reservas, experiências, profundidade e o contrário de auto-suficiência.

Você precisa estar sempre pronto. Para qualquer eventualidade, para qualquer mudança, para qualquer perigo, para qualquer crise emocional.

Essa prontidão você precisa conquistar. Ela é perfeitamente possível. Depende muito de sua intimidade com Jesus, depende muito de seu crescimento espiritual, depende muito de sua vigilância. Uma pessoa pronta vai até as últimas consequências. É capaz de passar pela prova de escárnios e açoites e até de algemas e prisões. É com estas pessoas que Deus realiza a sua obra de redenção do mundo.

Texto originalmente publicado na edição 261 de Ultimato.

Não mais mostrarei amor para com a nação de Israel, não a ponto de perdoá-la. (Os 1.6)

Qual é a relação entre amor e perdão? O que vem primeiro, o amor ou o perdão?

Em todos os casos, o perdão só é possível por causa do amor. Quando o amor se esgota, o perdão não tem a menor chance. Se o nível do amor de Deus abaixasse, a disponibilidade do perdão também cairia. É isso que o profeta Oséias quer que a nação entenda.

Esse mecanismo é de conhecimento público por causa do versículo mais conhecido e amado da Bíblia: “Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).

Deus só “arrepende-se, e não envia a desgraça” porque é “cheio de amor” (Jl 2.13; Jn 4.2). Ele é misericordioso e compassivo e muito paciente porque é cheio de amor.

Jesus jamais faria a oração “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo” (Lc 23.34), referindo-se aos seus algozes, se não tivesse profundo amor por aquela turba que o maltratava e zombava dele.

Àquele que me amou e perdoou, devo o maior respeito e a maior devoção!

Texto publicado em Refeições Diárias com os Profetas Menores. Editora Ultimato.