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A Copa da Rua também vai acontecer no Brasil. E vai ser no Rio de Janeiro, entre os dias 28 de Março e 6 de Abril, reunindo representantes do Brasil, Argentina, Nicarágua, Estados Unidos, Índia, Paquistão, Indonésia, Filipinas, Quênia, Egito, Inglaterra, entre outros. O movimento quer dar visibilidade às dificuldades enfrentadas pelas crianças e adolescentes que “moram” nos centros urbanos.

 

Essa Copa, tão diferente da que estamos habituados, se propõe a “virar o jogo”, dando vez e voz a crianças que já passaram pelas ruas, já tendo vivenciado o que significa estar “socialmente vulnerável”. Através das partidas de futebol, elas pretendem lutar por sua dignidade. O evento é, para elas, uma oportunidade de também ajudar seus amigos, já que muitos deles ainda se encontram nas ruas. A ideia é conscientizar o mundo sobre essa realidade cruel em que já viveram, onde lhes faltou moradia, alimento, educação, saúde, e, muitas vezes, família.

 

Tamires, brasileira, afirmou: “Às vezes as ruas são um inferno, mas quando jogo futebol me sinto como se estivesse no céu.” Andile, outra criança que participará da Copa, também compartilha suas impressões: “quando nos veem jogando futebol, (…) dizem que somos pessoas como eles”. Ou seja, ali, no campo, as crianças sentem-se empoderadas para mostrar suas habilidades no jogo e na vida. Mostram do que são capazes, mostram que são alguém com direitos, mostram que precisam de oportunidades. O hino oficial da Copa da Rua, “I am somebody” (sou alguém), é uma canção de afirmação das crianças: “Ei! Sou alguém (…) não sou invisível (…) não sou qualquer um”.

 

A Declaração Universal dos Direitos da Criança, conforme adotada pela Assembléia das Nações Unidas em 20 de novembro de 1959 e ratificada pelo Brasil através do art. 84, inciso XXI, da Constituição[1], afirma que “a criança terá ampla oportunidade para brincar e divertir-se, visando os propósitos mesmos da sua educação; a sociedade e as autoridades públicas empenhar-se-ão em promover o gozo desse direito” (princípio 7). Além disso, a criança “gozará de proteção contra quaisquer formas de negligência, crueldade e exploração. Não será jamais abjeto de tráfico, sob qualquer forma” (princípio 9). A Copa da Rua acaba por também apoiar o Princípio 10 da mesma Declaração de Direitos: “criar-se-á num ambiente de compreensão, de tolerância, de amizade entre os povos, de paz e fraternidade universal e em plena consciência que seu esforço e aptidão devem ser postos a serviço de seus semelhantes”.

 

Arte Popular – Suécia

Arte Popular – Suécia

Criança gosta de brincar: brincar de roda, soltar pipa, jogar bola, redescobrir (e repetir mil vezes) aquela mesma brincadeira… Sabe-se, inclusive, que alguns educadores e psicólogos reconhecem que o brincar, ainda que em atividade despretensiosa, pode representar uma forma legítima de livre expressão e resignificação de mundo por parte da criança. Elas são simples, elas são crianças. Elas querem brincar, elas têm algo a oferecer. Elas farão fortes afirmações ao mundo… brincando. Nesta Copa, além de participar dos jogos, também participarão de um festival de artes e de uma conferência que culminará na “Declaração de Direitos do Rio”: uma declaração universal, produzida pelas próprias crianças.

 

Como cristãos, cremos que Deus é “pai de órfãos e juiz de viúvas” (Salmo 68:5), e que “a religião pura e imaculada para com Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo” (Tiago 1:27). Cremos num Deus compassivo e misericordioso, que deseja que sejamos Suas mãos e pés ao ajudarmos aos menos favorecidos. Cremos que aliviar a dor gerada por condições sub-humanas de existência é uma das maneiras de demonstrar o amor de Deus ao próximo.

 

Elisa Lamego, coordenadora local do evento, enfatiza que “não há discriminação por gênero, cor, nem religião” na Copa da Rua, e se coloca à disposição para mais informações sobre o evento no e-mail <elisa@streetchildworldcup.org>.

 

Ao refletir sobre as crianças da Copa da Rua, me lembrei de um trecho da canção “Redescobrir”, de Gonzaguinha, interpretada por Elis Regina:

 

Como se fora brincadeira de roda
Jogo do trabalho na dança das mãos
O suor dos corpos na canção da vida
O suor da vida no calor de irmãos

 

No musical “Elis, a Musical” (texto de Nelson Motta e Patricia Andrade, direção de Dennis Carvalho), a personagem afirma (parafraseio aqui): “não quero só ser uma voz talentosa. Há muitas pessoas que têm esse talento. Não quero ser só mais uma grande cantora. Quero aliviar a angústia de alguém”.

Como intérprete voluntária na Copa da Rua, não quero só traduzir o idioma das crianças e dos organizadores. Não quero só ser uma boa intérprete, que faz com que a comunicação entre os povos seja fluente. Eu quero emprestar minha voz a elas, ser a voz delas em português. Eu também quero aliviar a angústia de alguém.

 

Juliana Portella

 


[1] Biblioteca Virtual dos Direitos Humanos, USP. <http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Crian%C3%A7a/declaracao-dos-direitos-da-crianca.html>  Acessada em 05/03/2014.