Está para nascer uma pessoa tão ignorante quanto o Mineiro com Cara de Matuto. Numa recente viagem à região semiárida do Nordeste (maio de 2002), ele levou na bagagem um par de galochas, uma capa de chuva e um guarda-chuva. Só lá ficou sabendo que naquela enorme área, que abrange oito Estados brasileiros e o norte de Minas Gerais (18% do território nacional) e que abriga 18,5 milhões de habitantes, chove em média apenas 700 milímetros por ano.

De qualquer modo, a viagem foi um sucesso. O Mineiro voltou mais consciente dos problemas do Nordeste do que qualquer político por aí afora. Ele fez até uma lista daquilo que aprendeu:

1) Embora haja evidências de que o sertão nordestino tenha sido mar há milhões de anos (foram encontrados fósseis de peixes na fronteira entre Pernambuco e Ceará), certas áreas do semiárido já eram secas muito tempo antes dos portugueses aportarem aqui.

2) Ao longo do século passado, houve 28 anos de seca na região – em média, 1 ano de seca a cada 4 anos.

3) Lá a estação da chuva é chamada de inverno e é muito curta: dura de 4 a 7 meses. A estação seca é chamada de verão e dura de 5 a 8 meses.

4) A chuva é muito irregular. Numa única semana pode chover mais da metade de toda a chuva de um ano. É muito comum cair num só dia a chuva de um mês inteiro.

5) Além da secura natural, o desmatamento das últimas décadas e a ocupação humana têm provocado aquilo que chamam de desertificação. A vegetação própria do cerrado, que exige pouca água, tem sido substituída pela soja e pelo eucalipto, que exigem muita água.

Depois de conversar com caipiras e doutores e de estudar uma cartilha publicada por uma tal de Diaconia, o Mineiro com Cara de Matuto entendeu que o morador do semiárido tem de aprender com o mandacaru e com o imbuzeiro a conviver com a escassez de água. O técnico Felipe Jalfim, da Diaconia, explicou-lhe que o mandacaru, um cacto muito grande e de porte arbóreo, pode guardar muita água no seu tronco. Para não perder essa água pela evaporação, a planta criou um tipo de capa grossa para isolar o seu tronco e galhos do vento quente e seco. Já o imbuzeiro, uma arvoreta muito copada, tem, em suas raízes, grandes tubérculos que funcionam como cisternas para guardar água.

O que o sertanejo precisa fazer não é abrir poço, pois a água é escassa, profunda e frequentemente salobra. A solução é muito mais simples: à semelhança do imbuzeiro, ele precisa recolher a água da chuva e armazená-la. Basta construir uma cisterna no nível do chão ou semienterrada que comporte pelo menos 15 mil litros de água. Essa água vem das chuvas, cai sobre o telhado, daí para as calhas e, depois, para a cisterna. É água da melhor qualidade, sem o pó da terra, sem as sujeiras da terra, sem qualquer contaminação. A cisterna, construída com placas ligeiramente curvas feitas de concreto, é totalmente fechada, o que a protege dos animais, dos parasitas e também da evaporação. Uma vez cheia, essa água dá para uma família beber e cozinhar durante um ano inteiro. Foi com 500 mil dessas cisternas que a China resolveu o problema da falta d’água no Planalto do Norte, uma região parecida com o Nordeste brasileiro. Esse sistema de captação de água da chuva foi suficiente para fornecer água potável e uma melhor alimentação para 1,3 milhão de chineses. Esse projeto de cisternas tomou mais corpo depois da 9ª Conferência Internacional sobre Sistemas de Captação de Água de Chuva, realizada em julho de 1999, em Petrolina, PE, com a presença de especialistas de 30 países.

Espantado com o número de cisternas na China, o Mineiro com Cara de Matuto multiplicou 500.000 cisternas por 15.000 litros para achar a quantidade de água retirada da chuva e encontrou a fabulosa marca de 22,5 bilhões de litros. Vendo-o assim tão deslumbrado, o pastor Arnulfo Barbosa, secretário executivo da Diaconia, disse-lhe que a ASA (Articulação do Semi-Árido), uma espécie de guarda-chuva que engloba cerca de 100 entidades da sociedade civil nordestina, está comprometida com o projeto denominado “Um milhão de cisternas para o semiárido” – o dobro do que já foi feito na China. Isso significa 45 bilhões de litros de água boa para beber e para cozinhar.

A essa altura, o Mineiro estava a caminho de Afogados da Ingazeira, na metade exata de Pernambuco, quase na fronteira com a Paraíba, onde a Diaconia tem um escritório e uma equipe de técnicos. Ele havia saído do Recife pela manhã na companhia de Arnulfo. Já havia tomado um rico café da manhã, que mais parecia um almoço, em um restaurante à beira da estrada: mandioca, cuscuz, carne de sol, ovo, queijo de manteiga e de coalho, melancia, pão e café com leite.

Na zona rural de Afogados, em quase todo telhado havia calhas que recolhiam água da chuva e a mandavam por meio de um cano branco de plástico para a cisterna construída ao lado da casa. Numa delas, o Mineiro parou para conversar com Zé da Antonia, de 54 anos, dono de uma pequena área toda plantada e irrigada. Ele já havia trabalhado 4 anos em São Paulo e 6 em Brasília, e ia ao semiárido muito raramente para visitar a família. Zé da Antonia desabafou: “Antes trabalhava mais, gastava mais e obtinha menos. Agora, trabalho menos, gasto menos e obtenho mais. Hoje, nem eu nem meus filhos nem meus netos precisamos andar por este mundo para sustentar a família. Temos serviço aqui para todos.” A família desse trabalhador rural é uma das muitas famílias assistidas pela Diaconia.

No dia seguinte, depois de visitar outros sítios, o Mineiro passou por um depósito de lixo da Prefeitura de Afogados da Ingazeira e viu três ou quatro mulheres tentando recolher alguma coisa porventura aproveitável no meio daquela sujeira e mau cheiro. Talvez tenham encontrado uma ou outra latinha de refrigerante. Então o Mineiro se lembrou de tudo aquilo que havia recolhido de um lixo na cidade de Hirakata, no Japão, em abril de 1997: várias blusas de lã e outras peças de roupa, um relógio, dois guarda-chuvas, uma bolsa a tiracolo, várias peças de louça, um vídeo, dois pares de patins, um massageador elétrico, bichinhos de pelúcia, muitos brinquedos, uma mala Samsonite e outras bugigangas.

Na viagem de volta, em companhia de Arnulfo e de João Tinôco, um professor universitário nascido no único Estado do Nordeste não atingido pelo semiárido e convertido recentemente ao evangelho, o Mineiro passou perto do chamado Polígono da Maconha, da cidade natal do vice-presidente Marco Maciel (Pesqueira), da cidade onde se fez a filmagem do Central do Brasil (Cruzeiro do Nordeste) e de Nova Jerusalém (onde existe o maior teatro ao ar livre do mundo, cercado por quase 3 quilômetros de muralhas de 7 metros de altura, e onde se encena todo ano a Paixão de Cristo, de acordo com o texto do recém-falecido jornalista Plínio Pacheco, desde 1968). Durante a viagem, Arnulfo explicou ao João Tinôco e ao Mineiro o que é a Diaconia:

“Fundada em 1967 no Rio de Janeiro por um grupo de 11 igrejas evangélicas, a Diaconia tem como missão estar a serviço dos excluídos da sociedade, identificando-se com suas lutas na construção da sua cidadania e tendo a região Nordeste do Brasil como área preferencial de atuação. Atuamos em três frentes: Programa de Promoção da Criança e do Adolescente (PPCA), Programa de Apoio à Agricultura Familiar (PAAF) e Programa de Apoio à Ação Diaconal das Igrejas (PAADI). Apoiamos e participamos da gestão e da execução do programa Um milhão de cisternas para o semiárido (P1MC). Evitamos o paternalismo e enfatizamos a promoção humana. Damos força aos movimentos e eventos populares em favor da dignidade do homem, da mulher e da criança, como A Marcha das Margaridas, O Grito da Terra, A Marcha dos Trabalhadores, O Encontro dos ‘Sem-terrinhas’ de Pernambuco etc. Nosso slogan para comemorar os 35 anos da Diaconia é Semeando dignidade, colhendo cidadania.”

Ao chegar em casa, o Mineiro com Cara de Matuto abriu a revista Superinteressante de junho e encontrou na página 48 que o Programa 1 Milhão de Cisternas Rurais, do qual participa a Diaconia, havia recebido o Prêmio Super Ecologia, para o qual havia 438 inscritos.

Texto originalmente publicado na edição 278 de Ultimato.

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