A ressurreição do corpo no Antigo Testamento

Não é justo dizer que o Antigo Testamento não menciona a ressurreição do corpo. Entre o Antigo e o Novo Testamentos “o verbo se fez carne” e a luz do evangelho inundou como nunca o ambiente e a história. As verdades e as certezas foram enriquecidas e ficaram muito mais claras e convincentes.

Uma coisa é falar sobre a ressurreição antes da ressurreição de Jesus e outra é falar sobre ela depois do que aconteceu na madrugada daquele domingo. Mesmo assim há passagens sufi cientes para mostrar que a ressurreição do corpo era conhecida na antiga aliança.

Dois personagens do Antigo Testamento mostram-se convictos da ressurreição. O primeiro é o sofrido Jó: “Eu sei que o meu Redentor vive, e que no fi m se levantará sobre a terra. E depois que o meu corpo estiver destruído e sem carne, verei a Deus. Eu o verei com os meus próprios olhos; eu mesmo, e não outro!” (Jó 19.25-27). O segundo é o salmista: “Deus redimirá a minha vida da sepultura e me levará para si” (Sl 49.15). O contexto de ambas as passagens reforça a idéia da ressurreição do corpo. Jó estava muito doente. Ainda vivo já exalava um cheiro intolerável, e sua pele e sua carne já se apegavam aos seus ossos (Jó 19.17-20). A esperança que o homem da terra de Uz alimentava não era a da sobrevida, mas a da ressurreição do corpo. O salmista, antes de mencionar sua esperança da ressurreição, desenhou o quadro da morte e disse que a aparência dos que morrem se desfaz na sepultura. No entanto, ele esperava um reviravolta estupenda, quando Deus arrancaria sua alma do poder do abismo (da morte).

Em outro poema, o salmista se confessa alegre e seguro graças à certeza da ressurreição do corpo: “Sempre tenho o Senhor diante de mim […]. Por isso o meu coração se alegra e no íntimo exulto; mesmo o meu corpo repousará tranqüilo, porque tu não me abandonarás no sepulcro nem permitirás que o teu santo sofra decomposição” (Sl 16.8-10). Tanto Pedro, em Jerusalém, no Dia de Pentecoste (At 2.25-28), como Paulo, em Antioquia da Pisídia, em sua primeira viagem missionária (At 13.35), serviram-se desse salmo para se referirem à ressurreição de Jesus, mais acertadamente, porque o corpo do Senhor não chegou a decompor-se, já que a sua ressurreição aconteceu cerca de 36 horas após a morte.

A mais explícita passagem do Antigo Testamento sobre a ressurreição do corpo está em Daniel: “Multidões que dormem no pó da terra acordarão: uns para a vida eterna, outros para a vergonha, para o desprezo eterno” (Dn 12.2). De tão clara e completa, ela sozinha seria sufi ciente para sustentar o fenômeno da ressurreição final no Antigo Testamento.

Em outra passagem, é Deus mesmo quem faz a promessa: “Eu os redimirei da sepultura; eu os resgatarei da morte”. À vista dessa promessa, o Senhor pergunta: “Onde estão, ó morte, as suas pragas? Onde está, ó sepultura, a sua destruição?” (Os 13.14). Oito séculos depois do profeta Oséias, Paulo cita essas palavras no fi nal de seu arrazoado sobre a derrota definitiva da morte (1 Co 15.55).

Há mais um texto do Antigo Testamento que pode ilustrar o momento da ressurreição do corpo. É a famosa visão que o profeta Ezequiel teve. A princípio foi uma visão sinistra, pois aquele vale estava cheio de ossos secos — tudo o que restava depois da morte e decomposição de uma multidão. Mas, à medida que o profeta ia falando, aqueles ossos começavam a se mover e a se juntar, formando novos esqueletos completos. Depois eles foram cobertos de tendões, carne e pele. Os corpos foram reconstituídos, mas continuaram cadáveres, até que o espírito (ou a alma) veio e entrou neles. Então, todos receberam vida e se puseram em pé. Era um enorme exército de ex-mortos. Embora o texto se refira à ressurreição política de Israel, quando todos os que foram levados para fora do país voltariam para a pátria, há nessa passagem pelo menos uma alusão à ressurreição do corpo (Ez 37.1-14).

 
Texto originalmente publicado na edição 304 da Ultimato.

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