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Após cerca de 30 anos de vivência evangélica, redescobri a tradição cristã do advento, que me impactou em profundidade. Parte daqueles símbolos que, em meu ceticismo ritual somado à crítica social, eu atribuía somente à cultura de consumo ganharam sentido pleno, como sinais que apontam para as mais densas e transformadoras verdades. É claro que o Natal é uma agenda do comércio. Mas continua sendo uma celebração cristã, depende dos nossos olhos. Ingressar no período de advento me faz refletir sobre e reconhecer os mistérios tanto das esperas – do povo e dos profetas, que ansiavam pelo Messias, a de Maria, cuja única reação possível é cantar e poetizar –, quanto da chegada de Cristo, o Divino que se faz homem.

Há um misto de consequências individuais e coletivas em pensar o Natal como um evento vivido cristãmente. Não há razão para não deixar o espírito elevar-se e espantar-se com a realidade, sempre mistério, de Deus entrar na história e escolher fazê-lo através de uma mulher, de um bebê, de uma família. Um dos encantos é a universalidade desse ato – que transforma e redime toda a humanidade, todo o mundo, toda a criação – ser colada a singularidades. O cântico de Maria, o espanto de José, o nascimento na estrebaria, o louvor dos pastores e dos anjos. O que faz pensar que esperar o Divino é esse misto de canto, espanto, jornada, louvor. É a certeza de que Ele vem que alimenta a esperança. Celebrar o advento permite lembrar e reviver a espera.

A beleza dessa história é que a esperança não é vã. O advento termina quando Cristo, o próprio filho de Deus Pai, nasce. E então nada mais pode ser o mesmo, porque a esperança se realiza. Nenhum outro nascimento possui tão imenso e generoso Amor, cheio de misericórdia, quanto esse que celebramos no Natal. É o próprio plano divino de redenção que se movimenta. Seguir a Cristo nos leva adiante na história, a chegada do divino passa por toda a ação do Messias na terra, sua obra de discipulado, seu amor demonstrado aos pecadores, sua morte, sua ressurreição e sua promessa de retorno. Relembrar e reviver o advento e a chegada de Deus na história enche a vida de propósito: ser cristão é imitar Cristo, é demonstrar seu Amor aos outros e, como ele, fazer uma jornada de conciliação, que leve paz, alívio ao sofrimento humano e restauração a toda a criação.

Esperar pelo divino é reconhecer nossa dependência dEle e lembrar sua entrada na história e sua promessa de companhia e auxílio, sua missão, nos mobiliza a agir. É refletir sobre o momento que vivemos e nossa responsabilidade como cristãos nesse mundo – o mesmo que “Deus amou de tal maneira que deu filho”. Apesar de não ser uma música natalina, a questão que João Dias de Araújo e Décio Lauretti cantaram me vem a mente:

“Que estou fazendo se sou cristão, se Cristo deu-me o seu perdão?

Há muitos pobres sem lar, sem pão, Há muitas vidas sem salvação.

Mas Cristo veio pra nos remir, O homem todo, sem dividir:

Não só a alma do mal salvar, Também o corpo ressuscitar”

 

Os desafios são grandes, a continuidade da música cita alguns:

“Há muita fome no meu país, Há tanta gente que é infeliz,

Há criancinhas que vão morrer, Há tantos velhos a padecer.

Milhões não sabem como escrever, Milhões de pobres não sabem ler:

Nas trevas vivem sem perceber, Que são escravos de um outro ser.”

 

Então, para manter uma das tradições natalinas, faço votos: que nesse Natal possamos renovar nosso compromisso com Cristo, nosso compromisso de participarmos de sua obra redentora, acolhendo, curando, restaurando, respondendo com ousadia à pergunta “que estou fazendo se sou cristão?”. Que o espanto do Amor Divino nos mova a olhar o próximo, a agir para tornar o ambiente ao nosso redor, nossa sociedade e cultura, um lugar mais semelhante aos reflexos de tal Amor, onde cada mulher e cada homem possam viver dignamente. Amém.

 

Priscila Vieira

Dia desses tive acesso, via redes sociais, ao pequeno vídeo acima. Nele há uma representação da presença do ser humano sobre a terra e de como o mandato cultural de cuidar e cultivar a terra foi se deteriorando e perdendo a razão de ser.

 

Vendo este vídeo me lembro das diferentes concepções de mundo que o texto bíblico nos apresenta, tema de um dos diálogos que foi dirigido pelo querido pastor Eduardo Rosa da Comunidade Presbiteriana da Barra no Rio de Janeiro.

 

Temos uma primeira interpretação que é a perspectiva do mundo ser definido como um sistema de usos e costumes, valores que acabam por fazer frente ao plano de Deus para a humanidade. Nesta mesma linha, pode-se entender o mundo como uma geração. Situação em que as ações individuais trazem consequências para outros, como sociedade vivemos uma situação de interdependência. E, tanto no tempo como no espaço, as ações de cada indivíduo trazem repercussões nas vidas dos outros.

 

São estas as concepções de mundo a que somos chamados a não nos conformar, a combater e a evitar. Visões que agem a partir de valores contrários à Palavra e que, diante de suas decisões, prejudicam as pessoas.

 

Por outro lado não podemos esquecer o chamado feito por Jesus em relação ao mundo: como sua criação. Um convite a estar presente e a levar a boa notícia a todos os rincões do planeta. Aqui temos uma concepção de beleza do mundo, pois não podemos nunca esquecer de nossa condição terrena e de que este é criação de Deus. No passado este esquecimento se materializou diante da ausência de grande parte dos cristão de debates e ações relacionadas à preservação do meio ambiente.

 

Hoje a agenda de proteção ao mundo, a criação de Deus, passa por temas como a defesa da agroecologia e de outras formas sustentáveis de produção. Passa pela condenação ao uso abusivo de agrotóxicos e por uma firme postura ética em relação a não-liberação de sementes transgênicas. Não podemos permitir que lógicas e valores que entendem no lucro e na concentração da riqueza suas principais motivações, predominem nas decisões e encaminhamentos relacionados com o mundo e a terra. Questões relacionadas ao social, à cultura, à saúde e a sustentabilidade precisam ser consideradas nas equações e nos fluxos sistêmicos de tomada de decisão.

 

O mundo já teve mais do que suficientes provas que tanto o avanço tecnológico como a produção de riquezas e sua concentração, não são os melhores conselheiros para a definição de condutas que irão repercutir na vida de todos por tanto tempo. Diagnosticar, refletir e agir são ações necessárias no cotidiano daqueles que amam a vida!

 

É constrangedor a rápida velocidade das mudanças no clima. Relatório do IPCC (Painel Internacional de Mudanças Climáticas, 2007) confirma a previsão e indica que a região próxima ao Ártico aumentou suas temperaturas duas vezes mais rápido do que a média mundial nos últimos 100 anos.  A terra e o planeta podem não suportar a ganância dessa geração de humanos e ameaçar a sua existência com desastres naturais jamais vistos.  O planeta clama por justiça ambiental.

 

O convite é entender nossa condição humana de agentes transformadores da realidade e nossa relação com outros agentes e sujeitos de direitos que fazem parte do planeta: água, terra, céu e tudo o que neles há.

 

A humanidade contemporânea tem se desenvolvido focada prioritariamente no mercado, no lucro, no benefício privado, na concentração da riqueza, na exploração da natureza, na escravidão de pessoas e de seus recursos, no desequilíbrio das relações de ética com a natureza e a própria humanidade.

 

A mordomia a que tanto a Igreja prega significa agir com dignidade humana em prol dos humanos e dos não humanos em um mundo que foi criado para ser sustentável, ou seja, uma geração agir em prol da próxima geração.  Onde vai parar a humanidade?  A humanidade não é o centro da criação de Deus, mas foi pensada para ser o agente representante da mão de Deus para o cuidado de sua criação.

 

Assim, o Mundo como criação de Deus: Urge um clamor pela VIDA!

 

Dignidade humana é agir em defesa da VIDA COMUM PLANETÁRIA!

 

Daniela S Frozi

 

Referencia:

 

IPCC (2007b) [Core Writing Team, Pachauri, R.K and Reisinger, A. (eds.)]. Climate Change 2007: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Fourth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change, 2007

 

 

 

volta

 

Foram três meses sem publicar. O motivo? Vários, mas sob pedidos e protestos estamos de volta com a esperança de manter alguma periodicidade. Agradecemos aos que leram e aos que leram e comentaram. Vamos juntos, falar e refletir sobre dignidade!

 

Equipe do Blog Dignidade.

“Denunciei a fome como flagelo fabricado pelos homens, contra outros homens.”
Josué de Castro

 

Tempos difíceis, diferentes  depoimentos e  narrativas são construídas a partir de cada ator social, capazes de  envolver e  mobilizar a todos nós em torno da recente história brasileira.  Qual o lugar do pobre na ditadura civil-militar brasileira? A escolha por olhar a partir dos pobres tem em parte a ver especialmente com um olhar centrado para o campo da defesa de direitos e da participação social.

 

giniComo era o Brasil, antes de entrar no período da ditadura? Alguns historiadores afirmam que talvez fosse um país que enfrentaria fortemente as desigualdades e ao mesmo tempo vivenciaria maior crescimento econômico. Somente nos dias atuais é que a desigualdade brasileira se configura de maneira semelhante ao que era na década de 1960. Em 21 anos o governo ditatorial levou ao agravamento da pobreza e das desigualdades, ao lado da censura, torturas e negação a participação social. Somente agora, 50 anos após o início da ditadura, é que o país retornou a condições similares de desigualdade daquela época, conforme é possível verificar nos dados do Coeficiente de Gini (fonte), tendo a diminuição dessa desigualdade começado a diminuir – não por acaso – com a retomada das eleições diretas no início dos anos de 1990.

 

Os anos da ditadura se descortinaram em tempos em que pobres e famintos foram todos silenciados.  Algumas pessoas, na sua maioria sem memória, chegaram a dizer nos dias atuais que não havia pobre no Brasil, que havia segurança pública, ainda que as pessoas não passavam fome e que praticamente não havia problema social.  Ao contrário havia fome e pobres e sim, os pobres e famintos permaneceram historicamente presente na época da ditadura.  Porém, foram apagados da memória oral e escrita.  Lamentavelmente, por exemplo, confiscaram os livros de Josué de Castro, autor de Geografia da Fome, médico, gestor e intelectual brasileiro, incansável na luta contra esse grave flagelo: a FOME. Com a ditadura seu pensamento e ação foram desconsiderados, colocados no vazio do esquecimento, com evidenciados esforços para apagar da memória dos brasileiros o triste cenário denunciado pelo célebre intelectual.

O acesso à obra de Josué de Castro foi restringido, teve seus direitos políticos cassados e foi destituído do cargo de embaixador que exercia em Genebra. Faleceu no exterior sem poder retornar ao seu país (veja aqui).  Os pobres daquela época faziam parte da história sem ser parte consciente ou reconhecida da história, em um ambiente onde a memória da fome e da pobreza extrema, foram sequestradas do cenário político nacional.

A Fome, apesar de bem documentada por Josué de Castro, como fenômeno social e biológico, a ditadura civil-militar no Brasil impediu que os achados contidos nas suas obras, pudessem subsidiar as ações que poderiam ainda naqueles dias resolver a problemática da Fome no Brasil rural e urbano. Ao contrário a ditadura agravou agendas sistêmicas, com a ausência de Reforma Agrária e a as relações injustas de trabalho no campo, agravou ainda as problemáticas da monocultura e as relações do Nordeste açucareiro, onde existia a fome endêmica, seguida pela região do Sertão Nordestino aumentando a fome epidêmica, como o autor denominava o fenômeno.

Josué ainda denunciou a subnutrição nas regiões que ele definiu como Centro Oeste e Extremo Sul. Lamento muito a perda dessa memória nos anos de 1964 a 1985, se tivéssemos a continuidade do trabalho de Josué de Castro e de sua equipe teríamos avançado mais e até mesmo aplicado as potencialidades de sua análise compreensiva da Fome que há muito inovava ao usar as ciências de maneira complexa e relacional, como história, economia, biologia, geografia e antropologia. Desenvolveu um marco-analítico elegendo as populações por suas vulnerabilidades e características regionais como sendo elementos exploratórios do maior agravo da Fome, a desnutrição grave e a mortalidade infantil.

Drástica situação histórica!  O povo brasileiro deixou de enfrentar de forma magistral seu maior problema moral e ético: a Fome.  Só no início da década de noventa o grito do povo foi ouvido em forte apelo pelos dados do Mapa da Fome (IBGE, 1993): 32 milhões de brasileiros passavam Fome.  Quem deixou de ganhar com a ditadura? Obvio que foram os pobres famintos do Brasil.   A Segurança Alimentar e Nutricional perdeu com a ditadura! Quantas gerações morreram na ditadura civil-militar por conta de um mal social, político e econômico?  Quantos pobres e famintos foram mortos, desapareceram do mapa?

Para os pobres e famintos, o Brasil daquela época era opressor, violento, matador, ausente, meritocrático e muito injusto. Os direitos sociais só para os com carteira de trabalho assinada, afinal pobre honesto tem carteira de trabalho assinada. O regime durou de 1964 a 1985 e nos anos setenta e oitenta houve enorme inflação, período de grande insegurança alimentar, sendo novamente os mais prejudicados os pobres e os mais pobres entre os pobres. O Brasil era um país para muito poucos, para pessoas “com mérito”, situação que para alguns nos centros urbanos elitizados poderia representar um “país que funcionava”, isso atrelado à uma mídia completamente controlada em que não havia espaço para questionamentos ou críticas. Existia uma massa de pessoas invisíveis, que somente nos últimos 25 anos, diante do regime democrático, passaram a experimentar uma melhor realidade, ainda muito longe de ser a ideal.

 

Quem pode desejar o retorno de algo similar a Ditadura?

 

Certamente nenhum familiar dos cassados políticos, boa parte oriundos das classes média e alta. Para eles esse período foi igualmente perverso, foram silenciadas suas liberdades, foi vetada a participação social, tendo sido um regime de exceção, de violência e dolorosa tortura.  Da mesma forma que para aqueles que foram perseguidos pelo regime civil-militar, os pobres também não querem que ela volte.

 

A partir dos anos noventa, mesmo com uma infantil democracia, foram realizadas iniciativas que levaram a conquistas sociais. A democracia trouxe avanços que beneficiaram e foram consequência das lutas de diversas organizações e movimentos sociais. Aumentar o alcance de políticas de saúde e educação não são tarefas simples, ainda mais num Estado que foi formatado para atender a alguns e a excluir muitos. Alterar esta correlação de forças exige uma vigilante postura de monitoramento e de participação social. Em cada cidade, em cada órgão público; nas políticas elaboradas, somos chamados/as a participar de forma crítica e propositiva, enfrentando os dilemas entre o instituído e o instituinte.

 

É sintomático que após 50 anos do golpe ainda tenhamos militares ocupando territórios empobrecidos de uma grande cidade brasileira. Os pobres não querem ocupação militar. No entanto, eles ainda não foram reparados pelo Estado, ou mesmo reconhecidos em seus direitos civis, como o de ir e vir, em várias cidades e territórios do país.  A existência de Polícias Militares que ainda adotam em suas ações as mesmas práticas de tortura, ao lado dos chamados “autos de resistências”, e que enumeram diversos desaparecimentos, representam para a nossa sociedade uma bandeira de luta permanente contra a ditadura civil-militar do passado e do presente e que atinge fortemente aos mais pobres. Exigir o devido tratamento em relação a história vivenciada no período da ditadura não é negar a situação de exceção que ainda muitos vivem, pelo contrário, essa luta representa a afirmação da necessidade de mudança que reconheça e atue no enfrentamento das mazelas que ainda permanecem e que tiveram início num específico contexto.

 

A democracia precisa enfrentar os resquícios da ditadura civil-militar! As urnas se colocam como um dos mecanismos de enfrentamento a essa realidade, sendo necessário exigir dos candidatos majoritários ou não, que incluam de forma corajosa esta temática para que juntos seja possível virarmos definitivamente a página desta herança que os governos do período ditatorial impuseram ao nosso país. A rua é outro espaço de ocupação, manifestações públicas, participação e controle social são alguns dos elementos previstos em nossa Constituição e que como cidadãos e cidadãs devemos acionar no sentido do fortalecimento da democracia e para a construção de uma sociedade melhor e mais justa.

 

Daniela S Frozi
Com a colaboração de Juliana Peres e de Ronilso Pacheco

roda

“Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele” (Provérbios 22:6)

Refletir sobre o processo rápido de envelhecimento da população brasileira sob uma perspectiva bíblica é convite instigante no Brasil do século XXI. O envelhecimento envolve muito mais de que mudar o que pensamos sobre a velhice e os scripts culturais construídos acerca dessa etapa no curso da vida, mas especialmente pensar as mudanças necessárias nos arranjos familiares, nas igrejas e instituições societárias que prestam serviços relacionados ao bem comum e ao cuidado humano, bem como nas cidades e nos espaços agrícolas em decorrência do aumento da longevidade.  A estimativa da Organização Mundial de Saúde para o ano 2050 é de teremos dois bilhões de pessoas idosas compondo a população mundial, uma em cada quarto pessoas serão idosas. No Brasil, a cada ano, um milhão de pessoas completam sessenta anos.

Costumamos pensar teologicamente sobre esse versículo de provérbios e aplicá-lo na dimensão de um caminho que conduz a uma plenitude de vida que se concretiza no céu. Não negamos essa dimensão, porém gostaríamos de propor uma hermenêutica de profundidade (Thompson) para descrever uma perspectiva sócio-histórica do desenvolvimento humano ao longo da vida, utilizando uma abordagem intergeracional na interpretação do versículo.

Evidências explicam que os processos de envelhecimento nas sociedades contemporâneas refletem as trajetórias de vidas marcadas pelas iniquidades sociais, pelo estresse laboral e a precariedade das ocupações, pela insegurança alimentar – seja pela escassez de alimentos ou pelo excesso de consumo de alimentos inadequados -, pelos níveis de escolaridade, pelas doenças crônicas não transmissíveis e os determinantes sociais da saúde, pelas relações etnico-raciais e assimetrias de gênero, pelas ocupações sócio-espaciais nos territórios de alta e baixa renda, pela ausência ou presença do lazer e do prazer, pela espiritualidade desfrutada ou recusada e pelas vivências de relacionamentos baseados na dignidade humana ou nas violências nos diversos ciclos da família.

A pergunta que precisamos fazer é: Considerando que vamos viver mais anos, o que seria educar para conseguir mais qualidade de vida nesses anos? A longevidade vai produzir ou apenas irá refletir a inteligência emocional acumulada na trajetória de vida de mulheres e homens? Qual o legado para as gerações do presente e do futuro? Não pretendemos apresentar respostas, mas desenhar temáticas que devem ser cogitadas pelas pessoas, famílias e grupos societários.

Utilizando o texto bíblico proposto passamos a algumas dessas categorias  temáticas organizadas segundo as palavras chaves do versículo:

 

Educar a criança equivale a estabelecer pactos e responsabilidades individuais, parentais e familiares, comunitárias, institucionais e societárias com a qualidade de vida dessa criança que se refletirá no corpo senescente do porvir na velhice. Educar transcende a ensinar, requer evocar um modo de vida baseado num processo contínuo de emancipação e responsabilização humana, mas na perspectiva do lúdico e da dignidade. Educar é matriz curricular para a vida, na vida e ao longo da vida. Em relação, em comunhão, em convivência somos educados. Mesmo diante do intenso processo de redução dos níveis de fecundidade, com diminuição do crescimento da população infantil brasileira ainda teremos muitas crianças nascendo e precisamos educa-las educando-nos.

 

Caminho aborda a multidimensionalidade da dupla cidadania cristã. O caminho da fé, o caminho da integridade, o caminho do dom e da gratuidade, o caminho do amor, mas também o caminho do Tratado do Decrescimento Sereno (Latouche), da Não-Violência, da Pedagogia da Esperança (Freire) e do prazer (Alves). Enfim, a combinação de caminho, verdade e vida que o evangelho oferece e a ciência quase sempre esquece. Caminho que se constrói na caminhada, mas que já foi demarcado e delimitado pelo nazareno que caminhava de cidade em cidade, com comida-comunhão-oração temperada com compaixão.

 

Que deve andar. Andar dá ideia de mobilidade. Temos enfrentado sérios problemas com a mobilidade urbana, intra e inter–urbana, com as mobilidades migratórias nacionais e internacionais, com os desafios da mobilidade acadêmica, mas acima de tudo com os avanços e retrocessos da mobilidade na posição social.  Andar é uma ação dialeticamente oposta à possibilidade de estagnar.  O direito à mobilidade deve ser exercitado em todas as suas dimensões pela criança ao longo do curso da vida. Andar é construir capacidades e desfrutar de estruturas de oportunidades geradas pelo Estado, pelo mercado vigiado pela função social da propriedade e pelo controle social da comunidade. Andar é construir renovação do pensamento, não conformação com a imobilidade intelectual, indignação pela imobilidade afetiva, clamor por uma teologia caminhante que procura andar em caminhos que Jesus andou.

Vale ressaltar outra dimensão do andar. Recordo-me de uma frase do meu pai – um idoso paraplégico de 82 anos que luta para andar nos espaços urbanos onde os projetos arquitetônicos não foram planejados para incluir –: “Mais do que as ausência das rampas nos edifícios nós enfrentamos mesmo é a escassez de rampas nas mentes e corações humanos que não se sensibilizam em promover o andar dos deficientes físicos nos consultórios e serviços de saúde, nas escolas, nos transportes públicos, nas igrejas, na cidade. O deficiente é suficiente, a sociedade é que é deficiente”.

 

Até quando envelhecer traduz a ideia de processo, de permanência e troca intergeracional, de promessa de que desfrutaremos desse tempo de longevidade e repartiremos as conquistas com familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos.  Até quando não se trata de um advérbio interrogativo, mas de uma compreensão interna e profunda da passagem do tempo e da alegria em desfrutar a vida, da participação na qualidade da vida do “Outro” do qual me torno “Próximo”. Até quando é grito de liberdade, é encontro da alma com o self e a celebração da solitude. É uma atitude de espera silenciosa, madura e resiliente. É saber que é possível ser saudável mesmo lidando com a doença. É o acolhimento do auto-cuidado apoiado (eu me cuido apoiado pela família, amigos, irmãos na fé, comunidade e profissionais do cuidado). Até quando é exercício para manter a capacidade funcional e a paciência para enfrentar as disfuncionalidades físicas e funcionalidades limitadas da memória. É a saudação do encontro com a morte e com a finitude da vida sem as correntes paralizadoras do medo e da desesperança. É a celebração da gerotranscendência, do contentamento e da espiritualidade dos gestos simples e secretos. Até quando o Senhor conceder “vida aos nossos anos e anos às nossas vidas”.

 

Baseado nesse exercício hermenêutico no provérbio bíblico é possível discernir que envelhecimento precisa ser cada vez mais ser compreendido como resultado de uma trajetória biológica, mas principalmente social, cultural e espiritual. Trajetória baseada em conquistas e violações de direitos na fase pré-natal, infância, adolescência, juventude e adulta. Os processos de senescência serão tão diferenciados na população idosa quanto foram as trajetórias de vida marcadas pela injustiça social e escolhas equivocadas de comportamentos de risco à saúde física, psicológica e espiritual.

O descompasso entre transição demográfica e instituições de apoio aos processos de envelhecimento já demanda uma ampliação de consciência muito rápida por parte de cada pessoa, família e grupo social.

Estamos envelhecendo e a ditosa velhice é uma conquista de todos. É preciso construir um senso de comunidade, uma gestão urbana e agrícola, um novo modelo de desenvolvimento nacional para além da lógica do capital, uma nova ordem global pautada na qualidade de vida e respeito à dignidade da pessoa idosa. Fomos chamados para não nos desviarmos do caminho. Que seja Assim!!

 

“Quando era novo tinha esperança

De encontrar um velho que se deixasse educar,

Quando for velho espero

Que se encontre um moço e eu

Me deixe educar” (Bertolt Brecht)

 

Valter e Leides Barroso Azevedo Moura

“Amanhã, quando teu filho te perguntar: ‘Que são estes testemunhos e estatutos e normas que Iahweh nosso Deus vos ordenou?’, dirás ao teu filho: ‘Nós éramos escravo do Faraó no Egito, mas Iahweh nos fez sair do Egito com mão forte’”

Deuteronômio 6: 20-21

 

Moisés e os 10 mandamentos por G. Doré

Moisés e os 10 mandamentos por G. Doré

Reportar ao momento em que se dá o grande encontro do povo hebreu com o Deus libertador é recorrente no Antigo Testamento. Quase uma pedagogia. Não apenas esta passagem que aqui nos serve de epígrafe, mas diversas espalhadas pelo Deuteronômio, nos fala da exigência de uma ética a partir de Deus, que não está fundamentada exclusivamente no decálogo, não está na obediência mecânica dos dez mandamentos, mas na escolha cotidiana do não esquecer, a opção pelo permanente lembrar. Não que o decálogo não fosse importante, mas porque antes dele, marcante mesmo foi que um povo que vivia como escravo alcançou a liberdade (Dt. 26: 5-9).

 

O cuidado com o escravo, inclusive observando a possibilidade de deixá-lo ir, livre, e mesmo assim sem que ele fosse sem nada, é uma referência, e ao mesmo tempo uma reverência, à lembrança de que um dia, Israel também fora escravo, a vida era dura, e Deus se importou com eles, viu e olhando pra eles, viu que a liberdade era um bem que não deveria ser negada a ninguém (Dt 15: 12-15). O compromisso em não perverter o direito do estrangeiro, órfão e da viúva (Dt 24: 17-18), antes de qualquer ordem heterônoma, vem de uma espécie de “imperativo” ético gerado a partir da memória. Vem da gratidão à lembrança de que foram escravos no Egito, e seus direitos não eram respeitados.

Temos um dilema com a memória. É a memória que torna a história uma metodologia do bom seguir, orientadora de percursos, pois mesmo quando não se sabe exatamente para onde se está indo, a memória nos ajuda a evitar caminhos que não se devem seguir. É isso que há um pouco na afirmação do uruguaio Eduardo Galeano, de que a história é um profeta com os olhos voltados para trás. É verdade.

A heteronomia do decálogo é atualizada na autonomia das Bem-aventuranças. O que foi estabelecido como controle, se completa pelo convite ao cuidado. A memória deveria nos fazer olhar para trás e lembrar que é uma péssima ideia odiar o outro, querer transformá-lo numa projeção do que nós mesmos somos, crendo que nossas opções (de conduta, de valores, de credo, de posicionamento ideológico ou coisa que valha) são as melhores, e por isso deveriam valer pra todos. A memória deveria conseguir nos ensinar que o medo e a insegurança constroem inimigos, e transforma todas as nossas principais exigências para um estado que nos atenda, na exigência de que a nossa insegurança e os nossos medos sejam combatidos, bem como a eliminação de quem os personifica. A memória grita pela interpretação do que outrora houve, da leitura correta da gramática no acúmulo do conflito, do litígio, da resistência e da opressão, da luta inclemente.

Uma ética da memória não se dá nem ao prescritivo (ou seja, não se dá por satisfeita com o que deve ser, porque a vida humana clama por ideais que não estão postos, e já não podem ser ditados e aceitos com facilidade), nem com simplismo ao descritivo (ou seja, não se dá por satisfeita em se construir e pensar a partir do que se é, porque o sujeito humano não se entrega à definição, o espírito humano não se dá por vencido). Uma ética da memória está em construção, dialogando com o que viu e com o que a experiência lhe permitiu vivenciar. Sua palavra essencial é o cuidado e não o controle, sua principal desconstrução rompe com a imposição do presente resultado da permanente disputa das diversas correlações de forças na esfera pública.

Uma ética da memória buscaria não a imposição, mas a construção de um presente comum, que torna a afirmação da sua lembrança na negação da repetição dos seus excessos (que alienou sujeitos, que subjugou identidades, que destruiu histórias, que negou existências, que perseguiu diferentes, que invisibilizou pobres, que excluiu estranhos, que suprimiu direitos, que calou com morte).

 

Ronilso Pacheco

 

O professor da PUC-SP, Dr. Fernando Altemeyer, com base em informações coletadas pelo jornalista Luiz Cunha e outras fontes, publicou nas redes sociais uma compilação de números que são bem interessantes e nos ajudam a ver melhor a dimensão do que foi a ditadura civil-militar brasileira. Já a professora da UMESP, Dra. Magali Cunha, também reuniu informações de pessoas – denunciados e denunciantes, torturados e torturadores – dentro de suas atividades como pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e publicou em seu blog.

Além dessas fontes, foram consultados os arquivos disponibilizados por meio do Brasil: Nunca Mais Digit@al e com isso reunimos números e nomes. Esses números falam alto, mas são ainda mais fortes quando vistos ao lado de alguns dos nomes que os fundamentam, que representam a sua efetiva fonte. Estes nomes dão “carne e sangue” a essa realidade que separou pessoas, ceifou vidas, deu fim à sonhos e projetos. Pessoas foram presas porque foram a comícios, porque se filiaram a sindicatos, porque teimaram em enfrentar a sua realidade.

Separamos alguns desses nomes, colocando o foco em pessoas que frequentavam Igrejas evangélicas. São recorrentes nos processos atestados que afirmam a “não filiação ideológica ao comunismo” por parte do preso. Nestas apelações as cartas de pastores evangélicos pareciam, pela recorrência, ter peso. Aqui reunimos um pouco da história de irmãos e irmãs de diferentes igrejas: Batista, Quadrangular, Assembleia de Deus, Presbiteriana, Metodista e Luterana. Apresenta-se um pouco dessas histórias, a partir das informações dos inquéritos, que, como avisa a página do projeto Brasil: Nunca Mais Digit@l, uma “parcela expressiva dos depoimentos de presos políticos e as demais informações inseridas nos processos judiciais foram obtidas com o uso da tortura e outros meios ilícitos e não podem ser considerados como absoluta expressão da verdade”.

Reunimos aqui tanto aqueles conhecidos e que se destacaram na resistência e na denúncia ao golpe, lideranças de expressão no período pré-1964 e que depois se viram em meio a uma situação de perseguição, exílio e exceção; como também lembramos de alguns “anônimos”, pessoas que foram presas e interrogadas por um regime opressor sem maiores explicações. Muitos destes foram demitidos ou cassados; isso em meio a violência, censura, mortes, tortura e ao cerceamento das experiências e espaços de associativismo que estavam florescendo e que representariam importantes avanços para a democracia de então. Números e nomes. Lembrar para não esquecer.

 

I0053800-11(00371x00602)

Ficha de Brandão Monteiro

NÚMERO: 50.000 presos entre março e agosto de 1964

NOME: José Carlos Brandão Monteiro nasceu em Rosário (MA), militante do movimento estudantil secundarista, em 1958 tornou-se diretor do jornal da União Brasileira de Estudantes Secundários (UBES). Foi presidente do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (CACO), em 1961, e vice – presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1963. Foi funcionário do Banco do Brasil até ter seus direitos políticos suspensos pelo regime militar instaurado no país, em abril de 1964, após a deposição do presidente João Goulart. Demitido do Banco do Brasil com base no Ato Institucional nº 1 de 9 de abril de 1964, passou a exercer a carreira de advogado. Em sua defesa há depoimentos que afirmam que ele frequentava “a Igreja Batista, a rua Frei Caneca”. No depoimento utilizado para se tentar evitar sua cassação é afirmado “que ele era dado a resolver os casos dos outros, mas era um tanto ingênuo, porque ainda o mesmo acusado procurava soluções de fundo religioso, posição um tanto criticada pelos elementos da esquerda, melhor esclarecendo, diz que o acusado José Carlos Brandão procurava soluções de problemas sociais do povo dentro da doutrina cristã”.

Outra testemunha afirmou que “como presidente do CACO sempre atendeu as reivindicações dos estudantes dentro dos princípios cristãos, assim procurando harmonizar os interesses dos mesmos estudantes com a direção da Faculdade de Direito e com os próprios interesses do referido Centro, e quando não era possível ou melhor, não surgia a solução dos problemas reivindicatórios de sua parte, nunca foi iniciada greves, mas elas surgiram por imposição de assembleias de estudantes”.

Preso pela primeira vez em 1967, figurou na lista de perseguidos da Anistia Internacional. Foi preso novamente em 1970, quando foi torturado e, em 1973, foi transferido para São Paulo. Após ser libertado, revelou que o jornalista Mário Alves havia sido torturado até a morte e denunciou a participação do Cabo Anselmo, ativista do movimento dos marinheiros, antes da queda de Goulart, como agente dos órgãos de repressão. Preso mais de 11 vezes e processado por atividades subversivas foi defendido pelo advogado Sobral Pinto, não chegando a ser condenado. Com a decretação da anistia em agosto de 1979, foi reintegrado ao Banco do Brasil.

 

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Carteira de membro de José Henrique

NÚMERO: 500.000 cidadãos investigados pelos órgãos de segurança

NOME: José Henrique era um operário e poucas informações estão disponíveis sobre ele. Foi investigado e preso em 1973 acusado de participar de partidos clandestinos, “tendo feito panfletagem em 1967”. Esta é a única informação relacionada a ações específicas que teriam sido feitas por José Henrique e que ameaçavam à tal “Lei de Segurança Nacional”. Isso num longo processo com dezenas de páginas e de acusados, o qual visava desmantelar o PCBR.

Em sua defesa foram reunidos dois documento: sua identificação de diácono da Igreja do Evangelho Quadrangular e uma carta escrita por um missionário da Igreja, na qual ele afirma que “desde 1969 o sr. José Henrique é membro desta Igreja, tendo dado bom testemunho de caráter, sendo um tanto humilde dando-nos uma quase certeza de que vive tão somente para a Igreja, para seu trabalho e para sua família”. Foi absolvido.

 

NÚMERO:  200.000 detidos por suspeita de subversão

NOME: João Eduardo Flor era presidente da Federação dos Produtores Autônomos do Estado do Espírito Santo. Contra ele pesava a “acusação” de que teria comparecido ao comício do presidente João Goulart em 13 de março de 1964 no Rio de Janeiro, tendo viajado em ônibus do Sindicato de Estivadores de Vitória. Em depoimento, João Eduardo confessou ter participado do comício e também informou ser membro da Igreja Assembleia de Deus. Respondeu inquérito e foi incluído na lista de “elementos comunistas suspeitos de ação subversiva no Estado do Espírito Santo”. Indiciado, deu seu depoimento em julho de 1964, onde lê-se:

“(…) o depoente sendo de pouca instrução e muito atarefado em suas horas de folga, porque é membro da Igreja Assembleia de Deus, com tarefas de professor de classe, 2º Superintendente, e dirigente de uma congregação da mesma igreja  nos bairros da cidade, relutou em aceitar a presidência do sindicato daquele município que lhe fora oferecida, cedendo aos apelos após haver consultado o pastor da sua igreja, assim mesmo, em caráter provisório.”

 

NÚMERO: 10.000 torturados em São Pauloeliana_rolemberg1

NOME: Eliana Bellini Rolemberg é da Igreja Luterana, foi militante da Ação Popular, presa em 28/02/1970 pelo DOI/CODI, em São Paulo, juntamente com Anivaldo Padilha, denunciada por membro da Igreja Metodista. Torturada por 20 dias, sendo transferida para o DEOPS, foi liberada no final de 1971.

Em uma longa carta denúncia, escrita por outro preso, há relatos de várias pessoas que foram torturadas, inclusive ela: “Quem quer que percorra as prisões do Brasil, quem quer que converse com um patriota brasileiro que esteve preso, ficará conhecendo centenas de casos de torturados por militares e policiais. (…) a professora Eliana Taddei Bellini Rolemberg: presa pela ‘OBAN’ e submetida as mais monstruosas torturas durante dias e noites, tendo ainda oficiais do Exército ameaçando de a supliciarem, na frente de sua filhinha de um ano de idade.” Após exílio, retornou ao Brasil com a anistia em 1979.

 

NÚMERO: 6.000 mil apelações ao STM que manteve as condenações de 2.000 casos

NOME: Ephraim de Campos era médico e vereador pelo MDB em São Paulo na década de 1970 ele foi incluído em um Inquérito como acusado de envolvimento com o Partido Comunista. Foi acusado de “Tentativa de subversão e agrupamento perigoso à segurança nacional. Classificação do crime alterada na sentença para agrupamento paramilitar, permanecendo a tentativa de subversão e o agrupamento perigoso à segurança nacional”. Dentre os documentos há discursos que teriam sido feitos por ele na Câmara de Santo André, os quais comprovariam sua ligação. Essa “prova” foi apresentada como problemática no inquérito, já que o acusado era vereador em São Paulo…

Cardíaco e com 55 anos de idade se viu preso por cinco meses numa solitária e diante das torturas que ouviu e viu, assinou folhas em branco do que viria a se tornar o seu depoimento/confissão. Na apelação seu advogado escreveu: “Cardíaco, preso, incomunicável em cela confinada, sem qualquer atendimento, como bem esclareceu em seu interrogatório judicial, assinou quantos papéis lhe foram apresentados, com a condição de ser removido para o presídio Tiradentes”.

Na apelação de Ephraim consta que ele era “de formação religiosa (presbiteriano = praticante) e, finalmente, filantropo como atestam pastores de várias igrejas da capital, bem como, enfermeiras que com ele trabalhavam”. Nas cartas anexadas afirma-se que ele não possuía “qualquer ligação com ideologias comunistas” e, por fim, em sua apelação afirmou: “Este processo foi o instrumento de que Deus se utilizou para lhe dar uma lição de humildade. Sou técnico em saúde e não político, e nunca devia ter deixado o meu posto”. Foi absolvido.

 

O Estado Brasileiro pede perdão à Padilha em sessão da Comissão de Anistia

O Estado Brasileiro pede perdão à Padilha em sessão da Comissão de Anistia

 

NÚMERO: 10.000 brasileiros exilados

NOME: Anivaldo Padilha, leigo da Igreja Metodista. Era líder de juventude na Igreja Metodista e no movimento ecumênico. Militante da Ação Popular. Preso em 28/02/1970 pelo DOI/CODI, onde foi barbaramente torturado por 20 dias. Foi denunciado pelo pastor José Sucasas Jr. e pelo bispo Isaías Fernandes Sucasas, ambos metodistas e já falecidos. Teve que se exilar no Chile, nos EUA e na Suíça por 13 anos. Passou a atuar no movimento ecumênico internacional. Voltou ao Brasil com a anistia em 1979, quando conheceu pessoalmente seu filho que já estava com 8 anos. Devido a repressão foi separado de sua família e nesse tempo o único contato que tinha com o filho era por meio de fitas cassete.

 

 

 

NÚMERO: 4.882 mandatos cassados lysaneas

NOME: Lysâneas Dias Maciel formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais, na Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, em 1951, tornando-se, em seguida, assistente jurídico do Ministério do Trabalho e Previdência Social. Após 1964, assume a defesa de vários presos políticos e, em 1965, ingressa no Movimento Democrático Brasileiro – MDB, partido de oposição criado com a instauração do bipartidarismo. Em 1971, junto com dois outros deputados, criou o grupo dos “autênticos do MDB”, cujo objetivo consistia em combater o imobilismo da cúpula partidária. Em 1976 teve seu segundo mandato cassado, “exilando-se” na Suiça. Retorna ao país, em 1978, participando das campanhas pela redemocratização e pela anistia.

Nos arquivos do CPDOC é possível encontrar “correspondências enviadas a Lysâneas por amigos e personalidades públicas, durante seu período do exílio, em decorrência da cassação de seu mandato como deputado federal e suspensão dos seus direitos políticos, em 1976. Boa parte dessa correspondência é constituída por mensagens de solidariedade de representantes de instituições eclesiásticas e membros das Igrejas.” (Fonte: Guia dos Arquivos do CPDOC).

Em depoimento ao CPDOC em 1998, Lysaneas afirmou que sua entrada na política se deu pelos “direitos humanos, via Igreja”. Ele era presbiteriano, sendo que reconheceu nesta mesma entrevista que  “ (…) a Igreja me acusava de terrorista, subversivo, e os grupos de esquerda me chamavam de burguês religioso… Nunca neguei minhas convicções evangélicas, sempre as tive comigo.”

 

NÚMERO: 1.148 funcionários públicos aposentados ou demitidos

NOME: João Batista Spanier foi demitido da Sorocabana “a bem do serviço público” pelo Ato Institucional de abril de 1964. Atuava como ferroviário em abril de 1964 e foi acusado de ser comunista. Em sua defesa reuniu cartas de pastores que afirmaram sua filiação à Assembleia de Deus. Foi demitido junto à outros 41 funcionários.

Em 1970 Spanier foi acusado de “praticar atos de sabotagem ou terrorismo”. A argumentação de sua defesa foi de que “a denúncia orientou-se pelo interrogatório do réu no inquérito policial militar, que, como é óbvio, traz a suspeita que tem se evidenciado peças de coação – física e moral no trabalho que a polícia política tem que realizar na investigação preliminar à instauração dos processos”. Pelos processos disponíveis no Brasil Nunca Mais Digit@al, a acusação era no sentido de que Spanier atuava como motorista para a ALN em São Paulo, tendo sido preso com vários membros da organização. Este processo, de prisão ou assassinato, é descrito como “quedograma” pelo jornalista Elio Gaspari, onde ele tenta organizar como se deram os desdobramentos destes episódios.

 

NÚMERO: 1.202 sindicatos sob intervenção

NOME: Francisco Pereira de Oliveira trabalhava no Porto do Rio de Janeiro e era filiado ao sindicato, a União dos Portuários do Brasil (UPB). Por isso foi convidado a prestar depoimento em julho de 1964 a um capitão de fragata na sede da empresa em que trabalhava. Como argumento para se defender das acusações de que estaria envolvido em atos de subversão, afirmou que “sempre evitava estar presente em qualquer assembleia mais exaltada, da qual pudesse surgir qualquer violência, por motivos religiosos pois pertence à Assembleia de Deus; que, por este motivo religioso, nunca aceitou convites de colegas para acompanha-los como piquete, entretanto não se recorda ao certo, quantas vezes foi solicitado para isto, nem quem fazia tais convites”.

 

NÚMERO: 400 mortos e 144 desaparecidosheleny_guariba

NOME: Heleny Guariba, leiga da Igreja Metodista Central foi presa em 1970 e novamente em 1971, para depois ser considerada “desaparecida”. Assassinada pela ditadura, possivelmente na “Casa da Morte” de Petrópolis, centro clandestino de torturas, Heleny foi presa 4 meses após a prisão de seu esposo, sendo que tinha dois filhos. Seus sogros concluem carta em que relatam sua relação com ela, dizendo: “Heleny e José Olavo integram nossa família e cujo retorno ao lar aguardamos com não menor ansiedade”.

Diretora de Teatro reconhecida, também era formada em filosofia, destacava-se entre intelectuais e artistas da época (fonte). Na apelação seu advogado escreveu: “Estamos todos convencidos de que Helena Guariba foi presa após sua liberação  por esse r. Juízo. Apenas uma dúvida paira: se está viva ou não”.  Seu corpo nunca foi devolvido à sua família.

 

Ficha de Waldo Cesar

Ficha de Waldo Cesar

Mais um nome a ser lembrado é o de Waldo César. Estudante de teologia e da igreja presbiteriana, até 1964 era seminarista responsável por uma congregação no Rio de Janeiro, quando foi afastado. Era um dos líderes da Confederação Evangélica Brasileira. Foi investigado e abordado em diferentes ocasiões pelas forças de repressão, chegando a ficar preso por uma semana. Não sofreu tortura física e com o decreto do AI-5 fugiu do país. Em um Inquérito Policial Militar de 1965 ele aparece como “suspeito de exercer atividades comunistas na Faculdade Nacional de Filosofia“, sendo definido como um “Elemento bem falante, cultura acima dos padrões  normais, ótima capacidade de persuasão, muito bem informado, apresentando sinais de calma, convicção e ponderação”, considerado “o maior agitador dos meios Evangélicos do Brasil”.

O vídeo dessa semana é um material inédito que foi feito a partir do depoimento de Waldo sobre o congresso realizado em 1962 pela Confederação Evangélica Brasileira, o qual teve como tema: “Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro”. Um material relevante e atual que nos apresenta um pouco do pensamento de um que era considerado um dos mais perigosos “agitadores” e que simplesmente seguia o espírito evangélico de ajudar ao próximo a partir de suas legítimas convicções.

 

 

 

Alexandre Brasil Fonseca

 

 

 

Colocar em evidência a negligência, o abuso e a exploração de crianças é o principal objetivo do Jejum Solidário, promovido pela Visão Mundial em várias partes do mundo. A mobilização ocorre durante 5 semanas com orações, reflexão e ação de jovens e igrejas. No Brasil, o Dia do Jejum Solidário será 12 de abril. Para participar, basta propor uma ação nas celebrações e cultos da igreja e enviar a informação para daniel_moreno@wvi.org de onde e quando a ação acontecerá. Veja aqui o site oficial do Jejum Solidário (em espanhol). Participe!

 

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por Jorge Barros*

 

Clique na imagem para visitar o site “Brasil: Nunca Mais Digit@l”

Hoje fez 50 anos que foi controlada a Revolta dos Marinheiros, a rebelião de praças que se entrincheiraram no Sindicato dos Metalúrgicos, na Rua Ana Néri, em Benfica. Eu e minha família morávamos ali perto, na Rua Fausto Barreto 10. Eu ia completar dois anos em maio daquele ano. Meu pai, Jorge da Costa, fora cassado pelo AI-2. Era sargento da Aeronáutica, militava no Centro Popular de Cultura da UNE e era estudante de direito na UFRJ, cujo campus era ao lado da Praça da República. Meu pai era atuante no C.A.C.O. (Centro Acadêmico Cândido de Oliveira), um centro de agitação do movimento estudantil, que completará cem anos em 2017.

Para completar o perfil “comunista” do meu pai — que nunca foi filiado a nenhum partido comunista — ele era locutor da Rádio Mayrink Veiga, no Centro do Rio, que era considerado um centro de agitação brizolista.

Essa introdução é para explicar que nas minhas veias corre sangue antigolpista. Acusado de não-sei-o-quê, meu pai foi preso incomunicável por 60 dias no Parque de Material Aeronáutico, na Avenida Brasil, Zona Norte do Rio. Apesar disso, nunca vi meu pai chorando pelos cantos, criticando o regime militar. Ele foi privado de participar de concursos públicos simplesmente porque fora cassado como militar, sem qualquer acusação formal. Só em 1979, quando comecei a estudar jornalismo, fui saber dessa história contada pelo meu pai. Eu detestava política, como boa parte dos jovens da minha geração.

Na faculdade, Suse, em Jacarepaguá, peguei um jornalzinho dos estudantes intitulado “Pro que der e vier”. Havia uma nota pequena, mas que cresceu diante dos meus olhos. Lembrava que um militante, Mário Alves, havia sido torturado, empalado e morto no Doi-Codi, na Barão de Mesquita. Aquela notícia me chocou. Por que afinal um ser humano havia sido vítima de tanta truculência dentro de um quartel do Exército? Os militares não eram preparados para enfrentar o inimigo externo? O que levou militares a assassinarem seus compatriotas, dentro dos quartéis transformados em masmorras?

A curiosidade, o pavor e as dúvidas diante de uma fração da História me levaram a cobrar do meu pai explicações sobre o que afinal fora aquela “revolução de 64”. No Centro Cívico Escolar (CCE) da Escola Marechal Mascarenhas de Moraes, no Caju, ouvi falar que os militares haviam feito uma revolução para livrar o país do comunismo. Mas era preciso tanta violência?

A resposta do meu pai durou uma noite. Foi uma aula de política em casa. Passei então a gostar do assunto e a ler tudo o que caía nas minhas mãos sobre política. Entendi que em 1964 o país estava dividido. Quem não tinha nada estava de um lado. Quem tinha muito ou alguma coisa estava do outro. Esse lado conseguiu apoio da elite militar e da superpotência americana para fechar o cerco e varrer os que estavam no poder e defendiam profundas reformas sociais e políticas. Quem tinha muito alegava que o Brasil marchava, sem volta, para o comunismo — ideologia difundida pela guerra fria, que dividia o mundo entre capitalistas e comunistas.

Atemorizados pela “ameaça comunista” — cujo pânico foi gerado pela propaganda americana — os religiosos, católicos e protestantes, também aderiram à ideia do golpe, de se romper com a legalidade, em nome da liberdade. O golpe gerou o que de pior pode gerar uma sociedade: terror, repressão política e social, censura à imprensa, violência sem controle, controle social absoluto, suspensão dos direitos políticos, arbítrio, ditadura. A democracia foi jogada na lata do lixo, sempre debaixo da tese de que o golpe era justamente para defender a democracia. Mentira em cima de mentira.

Cinquenta anos depois, temos um país pior, mil vezes pior do que se tivesse seguido seu destino democrático. Durante os anos de chumbo, não foi só tortura que se ofereceu aos oponentes. À sociedade foi entregue um legado de empobrecimento cultural e a desigualdade social se acirrou, enquanto os militares investiam em desenvolvimento. Até hoje o Brasil patina na educação. A impunidade na corrupção também é herança da ditadura, que, auxiliada pela censura à imprensa, conseguiu acobertar grandes falcatruas de seus ministros e governantes nomeados, sem eleições diretas. Os movimentos políticos e sociais foram castrados ao ponto de assistirmos hoje alguns deles renascerem sob a égide do terror e do mesmo tipo de violência que foi empregado pela ditadura.

Esclareço que nunca fui favorável à reação armada dos grupos de esquerda, que lutaram para derrubar a ditadura. Sinceramente, não me interessa mais se esses grupos tinham o ideal de implantar o comunismo no Brasil. Jamais conseguiriam. Não resta dúvida de que a luta armada acirrou também a reação da linha-dura do regime militar, que deu seu golpe de misericórdia com o AI-5, em dezembro de 1968. A ditadura poderia ser derrubada por ações pacíficas? Não se sabe, mas teria sido possível, sim. A não-violência também é uma forma de resistência.

Desculpe alugar vocês com meus dilemas. Cinquenta anos depois, estou cada dia mais convicto que nenhuma forma de ditadura vale à pena. Seja de direita, seja de esquerda. Criado à semelhança divina, o homem nasceu para ser livre e decidir seu próprio destino. E que Deus nos ajude a decidirmos pelo melhor. E, sem dúvida, democracia é melhor. Sempre.

 

 

*Este texto foi publicado hoje pela manha nas redes sociais no perfil do jornalista do O Globo Jorge Barros. Jorge é um amigo de longa data, homem de fé, irmão camarada e comprometido com a dignidade humana. É um privilégio tê-lo por aqui no Dignidade!

 

 

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O pastor Thiago Rocha tem como hábito concluir seus sermões com poesias de sua autoria. Esse hábito rendeu vários livros e belos momentos que expressam de forma especial os conteúdos pregados. Neste post compartilhamos a poesia “Coisa ou gente?”, publicada no livro Hoje (1979, p. 27-28).

 

 

 

Coisas a gente pode comprar:

à vista, a prazo, quando quiser.

Mas amizade não se compra,

não se faz, nem se exige.

Simplesmente nasce, como a flor no jardim,

quando nele se planta uma semente.

 

Ter coisas é muito importante:

uma casa, um carro, uma roupa,

ou mesmo dinheiro na mão.

mas nada representam

quando, com elas ou sem elas,

não se é feliz.

E felicidade não depende de coisas

que se tem,

mas daquilo que se tem

dentro da gente.

 

Não devemos preocupar-nos demais com coisas:

as que são nossas, ou a dos outros.

Afinal, quando daqui nos formos,

se deixarmos apenas coisas,

logo se desfarão, ou as queimarão,

e o que formos e fizermos

é o que ficará,

e o que nos acompanhará.

 

Enchemos demais nossas vidas com coisas:

comidas, bebidas, prazeres:

utilidades futilidades.

E o tempo se vai, e, no meio das coisas,

não vimos a lágrima

a rolar dos olhos sofredores;

as feridas abertas

nas almas transfiguradas de dor;

ou o sorriso franco e limpo

de uma criança alegre;

ou o “olá” de um amigo de fato.

Afinal, coisas não podem amar.

Gente, sim. E elas passam e as não vemos.

 

E quando nos agarramos às coisas,

pensando que nos darão segurança,

Querendo-as só para a gente,

não as dividindo com ninguém,

então, ao final, percebemos

que elas se transformam em água,

que corre por entre as mãos.

Se nos agarrássemos às pessoas,

e as amássemos de fato,

então, ao fim,

elas não se desprenderiam da gente

nem a gente se desprenderia delas.

 

Thiago Rocha