“Fizeram chegar a ele o grito do pobre, e ele ouviu o clamor do necessitado” (Jó 34.28) 

O grito do pobre é mais perigoso do que o equipamento de um soldado americano e do que o equipamento de um homem-bomba. Por uma única e simples razão: o grito do pobre costuma chegar até os ouvidos de Deus, o Senhor Todo-Poderoso! (Tg 5.4). 

Devemos ter medo do grito do pobre. Estamos muito atrasados na arte de levar a sério o grito do pobre. Ele tem gritado há muito tempo. E seus gritos têm entrado até os ouvidos de Deus, o Senhor Todo-Poderoso, há muito tempo. Talvez não haja mais tempo para se ouvir o grito do pobre. Talvez seja tarde demais para tentar ouvi-lo. 

Enquanto os poderosos têm portões de ferro ao redor de suas casas, seguranças do lado de dentro e do lado de fora, sistemas sofisticados de proteção eletrônica, coletes à prova de balas, carros blindados e helicópteros protegendo-os por cima — os pobres têm apenas o recurso do grito. Mas o grito do pobre — quando é dirigido ao céu, em direção ao alto e sublime trono onde se assenta o Todo-Poderoso — é muito perigoso.

Pode ser que o Todo-Poderoso deixe acumular os gritos do pobre e só se manifeste sobre eles no juízo final. Mas é muito mais provável que ele já esteja ouvindo esses gritos e tomando providências, sem que os verdadeiros opressores, os verdadeiros culpados, os verdadeiros responsáveis tenham acordado para o fato. 

A agitação, a insegurança e a insatisfação não seriam manifestações da justiça divina? A violência urbana, o narcotráfico e a corrupção generalizada não seriam manifestações da justiça divina? As duas grandes guerras mundiais da primeira metade do século 20 e as muitas outras guerras que se seguiram a elas não seriam manifestações da justiça de Deus? As revelações do que acontece sob a ditadura da direita (o nazismo na Alemanha) e a ditadura da esquerda (o comunismo na União Soviética) não seriam manifestações da justiça de Deus? O aumento e a sofisticação do poderio bélico e a proliferação dos arsenais nucleares não seria manifestação da justiça divina? A humilhação provocada pela derrubada das Torres Gêmeas e pelo fracasso da Guerra do Iraque não seriam manifestações da justiça divina? O índice de suicídio em países desenvolvidos não seria manifestação da justiça divina? As apreensões quanto ao sucesso e aos riscos da tecnologia avançada de nossos dias não seriam manifestações da justiça divina? Os danos quase irreversíveis da destruição ambiental e suas graves consequências não seriam manifestações da justiça divina?

Precisamos descobrir com urgência que nada é pior para a humanidade do que quando Deus retira o cabresto e o freio e deixa o ser humano ao léu de sua vontade (Rm 1.24-27). 

Talvez haja lugar para a riqueza isenta de fraude, de opressão, de aproveitamento das leis injustas e de subornos, uma riqueza limpa e altruísta. Nesse caso não haverá o grito do pobre. Ele não terá do que se queixar, pois não foi usado, não foi explorado. Ao contrário, o rico dividiu com ele alguns dos seus bens e não o deixou sem pão, sem roupa, sem teto e sem emprego.

Texto originalmente publicado na edição 363 de Ultimato. Novembro-Dezembro 2016.

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