Enquanto caminhamos inexoravelmente para a morte via envelhecimento ou acidente ou doença, de ambas as margens do caminho se nos apresentam promessas de uma vida sem solução de continuidade. De um lado, somos convidados a colocar a nossa esperança nos recursos e nas possibilidades da ciência, ainda que vagarosa. Do outro, recebemos o desafio da fé para crer na intervenção do próprio Deus, que transformará nosso corpo atual em outro corpo, de biologia diferente, ainda que sem data anunciada.

A qual delas devemos nos apegar? Qual é a mais crível? Dar-se-á o caso de que a vitória sobre a morte anunciada nas Escrituras Sagradas é uma referência aos sucessos da engenharia médica e ao futuro da biologia?

Não é isto que a Bíblia diz. O novo corpo de que ela fala não é um corpo todo remendado e cheio de órgãos artificiais. Não se trata de mero prolongamento da vida humana, mas de uma metamorfose radical por meio da ressurreição dos mortos e da súbita transformação dos vivos em hora já estabelecida por Deus. O corpo que há de surgir dessa operação instantânea se revestirá de incorruptibilidade e de imortalidade (1 Co 15.35-58). A esperança dada pelo cristianismo é muito mais confortadora, mesmo admitindo que a ciência consiga o êxito que pretende. A razão é simples: as descobertas da ciência não têm efeito retroativo, não podem alcançar os mortos. Mas a escatologia cristã ensina que “todos os que se acham nos túmulos ouvirão a voz do Filho de Deus e sairão” (Jo 5.29).

A ciência tem realizado proezas e devemos agradecer a Deus por ela e por seus corifeus. Graças a ela, já vencemos a varíola e a pólio. Não é necessário nos indispor contra a ciência. Mas é claro que os homens de avental branco jamais conseguirão fazer o mais difícil: retirar da natureza humana sua acentuada propensão pecaminosa, que se instala no homem “desde a sua concepção” (Sl 58.3). Contudo, Paulo ensina que Jesus “transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo de sua glória, segundo a eficácia do poder que Ele tem de até subordinar a si todas cousas” (Fp 3.21). Se a biologia do futuro não vai modificar a constituição moral do homem e ainda pretende generalizar a engenharia genética para a obtenção de filhos geneticamente superiores, quem poderá garantir a não-existência de monstros?

Na economia divina a vitória sobre a morte vem em último lugar: “Convém que Jesus reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte”. A essa altura, se cumprirá “a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória”. Vitória não por intermédio da ciência, mas “por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo”. Porque a morte não é apenas um problema biológico. É também um problema de salvação porque se relaciona intimamente com o pecado. Então se dirá: “Onde está, ó morte, a tua vitória? onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Co 15.25-26, 54-57.)

Texto originalmente publicado na edição 263 de Ultimato.

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