Quase a cada página, a Bíblia fala dessa realidade que comumente chamamos de pecado residente. Já se disse que “a história da salvação não é senão a história das tentativas incansavelmente repetidas por Deus para arrancar o homem do seu pecado”.

A inauguração do pecado na história dos seres humanos aconteceu em algum tempo após a criação dos céus e da terra. O pecado cometido por nossos primeiros pais ocasionou o rompimento da comunhão criatura-Criador e arrastou o casal e a humanidade inteira para o abismo e a desgraça do pecado residente (Gn 3.1-19).

Algum tempo depois dessa ruptura, chamada acertadamente de Queda, Caim é possuído de uma inveja incontrolável de seu irmão Abel, a qual o leva a cometer a primeira violência da história do ser humano (Gn 4.1-8).

Nos dias de Noé, o pecado se agrava de tal modo que a Terra se corrompe e se enche de violência (Gn 6.11). A inclinação é “sempre e somente para o mal” (Gn 6.5), a ponto de o dilúvio se tornar uma necessidade.

Na travessia do deserto, milhares de israelitas perdem os limites e cometem uma orgia sexual, coletiva e ostensiva, com as mulheres moabitas. Estas se oferecem a eles por sugestão de Balaão, pago para provocar tal loucura (Nm 25.1-15).

Na época dos juízes, alguns rapazes bissexuais abusam de uma mulher recentemente reconciliada com seu marido, deixando-a morta, o que provoca uma guerra civil que causou a morte de 65.100 pessoas e o desaparecimento de uma tribo inteira de Israel (Jz 19.1-30).

Na época do profeta Isaías, o povo eleito é chamado de nação pecadora, povo carregado de iniquidade, raça de malfeitores, filhos dados à corrupção. Todos estão moralmente doentes, da sola dos pés ao alto da cabeça, com vergões e ferimentos abertos e não tratados por todo o corpo (Is 1.2-6). Todos são uma ninhada de rebeldes e uma prole de adúlteros e prostitutas (Is 57.3).

Na época de Jeremias, o mesmo povo comete dois crimes: abandona a Deus, fonte de água viva, e tenta sobreviver sem Deus, cavando “suas próprias cisternas, cisternas rachadas, que não retêm água” (Jr 2.13). O desvario não é só da classe média para baixo, mas especialmente dos nobres (Jr 5.5). Todos são gananciosos e praticam a falsidade (Jr 8.10). Vão de um crime a outro (Jr 9.3).

Esses são apenas alguns exemplos retirados do Antigo Testamento. A Bíblia é extremamente realista ao descrever e desmascarar o pecado residente. As Escrituras não se calam a este respeito, não omitem, não contornam a situação, não zombam dela, como se pode ver nas passagens citadas a seguir:

Salmos 53.2,3 — “Lá do céu Deus olha para a humanidade a fim de ver se existe alguém que tenha juízo, se existe uma só pessoa que o adore. Mas todos caíram, se desviando assim do caminho certo, e são igualmente corruptos. Não há ninguém que faça o que é direito, não há mesmo nem uma só pessoa.”

Eclesiastes 9.3 — “O coração dos homens está cheio de maldades e de loucura durante toda a vida.” Daí a necessidade de circuncidar, lavar, quebrar, purificar, rasgar, sondar e vigiar o coração; e de guardar dentro dele o poder de Deus, para evitar a prática pecaminosa.

Marcos 7.20–22 — “O que sai do homem é que o torna impuro. Pois do interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez.” Daí a necessidade de fechar a porta para o lixo não sair, de negar-se a si mesmo sem perda de tempo e tantas vezes quantas forem necessárias.

Gálatas 5.17 — “O que a nossa natureza humana quer é contra o que o Espírito quer, e o que o Espírito quer é contra o que a nossa natureza humana quer. Os dois são inimigos, e por isso vocês não podem fazer o que querem.” Daí a necessidade de alimentar o Espírito e não a carne, a necessidade imperiosa de andar e viver no Espírito e nunca na carne.

Tiago 4.1 — “O que é que está causando as discussões e as lutas entre vocês? Não é porque existe um exército de maus desejos dentro de vocês?” Daí a necessidade de reprimir e barrar os maus desejos.

Hebreus 12.1 — “Deixemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que se agarra firmemente em nós e continuemos a correr, sem desanimar, a corrida marcada para nós.” Daí a necessidade de clamar incessantemente por livramento.

Texto originalmente publicado no livro Por Que (Sempre) Faço o Que Não Quero?. Ultimato, 2011.

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