Publicado originalmente em:

http://www.forumrio.org/noticias/artigo-um-dia-internacional-e-as-mortes-que-nao-queremos-rememorar/

 

Poucos se lembram que, em uma semana, completa um ano que uma favelada foi brutalmente assassinada durante (mais) uma operação da Polícia Militar em favelas cariocas. Daquela vez, no Morro da Congonha, em Madureira. Daquela vez, era Cláudia dos Santos Ferreira. Foi arrastada no asfalto por cerca de 300 metros por um carro da PM, depois de ter levado um tiro quando saiu de sua casa para comprar pão. Ela daria café aos filhos naquela tarde.

Hoje, Dia Internacional da Mulher, lembremos de Cláudia. Mas também das mortes que não queremos, futuramente, rememorar. Pensemos nas faveladas que, ao contrário dela, seguem sobrevivendo em meio à luta e ao sonho, tentando construir um espaço habitável para si, para seus filhos ou seus pares. As mulheres cujas dificuldades banalizamos por serem tão “comuns”, tão recorrentes, tão obviamente absurdas.

Gizele Martins, 29 anos, é moradora do conjunto de favelas da Maré desde que nasceu. Foi criada por sua avó na Baixa do Sapateiro, em uma rua-fronteira entre duas facções rivais de traficantes: “Acontecia e ainda acontece tiroteio todos os dias. Vi inúmeros mortos, casas invadidas, polícia atirando, caveirão. Vi muita gente morrendo ali”.

Gizele sobreviveu. Formada em jornalismo, construiu por 10 anos um dos maiores jornais comunitários da cidade, o jornal O Cidadão. Hoje, é diretora do Sindicato dos Jornalistas e militante pela democratização da comunicação, entre outras tantas atividades.

Ela ainda vive na Maré com sua avó, em outra casa, que comprou na esperança de ter dias mais tranquilos. Infelizmente, não é o que vem acontecendo. Gizele testemunha atualmente um dos períodos mais caóticos já vividos ali. Há quase um ano, tropas das Forças Armadas invadiram o conjunto de favelas, ocupando as ruas com seus tanques de guerra, vestindo fardas camufladas, armados até os dentes. É com estas figuras que Gizele se depara todos os dias na porta de sua casa: “Moro numa favela em que quase não é mais possível militar, lutar. Cada tanque daquele tira as nossas forças. Eles parecem ser bem maiores que nós”.

 

Gizele Martins: a luta das mulheres do Complexo da Maré

(Imagem: Gizele Martins: a luta das mulheres do Complexo da Maré)

A homenagem que queremos

Lilian Barbosa, nascida e criada em Japeri, Baixada Fluminense, deu à luz Lívia há sete anos. O parto quase levou as duas à morte. Com complicações físicas e psicológicas, a mãe teve de interromper o curso de matemática na Universidade Federal Fluminense (UFF). Foram dois meses até voltar a andar, além da depressão. “A saúde da mulher, e da mulher negra, ainda é uma grande questão”, diz.

Hoje, mãe e filha vivem no morro Chapéu Mangueira, que Lilian considera uma “favela militarizada pela UPP”. A menina já teve um arma apontada em sua direção por um policial. Com a bolsa que recebe da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde cursa atualmente Serviço Social, Lilian tenta se manter, criar sua filha e pagar o aluguel. Quando a menina pede alguma coisa que não é possível comprar, a mãe brinca que “não é mulher do Eike”.

Lilian se aproximou da militância política na Igreja Católica, quando adolescente, e foi ameaçada de morte inúmeras vezes pelos “grupos de extermínio da Baixada”. Jovem, negra, comunista, mãe solteira, favelada (ou “periferada”), ela se diz “militante contra o machismo, o racismo, a homofobia e todas as formas de opressão das quais o capitalismo se apropriou”. Soma a estes sonhos a vontade de dar à filha mais espaço para a infância: “Colocá-la no balé”.

Viver num mundo menos opressor é o sonho dessas mulheres. Um sonho que elas constroem todos os dias. Este é um texto sobre a homenagem que queremos hoje. Eu te proponho que dispense as flores e se junte à luta dessas mulheres. Que se lembre de Cláudia e da necessidade tão urgente de garantir às mulheres negras, faveladas, pobres, o direito mais básico: o direito à vida. Homenageie uma mulher hoje: faça algo para que, um dia, possamos comemorar de fato o Dia Internacional da Mulher, quando nossas vidas não estiverem tão fragilmente equilibradas sobre a linha que nos separa da morte.

 

 

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Marília Gonçalves é jornalista com especialização em Sociologia Urbana, mestranda em Ciências Sociais na UERJ e feminista em formação. Atua no campo da Comunicação Comunitária, fazendo pesquisa, extensão e militância.

 

Em resposta a cinco teses políticas do teólogo reformado Franklin Ferreira

 

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Como ser liberal e conservador ao mesmo tempo? Simples, basta que ambas as palavras se refiram a esferas[2] diferentes do mundo, e da vida, que a conta fecha. Ou pelo menos convence boa parte dos leitores e do público evangélico em geral. Essa parece ser a nova posição defendida pelo teólogo brasileiro Franklin Ferreira: teologicamente conservador (ortodoxo, ou reformado); e politicamente liberal – no sentido econômico, apenas. Nesta série de textos, vou responder aos cinco principais argumentos de Franklin em alguns de seus posts recentes[3] na revista Teologia Brasileira, demonstrando a fragilidade conceitual de sua posição. Nestes textos o autor procura fazer um convite aos cristãos para adesão a um sistema ideológico: o liberalismo econômico. Isso fica claro ao ler ao menos dois de seus textos em sequencia. O primeiro post a que me refiro, abre o tema com uma comparação limitada entre os conceitos atuais de “esquerda” e “direita”. Já o segundo, onde o autor revê e atenua algumas de suas posições no primeiro, se encerra com uma bela citação do teólogo neo-ortodoxo Karl Barth, alertando os cristãos para os perigos de se permitir que uma posição sócio-política – ou ideológica – seja superior a sua própria fé. Finalmente, coloca em pauta o objeto de pancadaria do autor: socialismo, segundo ele, “visão de mundo rival do cristianismo”.

 

Contudo, gostaria de deixar bem claro que todos os argumentos aqui expostos se dirigem contra as ideias do autor a quem me refiro, e não contra sua pessoa. Isso deveria ser óbvio mas, nesse caso, merece ser dito preliminarmente, por uma simples razão: considero o teólogo Franklin Ferreira um amigo pessoal – um irmão. Fui seu discípulo – no sentido integral em que a palavra é empregada no contexto protestante brasileiro. Quando adolescente, e ainda recém convertido ao Cristianismo, me juntei a um seleto grupo de quatro jovens com quem o então seminarista Franklin Ferreira organizava estudos bíblicos e debates teológicos, exibição de filmes e futebol – as duas últimas atividades contavam com um grupo maior de 20 pessoas…afinal, não é fácil chamar jovens para ler e discutir um catecismo numa sexta-feira a tarde. Além disso, se trata de um autor exemplar: ainda novo, sua obra já conta com inúmeras publicações, dentre elas uma das poucas obras de Teologia Sistemática escrita por um autor brasileiro.

 

Confesso, ainda, ao iniciar essa série de postagens no Dignidade!, que relutei muito em responder a Franklin: talvez pelo peso de telo tido como referencia teológica; ou talvez pelo simples trabalho de articular uma resposta aos seus textos – que trazem referencias de primeira e segunda mão meticulosamente trabalhadas, exigindo esforço de quem se presta a uma resposta. Mas decidi encarar a tarefa por dois motivos. Em primeiro lugar, porque há aproximadamente 6 anos, travei um longo debate com o autor e outros interlocutores, neste tema – um debate que se estendeu por quase 3 anos, e de onde parece ter se originado boa parte dos argumentos que ele levanta nos seus textos atuais. O debate havia se iniciado pelo incomodo que senti, a época, ao ver que dois ou três líderes eclesiásticos influentes no meio dito cristão reformado, aderiam sem reservas as ideologias neoliberais disponíveis no mercado político norte-americano – no caso aderiam ao que se denomina republican and conservatives, nos EUA.

 

Em segundo lugar, a resposta segue porque boa parte dos argumentos que ele traz acabam se reproduzindo para dentro e além deste universo cristão reformado, um contexto no qual cresci e do qual boa parte dos meus amigos faz parte – jovens que ele ataca como parte de uma “Geração Coca-cola”, e que recentemente utilizaram destes argumentos em discussão comigo nas redes sociais. Aliás, ambos os textos chegaram a mim por parte deles: um me acusou de ser um cidadão de “classe média alta” que não sabe nada do Brasil, por gozar de uma bolsa no exterior; e o outro, equiparava nazismo e comunismo, atacando o governo atual, petista, como sendo mais ou menos as duas coisas ao mesmo tempo. Mas vamos aos textos.

 

Em Espectro político, mentes cativas e idolatria, Franklin defende, como tese central, a ideia de que é praticamente impossível ser cristão e socialista. A opção política pelo socialismo, além de ser sempre a escolha por um regime político autoritário – e assassino –, seria um tipo de heresia que substituiria, necessariamente, Deus pelo Estado. Já no segundo texto, Totalitarismo, o culto do Estado e a liberdade do evangelho, após atenuar alguns dos argumentos do primeiro texto – revisitando, por exemplo, o Diagrama de Nolan[4] –, o autor sustenta que não há partido propriamente “de direita” no Brasil, e até que nunca houve um governo de fato liberal na história do país…

 

Franklin faz isso através de cinco teses centrais, que passo aqui a explicitar, e rebater:

 

1) a direita não pode ser autoritária: ao colocar o indivíduo e a garantia as liberdades individuais em primeiro plano, não haveria possibilidade de um regime ser ao mesmo tempo autoritário e de direita.

 

Os regimes políticos geralmente classificados como extrema direita, para Franklin, o são por equívoco, por uma mera “contradição entre definição conceitual e realidade histórica”: a direita, digamos, pura, seria somente aquela que adere ao liberalismo econômico, garantindo propriedade privada, direitos individuais e eleições livres aos cidadãos. Por outro lado, nessa leitura, todo totalitarismo seria “esquerda”, no qual se encaixariam tanto os regimes comunistas, como os nazistas e fascistas. A estratégia do autor é tentadora: ao adotar um conceito diferente de direita e esquerda, a primeira aparece como a única opção realmente democrática.

 

É com essa perspectiva que Franklin comete seu primeiro erro conceitual: há uma diferença significativa entre totalitarismo e autoritarismo que passa batida pelo texto do autor. Embora ele faça citações[5] que fazem o leitor acreditar que compreende a diferença entre os termos, Franklin se detém apenas a explicar o primeiro, totalitarismo, ignorando o segundo, o autoritarismo – o mais relevante para compreendermos a associação entre fascismo e liberalismo econômico na América Latina, como vou argumentar mais a frente. Totalitarismo, em linhas gerais, se refere aos regimes políticos de partido único, onde o Estado molda toda a sociedade e a absorve em si; enquanto autoritarismo se refere a práticas e governos antidemocráticas, de poder concentrado num indivíduo (ditador) ou numa junta governamental – ou ainda, em monopólios e oligopólios corporativos –, e que podem existir ao mesmo tempo que práticas de livre mercado e eleições relativamente livres.

 

No entanto, ainda que ignorássemos o erro conceitual de Franklin no debate, sua estratégia de adotar um novo conceito para salvar sua posição política cai por terra facilmente, diante da realidade histórica. Isso fica mais claro no segundo texto que analisamos aqui, quando observamos o uso que o autor se propõe a fazer do Diagrama de Nolan que, por sua vez, demonstra a possibilidade de uma posição política, por exemplo, libertária e de esquerda (nesse caso, por definição, anarquista). Mesmo diante do esquema visual, o autor insiste em ignorar a existência desse tipo de posição. Para ele apenas a direita – em estado hipoteticamente puro e liberal, como veremos a seguir – é capaz de garantir um bom estado e governo.

 

Por outro lado, a tese teológico-política central de Franklin parece ignorar também a existência e as consequências do que podemos chamar de uma “teologia política”[6] secular: algo que tem ocupado o centro dos debates da teoria política e do direito público, durante praticamente todo o século XX. Mas não há nenhuma menção nos textos de Franklin, por exemplo, as obras de Carl Schmidt[7], ao seu extenso debate com Hans Kelsen[8] sobre Constitução e Soberania e sobretudo – e talvez de maneira mais importante –, ao debate sobre o conceito de Estado de Exceção: justamente o dispositivo constitucional, ao mesmo tempo jurídico e político, que garante a possibilidade de regimes economicamente liberais (e supostamente democráticos) se tornarem autoritários, justificando a suspensão de garantias e direitos individuais fundamentais, em nome da segurança nacional e/ou da economia[9]. Talvez seja por ignorar a noção e o uso histórico (e mesmo recente, no caso brasileiro) de medidas de exceção; ou por ignorar qualquer tipo de teologia política que não seja aquela produzida por “crentes”, que Franklin acabe se confundindo, e não percebendo a possibilidade, a existência e as características históricas de um método liberal de governo autoritário.

 

Mas esses não são os únicos problemas com a primeira tese de Franklin. Ao tentar rechaçar um argumento de Paul e Raphael Freston[10] sobre o tema, o autor comete outro erro grave no debate político: atribui aos seus adversários o mesmo artifício que emprega. Franklin alega que os socialistas geralmente comparam o socialismo utópico com o capitalismo real, dando obviamente preferencia ao primeiro; quando deveriam comparar o “socialismo real” – no caso, os países ditos comunistas, alinhados com a antiga URSS – com o capitalismo real. Entretanto, Franklin parece fazer exatamente a mesma coisa em sua defesa do liberalismo econômico e, por tabela, do sistema capitalista de produção: ele compara os países comunistas decadentes ao que podemos chamar de um liberalismo utópico. Nesse ponto, sua teoria (ou teologia) parece se deslocar completamente da realidade, ignorando que países liberais tiveram – e tem! – colônias, que impuseram sua força e dominação a outros países de maneira pecaminosa, exterminando povos, culturas e civilizações em nome da introdução e defesa do seu “livre mercado”. Parece que casos de autoritarismo e tortura em solo nacional, assim como o financiamento de ditaduras e do terrorismo internacional por países economicamente liberais, como os Estados Unidos da América (EUA), ou o Reino Unido (UK), nunca existiram para Franklin – apenas a título de exemplo, vale lembrar o envolvimento do Reino Unido nos casos de tortura de irlandeses tanto em processo aberto ainda na década de 1970, e reaberto recentemente, sob o título Ireland v UK (Five Techniques)[11], quanto no famoso caso The Guilford Four[12]; do lado dos EUA, há inúmeros casos que poderiam ser citados aqui, mas para os propósitos deste texto, gostaria de relembrar apenas, o assassinato do Comandante do Exército Chileno, o General René Schneider[13], e o atual e problemático caso de Guantánamo, um campo de concentração pós-moderno.

 

Punch_Rhodes_Colossus - http-::en.wikipedia.org:wiki:Cecil_Rhodes

(Imagem: O Colosso de Rhodes – The Rhodes Colossus, de 1892: charge retratando Cecil John Rodes, esticando seus pés e poderio sobre o continente Africano. Cecil John Rodes foi empresário e político, ferrenho defensor do Império Britânico e da superioridade racial branca, e membro do Partido Liberal no Reino Unido)

 

No plano internacional, o que Franklin faz nos textos é equipar um liberalismo teórico e ideal ao stalinismo soviético da pior espécie. Sua posição não dá conta das críticas contemporâneas ao modelo de capitalismo atual que vem da própria direita; nem aquelas que tem origem na esquerda democrática, ou socialista. Como exemplo de uma crítica do primeiro grupo, poderíamos citar a noção de Croony Capitalism[14] (ou capitalismo de conchavo), cunhada pela direita libertária estadunidense, que descreve o estado atual do capitalismo sob o liberalismo real, concreto, como sendo um sistema que impede a própria livre concorrência e igualdade de oportunidades no mercado: sempre em benefício de grandes corporações e empresas, capazes de alterar as regras do jogo político (e do mercado) em busca de lucro.

 

Da mesma forma como Franklin não concebe que possa haver uma esquerda democrática, também não dá a devida atenção as críticas oriundas deste campo do espectro político, que demonstram a existência e as características de movimentos sociais e regimes de direita autoritários, capazes de articular elementos ao mesmo tempo fascistas e economicamente liberais[15] em suas cartilhas. Um bom exemplo dessa posição é o conceito de Friendly Fascism[16] (ou Fascismo “gente boa”) desenvolvido pelo cientista político norte Americano Bertram Gross, para explicar a problemática situação política dos Estados Unidos da América. Segundo Gross, o fascismo-gente-boa ocorre quando um governo é dominado por uma oligarquia formada por grandes corporações que trabalham apenas para expandir seus poderes e privilégios em detrimento da constituição, e sem se importar com as consequências econômicas disso para a maior parte da população. Embora o domínio de corporações sobre uma sociedade economicamente liberal possa guardar semelhanças teóricas com a noção de corporativismo[17], defendida no fascismo italiano, o autor faz questão de deixar claro que esse fascismo-light não nos dominará utilizando camisas pretas, partidos de massa ou homens a cavalo; ele será conduzido por executivos, cartões de crédito e “torta de maçã”: será um “fascismo sorridente”. Da mesma maneira, a subversão da democracia constitucional também não ocorreria de forma violenta: mas sim, pela lenta, gradual, segura e silenciosa usurpação de direitos e liberdades do povo – ou, como argumenta Giorgio Agamben, pela simples decretação de um estado de exceção, capaz de colocar a democracia “em suspenso”.

 

You pay the richNesse sentido, é interessante observar como os ideais utópicos do liberalismo econômico[18] se distinguem do fenômeno que foi denominado de neoliberalismo[19], no período final da Guerra Fria. Os governos tachados de neoliberais, com frequência foram também – pelo menos no uso retórico do termo –, acusados de fascismo. Tanto os governos de Margareth Thatcher, quanto os governos de seus aliados como Augusto Pinochet[20], Ronald Reagan e, posteriormente, George Bush, foram governos economicamente liberais e politicamente conservadores – ao ponto de se entrecruzar com posições fascistas –, e que certamente contribuíram para a caracterização do atual modelo de fascismo-boa-praça que nos cerca.[21]

(Imagem: “Você paga seus impostos para que os ricos e suas empresas não precisem mais pagar!”)

 

A direita liberal real, é aquela que implementa medidas de segurança autoritárias, suprime liberdades fundamentais e garante os privilégios de corporações, mesmo que em detrimento da livre concorrência e da igualdade de oportunidades – aliás, estes dois últimos motes, recentemente, se tornaram lemas de grupos que estão a esquerda do espectro político. Como já argumentei antes[22], em referencia as eleições estadunidenses de 2012, quem defende de verdade os mais pobres, a classe media e a pequena burguesia, hoje, é a esquerda que se representou, ainda que efemeramente, em Occupy Wall Street. A direita economicamente liberal norte Americana – no caso, conservatives e republicans –, e mesmo a europeia, é formada quase que por uma classe social híbrida, uma espécie de aristocracia-burguesa que na verdade não produz, vive de renda e de lucros de commodities e, por isso, não paga impostos – ou tenta não pagar impostos. Gente que não sabe quanto as coisas custam no dia-a-dia do povo, simplesmente porque nunca precisou saber, nunca viveu os altos e baixos dos serviços públicos e do mercado.

 

Por: Marcus Vinicius Matos[1]

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Notas:

[1] Marcus Vinicius Matos é doutorando em Direito pelo Birkbeck College, na Universidade de Londres, onde leciona Teoria do Direito (Legal Theory II and II) e Direito de Propriedade  (Property Law I – Land law). É também líder do ministério estudantil na igreja All Souls, em Londres.

[2] Utilizo aqui a palavra no senso comum, embora reconheça que a noção de “esfera” tenha um significado particular no pensamento reformando e nos meios intelectuais conservadores – especialmente no que se refere a obra de Abraham Kuyper. Para entender o uso reformado do termo, ver: Kuyper, Abraham. Calvinismo, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2002

[3] Nessa série de posts no blog Dignidade!, responderei a diversos argumentos de Franklin Ferreira que se encontram em 3 posts diferentes. A maioria dos argumentos, no entanto, se encontram nos seguintes posts: “Espectro político, mentes cativas e idolatria”, disponível em: http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=381 ; E, com especial atenção também ao post “Totalitarismo, o culto do Estado e a liberdade do evangelho”, disponível em: http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=392

[4] O Diagrama de Nolan é um esquema visual de autoria do cientista político Estadunidense, David Nolan. O esquema se propõe a demonstrar posicionamentos políticos em termos visuais. Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Diagrama_de_Nolan

[5] Me refiro a nota de número 3 no artigo “Espectro Político, mentes cativas e idolatria”, disponível em http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=381. Nesta nota, Franklin cita a obra “As Origens do Totalitarismo” (1979) de Hannah Arendt, e é a partir desta definição, que baseia suas acertivas a respeito do que é totalitarismo. Nesta obra, que está centrada no contexto europeu, o conceito de “totalitarism” aparece inúmeras vezes, como é óbvio; mas a palavra “authoritarianism”, aparece apenas uma vez (p.364), exatamente para reforçar a importancia em distinguir os dois fenômenos: “The so-called ‘leader principle’ is in itself not totalitarian; it has borrowed certain features from authoritarianism and military dictatorship which have greatly contributed toward obscuring and belittling the essentially totalitarian phenomenon”. Ou seja, mesmo Arendt reconhece que há uma diferença entre regimes totalitários e ditaduras militares. Em nenhum lugar no texto, porém, Franklin chega a explicitar o que é autoritarismo, o que prova que nestes textos, o autor se utilizou apenas dos conceitos que fortalecem suas teses – ainda que diminuindo sua credibilidade para o contexto da América Latina.

[6] Essa tese é formulada primeiramente por Carl Schmitt, para quem “Todos os conceitos da Teoria do Estado Moderna são conceitos teológicos secularizados”. Ver: Schimitt, Carl. A Teologia Política, Del Rey, 2006, p.35.

[7] Schmitt foi um acadêmico alemão, católico e conservador, considerado até hoje um dos maiores críticos do liberalismo (político e econômico). É também o jurista a quem se atribuem muitas das formulações jurídico-políticas do nacional-socialismo – como aponta seu ex-aluno e crítico Franz Neumann. De acordo com Neumann, Schmitt teria protagonizado uma atuação política muito maior do que o papel de intelectual que comumente lhe atribuem, rearticulando o empresariado liberal alemão para apoiar o Nazismo através das promessas de monopólio do regime. Nesse sentido, ver: NEUMANN, Franz. Beremoth – pensamiento y acción en el nacionalismo-socialismo. México: FCE, 1943, p.63.

[8] Nesse sentido, ver: Suganami, Hidemi. Understanding sovereignty through Kelsen/Schmitt. In: Review of International Studies. V.33, Issue 03. Cambridge Journals Online, 2007.

[9] A discussão sobre as implicações do Estado de Exceção é extensa, e mobilizou autores como Carl Schmitt, Walter Benjamin, e Hans Kelsen, dentre outros. A leitura mais recente e interessante do problema, bem como a descrição detalhada das inúmeras decretações e do uso do dispositivo na Europa no periodo entre guerras, foi feita por Giorgio Agamben. Cf: AGAMBEN, Giorgio. Estado de excecao. Sao Paulo: Boitempo, 2004.

[10] Me refiro ao artigo “De esquerda ou de direita, sejamos inteligentes e cristãos”, publicado pela Revista Ultimato e disponível online em: http://www.ultimato.com.br/conteudo/de-esquerda-ou-de-direita-sejamos-inteligentes-e-cristaos

[11] Trata-se de processo envolvendo o uso deliberado de técnicas de tortura contra prisioneiros em métodos que relembram – ou inspiram – os que foram utilizados recentemente na Guerra do Iraque, em Abu Grahib, pelos EUA. Para maiores informações sobre o processo, a página da Wikipedia no caso tras links diretos: http://en.wikipedia.org/wiki/Five_techniques

[12] Este processo ficou famoso quando posteriormente foi retratado no filme estadunidense “Em nome do Pai”. Mas os casos a que os filme se referem ocorreram sob vários processos, e maiores informações no original, podem também ser encontradas a partir de visita a página Wiki: http://en.wikipedia.org/wiki/Guildford_Four_and_Maguire_Seven

[13] Segundo documentos da CIA, o general Chileno foi assassinado por militares de direita, naquele que foi o maior atentado terrorista contra autoridades Latino-americanas financiado e arquitetado – com doação de armas -, pela Emaixada Americana no Chile, em 1970. Cf: Elio Gaspari, A Ditadura Escancarada, 2a edição, 2014.

[14] Para uma definição do termo é útil o artigo de Peter Schweizer intitulado “A crise moral do capitalismo de conchavo”, publicado na revista liberal Religion & Liberty, disponível em: http://www.acton.org/pub/religion-liberty/volume-23-number-1/moral-crisis-crony-capitalism . A crítica cai como uma luva ao discurso economicamente liberal e politicamente autoritário que sempre foi a tônica dos partidos políticos liberais, no Brasil – argumento que desenvolverei mais a fundo nos próximos posts neste blog.

[15] O argumento de Franklin de que se posicionar em defesa apenas do liberalismo econômico não passa de estratégia retórica que, ao ser analisada nos detalhes, e associada aos problemas comuns de tradução, apenas ajudam a confundir os leitores. Neste sentido, é importante esclarecer que nos EUA, o adjetivo “liberal” geralmente se refere a grupos associados ao partido Democrata, que no espectro politico está na esquerda daquele país, junto com os intitulados “progressist”. O liberalismo economico defendido por Franklin, na realidade, está muito mais próximo de uma posição conservadora, do que propriamente liberal, deste ponto de vista. Por outro lado, a afirmação de que regimes fascistas são esquerda não subsiste a uma investigação histórica rigorosa, sem que sejam alteradas os sentidos básicos em que os conceitos foram utilizados. Da mesma forma, a relação entre partidos políticos e movimentos sociais de extrema direita, no início do século XX é quase que explicita, se analisarmos o que sobra neste campo após a queda dos regimes fascistas, no pós-guerra. Nesse sentido, ver: Cf. Peter Davies, Derek Lynch. The Routledge Companion to Fascism and the Far Right, 2002

[16] Cf. Bertram Gross, Friendly Fascism: The New Face of Power in America, South End Press – Boston, 1999.

[17] A Itália, no período anterior a Segunda Guerra Mundial é um exemplo contundente de como proposições do liberalismo econômico podem ser combinadas com a ideologia fascista: “Os industriais italianos desenvolveram uma ideologia produtivista liberal-tecnocrata bastante sofisticada, que constituiu um núcleo ao qual eles permaneceriam constantemente e impressionantemente fiéis, antes, durante e mesmo depois do Fascismo. Diferentemente dos Alemães (…), os industriais Italianos eram profundamente ideológicos e, de fato, interviram ideologicamente na construção de um sedutor estado Fascista. Quando eles, também, foram forçados a se acomodar ao regime Fascista, o fizeram de uma posição de relativa autonomia e força, redefinindo a seu favor noções básicas, e ambíguas, dos princípios Fascistas, como o corporativismo” (Prefácio, p. x). Cf. Franklin Hugh Adler, Industrialists from Liberalism to Fascism: The political development of the industrial bourgeoisie, 1906-1934, Cambridge University Press – Cambridge, 2002. Tradução livre do autor.

[18] Há uma contradição e distancia gigantesca entre o que defendem os politicos liberais e os ideais do liberalismo utópico – contradições que são explicáveis pelo papel do capital na teoria marxista. Me refiro aqui a alguns principios do liberalismo clássico, como por exemplo, o Princípio da Utilidade, conforme proposto por Jeremy Bentham, que deteremina que o dinheiro pode ser mais útil nas mãos do pobre, do que do rico. Cf: Bentham, Jeremy. Principles of Moral and Legislation, 1979, pp.14-26; ou, ainda, a noção de que o trabalho e seu fruto devem ser, sempre e inquestionavelmente, propriedade do trabalhador, conforme proposto pelo próprio John Locke. Cf. Locke, John. Two Treatises of Government, CUP, 1965, pp. 326-330.

[19] O termo neoliberal pode facilmente ser equiparado a designação de neoconservador (neocon), conforme utilizado nos EUA. Embora naquele país possam haver diferenças significativas entre as duas posições, na América Latina, em geral, as duas se equiparam na defesa da economia de livre mercado associada a medidas autoritárias de controle político.

[20] A ditadura chilena de Augusto Pinochet foi uma autentica ditadura autoritária, e economicamente liberal. Suas relações com o governo de Thatcher no UK são amplamente conhecidas e, foi por conta disso que o ditador resolveu se tratar de saúde no Reino Unido. Neste sentido, ver: http://news.bbc.co.uk/1/hi/uk_politics/467114.stm Em uma dessas visitas, teve sua prisão decretada pela Corte Internacional de Direitos Humanos e, não fosse por uma tecnicalidade processual – o teste de bias aplicado a House of the Lords, na época –, teria sido extraditado para julgamento. Os detalhes do caso podem ser encontrados nos seguintes processos: Bartle and the Commissioner of Police for the Metropolis and Others, Ex Parte Pinochet, R v. [1998] UKHL 41; [2000] 1 AC 61; [1998] 4 All ER 897; [1998] 3 WLR 1456 (25th November, 1998); Pinochet, In re [1999] UKHL 1; [2000] 1 AC 119; [1999] 1 All ER 577; [1999] 2 WLR 272 (15th January, 1999); Pinochet, Re [1999] UKHL 52 (15 January 1999); Commissioner of Police for the Metropolis and Others, Ex Parte Pinochet [1999] UKHL 17 (24 March 1999).

[21] Aliás, importa mencionar, há até quem faça um paralelo direto e explicito entre os discursos e propostas utilizados por partidos e pessoas nessas posições, e aqueles dos fascistas do passado. Nesse sentido ver: Joseph Burrell, Republican Treason: Republican Fascism Exposed. Algora, 2008

[22] Me refiro ao texto “Entre o Homem de Lata e a Dama de Ferro”, onde tracei uma comparação entre as imagens produzidas pelo cinema popular contemporâneo, reconstruindo a imagem de Margareth Tatcher quase como uma “progressista”. O filme foi lançado durante o ano eleitoral estadunidense; e, de certa forma, associado a campanha presidencial do candidato republicano estadunidense, Mitt Romney. Disponível em: http://www.novosdialogos.com/artigo.asp?id=855

Compartilhamos mensagem e pedidos de oração do Pastor Ramez Atallah, Diretor Geral da Sociedade Bíblica do Egito, sobre as mortes dos 21 cristãos na Líbia.

 

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“Eles foram condenados à morte por apedrejamento; foram serrados ao meio; eles foram mortos pela espada. Eles foram em peles de ovelhas e cabras, necessitados, afligidos e maltratados, o mundo não era digno deles” (Hebreus 11: 37- 38).

 

Queridos amigos,

 

Este é um momento muito triste no Egito, onde estamos em sete dias de luto oficial pelos 21 jovens cristãos que foram brutalmente abatidos pelo ISIS na Líbia, no domingo. O macabro vídeo produzido profissionalmente desta execução chocou o país e uniu cristãos e muçulmanos como nunca antes. Assim que o vídeo foi transmitido no domingo à noite, o Presidente fez um discurso declarando sete dias de luto para a nação. Pouco depois a Força Aérea Egípcia bombardeou alvos ISIS na Líbia.

Assim que cheguei no escritório Sociedade Bíblica de manhã, me sentindo triste e deprimido, encontrei uma jovem colega de trabalho que me disse que estava “muito animada.” Eu não podia imaginar o que na terra poderia encorajá-la!

“Sinto-me encorajada”, ela disse, “porque agora eu sei que o que nos foi ensinado em livros de história sobre os Cristãos Egípcios sendo martirizados por sua fé não é apenas história, mas que os cristãos de hoje são corajosos o suficiente para enfrentar a morte, em vez de negar seu Senhor! Quando eu vi esses jovens orando, quando eles estavam sendo preparados para a execução e, em seguida, muitos deles gritando: “Ó Senhor Jesus”, com suas gargantas sendo cortadas, eu percebi que a mensagem do Evangelho ainda pode nos ajudar a segurar as promessas de Deus mesmo quando enfrentamos a morte! ”

Este mesmo sentimento está sendo percebido de diferentes formas por pessoas que assistem este vídeo horrível!

Eu penso que nunca mais vou ler o capítulo 11 da Epístola aos Hebreus novamente sem ver na minha mente as imagens desses homens vestidos com macacões laranja com executores mascarados, vestidos de preto, por trás de cada um deles!

Como muitos de vocês sabem, estes homens eram simples trabalhadores, egípcios que tinham ido à Líbia para ganhar a vida. Eles foram capturados e executados por ISIS por serem – como afirma a legenda do vídeo – “Pessoas da Cruz”. Os egípcios ficaram chocados com essa notícia e é o evento mais comentado em nosso país neste momento.

O objetivo do vídeo era fomentar a luta sectária no Egito entre Cristãos e Muçulmanos. Esses extremistas islâmicos tinham claramente como objetivo provocar os 10 milhões de Cristãos no Egito para que se levantassem violentamente contra seus vizinhos Muçulmanos.

Mas a resposta de amor e carinho de Muçulmanos em todo o país suavizou o golpe que muitos Cristãos sentem. Até agora, os Cristãos do Egito têm respondido com comedimento, tristemente clamando por Deus.

O Presidente e dezenas de líderes políticos, pessoalmente, enviaram suas condolências ao Papa Copta. O Primeiro-Ministro viajou para a pequena vila de onde a maioria desses homens vieram, sentou-se no chão com seus parentes pobres para expressar seus sentimentos. Tudo isso envia uma clara mensagem de que os cristãos são considerados parte integrante do tecido social da sociedade egípcia.

 

Pedidos de Oração:

  1. Ore para o conforto das famílias das vítimas que estão em um estado emocional terrível.
  2. Ore pela ampla distribuição de um trecho das Escrituras que acabamos de produzir, que a Palavra de Deus leve conforto e desafio aos muitos que irão recebê-la.
  3. Quando eu escrevo, há notícia de mais egípcios sequestrados na Líbia. Que o Senhor tenha misericórdia!

 

Por favor, orem pelo Egito enquanto atravessamos este período doloroso.

 

Com meus agradecimentos,

 

Ramez Atallah
Diretor Geral
Sociedade Bíblica do Egito

 

Texto original em inglês: http://bit.ly/1L6M4ZG

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Após cerca de 30 anos de vivência evangélica, redescobri a tradição cristã do advento, que me impactou em profundidade. Parte daqueles símbolos que, em meu ceticismo ritual somado à crítica social, eu atribuía somente à cultura de consumo ganharam sentido pleno, como sinais que apontam para as mais densas e transformadoras verdades. É claro que o Natal é uma agenda do comércio. Mas continua sendo uma celebração cristã, depende dos nossos olhos. Ingressar no período de advento me faz refletir sobre e reconhecer os mistérios tanto das esperas – do povo e dos profetas, que ansiavam pelo Messias, a de Maria, cuja única reação possível é cantar e poetizar –, quanto da chegada de Cristo, o Divino que se faz homem.

Há um misto de consequências individuais e coletivas em pensar o Natal como um evento vivido cristãmente. Não há razão para não deixar o espírito elevar-se e espantar-se com a realidade, sempre mistério, de Deus entrar na história e escolher fazê-lo através de uma mulher, de um bebê, de uma família. Um dos encantos é a universalidade desse ato – que transforma e redime toda a humanidade, todo o mundo, toda a criação – ser colada a singularidades. O cântico de Maria, o espanto de José, o nascimento na estrebaria, o louvor dos pastores e dos anjos. O que faz pensar que esperar o Divino é esse misto de canto, espanto, jornada, louvor. É a certeza de que Ele vem que alimenta a esperança. Celebrar o advento permite lembrar e reviver a espera.

A beleza dessa história é que a esperança não é vã. O advento termina quando Cristo, o próprio filho de Deus Pai, nasce. E então nada mais pode ser o mesmo, porque a esperança se realiza. Nenhum outro nascimento possui tão imenso e generoso Amor, cheio de misericórdia, quanto esse que celebramos no Natal. É o próprio plano divino de redenção que se movimenta. Seguir a Cristo nos leva adiante na história, a chegada do divino passa por toda a ação do Messias na terra, sua obra de discipulado, seu amor demonstrado aos pecadores, sua morte, sua ressurreição e sua promessa de retorno. Relembrar e reviver o advento e a chegada de Deus na história enche a vida de propósito: ser cristão é imitar Cristo, é demonstrar seu Amor aos outros e, como ele, fazer uma jornada de conciliação, que leve paz, alívio ao sofrimento humano e restauração a toda a criação.

Esperar pelo divino é reconhecer nossa dependência dEle e lembrar sua entrada na história e sua promessa de companhia e auxílio, sua missão, nos mobiliza a agir. É refletir sobre o momento que vivemos e nossa responsabilidade como cristãos nesse mundo – o mesmo que “Deus amou de tal maneira que deu filho”. Apesar de não ser uma música natalina, a questão que João Dias de Araújo e Décio Lauretti cantaram me vem a mente:

“Que estou fazendo se sou cristão, se Cristo deu-me o seu perdão?

Há muitos pobres sem lar, sem pão, Há muitas vidas sem salvação.

Mas Cristo veio pra nos remir, O homem todo, sem dividir:

Não só a alma do mal salvar, Também o corpo ressuscitar”

 

Os desafios são grandes, a continuidade da música cita alguns:

“Há muita fome no meu país, Há tanta gente que é infeliz,

Há criancinhas que vão morrer, Há tantos velhos a padecer.

Milhões não sabem como escrever, Milhões de pobres não sabem ler:

Nas trevas vivem sem perceber, Que são escravos de um outro ser.”

 

Então, para manter uma das tradições natalinas, faço votos: que nesse Natal possamos renovar nosso compromisso com Cristo, nosso compromisso de participarmos de sua obra redentora, acolhendo, curando, restaurando, respondendo com ousadia à pergunta “que estou fazendo se sou cristão?”. Que o espanto do Amor Divino nos mova a olhar o próximo, a agir para tornar o ambiente ao nosso redor, nossa sociedade e cultura, um lugar mais semelhante aos reflexos de tal Amor, onde cada mulher e cada homem possam viver dignamente. Amém.

 

Priscila Vieira

Dia desses tive acesso, via redes sociais, ao pequeno vídeo acima. Nele há uma representação da presença do ser humano sobre a terra e de como o mandato cultural de cuidar e cultivar a terra foi se deteriorando e perdendo a razão de ser.

 

Vendo este vídeo me lembro das diferentes concepções de mundo que o texto bíblico nos apresenta, tema de um dos diálogos que foi dirigido pelo querido pastor Eduardo Rosa da Comunidade Presbiteriana da Barra no Rio de Janeiro.

 

Temos uma primeira interpretação que é a perspectiva do mundo ser definido como um sistema de usos e costumes, valores que acabam por fazer frente ao plano de Deus para a humanidade. Nesta mesma linha, pode-se entender o mundo como uma geração. Situação em que as ações individuais trazem consequências para outros, como sociedade vivemos uma situação de interdependência. E, tanto no tempo como no espaço, as ações de cada indivíduo trazem repercussões nas vidas dos outros.

 

São estas as concepções de mundo a que somos chamados a não nos conformar, a combater e a evitar. Visões que agem a partir de valores contrários à Palavra e que, diante de suas decisões, prejudicam as pessoas.

 

Por outro lado não podemos esquecer o chamado feito por Jesus em relação ao mundo: como sua criação. Um convite a estar presente e a levar a boa notícia a todos os rincões do planeta. Aqui temos uma concepção de beleza do mundo, pois não podemos nunca esquecer de nossa condição terrena e de que este é criação de Deus. No passado este esquecimento se materializou diante da ausência de grande parte dos cristão de debates e ações relacionadas à preservação do meio ambiente.

 

Hoje a agenda de proteção ao mundo, a criação de Deus, passa por temas como a defesa da agroecologia e de outras formas sustentáveis de produção. Passa pela condenação ao uso abusivo de agrotóxicos e por uma firme postura ética em relação a não-liberação de sementes transgênicas. Não podemos permitir que lógicas e valores que entendem no lucro e na concentração da riqueza suas principais motivações, predominem nas decisões e encaminhamentos relacionados com o mundo e a terra. Questões relacionadas ao social, à cultura, à saúde e a sustentabilidade precisam ser consideradas nas equações e nos fluxos sistêmicos de tomada de decisão.

 

O mundo já teve mais do que suficientes provas que tanto o avanço tecnológico como a produção de riquezas e sua concentração, não são os melhores conselheiros para a definição de condutas que irão repercutir na vida de todos por tanto tempo. Diagnosticar, refletir e agir são ações necessárias no cotidiano daqueles que amam a vida!

 

É constrangedor a rápida velocidade das mudanças no clima. Relatório do IPCC (Painel Internacional de Mudanças Climáticas, 2007) confirma a previsão e indica que a região próxima ao Ártico aumentou suas temperaturas duas vezes mais rápido do que a média mundial nos últimos 100 anos.  A terra e o planeta podem não suportar a ganância dessa geração de humanos e ameaçar a sua existência com desastres naturais jamais vistos.  O planeta clama por justiça ambiental.

 

O convite é entender nossa condição humana de agentes transformadores da realidade e nossa relação com outros agentes e sujeitos de direitos que fazem parte do planeta: água, terra, céu e tudo o que neles há.

 

A humanidade contemporânea tem se desenvolvido focada prioritariamente no mercado, no lucro, no benefício privado, na concentração da riqueza, na exploração da natureza, na escravidão de pessoas e de seus recursos, no desequilíbrio das relações de ética com a natureza e a própria humanidade.

 

A mordomia a que tanto a Igreja prega significa agir com dignidade humana em prol dos humanos e dos não humanos em um mundo que foi criado para ser sustentável, ou seja, uma geração agir em prol da próxima geração.  Onde vai parar a humanidade?  A humanidade não é o centro da criação de Deus, mas foi pensada para ser o agente representante da mão de Deus para o cuidado de sua criação.

 

Assim, o Mundo como criação de Deus: Urge um clamor pela VIDA!

 

Dignidade humana é agir em defesa da VIDA COMUM PLANETÁRIA!

 

Daniela S Frozi

 

Referencia:

 

IPCC (2007b) [Core Writing Team, Pachauri, R.K and Reisinger, A. (eds.)]. Climate Change 2007: Synthesis Report. Contribution of Working Groups I, II and III to the Fourth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change, 2007

 

 

 

volta

 

Foram três meses sem publicar. O motivo? Vários, mas sob pedidos e protestos estamos de volta com a esperança de manter alguma periodicidade. Agradecemos aos que leram e aos que leram e comentaram. Vamos juntos, falar e refletir sobre dignidade!

 

Equipe do Blog Dignidade.

“Denunciei a fome como flagelo fabricado pelos homens, contra outros homens.”
Josué de Castro

 

Tempos difíceis, diferentes  depoimentos e  narrativas são construídas a partir de cada ator social, capazes de  envolver e  mobilizar a todos nós em torno da recente história brasileira.  Qual o lugar do pobre na ditadura civil-militar brasileira? A escolha por olhar a partir dos pobres tem em parte a ver especialmente com um olhar centrado para o campo da defesa de direitos e da participação social.

 

giniComo era o Brasil, antes de entrar no período da ditadura? Alguns historiadores afirmam que talvez fosse um país que enfrentaria fortemente as desigualdades e ao mesmo tempo vivenciaria maior crescimento econômico. Somente nos dias atuais é que a desigualdade brasileira se configura de maneira semelhante ao que era na década de 1960. Em 21 anos o governo ditatorial levou ao agravamento da pobreza e das desigualdades, ao lado da censura, torturas e negação a participação social. Somente agora, 50 anos após o início da ditadura, é que o país retornou a condições similares de desigualdade daquela época, conforme é possível verificar nos dados do Coeficiente de Gini (fonte), tendo a diminuição dessa desigualdade começado a diminuir – não por acaso – com a retomada das eleições diretas no início dos anos de 1990.

 

Os anos da ditadura se descortinaram em tempos em que pobres e famintos foram todos silenciados.  Algumas pessoas, na sua maioria sem memória, chegaram a dizer nos dias atuais que não havia pobre no Brasil, que havia segurança pública, ainda que as pessoas não passavam fome e que praticamente não havia problema social.  Ao contrário havia fome e pobres e sim, os pobres e famintos permaneceram historicamente presente na época da ditadura.  Porém, foram apagados da memória oral e escrita.  Lamentavelmente, por exemplo, confiscaram os livros de Josué de Castro, autor de Geografia da Fome, médico, gestor e intelectual brasileiro, incansável na luta contra esse grave flagelo: a FOME. Com a ditadura seu pensamento e ação foram desconsiderados, colocados no vazio do esquecimento, com evidenciados esforços para apagar da memória dos brasileiros o triste cenário denunciado pelo célebre intelectual.

O acesso à obra de Josué de Castro foi restringido, teve seus direitos políticos cassados e foi destituído do cargo de embaixador que exercia em Genebra. Faleceu no exterior sem poder retornar ao seu país (veja aqui).  Os pobres daquela época faziam parte da história sem ser parte consciente ou reconhecida da história, em um ambiente onde a memória da fome e da pobreza extrema, foram sequestradas do cenário político nacional.

A Fome, apesar de bem documentada por Josué de Castro, como fenômeno social e biológico, a ditadura civil-militar no Brasil impediu que os achados contidos nas suas obras, pudessem subsidiar as ações que poderiam ainda naqueles dias resolver a problemática da Fome no Brasil rural e urbano. Ao contrário a ditadura agravou agendas sistêmicas, com a ausência de Reforma Agrária e a as relações injustas de trabalho no campo, agravou ainda as problemáticas da monocultura e as relações do Nordeste açucareiro, onde existia a fome endêmica, seguida pela região do Sertão Nordestino aumentando a fome epidêmica, como o autor denominava o fenômeno.

Josué ainda denunciou a subnutrição nas regiões que ele definiu como Centro Oeste e Extremo Sul. Lamento muito a perda dessa memória nos anos de 1964 a 1985, se tivéssemos a continuidade do trabalho de Josué de Castro e de sua equipe teríamos avançado mais e até mesmo aplicado as potencialidades de sua análise compreensiva da Fome que há muito inovava ao usar as ciências de maneira complexa e relacional, como história, economia, biologia, geografia e antropologia. Desenvolveu um marco-analítico elegendo as populações por suas vulnerabilidades e características regionais como sendo elementos exploratórios do maior agravo da Fome, a desnutrição grave e a mortalidade infantil.

Drástica situação histórica!  O povo brasileiro deixou de enfrentar de forma magistral seu maior problema moral e ético: a Fome.  Só no início da década de noventa o grito do povo foi ouvido em forte apelo pelos dados do Mapa da Fome (IBGE, 1993): 32 milhões de brasileiros passavam Fome.  Quem deixou de ganhar com a ditadura? Obvio que foram os pobres famintos do Brasil.   A Segurança Alimentar e Nutricional perdeu com a ditadura! Quantas gerações morreram na ditadura civil-militar por conta de um mal social, político e econômico?  Quantos pobres e famintos foram mortos, desapareceram do mapa?

Para os pobres e famintos, o Brasil daquela época era opressor, violento, matador, ausente, meritocrático e muito injusto. Os direitos sociais só para os com carteira de trabalho assinada, afinal pobre honesto tem carteira de trabalho assinada. O regime durou de 1964 a 1985 e nos anos setenta e oitenta houve enorme inflação, período de grande insegurança alimentar, sendo novamente os mais prejudicados os pobres e os mais pobres entre os pobres. O Brasil era um país para muito poucos, para pessoas “com mérito”, situação que para alguns nos centros urbanos elitizados poderia representar um “país que funcionava”, isso atrelado à uma mídia completamente controlada em que não havia espaço para questionamentos ou críticas. Existia uma massa de pessoas invisíveis, que somente nos últimos 25 anos, diante do regime democrático, passaram a experimentar uma melhor realidade, ainda muito longe de ser a ideal.

 

Quem pode desejar o retorno de algo similar a Ditadura?

 

Certamente nenhum familiar dos cassados políticos, boa parte oriundos das classes média e alta. Para eles esse período foi igualmente perverso, foram silenciadas suas liberdades, foi vetada a participação social, tendo sido um regime de exceção, de violência e dolorosa tortura.  Da mesma forma que para aqueles que foram perseguidos pelo regime civil-militar, os pobres também não querem que ela volte.

 

A partir dos anos noventa, mesmo com uma infantil democracia, foram realizadas iniciativas que levaram a conquistas sociais. A democracia trouxe avanços que beneficiaram e foram consequência das lutas de diversas organizações e movimentos sociais. Aumentar o alcance de políticas de saúde e educação não são tarefas simples, ainda mais num Estado que foi formatado para atender a alguns e a excluir muitos. Alterar esta correlação de forças exige uma vigilante postura de monitoramento e de participação social. Em cada cidade, em cada órgão público; nas políticas elaboradas, somos chamados/as a participar de forma crítica e propositiva, enfrentando os dilemas entre o instituído e o instituinte.

 

É sintomático que após 50 anos do golpe ainda tenhamos militares ocupando territórios empobrecidos de uma grande cidade brasileira. Os pobres não querem ocupação militar. No entanto, eles ainda não foram reparados pelo Estado, ou mesmo reconhecidos em seus direitos civis, como o de ir e vir, em várias cidades e territórios do país.  A existência de Polícias Militares que ainda adotam em suas ações as mesmas práticas de tortura, ao lado dos chamados “autos de resistências”, e que enumeram diversos desaparecimentos, representam para a nossa sociedade uma bandeira de luta permanente contra a ditadura civil-militar do passado e do presente e que atinge fortemente aos mais pobres. Exigir o devido tratamento em relação a história vivenciada no período da ditadura não é negar a situação de exceção que ainda muitos vivem, pelo contrário, essa luta representa a afirmação da necessidade de mudança que reconheça e atue no enfrentamento das mazelas que ainda permanecem e que tiveram início num específico contexto.

 

A democracia precisa enfrentar os resquícios da ditadura civil-militar! As urnas se colocam como um dos mecanismos de enfrentamento a essa realidade, sendo necessário exigir dos candidatos majoritários ou não, que incluam de forma corajosa esta temática para que juntos seja possível virarmos definitivamente a página desta herança que os governos do período ditatorial impuseram ao nosso país. A rua é outro espaço de ocupação, manifestações públicas, participação e controle social são alguns dos elementos previstos em nossa Constituição e que como cidadãos e cidadãs devemos acionar no sentido do fortalecimento da democracia e para a construção de uma sociedade melhor e mais justa.

 

Daniela S Frozi
Com a colaboração de Juliana Peres e de Ronilso Pacheco

roda

“Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele” (Provérbios 22:6)

Refletir sobre o processo rápido de envelhecimento da população brasileira sob uma perspectiva bíblica é convite instigante no Brasil do século XXI. O envelhecimento envolve muito mais de que mudar o que pensamos sobre a velhice e os scripts culturais construídos acerca dessa etapa no curso da vida, mas especialmente pensar as mudanças necessárias nos arranjos familiares, nas igrejas e instituições societárias que prestam serviços relacionados ao bem comum e ao cuidado humano, bem como nas cidades e nos espaços agrícolas em decorrência do aumento da longevidade.  A estimativa da Organização Mundial de Saúde para o ano 2050 é de teremos dois bilhões de pessoas idosas compondo a população mundial, uma em cada quarto pessoas serão idosas. No Brasil, a cada ano, um milhão de pessoas completam sessenta anos.

Costumamos pensar teologicamente sobre esse versículo de provérbios e aplicá-lo na dimensão de um caminho que conduz a uma plenitude de vida que se concretiza no céu. Não negamos essa dimensão, porém gostaríamos de propor uma hermenêutica de profundidade (Thompson) para descrever uma perspectiva sócio-histórica do desenvolvimento humano ao longo da vida, utilizando uma abordagem intergeracional na interpretação do versículo.

Evidências explicam que os processos de envelhecimento nas sociedades contemporâneas refletem as trajetórias de vidas marcadas pelas iniquidades sociais, pelo estresse laboral e a precariedade das ocupações, pela insegurança alimentar – seja pela escassez de alimentos ou pelo excesso de consumo de alimentos inadequados -, pelos níveis de escolaridade, pelas doenças crônicas não transmissíveis e os determinantes sociais da saúde, pelas relações etnico-raciais e assimetrias de gênero, pelas ocupações sócio-espaciais nos territórios de alta e baixa renda, pela ausência ou presença do lazer e do prazer, pela espiritualidade desfrutada ou recusada e pelas vivências de relacionamentos baseados na dignidade humana ou nas violências nos diversos ciclos da família.

A pergunta que precisamos fazer é: Considerando que vamos viver mais anos, o que seria educar para conseguir mais qualidade de vida nesses anos? A longevidade vai produzir ou apenas irá refletir a inteligência emocional acumulada na trajetória de vida de mulheres e homens? Qual o legado para as gerações do presente e do futuro? Não pretendemos apresentar respostas, mas desenhar temáticas que devem ser cogitadas pelas pessoas, famílias e grupos societários.

Utilizando o texto bíblico proposto passamos a algumas dessas categorias  temáticas organizadas segundo as palavras chaves do versículo:

 

Educar a criança equivale a estabelecer pactos e responsabilidades individuais, parentais e familiares, comunitárias, institucionais e societárias com a qualidade de vida dessa criança que se refletirá no corpo senescente do porvir na velhice. Educar transcende a ensinar, requer evocar um modo de vida baseado num processo contínuo de emancipação e responsabilização humana, mas na perspectiva do lúdico e da dignidade. Educar é matriz curricular para a vida, na vida e ao longo da vida. Em relação, em comunhão, em convivência somos educados. Mesmo diante do intenso processo de redução dos níveis de fecundidade, com diminuição do crescimento da população infantil brasileira ainda teremos muitas crianças nascendo e precisamos educa-las educando-nos.

 

Caminho aborda a multidimensionalidade da dupla cidadania cristã. O caminho da fé, o caminho da integridade, o caminho do dom e da gratuidade, o caminho do amor, mas também o caminho do Tratado do Decrescimento Sereno (Latouche), da Não-Violência, da Pedagogia da Esperança (Freire) e do prazer (Alves). Enfim, a combinação de caminho, verdade e vida que o evangelho oferece e a ciência quase sempre esquece. Caminho que se constrói na caminhada, mas que já foi demarcado e delimitado pelo nazareno que caminhava de cidade em cidade, com comida-comunhão-oração temperada com compaixão.

 

Que deve andar. Andar dá ideia de mobilidade. Temos enfrentado sérios problemas com a mobilidade urbana, intra e inter–urbana, com as mobilidades migratórias nacionais e internacionais, com os desafios da mobilidade acadêmica, mas acima de tudo com os avanços e retrocessos da mobilidade na posição social.  Andar é uma ação dialeticamente oposta à possibilidade de estagnar.  O direito à mobilidade deve ser exercitado em todas as suas dimensões pela criança ao longo do curso da vida. Andar é construir capacidades e desfrutar de estruturas de oportunidades geradas pelo Estado, pelo mercado vigiado pela função social da propriedade e pelo controle social da comunidade. Andar é construir renovação do pensamento, não conformação com a imobilidade intelectual, indignação pela imobilidade afetiva, clamor por uma teologia caminhante que procura andar em caminhos que Jesus andou.

Vale ressaltar outra dimensão do andar. Recordo-me de uma frase do meu pai – um idoso paraplégico de 82 anos que luta para andar nos espaços urbanos onde os projetos arquitetônicos não foram planejados para incluir –: “Mais do que as ausência das rampas nos edifícios nós enfrentamos mesmo é a escassez de rampas nas mentes e corações humanos que não se sensibilizam em promover o andar dos deficientes físicos nos consultórios e serviços de saúde, nas escolas, nos transportes públicos, nas igrejas, na cidade. O deficiente é suficiente, a sociedade é que é deficiente”.

 

Até quando envelhecer traduz a ideia de processo, de permanência e troca intergeracional, de promessa de que desfrutaremos desse tempo de longevidade e repartiremos as conquistas com familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos.  Até quando não se trata de um advérbio interrogativo, mas de uma compreensão interna e profunda da passagem do tempo e da alegria em desfrutar a vida, da participação na qualidade da vida do “Outro” do qual me torno “Próximo”. Até quando é grito de liberdade, é encontro da alma com o self e a celebração da solitude. É uma atitude de espera silenciosa, madura e resiliente. É saber que é possível ser saudável mesmo lidando com a doença. É o acolhimento do auto-cuidado apoiado (eu me cuido apoiado pela família, amigos, irmãos na fé, comunidade e profissionais do cuidado). Até quando é exercício para manter a capacidade funcional e a paciência para enfrentar as disfuncionalidades físicas e funcionalidades limitadas da memória. É a saudação do encontro com a morte e com a finitude da vida sem as correntes paralizadoras do medo e da desesperança. É a celebração da gerotranscendência, do contentamento e da espiritualidade dos gestos simples e secretos. Até quando o Senhor conceder “vida aos nossos anos e anos às nossas vidas”.

 

Baseado nesse exercício hermenêutico no provérbio bíblico é possível discernir que envelhecimento precisa ser cada vez mais ser compreendido como resultado de uma trajetória biológica, mas principalmente social, cultural e espiritual. Trajetória baseada em conquistas e violações de direitos na fase pré-natal, infância, adolescência, juventude e adulta. Os processos de senescência serão tão diferenciados na população idosa quanto foram as trajetórias de vida marcadas pela injustiça social e escolhas equivocadas de comportamentos de risco à saúde física, psicológica e espiritual.

O descompasso entre transição demográfica e instituições de apoio aos processos de envelhecimento já demanda uma ampliação de consciência muito rápida por parte de cada pessoa, família e grupo social.

Estamos envelhecendo e a ditosa velhice é uma conquista de todos. É preciso construir um senso de comunidade, uma gestão urbana e agrícola, um novo modelo de desenvolvimento nacional para além da lógica do capital, uma nova ordem global pautada na qualidade de vida e respeito à dignidade da pessoa idosa. Fomos chamados para não nos desviarmos do caminho. Que seja Assim!!

 

“Quando era novo tinha esperança

De encontrar um velho que se deixasse educar,

Quando for velho espero

Que se encontre um moço e eu

Me deixe educar” (Bertolt Brecht)

 

Valter e Leides Barroso Azevedo Moura

“Amanhã, quando teu filho te perguntar: ‘Que são estes testemunhos e estatutos e normas que Iahweh nosso Deus vos ordenou?’, dirás ao teu filho: ‘Nós éramos escravo do Faraó no Egito, mas Iahweh nos fez sair do Egito com mão forte’”

Deuteronômio 6: 20-21

 

Moisés e os 10 mandamentos por G. Doré

Moisés e os 10 mandamentos por G. Doré

Reportar ao momento em que se dá o grande encontro do povo hebreu com o Deus libertador é recorrente no Antigo Testamento. Quase uma pedagogia. Não apenas esta passagem que aqui nos serve de epígrafe, mas diversas espalhadas pelo Deuteronômio, nos fala da exigência de uma ética a partir de Deus, que não está fundamentada exclusivamente no decálogo, não está na obediência mecânica dos dez mandamentos, mas na escolha cotidiana do não esquecer, a opção pelo permanente lembrar. Não que o decálogo não fosse importante, mas porque antes dele, marcante mesmo foi que um povo que vivia como escravo alcançou a liberdade (Dt. 26: 5-9).

 

O cuidado com o escravo, inclusive observando a possibilidade de deixá-lo ir, livre, e mesmo assim sem que ele fosse sem nada, é uma referência, e ao mesmo tempo uma reverência, à lembrança de que um dia, Israel também fora escravo, a vida era dura, e Deus se importou com eles, viu e olhando pra eles, viu que a liberdade era um bem que não deveria ser negada a ninguém (Dt 15: 12-15). O compromisso em não perverter o direito do estrangeiro, órfão e da viúva (Dt 24: 17-18), antes de qualquer ordem heterônoma, vem de uma espécie de “imperativo” ético gerado a partir da memória. Vem da gratidão à lembrança de que foram escravos no Egito, e seus direitos não eram respeitados.

Temos um dilema com a memória. É a memória que torna a história uma metodologia do bom seguir, orientadora de percursos, pois mesmo quando não se sabe exatamente para onde se está indo, a memória nos ajuda a evitar caminhos que não se devem seguir. É isso que há um pouco na afirmação do uruguaio Eduardo Galeano, de que a história é um profeta com os olhos voltados para trás. É verdade.

A heteronomia do decálogo é atualizada na autonomia das Bem-aventuranças. O que foi estabelecido como controle, se completa pelo convite ao cuidado. A memória deveria nos fazer olhar para trás e lembrar que é uma péssima ideia odiar o outro, querer transformá-lo numa projeção do que nós mesmos somos, crendo que nossas opções (de conduta, de valores, de credo, de posicionamento ideológico ou coisa que valha) são as melhores, e por isso deveriam valer pra todos. A memória deveria conseguir nos ensinar que o medo e a insegurança constroem inimigos, e transforma todas as nossas principais exigências para um estado que nos atenda, na exigência de que a nossa insegurança e os nossos medos sejam combatidos, bem como a eliminação de quem os personifica. A memória grita pela interpretação do que outrora houve, da leitura correta da gramática no acúmulo do conflito, do litígio, da resistência e da opressão, da luta inclemente.

Uma ética da memória não se dá nem ao prescritivo (ou seja, não se dá por satisfeita com o que deve ser, porque a vida humana clama por ideais que não estão postos, e já não podem ser ditados e aceitos com facilidade), nem com simplismo ao descritivo (ou seja, não se dá por satisfeita em se construir e pensar a partir do que se é, porque o sujeito humano não se entrega à definição, o espírito humano não se dá por vencido). Uma ética da memória está em construção, dialogando com o que viu e com o que a experiência lhe permitiu vivenciar. Sua palavra essencial é o cuidado e não o controle, sua principal desconstrução rompe com a imposição do presente resultado da permanente disputa das diversas correlações de forças na esfera pública.

Uma ética da memória buscaria não a imposição, mas a construção de um presente comum, que torna a afirmação da sua lembrança na negação da repetição dos seus excessos (que alienou sujeitos, que subjugou identidades, que destruiu histórias, que negou existências, que perseguiu diferentes, que invisibilizou pobres, que excluiu estranhos, que suprimiu direitos, que calou com morte).

 

Ronilso Pacheco

 

O professor da PUC-SP, Dr. Fernando Altemeyer, com base em informações coletadas pelo jornalista Luiz Cunha e outras fontes, publicou nas redes sociais uma compilação de números que são bem interessantes e nos ajudam a ver melhor a dimensão do que foi a ditadura civil-militar brasileira. Já a professora da UMESP, Dra. Magali Cunha, também reuniu informações de pessoas – denunciados e denunciantes, torturados e torturadores – dentro de suas atividades como pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e publicou em seu blog.

Além dessas fontes, foram consultados os arquivos disponibilizados por meio do Brasil: Nunca Mais Digit@al e com isso reunimos números e nomes. Esses números falam alto, mas são ainda mais fortes quando vistos ao lado de alguns dos nomes que os fundamentam, que representam a sua efetiva fonte. Estes nomes dão “carne e sangue” a essa realidade que separou pessoas, ceifou vidas, deu fim à sonhos e projetos. Pessoas foram presas porque foram a comícios, porque se filiaram a sindicatos, porque teimaram em enfrentar a sua realidade.

Separamos alguns desses nomes, colocando o foco em pessoas que frequentavam Igrejas evangélicas. São recorrentes nos processos atestados que afirmam a “não filiação ideológica ao comunismo” por parte do preso. Nestas apelações as cartas de pastores evangélicos pareciam, pela recorrência, ter peso. Aqui reunimos um pouco da história de irmãos e irmãs de diferentes igrejas: Batista, Quadrangular, Assembleia de Deus, Presbiteriana, Metodista e Luterana. Apresenta-se um pouco dessas histórias, a partir das informações dos inquéritos, que, como avisa a página do projeto Brasil: Nunca Mais Digit@l, uma “parcela expressiva dos depoimentos de presos políticos e as demais informações inseridas nos processos judiciais foram obtidas com o uso da tortura e outros meios ilícitos e não podem ser considerados como absoluta expressão da verdade”.

Reunimos aqui tanto aqueles conhecidos e que se destacaram na resistência e na denúncia ao golpe, lideranças de expressão no período pré-1964 e que depois se viram em meio a uma situação de perseguição, exílio e exceção; como também lembramos de alguns “anônimos”, pessoas que foram presas e interrogadas por um regime opressor sem maiores explicações. Muitos destes foram demitidos ou cassados; isso em meio a violência, censura, mortes, tortura e ao cerceamento das experiências e espaços de associativismo que estavam florescendo e que representariam importantes avanços para a democracia de então. Números e nomes. Lembrar para não esquecer.

 

I0053800-11(00371x00602)

Ficha de Brandão Monteiro

NÚMERO: 50.000 presos entre março e agosto de 1964

NOME: José Carlos Brandão Monteiro nasceu em Rosário (MA), militante do movimento estudantil secundarista, em 1958 tornou-se diretor do jornal da União Brasileira de Estudantes Secundários (UBES). Foi presidente do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (CACO), em 1961, e vice – presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1963. Foi funcionário do Banco do Brasil até ter seus direitos políticos suspensos pelo regime militar instaurado no país, em abril de 1964, após a deposição do presidente João Goulart. Demitido do Banco do Brasil com base no Ato Institucional nº 1 de 9 de abril de 1964, passou a exercer a carreira de advogado. Em sua defesa há depoimentos que afirmam que ele frequentava “a Igreja Batista, a rua Frei Caneca”. No depoimento utilizado para se tentar evitar sua cassação é afirmado “que ele era dado a resolver os casos dos outros, mas era um tanto ingênuo, porque ainda o mesmo acusado procurava soluções de fundo religioso, posição um tanto criticada pelos elementos da esquerda, melhor esclarecendo, diz que o acusado José Carlos Brandão procurava soluções de problemas sociais do povo dentro da doutrina cristã”.

Outra testemunha afirmou que “como presidente do CACO sempre atendeu as reivindicações dos estudantes dentro dos princípios cristãos, assim procurando harmonizar os interesses dos mesmos estudantes com a direção da Faculdade de Direito e com os próprios interesses do referido Centro, e quando não era possível ou melhor, não surgia a solução dos problemas reivindicatórios de sua parte, nunca foi iniciada greves, mas elas surgiram por imposição de assembleias de estudantes”.

Preso pela primeira vez em 1967, figurou na lista de perseguidos da Anistia Internacional. Foi preso novamente em 1970, quando foi torturado e, em 1973, foi transferido para São Paulo. Após ser libertado, revelou que o jornalista Mário Alves havia sido torturado até a morte e denunciou a participação do Cabo Anselmo, ativista do movimento dos marinheiros, antes da queda de Goulart, como agente dos órgãos de repressão. Preso mais de 11 vezes e processado por atividades subversivas foi defendido pelo advogado Sobral Pinto, não chegando a ser condenado. Com a decretação da anistia em agosto de 1979, foi reintegrado ao Banco do Brasil.

 

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Carteira de membro de José Henrique

NÚMERO: 500.000 cidadãos investigados pelos órgãos de segurança

NOME: José Henrique era um operário e poucas informações estão disponíveis sobre ele. Foi investigado e preso em 1973 acusado de participar de partidos clandestinos, “tendo feito panfletagem em 1967”. Esta é a única informação relacionada a ações específicas que teriam sido feitas por José Henrique e que ameaçavam à tal “Lei de Segurança Nacional”. Isso num longo processo com dezenas de páginas e de acusados, o qual visava desmantelar o PCBR.

Em sua defesa foram reunidos dois documento: sua identificação de diácono da Igreja do Evangelho Quadrangular e uma carta escrita por um missionário da Igreja, na qual ele afirma que “desde 1969 o sr. José Henrique é membro desta Igreja, tendo dado bom testemunho de caráter, sendo um tanto humilde dando-nos uma quase certeza de que vive tão somente para a Igreja, para seu trabalho e para sua família”. Foi absolvido.

 

NÚMERO:  200.000 detidos por suspeita de subversão

NOME: João Eduardo Flor era presidente da Federação dos Produtores Autônomos do Estado do Espírito Santo. Contra ele pesava a “acusação” de que teria comparecido ao comício do presidente João Goulart em 13 de março de 1964 no Rio de Janeiro, tendo viajado em ônibus do Sindicato de Estivadores de Vitória. Em depoimento, João Eduardo confessou ter participado do comício e também informou ser membro da Igreja Assembleia de Deus. Respondeu inquérito e foi incluído na lista de “elementos comunistas suspeitos de ação subversiva no Estado do Espírito Santo”. Indiciado, deu seu depoimento em julho de 1964, onde lê-se:

“(…) o depoente sendo de pouca instrução e muito atarefado em suas horas de folga, porque é membro da Igreja Assembleia de Deus, com tarefas de professor de classe, 2º Superintendente, e dirigente de uma congregação da mesma igreja  nos bairros da cidade, relutou em aceitar a presidência do sindicato daquele município que lhe fora oferecida, cedendo aos apelos após haver consultado o pastor da sua igreja, assim mesmo, em caráter provisório.”

 

NÚMERO: 10.000 torturados em São Pauloeliana_rolemberg1

NOME: Eliana Bellini Rolemberg é da Igreja Luterana, foi militante da Ação Popular, presa em 28/02/1970 pelo DOI/CODI, em São Paulo, juntamente com Anivaldo Padilha, denunciada por membro da Igreja Metodista. Torturada por 20 dias, sendo transferida para o DEOPS, foi liberada no final de 1971.

Em uma longa carta denúncia, escrita por outro preso, há relatos de várias pessoas que foram torturadas, inclusive ela: “Quem quer que percorra as prisões do Brasil, quem quer que converse com um patriota brasileiro que esteve preso, ficará conhecendo centenas de casos de torturados por militares e policiais. (…) a professora Eliana Taddei Bellini Rolemberg: presa pela ‘OBAN’ e submetida as mais monstruosas torturas durante dias e noites, tendo ainda oficiais do Exército ameaçando de a supliciarem, na frente de sua filhinha de um ano de idade.” Após exílio, retornou ao Brasil com a anistia em 1979.

 

NÚMERO: 6.000 mil apelações ao STM que manteve as condenações de 2.000 casos

NOME: Ephraim de Campos era médico e vereador pelo MDB em São Paulo na década de 1970 ele foi incluído em um Inquérito como acusado de envolvimento com o Partido Comunista. Foi acusado de “Tentativa de subversão e agrupamento perigoso à segurança nacional. Classificação do crime alterada na sentença para agrupamento paramilitar, permanecendo a tentativa de subversão e o agrupamento perigoso à segurança nacional”. Dentre os documentos há discursos que teriam sido feitos por ele na Câmara de Santo André, os quais comprovariam sua ligação. Essa “prova” foi apresentada como problemática no inquérito, já que o acusado era vereador em São Paulo…

Cardíaco e com 55 anos de idade se viu preso por cinco meses numa solitária e diante das torturas que ouviu e viu, assinou folhas em branco do que viria a se tornar o seu depoimento/confissão. Na apelação seu advogado escreveu: “Cardíaco, preso, incomunicável em cela confinada, sem qualquer atendimento, como bem esclareceu em seu interrogatório judicial, assinou quantos papéis lhe foram apresentados, com a condição de ser removido para o presídio Tiradentes”.

Na apelação de Ephraim consta que ele era “de formação religiosa (presbiteriano = praticante) e, finalmente, filantropo como atestam pastores de várias igrejas da capital, bem como, enfermeiras que com ele trabalhavam”. Nas cartas anexadas afirma-se que ele não possuía “qualquer ligação com ideologias comunistas” e, por fim, em sua apelação afirmou: “Este processo foi o instrumento de que Deus se utilizou para lhe dar uma lição de humildade. Sou técnico em saúde e não político, e nunca devia ter deixado o meu posto”. Foi absolvido.

 

O Estado Brasileiro pede perdão à Padilha em sessão da Comissão de Anistia

O Estado Brasileiro pede perdão à Padilha em sessão da Comissão de Anistia

 

NÚMERO: 10.000 brasileiros exilados

NOME: Anivaldo Padilha, leigo da Igreja Metodista. Era líder de juventude na Igreja Metodista e no movimento ecumênico. Militante da Ação Popular. Preso em 28/02/1970 pelo DOI/CODI, onde foi barbaramente torturado por 20 dias. Foi denunciado pelo pastor José Sucasas Jr. e pelo bispo Isaías Fernandes Sucasas, ambos metodistas e já falecidos. Teve que se exilar no Chile, nos EUA e na Suíça por 13 anos. Passou a atuar no movimento ecumênico internacional. Voltou ao Brasil com a anistia em 1979, quando conheceu pessoalmente seu filho que já estava com 8 anos. Devido a repressão foi separado de sua família e nesse tempo o único contato que tinha com o filho era por meio de fitas cassete.

 

 

 

NÚMERO: 4.882 mandatos cassados lysaneas

NOME: Lysâneas Dias Maciel formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais, na Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, em 1951, tornando-se, em seguida, assistente jurídico do Ministério do Trabalho e Previdência Social. Após 1964, assume a defesa de vários presos políticos e, em 1965, ingressa no Movimento Democrático Brasileiro – MDB, partido de oposição criado com a instauração do bipartidarismo. Em 1971, junto com dois outros deputados, criou o grupo dos “autênticos do MDB”, cujo objetivo consistia em combater o imobilismo da cúpula partidária. Em 1976 teve seu segundo mandato cassado, “exilando-se” na Suiça. Retorna ao país, em 1978, participando das campanhas pela redemocratização e pela anistia.

Nos arquivos do CPDOC é possível encontrar “correspondências enviadas a Lysâneas por amigos e personalidades públicas, durante seu período do exílio, em decorrência da cassação de seu mandato como deputado federal e suspensão dos seus direitos políticos, em 1976. Boa parte dessa correspondência é constituída por mensagens de solidariedade de representantes de instituições eclesiásticas e membros das Igrejas.” (Fonte: Guia dos Arquivos do CPDOC).

Em depoimento ao CPDOC em 1998, Lysaneas afirmou que sua entrada na política se deu pelos “direitos humanos, via Igreja”. Ele era presbiteriano, sendo que reconheceu nesta mesma entrevista que  “ (…) a Igreja me acusava de terrorista, subversivo, e os grupos de esquerda me chamavam de burguês religioso… Nunca neguei minhas convicções evangélicas, sempre as tive comigo.”

 

NÚMERO: 1.148 funcionários públicos aposentados ou demitidos

NOME: João Batista Spanier foi demitido da Sorocabana “a bem do serviço público” pelo Ato Institucional de abril de 1964. Atuava como ferroviário em abril de 1964 e foi acusado de ser comunista. Em sua defesa reuniu cartas de pastores que afirmaram sua filiação à Assembleia de Deus. Foi demitido junto à outros 41 funcionários.

Em 1970 Spanier foi acusado de “praticar atos de sabotagem ou terrorismo”. A argumentação de sua defesa foi de que “a denúncia orientou-se pelo interrogatório do réu no inquérito policial militar, que, como é óbvio, traz a suspeita que tem se evidenciado peças de coação – física e moral no trabalho que a polícia política tem que realizar na investigação preliminar à instauração dos processos”. Pelos processos disponíveis no Brasil Nunca Mais Digit@al, a acusação era no sentido de que Spanier atuava como motorista para a ALN em São Paulo, tendo sido preso com vários membros da organização. Este processo, de prisão ou assassinato, é descrito como “quedograma” pelo jornalista Elio Gaspari, onde ele tenta organizar como se deram os desdobramentos destes episódios.

 

NÚMERO: 1.202 sindicatos sob intervenção

NOME: Francisco Pereira de Oliveira trabalhava no Porto do Rio de Janeiro e era filiado ao sindicato, a União dos Portuários do Brasil (UPB). Por isso foi convidado a prestar depoimento em julho de 1964 a um capitão de fragata na sede da empresa em que trabalhava. Como argumento para se defender das acusações de que estaria envolvido em atos de subversão, afirmou que “sempre evitava estar presente em qualquer assembleia mais exaltada, da qual pudesse surgir qualquer violência, por motivos religiosos pois pertence à Assembleia de Deus; que, por este motivo religioso, nunca aceitou convites de colegas para acompanha-los como piquete, entretanto não se recorda ao certo, quantas vezes foi solicitado para isto, nem quem fazia tais convites”.

 

NÚMERO: 400 mortos e 144 desaparecidosheleny_guariba

NOME: Heleny Guariba, leiga da Igreja Metodista Central foi presa em 1970 e novamente em 1971, para depois ser considerada “desaparecida”. Assassinada pela ditadura, possivelmente na “Casa da Morte” de Petrópolis, centro clandestino de torturas, Heleny foi presa 4 meses após a prisão de seu esposo, sendo que tinha dois filhos. Seus sogros concluem carta em que relatam sua relação com ela, dizendo: “Heleny e José Olavo integram nossa família e cujo retorno ao lar aguardamos com não menor ansiedade”.

Diretora de Teatro reconhecida, também era formada em filosofia, destacava-se entre intelectuais e artistas da época (fonte). Na apelação seu advogado escreveu: “Estamos todos convencidos de que Helena Guariba foi presa após sua liberação  por esse r. Juízo. Apenas uma dúvida paira: se está viva ou não”.  Seu corpo nunca foi devolvido à sua família.

 

Ficha de Waldo Cesar

Ficha de Waldo Cesar

Mais um nome a ser lembrado é o de Waldo César. Estudante de teologia e da igreja presbiteriana, até 1964 era seminarista responsável por uma congregação no Rio de Janeiro, quando foi afastado. Era um dos líderes da Confederação Evangélica Brasileira. Foi investigado e abordado em diferentes ocasiões pelas forças de repressão, chegando a ficar preso por uma semana. Não sofreu tortura física e com o decreto do AI-5 fugiu do país. Em um Inquérito Policial Militar de 1965 ele aparece como “suspeito de exercer atividades comunistas na Faculdade Nacional de Filosofia“, sendo definido como um “Elemento bem falante, cultura acima dos padrões  normais, ótima capacidade de persuasão, muito bem informado, apresentando sinais de calma, convicção e ponderação”, considerado “o maior agitador dos meios Evangélicos do Brasil”.

O vídeo dessa semana é um material inédito que foi feito a partir do depoimento de Waldo sobre o congresso realizado em 1962 pela Confederação Evangélica Brasileira, o qual teve como tema: “Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro”. Um material relevante e atual que nos apresenta um pouco do pensamento de um que era considerado um dos mais perigosos “agitadores” e que simplesmente seguia o espírito evangélico de ajudar ao próximo a partir de suas legítimas convicções.

 

 

 

Alexandre Brasil Fonseca