Jesus está tomando uma refeição na casa de um fariseu chamado Simão. De repente, uma mulher sem nome entra sem ser convidada, abaixa-se e fica aos pés de Jesus por algum tempo. Ela tem nas mãos um pequeno vaso de pedra cheio de perfume. Antes de derramá-lo nos pés do Senhor, ela os lava com suas lágrimas e os enxuga com seus longos cabelos e põe-se a beijá-los compulsivamente. Jesus deixa a mulher à vontade. O fariseu acha aquilo muito estranho e diz com os seus botões: “Se este homem fosse o profeta que pensei, saberia que tipo de mulher ela é” (Lc 7.39).

Aquela senhora era conhecida na cidade não por seu nome nem por sua eventual beleza. Embora todas as outras mulheres e todos os homens daquele lugar fossem nascidos em pecado, ela era conhecida como “pecadora” (em quase todas as versões); ou como “pecadora pública” (Bíblia do Peregrino); ou como “mulher de má fama” (NTLH); ou, ainda, como “prostituta” (NBV). Se usarmos os muitos sinônimos da palavra “prostituta” ou “meretriz” que aparecem no “Dicionário Aurélio”, todos pejorativos, diríamos que aquela moça era uma mulher da rótula, uma mulher da rua, uma mulher da vida, uma mulher da zona, uma mulher de amor, uma mulher de má nota, uma mulher de ponta de rua, uma mulher de fandango, uma mulher do mundo, uma mulher do palo aberto ou uma mulher errada. Quem sabe, para Simão, pecadora era ela sozinha, e não também aqueles homens que dela se serviam.

Na verdade, a mulher que estava na casa do fariseu era uma mulher restaurada, que havia sido perdoada e liberta da prostituição, graças a um encontro anterior com o Senhor. Aquele derramar de beijos, de lágrimas e de perfume era uma manifestação incontida da adoração e da gratidão daquela que durante algum tempo havia vendido o corpo para satisfazer a lascívia masculina.

A mulher em foco não é a única prostituta recuperada na história bíblica. É possível que outras mulheres de má fama tenham se convertido durante o ministério de Jesus, pois, no pesado discurso que ele faz à liderança religiosa de Jerusalém, o Senhor usa a palavra “prostituta” no plural: “Os cobradores de impostos e as prostitutas estão entrando no Reino de Deus antes de vocês” (Mt 21.31).

Em sua árvore genealógica, até mesmo Jesus tem uma prostituta restaurada entre os seus antepassados. Trata-se de Raabe, a meretriz de Jericó que deu guarida aos espias e que foi poupada quando aconteceu a destruição da cidade, no início da ocupação da terra de Canaã. Ela casou-se com um israelita chamado Salmon e tornou-se mãe de Boaz, avó de Obede, bisavó de Jessé e trisavó de Davi (Rt 4.18-22). O nome de Raabe está logo no início do Evangelho de Mateus (Mt 1.5).

Há outras duas mulheres sem nome envolvidas com pecado sexual nos Evangelhos. Uma é conhecida como a “mulher samaritana” (Jo 4.1-12) e a outra, como a “mulher adúltera” (Jo 8.1-11). As três foram poderosa e misericordiosamente restauradas. E todos podem ter a mesma experiência!

Texto originalmente publicado na edição 348 de Ultimato.

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