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Micah Bales*

(Tradução: Eliezer Silva)

 

Ao chamar seus primeiros discípulos, Jesus causou uma mudança total na vida econômica deles. Simão e André, Tiago e João trabalhavam nos negócios familiares, impulsionados pelo legado da criação que receberam. Seus pais eram pescadores, bem como os pais de seus pais e várias gerações anteriores. A pesca era uma forma de sustento, mas não se reduzia somente a uma fonte de renda, ia muito além. O negócio familiar era fonte de um sentido de lugar, de significado para a vida. Era uma ordem social que permitia a cada membro da família saber exatamente seu devido espaço de atuação.

Somente ao compreendermos esse fato, podemos começar a vislumbrar a natureza radical do convite feito por Jesus a seus primeiros seguidores e amigos: Sigam-me, e eu vos farei pescadores de homens. Jesus ofereceu uma ordem econômica e social totalmente diferente. Seu convite não contemplava redes de segurança, justificativas ou garantias. Os primeiros discípulos abandonaram imediatamente as suas redes, seus meios de subsistência e toda ordem social que lhes deva um sentido de lugar. Eles abandonaram tudo, inclusive toda uma visão de mundo, ao seguir Jesus.

Nos nossos dias, o desafio de Jesus não é menos crítico. Ele nos convida para um modo de vida radicalmente distinto de nossas suposições cotidianas, de modo que temos grandes dificuldades em captar exatamente o que está em jogo. O caminho do discipulado de Jesus não nos permite simplesmente incorporar seus ensinamentos numa ordem social pré-existente. A boa-nova do Reino de Deus – que é nossa missão, caso a aceitemos – atua nos empurrando para fora da zona de conforto, da mesma forma que atuou na vida dos primeiros discípulos de Jesus há muito tempo atrás lá na costa do mar da Galiléia.

 

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Naturalmente, muitos de nós não subsistimos da pesca. E mesmo os que vivem dessa atividade econômica, provavelmente não atuam num negócio familiar passado de geração em geração. Nós não vivemos numa economia pré-moderna de camponeses, ferreiros, sacerdotes e governadores imperiais. Graças a Deus.

No entanto, nós vivemos dentro de uma dada ordem econômica, em grande parte inquestionável e que define nossas vidas, tanto quanto os negócios familiares e os laços econômicos que eram tão importantes para os primeiros cristãos. Vivemos dentro de uma nova ordem mundial, tão pervasiva e poderosa que na maioria das vezes não é sequer notada. É simplesmente a realidade.

Hoje nossas vidas estão integradas na ordem econômica e social do capitalismo global. E do mesmo modo que o poder romano e sua economia imperial era uma realidade praticamente inquestionável no mundo antigo, hoje a dominação moderna da economia global neo-liberal é uma realidade praticamente inquestionável para todas as pessoas. Ame ou odeie, é apenas como as coisas são.

Mas será mesmo? E se houver um poder maior do que Wall Street, maior que o capitalismo de consumo, bem como todo o aparato violento necessário para sustentá-lo?

Os cristãos podem discutir indefinidamente sobre a correta definição do capitalismo, e se pode ser visto como algo benigno ou uma ameaça. Sem dúvida, se trata de uma conversa necessária, apesar de não chegar no cerne da questão. O ministério de Jesus não era focado na formação de uma sociedade de debates. Seu foco foi na construção de um movimento, uma família.

Hoje ele nos convida para esta nova ordem social, esse novo modo de vida. A família de Deus está no meio de nós e nos desafia a reavaliar o que valorizamos, o que deve ser honrado e como devemos viver nossas vidas. Jesus continua à beira-mar, nos chamando a largar nossas redes e segui-lo.

Qual é a forma e o significado desse chamado em termos concretos? Será que devemos largar nossos empregos? Laços sociais? Todos os conceitos sobre quem e o quê deve ser valorizado? Que forma assume o ato de se arrepender (isto é, mudar todo nosso modo de vida) no contexto de um capitalismo global que ameaça tornar nosso precioso planeta inabitável? Que emaranhado de redes que somos chamados a jogar fora e qual é o caminho, a comunidade, a família que irá substituí-lo?

O tempo para uma abordagem meramente religiosa para essas questões se esgotou. Somente uma mudança de corações não é suficiente quando nossas vidas permanecem tão profundamente enraizadas nos pressupostos e na economia do império global. É urgente e necessário um convite para uma reavaliação radical e determinada de tudo, nos encaminhando a uma mudança integral em nossas vidas na busca por uma existência verdadeiramente abundante, que Jesus nos promete.

Mas em primeiro lugar: larguemos nossas redes e sigamos a Jesus.

 

Traduzido de: Is Capitalism Compatible With Christianity (Red Letter Christians)

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micah-bales_avatar_1425396237-80x80* Micah Bales é escritor, professor e líder Cristão de trabalhos de base na igreja local em Washington, DC. Ele é membro fundador do movimento Friends of Jesus, uma comunidade Anabatista; e também foi organizador do movimento Occupy. Para ler mais sobre seu trabalho, acesse o links  www.micahbales.com, ou siga Micah no Twitter.

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+ A idolatria do(de) mercado: contra a teologia política neoliberal.

 

 

Sobre desestrutura e encontros; cuidado e amor

 

Por Priscila Vieira*

 

IMG_1321Exaustão. Maravilhamento. Espanto. Amor. Ternura. Fome. Medo. Preocupação. Dor… Algumas sensações que me tomaram nos primeiros dias com a bebê. A minha sensibilidade à flor da pele gerou até piada. As profissionais de saúde que visitam as mães e os recém-nascidos[1] são treinadas para identificar sinais de depressão na mulher. Quando contei a minha mãe as perguntas que a enfermeira tinha feito, recebi uma resposta enérgica, espirituosa, de fino sutil senso de humor:

– Depressão pós-parto?!! Você está sofrendo de emoção pós-parto!

Ambas rimos. Uma boa expressão para o tumulto emocional daqueles dias. Eu chorava, emocionada. Porque minha bebê era (e é) perfeita, linda, saudável. De cansaço e exaustão. De dor para amamentar (bico machucado; duas ou três mastites). De impotência e frustração, quando o choro dela prosseguia sem fim. Porque eu queria protege-la do mundo ao redor, até da poluição do ar. Porque em uma das mastites fiquei cinco horas no hospital, longe dela, e tudo que eu pensava é que tinha que amamenta-la (mesmo com a dor). Porque as pessoas ao meu redor eram tão cuidadosas e amáveis. Porque em tudo eu via Deus.

Quem queira explicar objetivamente o que acontece nessa fase, aos modos do que chamamos ‘racional’ na nossa era, esqueça. É de outra coisa que se trata. Por isso, desestrutura encabeça a minha sopa de palavras. E que sabor teve esse prato! Tantas aventuras misturadas, tantos temperos exóticos – à minha experiência até então. Eu degustei cada minuto daquela fase. Lambuzei as mãos, lambi o prato.

 

Desestrutura

A noção da maternidade e do parto como desestrutura espiritual chegou a mim através do livro da Laura Guttman[1]. Por espiritual a autora indica a dimensão profunda da experiência. Somos mais que corpos grávidos. Somos inteiras e, naqueles momentos, nossa integridade abarca o bebê. Eu, cristã, conectei imediatamente a noção à minha própria formação e experiência de espiritualidade. Topei o desafio de viver a gravidez, o parto e o que depois viesse nessa dimensão. Se há desestrutura, Deus estará nela. Assumi, simplesmente. Meu parto fugiu às possibilidades de previsão, foi confuso, bizarro e de beleza singular (leia o relato aqui).

E então foi uma mulher feliz, exausta e sobretudo desestruturada que se viu com um bebê nos braços, que demandava alimentação a cada três horas. Além dos demais cuidados. A desestrutura é como o parto: integral. O corpo é um estranho no pós-parto. Havia me habituado à gravidez; agora era necessário lidar com o útero vazio. Sentir as contrações de seu re-aninhamento. Pois quando deixa de ser ninho do bebê, o útero se (re)aninha em nosso corpo. Lidar com a dor na região pélvica e períneo; lidar com dores nas costas. As minhas foram intensas (ainda estou lidando com elas, um ano e meio após o fim da gravidez). As emoções oscilavam do inexorável sublime ao desespero. Preocupação com o bem-estar do bebê; com a fome, a sede, a amamentação. Amamentar é um aprendizado, uma novidade que exige convicção, paciência, serenidade. Na maior parte das vezes, solicita, mais uma vez (após o parto!), convívio com a dor.

 

– Dor

Dói. Pré, durante, pós: ter um filho é uma experiência permeada pela dor. Mesmo para aquelas que tiveram um parto sob controle e bebês saudáveis. Eu não disse que a sopa era apenas gostosa; disse que me fartei de todos os sabores.

A maternidade, no entanto, é absolutamente sobre Vida. Experiência mística radical de sermos cocriadoras com o autor principal, soberano, o próprio Deus. É um mistério. Ele cria através de nós; cria em nós. E então a maternidade me ensina de forma nova algo que já sabia. Vida embrenha-se com a dor. Felicidade e amor embrenham-se com a dor. Não entendo. Guardo no coração, como aprendi com Maria, mãe de Jesus.

É fato que a exaustão nos faz esquecer, por momentos, a potência da Vida que carregamos nos braços, dias e noites a dentro e à fora. “Uma pessoa sem dormir é outra pessoa”, ouvi de uma amiga, mãe de uma linda bebê, nascida três meses antes da minha. Na minha casa, o pós-parto foi vivido na proporção três adultos para um bebê. É muito mais do que boa parte das mulheres sonha ter. E ainda assim, em meio aos cuidados do bebê, manter básicos como a rotina alimentar dos adultos era um desafio.

Como experiência de dor, há um segredo para caminhar sem que feridas fiquem abertas, especialmente por essa fase de transição do pós-parto: encontros. Deixar-se afetar pelo outro. E misturar-se a ele/ ela. Sim, os próximos são o caminho necessário para que haja Vida.

 

Encontros

unspecified-5Há uma mística que envolve o encontro da mãe com o bebê. Um encontro que é ao mesmo tempo a primeira vez e uma renovação. O encontro se deu organicamente, no útero, na placenta, no cordão umbilical. Naquele momento, se dá nos olhos, na pele, no seio e no peito, nos lábios, mil beijinhos. Infelizmente, nem todas as mulheres e nem todos os bebês conseguem viver esse encontro logo após o parto. Mas, em algum momento, essa mística acontece. E quando ela chega, a dor dissipa-se no sublime.

Outro encontro fundamental para mim foi conhecer a face pai-cuidador do meu marido. “Camadas que se revelam”, descreveu uma amiga, mãe de dois meninos. Não foi imediato. Levou talvez alguns dias, talvez algumas horas. Um efeito do pós-parto é a sublimação do tempo, que passa de modo diferente e não linear para as mães com seus bebezinhos. O fato é que logo meu marido era (e é) a pessoa em que mais confiava para cuidar da minha filha. E para cuidar de mim. Foram tantos lanchinhos na cama durante a madrugada, tantas garrafas de água, tanta preocupação, tanta atenção. Eu me vi nas mãos dele, naqueles dias em que me sentia tão forte para algumas coisas e tão fraca para outras; eu não desejava estar em outro lugar.

O reencontro com minha mãe. Eu e minha mãe temos uma história de encontros; e reencontros. Na fase de espera pelo bebê no final
da gravidez e da chegada da Aurora, nos reencontramos como mulher. A maternidade carrega uma potência de dissolução das individualidades; mães se identificam e, se não resistirem, se fundem. Então eu, que já fora uma com ela, gestada em seu
útero; passara 35 anos me desenvolvendo como alguém diferente dela; agora estava ali, novamente, em um ponto de unidade, momentos de coexistência sobreposta. Dependente de seus cuidados, alimentada pelo seu afeto, segura com sua presença. Um reencontro maduro, sem necessidade de igualar; um reencontro em momentos de dor e de alegria tal, que só a Vida é capaz de produzir.

O encontro com Deus. Se são os hormônios, abençoados sejam eles! Atravessei no pós-parto uma fase espiritual transformadora. Na profundidade, na intimidade, nos recônditos que só a oração toca; a oração do silêncio, sem palavras. A mãe com um bebezinho é um ser intensamente instintivo. Tudo ao redor é notável pois qualquer coisa pode ameaçar. E esses instintos constantemente encontram Deus. Em meio à exaustão, ao sono, às dores. Nas mamadas diurnas e, especialmente, nas noturnas. Nos primeiros passeios exibindo orgulhosamente meu rebento; notando de forma única o vívido colorido das flores que desabrochavam (era primavera!); observando com interesse profundo outros bebês, outras crianças. A maternidade me levou o tempo devocional que habituava ter antes. Mas, reafirmo, temporalidade nessa fase é outra. Eu sentia que meramente ao pensar em alguém, estava intercedendo por essa pessoa. Sentia Deus ali, comigo naquele fluxo afetivo por aquela amiga, aquela mãe, aquele familiar que emergia em meu coração; abençoando a mim, abençoando à pessoa querida que ali, em mim, se fazia presente. Minha interioridade nunca foi tão vasta, expandida. Meus sensores nunca foram tão aptos ao inefável.

Por fim, como espera-se de encontros com Deus, encontrei-me, reencontrei-me com as pessoas ao redor. Como esquecer as lindas emoções que vieram junto com o primeiro buquê que recebi, ainda no mesmo dia do nascimento, na maternidade? (E que vieram junto com um lanchinho… porque, falemos a verdade, o pós-parto e a amamentação são sentidos fundamentalmente no estômago!). Churrasco, já na segunda semana de vida do bebê. Comida trazida pronta, à porta de casa, por mulheres do grupo de compartilhar. Vivências de comunhão. Aprender a aceitar, a receber, a deixar-se cuidar.

 

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Cuidado

Quando comecei a ler e a ouvir outras mulheres sobre o pós-parto, pensava que ter um filho era sobre cuidar. Engano. Ter um filho é também sobre receber cuidados. Abençoadas as mulheres nessa fase. Estou certa que o Deus da Vida, em sua misericórdia, oferece forças extras e envolve em seu próprio cuidado amoroso, seu próprio colo aquelas mulheres que enfrentam sozinhas um momento tão rico, tão exaustivo, que nos reduz ao mesmo tempo que nos expande. Assim também as mulheres que enfrentam nessa fase desafios extras, questões de saúde física e emocional, delas próprias, do bebê, de algum ente querido próximo. (Amém!)

Cada gesto cuidadoso que me chegava era acolhido no mais profundo da alma. Lembro-me do momento em que percebi o privilégio do que vivia. Nunca havia me sentido tão cuidada (claro que eu chorei ao pensar nisso)! Todo aquele afeto compunha um ninho em que eu me sentia plena. Em meio ao cansaço, eu estava perfeitamente feliz. Ser cuidada em um momento tão especial foi das vivências mais amorosas que já tive. Em minha desestrutura, sentia-me diluída, a ponto de confundir-me com os outros ao meu redor, de quem eu cuidava (especialmente a bebê), de quem eu recebia cuidados. Diluída na oração, que emergia anterior à palavra e se estendia pelas fraldas trocadas, pelas muitas sonecas interrompidas, pelas caminhadas, banhos de claridade (da bebê), banhos acelerados (meus) e preocupações mil. Ouso dizer: o pós-parto me trouxe sabores e cheiros, largos e densos pedaços de Amor. Sensorial e nutritivo, isso me transformou.

 

Eu era uma quando pari. Era outra, que viveu o pós-parto. Sou outra que redige esse texto no agora. Busco reintegrar essas todas-que-sou-eu. Daqueles dias, guardei no coração, como Maria, mãe de Cristo, fazia com o que estava além de sua compreensão: a desestrutura abre espaço ao divino; o encontro pode ser hibridismo instintivo; amar, ser cuidada, ser amada, cuidar são expressões de sentidos tão profundamente próximos que suas raízes se confundem (talvez porque se alimentam da mesma Fonte). Dor, amor e cuidado em meio à desestrutura; encontros, metamorfose: assim, a vida inicia; assim ela se sustenta. E segue, abundante…

 


13775438_1174288965967380_3751878068644688898_n*Priscila Vieira é doutora em Comunicação e Cultura pela ECO/UFRJ, e Pós-doutoranda na School of Arts do Birkbeck College, na Universidade de Londres. Foi fundadora do grupo base da Aliança Bíblica Universitária (ABUB) em Ponta Grossa (PR) e membro da Rede FALE. É International Partner da Allsouls, Langham Place, onde frequenta o Aroma – estudo bíblico de/para/com mulheres.

 

 


Referências:

[1] Em casa, serviço gratuito do Sistema Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS). Durante as primeiras semanas, mãe e bebê recebem várias visitas das parteiras.

[2] GUTMAN, Laura. A maternidade e o encontro com a própria sombra. Rio de Janeiro: Best Seller, 2010.

 

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Para levar à sério as palavras de Jesus

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Nos próximos meses vamos publicar aqui no Blog Dignidade! uma série de postagens sobre o movimento norte-americano Red Letter Christians (traduzido aqui como “Os Cristãos da Letra Vermelha”). O movimento liderado por Tony Campolo e Shane Claiborne reúne hoje algumas dezenas de líderes cristãos – como Ron Sider, Jim Walis – que procuram dar uma resposta crítica a maneira como o sentido do evangelicalismo foi, nas palavras deles, “sequestrado por uma agenda política conservadora” nos Estados Unidos da America (EUA).

Tony Campolo, autor do texto introdutório do movimento, é pastor associado da Igreja Batista Mount Carmel, na Filadélfia (EUA). É também professor de Sociologia da Eastern University, e fundador da “Associação Evangélica para a Promoção da Educação”, cujo objetivo é apoiar programas educacionais em áreas de pobreza, particularmente, na América Latina – leia mais sobre o ministério de Tony, aqui. Além disso, Tony já colaborou com a Intervarsity (IFES/EUA) e com o SPEAK (Rede FALE no Reino Unido). Um dos seus primeiros textos traduzidos para Português foi “A Urgência do Chamado”, lançado no site de formação do Congresso Missionário da ABUB em 2006 – disponível parcialmente aqui, e integralmente aqui.

 

Leia abaixo o manifesto de criação dos Cristãos da Letra Vermelha:

 

Por Tony Campolo*

 

Tony_Speaking_1O objetivo dos cristãos letra vermelha é simples: levar Jesus à sério e se esforçar para viver Seus ensinamentos contra-culturais e radicais conforme estabelecido nas Escrituras e, especialmente, abraçar o estilo de vida prescrito no Sermão da Montanha.

Ironicamente, foi um DJ de origem judia, que trabalhava em uma discoteca tocando música country secular em Nashville (Tenessee), quem primeiro sugeriu o título do movimento. Durante uma entrevista de rádio com o meu amigo Jim Wallis, o DJ declarou: “Você é um daqueles cristãos das letras vermelhas – tipo assim, uma daquelas pessoas que está afim de seguir todos os versículos do Novo Testamento, os versículos que estão em letras vermelhas!” A resposta do Jim (Walis) foi “É isso mesmo!”, e ele respondeu por todos nós. Ao nos intitularmos Cristãos da Letra Vermelha, nos referimos ao fato de que em muitas Bíblias as palavras de Jesus são impressas em vermelho. O que estamos afirmando, portanto, é que nos comprometemos, em primeiro lugar, a fazer o que Jesus ordenou.

A mensagem desses versículos bíblicos com letras vermelhas é radical, para dizer o mínimo. Se você não acredita em mim, basta parar alguns minutos para ler Sermão de Jesus do Monte (Mateus 5-7). Nele, Jesus nos chama para longe dos valores consumistas que dominam a América contemporânea. Ele nos chama para atender às necessidades dos pobres. Ele também nos chama para sermos misericordiosos, o que tem fortes implicações em termos do que nós cremos que deva ser a participação dos cristãos nos debates sobre guerra e pena de morte. Afinal, quando Jesus nos diz para amar os nossos inimigos, ele provavelmente quiz dizer que nós não devemos matá-los.

O termo “evangélico” foi atrelado a significados que ele não merece. Na maioria das instituições e espaços seculares, se você se define como um evangélico, as pessoas farão suposições sobre você que podem não condizer com a verdade. Alguma dessas suposições podem até mesmo te ofender.

Recentemente, no campus de uma universidade da Ivy League, perguntei a alguns alunos o que eles pensavam que era característico dos evangélicos. Nenhum deles deu a indicação de que eles definiriam os evangélicos por suas convicções teológicas. Em vez disso, o consenso geral entre esses alunos foi de que os evangélicos são os cristãos que são anti-gay, anti-feministas, anti-ambientalistas, anti-imigração, anti-desarmamento, pró-guerra, ideólogos de direita. Há pouca dúvida de que a mídia secular é em grande parte responsável por este ponto de vista sobre os Evangélicos, na medida em que escolheu aqueles que defendem tais convicções para serem os porta-vozes dos evangélicos. A imprensa raramente se volta para os líderes politicamente moderados quando eles querem comentários sobre as questões sociais que são mais tensas do ponto de vista religioso.

Desafiar a imagem popular dos Evangélicos é uma das finalidades deste movimento. Eu quero que se saiba que há milhões de nós que defendemos uma teologia evangélica, mas que se negam a ser rotulados como parte da direita religiosa. Nós não queremos fazer de Jesus um republicano.

Por outro lado, queremos dizer alto e claro que nós também não queremos fazer de Jesus um democrata.

 

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No início do século XX o dramaturgo e crítico social George Bernard Shaw disse que Deus nos criou à Sua imagem, e que nós decidimos retribuir o favor! É claro que há alguns na direita religiosa que gostariam de transformar Jesus em um republican, em uma encarnação de seus valores políticos. E do outro lado do ringue, há daqueles que fariam de Jesus um democrata que defende a sua agenda liberal particular. Mas Jesus se recusa a se encaixar em qualquer uma das nossas ideologias políticas. Transcendendo a política partidária, Jesus nos chama para julgarmos as questões sociais da melhor maneira possível quando nós votamos, e a fazê-lo de acordo com o nosso melhor entendimento do que é da vontade de Deus. Devemos evitar a política partidária quando ela leva a divisões desnecessárias, improdutivas e até mesmo perigosas.

Em época de eleição quando lhe perguntarem, “Você é um democrata ou um republicano?” Sua resposta deve ser: “Depende em que área!” Em qualquer questão social ou política específica, você deve estar pronto e disposto a descobrir que partido e/ou candidato melhor representa suas convicções.

Nós começamos aqui declarando em alto e bom som que nós abraçamos os elementos essenciais que definem o cristianismo.

Em primeiro lugar, Cristãos da Letra Vermelha têm as mesmas convicções teológicas que definem os evangélicos. Acreditamos nas doutrinas estabelecidas no Credo dos Apóstolos, que afirma as crenças centrais que a igreja tem sustentando ao longo dos séculos:

 

Creio em Deus Pai, todo-poderoso, Criador do céu e da terra;

E em Jesus Cristo, um só seu Filho, Nosso Senhor,

Que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu de Virgem Maria;

Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;

Desceu à mansão dos mortos, ressuscitou ao terceiro dia;

Subiu ao Céu, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso,

De onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.

Creio no Espírito Santo,

Na Santa Igreja católica, na comunhão dos Santos,

Na remissão dos pecados,

Na ressurreição da carne,

Na vida eterna.

 

Em segundo lugar, somos cristãos que consideram as Escrituras acima de tudo. Os escritores da Bíblia, acreditamos, foram invadidos pelo Espírito Santo e foram guiados exclusivamente por Deus enquanto escreviam, proporcionando-nos um guia infalível de fé e prática. Destacamos as “letras vermelhas” porque acreditamos que só é possível compreender o resto da Bíblia se você a ler a partir da perspectiva que nos é dada por Cristo.

 

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Em terceiro lugar, e isto é o mais importante, nós reivindicamos que o Jesus histórico pode estar vivo e presente para cada pessoa, e que a salvação depende da nossa rendição a Ele, convidando-o a ser uma presença vital e transformadora em nossas vidas. O mesmo Filho de Deus descrito no Credo dos Apóstolos vai espiritualmente invadir qualquer de nós que o receber (ver João 1: 12) e começar, em cada um, o processo contínuo pelo qual somos transformados em pessoas que são cada vez mais semelhantes a Ele (veja I João 3:2).

Gandhi disse, certa vez, que todo mundo sabe o que Jesus ensina nesses versículos de letras vermelhas – exceto os cristãos. Hoje, muitas pessoas compartilham o mesmo tipo de decepção com a igreja americana. Queremos mudar isso. Aplicar os ensinamentos de Jesus em nossas vidas em tempos tão complicados é difícil, mas é o que os Cristãos da Letra Vermelha se propõem a fazer.

 

*Tradução: Marcus Vinicius Matos

Extraído de: http://www.redletterchristians.org/start/ ; e http://www.redletterchristians.org/history/

 

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A gravidez causou em mim um impacto reflexivo inesperado. Iniciei uma jornada sem volta em reflexões profundas sobre a condição de mulher. Até aquele momento era atenta às questões de gênero, mas afinal não me sentia assim tão diferente dos homens, especialmente nas metas profissionais. A eminência da maternidade levou-me a pesquisar sobre ‘mães na academia’. A pergunta: “Por que você está chorando?”, durante a gravidez, era respondida mais ou menos assim: “Leio uma pesquisa (ou estatísticas) sobre mulheres na academia…”.

A fé está presente, ativa na perspectiva adotada nessa reflexão. O nó, então, torna-se híbrido, complexo: mulher, evangélica, mãe, pesquisadora… Na alma ressoa: “e o que será de mim?”.

É minha jornada (para dentro e adiante) neste nó de fé, maternidade, mulher e profissional (entre outras linhas) que pretendo compartilhar. Começo por aderir a uma prática atual nos movimentos pró parto humanizado: um relato de parto. Minha filha Aurora fará um ano esse mês. E vez ou outra me pego emocionada em mais uma narrativa do parto. O registro que segue é uma versão de um primeiro texto escrito em maio de 2015, quando ela tinha dois meses.

 

Escrevo sentada no chão da sala de casa, onde minha filha nasceu. Não, não foi um parto planejado para ser em casa. Moro em um flat no centro de Londres, em um prédio de estudantes, e não julgava que tivesse vínculos tão fortes com o lugar para desejar um parto domiciliar – embora esta seja uma opção dada a mulheres com gravidez de baixo risco pela saúde pública da Inglaterra (o NHS – National Health Service). Minha intenção era fazer o parto no centro de nascimento (Birth Centre) do hospital. Com apoio de uma parteira, minha mãe e meu marido como acompanhantes; com uma estrutura que envolvia uma pequena piscina, cadeira, colchonete, bola de pilates e outras possibilidades. Mas entre intenção e acontecimento é comum haver um lapso. E nesse lapso mergulhamos, os quatro: eu, a bebê, meu marido, minha mãe.

 

Pré- parto

Tive uma gravidez plenamente feliz, relativamente tranquila (apesar dos prantos descritos acima). A partir do quinto mês sentia muitas dores. Fruto da Disfunção da Sínfise Púbica, conhecida como dor pélvica. As dores e a dificuldade de mobilidade aumentavam junto com o tamanho da barriga. A bebê encaixou com 36 semanas e havia, até pelas dores do final da gravidez, uma expectativa minha e da família de que o parto adiantasse. Assim, quando completei 41 semanas (dia 24 de março), a expectativa e ansiedade me tomaram. Como sei que essa condição, 41 semanas, é rara no Brasil, desconfiei que a família estaria preocupada. Simplesmente cortei a comunicação. E elegi meu marido como o canal entre mim e o mundo exterior. Ele foi meu filtro e adivinhou perfeitamente as palavras de que eu precisava naquele momento.

 

De 41 +1, uma quarta-feira (25), notei, pela manhã, um pequeno sangramento rosado e muito corrimento: eu perdia o muco. Comecei a sentir leves cólicas. No mesmo dia fomos ao hospital para uma ultrassonagrafia (eu, meu marido e minha mãe, que após muita luta para conseguir uma licença, esteve ao meu lado desde a 38ª semana até nossa pequena completar 20 dias). O médico, brasileiro, disse que tudo estava bem, a placenta em pleno funcionamento, embora com sinais de envelhecimento. Seguimos para a consulta com a parteira. Eu estava muito nervosa. Sabia que o procedimento padrão seria marcar uma indução. Eu não queria parto induzido porque lera que há maiores chances de terminar em epidural, cesárea ou com a utilização de instrumentos – ventosa e/ou forcepes. Claro, nada disso era minha vontade. Voltei para casa com a indução marcada para a segunda pela manhã, dia 30 de março. Na consulta, a parteira também me ofereceu fazer um deslocamento de membrana, mas eu preferi não realizar o procedimento naquele dia. A ideia da indução me perturbava. Travei uma nervosa batalha interna.

 

Minha longa fase latente

Na tarde daquele dia, fomos caminhar no parque (Regent’s Park). Desde que minha mãe chegara, saíamos as duas, diariamente. Naquele dia, meu marido nos acompanhava. O parque estava lindo e apresentava os sinais da primeira semana de primavera. No caminho de retorno para casa, eu apoiada no braço do meu marido, parei de repente. Senti a primeira contração. Ele percebeu e sorriu. Eu o reprimi – porque todos estavam muito ansiosos e aquele clima de expectativa alimentava minha própria ansiedade. Lembrei de perguntar que horas eram: por volta de 5 da tarde. Mas além de contrações fracas e esporádicas, que eu evitava comentar, e a leve cólica (que aumentava, no meu silêncio), nada mais aconteceu.

Durante a quinta-feira, tive contrações espaçadas, sentia que a intensidade aumentava, lentamente. Como as coisas não evoluíam, ligamos no hospital e marcamos o deslocamento de membrana. Não era possível ser no mesmo dia e o agendamento foi feito para a sexta-feira, às 17 horas. Tentei levantar meu ânimo, cozinhei, comi, caminhei.

As contrações ficaram impossíveis de disfarçar, e mais frequentes, a partir da quinta-feira (26). Chegaram a ser de 20 em 20 minutos durante o dia. Apertaram ao entardecer. A noite foi terrível. Contrações mais ou menos de 10 em 10 minutos. No hospital em que fiz o pré-natal, o procedimento é receber a parturiente apenas quando as contrações estão regulares de 5 em 5 minutos há cerca de uma hora, e duram cerca de 40 segundos. A medicina na Inglaterra é muito estatística, então esse procedimento é justificado por pesquisas que indicam que a maioria das mulheres sofre ‘atraso’ e até interrupção do trabalho de parto no momento de entrada no hospital. Se ficam em casa, a evolução é mais rápida. Ou seja: não havia razão para irmos para o hospital. Minha ansiedade cresceu muito. Mas quando o dia amanheceu (já era sexta, dia 27), as contrações foram reduzindo de frequência e intensidade. O parto não evoluía. Eu, na luta contra a ideia da indução.

Quando cheguei ao hospital para o deslocamento de membrana, na sexta, por volta das 17 horas, já completava 48 horas desde a primeira contração. Demorou para sermos atendidos. A parteira que realizou o procedimento disse que meu cérvix estava macio, o que era um ótimo sinal. O deslocamento foi bastante incômodo, dolorido, como uma cólica aguda, porém rápida. Voltamos para casa.

E então as contrações voltaram a ter frequência e aumentaram de intensidade. Eu continuava tensa, ansiosa e descrente da evolução do parto. Passei multo mal a noite toda. Nada mais parava no estômago, nem água. Além do desconforto óbvio das contrações, a dor pélvica me impedia de me acomodar na cama. A maioria das posições indicadas para aliviar as dores da fase latente do parto não eram possíveis para mim. Passei a maior parte da noite sentada, com a cabeça apoiada em uma pilha de travesseiros. Usei a Tens Machine que tínhamos alugado e contava com massagens nas costas, que meu marido fazia durante o pico das dores.

A bolsa rompeu por volta das 4 horas da madrugada (sábado, já era dia 28 – eu entrava no terceiro dia de contrações). Quando amanheceu, o líquido continuava escorrendo, aos poucos e constante. Eu não dormira durante a noite. Estava exausta e desanimada. A frequência das contrações caiu novamente, o ritmo indefinido, chegando a espaçar meia hora.

Chegamos ao hospital ‘de mala e cuia’ no sábado (28), por volta das 7 da manhã. Queríamos ficar por lá. Eu estava abatida, completamente exausta e segurava (mal) a ansiedade com a indução. O trabalho de parto parecia não evoluir. O hospital estava vazio e a parteira nos atendeu na recepção e nos encaminhou para a sala de consulta. Ela fez um exame de toque: 2 centímetros de dilatação. Sorriu e disse que estava tudo indo muito bem, que o cérvix estava macio e isso indicava que a dilatação prosseguiria. Mas nada disso me animou. Eu imediatamente calculei que foram 3 dias de contrações para 2 centímetros e me perguntava quanto tempo aquilo tudo ainda poderia durar. Naquele momento, eu pensava em topar qualquer coisa para que minha filha nascesse.

Essa parteira olhou bem em meu rosto e disse que eu parecia cansada, que o corpo não é tolo e que o trabalho de parto não poderia evoluir comigo naquele estado. Foi enfática em afirmar para eu retornar para casa e descansar. Dizia que eu precisava dormir. E era para ligar para o hospital dali 4 horas. Eu tive uma ou duas contrações durante a consulta. Em uma delas eu estava na cama, para o exame. Ela percebeu minha tensão, tocou meu braço e disse “relaxe seu corpo” e “respire fundo”. As palavras dela acionaram em minha cabeça todas as leituras que eu tinha feito sobre parto. “Seu corpo não é tolo”, “relaxe seu corpo”… eu lembrei que o parto é mais sobre permitir o corpo atuar do que tentar intervir. Percebi que minha ansiedade e tentativas de controle estavam atrapalhando. No final da consulta, ela disse “até daqui a pouco”. E nós voltamos para casa, um pouco frustrados. Eu, com uma missão: relaxar, descansar.

 

Minha milagrosa fase “ativa” – ou fase onírica

Para sair/ entrar no meu flat há uma escada. Ela estava me matando nessas idas e vindas do hospital. No caminho de volta para casa, as contrações no taxi também me deixaram muito desconfortável, além dos quebra-molas. Eu entrei em casa confusa. Em minha cabeça passavam todas aquelas informações das leituras e ao mesmo tempo uma ideia obtusa, muito forte, que eu não conseguia evitar, de que “eu não quero voltar ao hospital”; “eu não quero subir essas escadas novamente com esse barrigão”. Junto a tudo isso, eu estava tão exausta que pensava “quero que ela nasça de qualquer forma, quero uma cesárea ou seja o que for”.

Segui o conselho daquela parteira ao pé da letra. Entrei em casa e me joguei na cama. Peguei meu travesseiro de grávida, me ajeitei o melhor que pude com aquele barrigão, a dor pélvica, as dores nas costas e as contrações. E fiquei lá, imóvel.

Não sei quando eu dormi. Minha mente trabalhava, confusa. Aquelas ideias contraditórias, “quero que ela nasça de qualquer jeito, vou voltar ao hospital e pedir para adiantar a indução, implorar uma cesárea”. Ao mesmo tempo, a forte sensação de “eu não quero voltar ao hospital, eu não quero mais subir as escadas…”

 

Então, eu orei. Orei meu salmo predileto, adaptado à situação: “Graças te dou, ó Deus, visto que de modo assombrosamente maravilhoso formaste meu corpo de mulher, totalmente preparado e capaz de dar à luz”; “Graças te dou, ó Deus, visto que de modo assombrosamente maravilhoso formaste a Aurora, minha bebê completamente saudável e capaz de trabalhar comigo para vir à luz”; “As suas obras são admiráveis e a minha alma o sabe muito bem”. Eu repetia mentalmente essas palavras. Elas foram me tomando… a mente, a alma, o corpo, tomavam, envolviam tudo. E eu adormecia cada vez mais profundamente.

Após umas 4 ou 5 horas de sono, acordei. Meu marido e minha mãe disfarçavam (mal) suas preocupações e incômodos. Eles tentaram me acordar muitas vezes, sem sucesso. Meu marido conta que quando ele tentava conversar comigo, eu dizia para ele coisas como: “fica aqui, me abraça”; “eu preciso de você”. Mas finalmente eu disse: “vamos ao hospital, apenas me ajudem a ir ao banheiro e me vestir”. Quando levantei, senti muita dificuldade em andar – responsabilizei as muitas horas inerte na cama, mais um efeito da dor pélvica. Percebi uma troca de olhares entre meu marido e minha mãe. Decidiam, naquele momento, cancelar o taxi, chamar a ambulância. No banheiro percebi que o que sentia era minha filha nascendo! Joguei meus 80 quilos encima da minha mãe, disse que minha bebe estava nascendo e pensava: “não quero que minha filha nasça no banheiro!”.

 

Pausa

Esse sono merece uma pausa. Não foi comum. Depois de uns dias, comecei a ter memória dele. Enquanto dormia, leituras* que havia feito sobre parto normal me vinham à mente. Dentro de mim, naquele momento, estavam parturiente, bebê e parteira! Todas ainda eu mesma, trabalhando duro. Em especial a ideia linda da dor de parto menos como dor e mais como um incômodo, um alerta para abrirmos mão do controle e permitir o corpo assumir o trabalho. Hoje analiso (veja como sou!) que, acordada, eu seria incapaz de abrir mão de minha racionalidade e consciência. E até disso meu corpo estava ‘ciente’! Cheguei a descrever o parto como irracional. Hoje discordo disso. Certamente não é da ordem da racionalidade objetiva em vigor na nossa cultura (e que, não surpreende, foi forjada assim por homens…). O parto é pleno. Poucas experiências na vida são tão plenas. É tudo integrado (todos os nomes que já foram dados: razão, emoção, alma, espírito, corpo, natureza, self, desejo, vontade, consciente, inconsciente… criação). Uma atividade total… Na, pela e para a Vida!

 

Estágio expulsivo (ou de como acordei mãe)

Retomamos a cena: eu inclinada sobre minha mãe, para evitar que a “ajuda” da gravidade acabasse por fazer minha filha nascer no banheiro. Era muito difícil segurar as contrações. Meu marido no telefone com a emergência, já agachado, toalhas limpas em punhos (esse relato merecia um apêndice da versão dele).

IMG_0827A equipe de paramédicos chegou, em seis minutos após o chamado. Minha mãe colocou meus braços encima do meu marido e abriu a porta. Lembro apenas que a paramédica era uma mulher alta e quando ela se aproximou e se apresentou, eu me joguei encima dela. A equipe montou um ‘ninho’ no chão da minha sala, com nossa roupa de cama, e ligou para o hospital mais próximo enviar uma parteira. A paramédica me conduziu até a sala. Eu olhei o ‘esquema’, meu marido sentado no sofá, e vi que eu não tinha condições de ir para o chão, por causa da dor pélvica. Lancei meus joelhos ao chão, o dorso apoiado no sofá. É provável que ainda estivesse orando. Com ações. Uma das mãos, segurando meu marido, companheiro das maiores emoções da minha vida até aqui. Um dos paramédicos trouxe a máscara com gás – outro procedimento padrão de alívio de dor do parto na Inglaterra (claro, a mulher pode recusar). Eu relutei, mas lembrei da minha prima dizendo que essa fase era a mais dolorida. Inalei algumas vezes, mas aquilo também me incomodava. Lembrei mais uma vez das leituras. Uma delas dizia que não era necessário assim tanta força nesse ‘empurrar’. Que idealmente o bebê nasce em duas contrações, para evitar lacerações. Lembrei disso assim que ouvi os gritos entusiasmados, especialmente da minha mãe, dizendo: “estou vendo ela, filha, estou vendo o rostinho!”.

Meus ouvidos atentavam, em meio a tantos ‘push’ e ‘empurre’, à voz querida, suave e doce da minha própria mãe. Naquele momento os sons da voz dela me incentivando; dos meus gritos guturais para exalar força; e do já-tão-próximo choro da Aurora uniam três gerações de mulheres. Éramos uma só. Uma única-plena-forte mulher, cheia de fé, pura alegria. Esperei a próxima contração. Respirei, exalei com força. Senti a cabecinha passar e, depois, o corpinho escorregar. E assim nossa Aurora raiou. Era 4h12, 28 de março de 2015.

 

Pós parto

IMG_0832Deitei, recostada no edredom no chão. A Aurora me foi entregue e ali mesmo ela mamou pela primeira vez. Meu marido cortou o cordão umbilical. (E ainda conseguiu fotografar!!) A parteira então falou sobre a placenta, me deu a injeção – mais um procedimento típico dos partos no NHS – e eu não senti nada, apenas vi ela com a placenta na mão. Dei uma olhadinha e voltei a contemplar meu bebezinho.

 
Aurora ganhou um segundo nome, Sophie, em homenagem à parteira que conduziu os primeiros cuidados com ela e comigo. Meu parto não teve um único ponto: sutura zero! Quando ouviu a história do ‘sono’, a parteira sorria: “você tem que nos ensinar como fazer isso, precisamos ensinar as mulheres”! Após uma rápida ducha, fomos todos para o hospital, onde descansei até o outro dia. Eu estava tão feliz! Lembro que uma chuva fina, tipicamente londrina, caía lá fora. Minha mãe escondeu a Aurora embaixo de sua blusa e a levou até a ambulância. Como é normal, por causa da descarga de hormônios, eu estava um pouco trêmula. Mas subi as escadas para a rua, sozinha (rejeitei ajuda). Já não estava grávida…

           

Meu parto teve um sono profundo; também teve oração, teve trabalho. Toda vida que nasce é um milagre. Agora, mãe, oro e trabalho por outros milagres. O milagre de um mundo inclusivo, mais alegre, mais suave para nós. Para as crianças, para as mulheres. (Essa história continua…)

 

Priscila Vieira e Souza*

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*Priscila é doutora em Comunicação e Cultura pela ECO/UFRJ, e Pós-doutoranda na School of Arts do Birkbeck College, na Universidade de Londres.

 

Referências

(Nota sobre a ‘bibliografia’: os livros me chegaram através da rede de afetos: mulheres mães me emprestaram. E eu já devolvi ou repassei.)

 

GUTMAN, Laura. A maternidade e o encontro com a própria sombra. Rio de Janeiro: Best Seller, 2010.

BRUNG, Paule; BERTHERAT, Therese; Bertherat, Marie. Quando o corpo consente. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

GASKIN, Ina May. Guide to Childbirth. New York: Bantam Dell, 2003.

 

Alberto_Henschel_-_Baba_com_crianca

Babá com criança. Brasil. Fotografia de Albert Henschel (1827-1882)

Começo com um aviso aos navegantes: esse texto não tem interesse em discutir as manifestações que tem acontecido no Brasil. Não entenda nessas parcas linhas temos como objetivo um ataque ou defesa delas. Combinado?

Causou balbúrdia na internet o retrato de uma babá carregando uma criança num carrinho de bebê enquanto os pais se deslocavam para uma manifestação. Em primeiro lugar, devo confessar que achei lamentável o uso da foto da babá na manifestação nas redes sociais. Foi no mínimo falta de respeito o usar da imagem sem sua expressa autorização, tudo isso sem falar dos estereótipos vomitados no debate.

Em segundo lugar, possivelmente esse fato só tenha acontecido porque em ainda hoje no Brasil pobre e preto apenas importa quando é para defender “meu ponto de vista”. E isso serve tanto para os “defensores da babá“, quanto para aqueles que acham o patrão é um “cara joinha que até paga dobrado no fim de semana“. Nesses momentos, parece que baixa um espírito de Abdias Nascimento ou do Martin Luther King. Todos se tornam grandes militantes do movimento negro, embora saibamos que são silentes contra o extermínio da juventude negra nas periferias de nossas cidades.

A imagem traz a tona as relações de poder em nossa sociedade. Lembrei do caso da disputa judicial entre uma sócia de um um clube que obrigava as babás a se vestirem de branco como forma de distinção em relação aos patrões. Na época, Anna Muylaert, diretora do Filme “Que horas ela volta?“, manifestou sua opinião:

 

Quando eu vi essa notícia (das babás sendo obrigadas a usar brancos pelos clubes), fiquei sem palavras. É uma regra extremamente autoritária, anacrônica, para marcar a divisão social. É algo que mantém o estigma da escravidão[1].

 

Na mesma matéria, ela aponta a hipocrisia sobre o tema: “Aplaude Que horas ela volta? no Facebook, mas em casa reclama que a empregada não sabe fazer estrogonofe”.

Para que não tem a sorte de assistir o filme de Muylaert, ele trata justamente do abismo social em que são colocados a “criadagem” na pela elite brasileira. Revela o desconforto de como uma empregada é objetificada ao ponto de ter como tarefa principal mimar os patrões em situações corriqueiras. Esses sequer levantam-se para pegar água, retirar o prato ou mesmo pegar a sobremesa. Na geografia do lar burguês, o lugar a “funcionária do lar“ transita entre a cozinha e seu pequeno quartinho insalubre cheio de quinquilharias. Entrar na piscina? Nem imagina essa situação sob hipótese alguma.

O filme nada mais é que um retrato desconfortável da realidade do povo pobre e negro, que ainda hoje, como fruto de nossa secular estrutura classista e racista, gera essa tipo de distorção no campo do trabalho. No país onde persiste o famigerado “elevador social“, vale a crítica de Darcy Ribeiro(1996):

“uma efetiva condição de inferioridade, produzida pelo tratamento opressivo que o negro suportou por séculos sem nenhuma satisfação compensatória; a manutenção de critérios racialmente discriminatórios que, obstaculizando sua ascensão à simples condição de gente comum, igual a todos os demais, tornou mais difícil para ele obter educação e incorporar-se na força de trabalho dos setores modernizados. As taxas de analfabetismo, de criminalidade e de mortalidade dos negros são, por isso, as mais elevadas, refletindo o fracasso da sociedade brasileira em cumprir, na prática, seu ideal professado de uma democracia racial que integrasse o negro na condição de cidadão indiferenciado dos demais.” (O povo brasileiro, pag. 120) [2]

 

Babá com o menino Eugen Keller, em Pernambuco, 1874. Fotografia de Albert Henschel (1827-1882)

Babá com o menino Eugen Keller, em Pernambuco, 1874. Fotografia de Albert Henschel (1827-1882)

Se é para lutar pela dignidade do povo negro e pobre, o façamos não quando nos convêm. Muitos querem instrumentalizar o negro e o pobre, mas na hora de levantar a voz contra o genocídio da juventude negra se cala ou acha que isso é coisa de quem “defende bandidinho“. Pobreza e Negritude não devem ser usadas como mera justificativa para nossas “cruzadas online“, mas devem ser temáticas que precisam ser encaradas como pauta de promoção de cidadania e na defesa de direitos.

Por fim, já passou do tempo de agir como se houvesse democracia racial no Brasil ou que mulheres pobres e negras “escolheram“ ser babá ou empregada doméstica. Nada contra esses trabalhos, mas sabemos que no Brasil eles são ocupados por gente que sequer teve a possibilidade de sonhar com outras possibilidades. E por favor, não pense que elas querem ser babás porque é um sonho. Acredite, não é. Inclusive até hoje desconheço gente rica e abastada que tenha desejo incontrolável de ter como “vocação“ para vida toda ser babá. Em que lugar, além dos debates frívolos das redes sociais, está em nossa agenda de Missão essas pessoas invisíveis? Nossas teologias evangélicas estão dispostas a aprofundar a reflexão sobre Trabalho, Etnia e Gênero?

Meu desejo é que Deus no livre das de fazer do pobre apenas uma tese para nossos embates virtuais. Que esses sejam incluídos em nossas ações por Justiça e Equidade. Deus nos conduza para seus braços e para abraçar os pobres e esquecidos desse Mundo. Amém.

 

Por Caio Marçal*

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*Caio Marçal é Cearense, casado com a Viviane e mora em Belo Horizonte. É Formado em Teologia e graduando em Pedagogia pela Universidade do Estado de Minas Gerais. Atualmente é secretário de Mobilização da Rede FALE e membro da Igreja Batista da Redenção.

[1] Ver no link : http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160128_clubes_babas_anna_muylaert_mdb

[2] RIBEIRO, Darcy.. FrontLog, 1996.

 

Em resposta a cinco teses políticas do teólogo reformado Franklin Ferreira

 

005_TiberiusEste texto faz parte de uma série que se iniciou, aqui no Blog Dignidade!, rebatendo algumas teses teológico-políticas que, em linhas gerais, sustentam a ideia de que Socialismo e Cristianismo são concepções de mundos necessariamente concorrentes e ideologicamente incompatíveis. O primeiro post da série, A idolatria do(de) Mercado: contra a teologia política neoliberal, está disponível aqui. Na sequencia, quero continuar demonstrando os problemas da posição ideológica do teólogo cristão reformado Franklin Ferreira, a partir daquilo que aponto como sendo sua segunda tese. Talvez o epicentro do problema fique mais claro quando analisarmos aqui o que podemos identificar como sendo a tese principal para os dois textos[1] do autor. Podemos resumi-la da seguinte maneira:

 

2) O socialismo, o fascismo e o nazismo são incompatíveis com o Cristianismo porque requerem “fidelidade religiosa” ao Estado, e isso é idolatria; enquanto o capitalismo e o liberalismo econômico não o requerem.

 

Há quatro problemas distintos nessa tese para os quais gostaria de chamar atenção. O primeiro está no fato de que ela inverte o argumento da idolatria moderna, capitalista e liberal – o chamado “fetichismo da mercadoria” –, ao omitir outra entidade que requer fidelidade religiosa, para além do Estado: o dinheiro. O segundo, decorrente do primeiro, está no uso que o autor faz da noção de ideologia[2], sem explicar o que isso significa, e se colocando fora do alcance do termo – como se ele servisse apenas para denunciar ideologias opostas aquela do liberalismo econômico. É a partir desse posicionamento fora da história que Franklin propõe associar e equivaler ideologias políticas muito diferentes (socialismo, fascismo e comunismo), como se fossem semelhantes entre si. O terceiro problema está no uso que o autor faz da teologia de Karl Barth, como que corroborando sua tese. Já o quarto e último que vou discutir, se refere ao o argumento de que o uso da noção de “progresso” por correntes políticas diferentes, inclusive entre cristãos no Brasil, prova a equivalência ideológica entre elas.

 

Os outros dois problemas que posso apontar como implícitos nesta tese de Franklin se referem a maneira como pressupõe, sem dizer, uma teoria do estado[3] sem uma teoria do direito[4] – problema típico de quem parte de uma teologia calvinista e adere ao liberalismo econômico sem reservas. No entanto, para não estender demais este texto, vou me deter aos quatro primeiros problemas, que considero mais importantes. Vale destacar, ainda, que há pontos nos dois textos de Franklin com os quais tenho plena concordância. Dentre eles, subscrevo as palavras do autor de que “o autoritarismo e o totalitarismo precisam ser resistidos pelos cristãos, por todos os meios legítimos”. Também concordo que é “incompatível alguém declarar que adora a Deus como o Senhor (…) e tornar-se servil a um Estado iníquo”, o que implica tornar-se “o lacaio sagrado do governo”. A única questão que levanto aqui é, obviamente, o que torna um (ou todo) Estado iníquo. Ao abraçar o modelo de estado sacralizado pelo liberalismo econômico, o autor pode estar cometendo o mesmo erro que vários marxistas cometeram ao longo da história: perder a capacidade de identificar o mal[5].

 

É curioso o uso que o autor[6] faz aqui da relação entre a “fidelidade religiosa” ao Estado e o pecado da idolatria, como sendo característica exclusiva de regimes totalitários. Digo isso porque a acusação de idolatria, no contexto moderno, me parece ter ficado mais conhecida quando disposta no sentido contrário: é justamente o pensamento marxista[7] que levanta a acusação de idolatria contra as explicações (i)lógicas (ou ideológicas) do livre mercado, baseadas no valor mágico que toda mercadoria adquire, ao se apropriar do valor do trabalho que é nela embutido. No entanto, me parece que tanto Franklin, quanto o pensamento marxista ortodoxo, se afastam deste conceito – da mercadoria como ídolo – e localizam o problema não na realidade da idolatria mas, sim, no plano ideológico[8] que derivaria dela.

 

Partindo dessa leitura, o autor acaba inevitavelmente incorrendo em outros erros. Um deles é sustentar a ideia de que apenas os regimes totalitários requerem “o homem inteiro”[9] para si e, portanto, seriam incompatíveis com a fé cristã. Ao tomar esse rumo, Franklin esquece que o capitalismo e o liberalismo econômico também impõem seus mitos ao ser humano e, em troca, requerem sua – ou sua alma: o principal destes ídolos é o dinheiro; no amor a ele, está a “a raiz de todos os males” (I Timóteo 6:8-10). No dinheiro, e no seu simbólico lastro, estaria embutido, personificado, não apenas o valor de troca imaginário da mercadoria, mas também a encarnação direta do trabalho humano, um valor encarnado[10].

 

O fetichismo da mercadoria, então, é um tipo de “esquecimento duplo”: primeiro, “o capitalista esquece que foi ele, e sua tribo, quem transformou a vida e o valor em mercadoria, em um ritual de troca”. Depois, para que esse tipo de feitiçaria funcione, é necessário que sua existência seja negada, e depois de esquecida: a mágica mais profunda da idolatria da mercadoria é a negação de que ela funciona por feitiço.[11] Segundo a crítica da crítica marxista, expressa por exemplo na obra de W.J.T. Mitchell, o moderno cristão iconoclasta, entregue ao liberalismo econômico, é exatamente um idólatra: Adam Smith não é apenas seu Moisés, mas também seu Lutero; e a idolatria da mercadoria a qual está entregue é um “monoteísmo iconoclasta capaz de destruir todos os outros deuses”[12], menos um: Mamon, seu ídolo, para quem “ele reza não apenas com seus lábios, mas com toda a força do seu corpo e de sua alma”[13].

 

Porém, a idolatria da mercadoria não é o único mito que o liberalismo econômico propaga. Para quem já estudou as teorias liberais clássicas, é comum encontrar nelas o que se denomina “explicações do tipo mão-invisível[14]: ideias as quais os autores atribuem uma capacidade fundante, mas que não podem ser, de fato, provadas ou mesmo explicadas convincentemente, precisando ser aceitas como premissas. Sem nesses mitos liberais; sem o duplo esquecimento mágico da idolatria da mercadoria; sem dobrar o joelho diante de Mamon, o liberalismo econômico é incapaz de funcionar – basta observar, na prática, seus resultados econômicos nos países para os quais o liberalismo econômico foi exportado à força, sob domínio colonial.

 

Já o segundo problema com esta tese de Franklin Ferreira, é resultado da empreitada histórica forçosa do autor, para redefinir os conceitos de esquerda e direita, igualando todos os seus opositores no primeiro lado do embate político – para compreender esta estratégia, veja o primeiro post nesta série, disponível aqui. Franklin tenta demonstrar que haveria uma identidade ideológica entre os ideários socialistas, comunistas, fascistas e nazistas. Este argumento, reproduzido em vários espaços na internet, tem sido amplamente divulgado pela direita (neo)conservadora e neoliberal brasileira, provavelmente para se livrar da pecha de totalitária. O grave equívoco dessa posição é que ela não resiste e uma mínima visita a fontes primárias – como demostrarei a seguir.

 

Antes, uma ressalva: o fato de que as diferenças entre as posições políticas acima citadas seja significativa, não quer dizer que durante o século XX não tenham existido pessoas que circularam entre uma posição e outra: há vários casos de pessoas que trocaram de lado no espectro político, deixando o liberalismo e o conservadorismo cristão pelo nazismo (caso de Carl Schmidt[15]); ou integralistas e fascistas que viraram comunistas ou socialistas (casos de D. Helder Câmara[16] e Abdias do Nascimento[17]); e mesmo comunistas que viraram fascistas ou liberais (como é o caso no Brasil do General Golbery do Couto Silva[18]), exemplarmente, o próprio Benito Mussolini. Esse último, no entanto, é paradigmático para a diferenciação da posição socialista daquilo que se denominou posteriormente de Doutrina do fascismo. Nas palavras do seu fundador:

 

Quando, no agora distante Março de 1919, eu convoquei uma reunião em Milão (…), eu não tinha nenhuma posição doutrinaria em minha mente. Eu tinha vivido a experiência de apenas uma doutrina – aquela do socialismo, desde 1903 até o inverno de 1914, ou seja, por uma década. Mas mesmo tendo tomado partido no movimento, primeiro nas bases e fileiras, depois como líder, eu não tinha nenhuma experiência da doutrina Socialista na prática. Minha própria doutrina, mesmo neste período, sempre foi uma doutrina da ação. (…) Depois da Guerra, em 1919, o Socialismo já era uma doutrina morta. (…) O Fascismo não era o cultivo de uma doutrina trabalhada previamente com elaboração detalhada; ele nascia da necessidade de ação e foi desde o princípio muito mais prático do que teórico; não era meramente outro partido político mas, mesmo nos seus dois primeiros anos, se opunha a todos os partidos políticos como tais e era em si um movimento vivo. (…) Agora, não é algo singular que mesmo naquele dia na Piazza San Sepolcro a palavra “corporativismo” tenha surgido e que, depois, no curso da Revolução, tenha se tornado a expressão criativa da legislação social e fundação do próprio regime?”[19] (grifo do autor)

 

 

Uma vez que a maior expressão doutrinária do Fascismo, o fascismo italiano, nega sua relação com o socialismo, nos resta, apenas para dar seguimento a argumentação, observar se pode haver alguma relação teórica entre o socialismo e o Nacional Socialismo – ou nazismo. Hoje há dentre os historiadores quem diga, baseado em declarações supostamente privadas de Hitler a testemunhas de sua confiança, que este acreditava que o Nacional Socialismo era uma forma superior de socialismo – diferente, por exemplo, do que ele chamava de “Socialismo Judeu Bolchevique”[20]. Essa visão, no entanto, é fortemente desacreditada pela maioria dos historiadores do período[21]. Entretanto, ainda que assumíssemos a primeira posição, revisionista, isso não prova, por si só, que há uma convergência teórica entre as duas coisas.

 

Afinal, no contexto em que os nazistas se afirmavam detentores dos ideais socialistas (e, pasme, por vezes também dos valores cristãos!), outros grupos também reivindicavam o mesmo direito. Neste sentido, é muito interessante observar a posição do líder social democrata Otto Wels, quando se posiciona contrário a aprovação, pelo parlamento Alemão, da legislação de exceção que, finalmente, entregaria aquele país aos nazistas. Segundo Wels, a única relação entre a revolução promovida pelo partido Nacional Socialista e o socialismo, é que “ambos tentaram destruir o movimento social democrata que, por mais de duas gerações, tem sido o verdadeiro guardião das ideias socialistas, e assim permanecerá”.[22] E nada mais.

 

Além de insistir no uso inadequado, portanto, dos termos socialismo e fascismo como sinônimos, Franklin comete também outro equivoco curioso nesta tese: utiliza Karl Barth, o famoso teólogo suíço que se opôs ao nazismo, e foi redator da Declaração Teológica de Barmen[23] – um texto absolutamente crítico aos cristãos que aderiram ao regime nazista (ou nacional-socialista) –, como opositor de qualquer doutrina socialista. Ao contrário disso, Barth pode ser descrito, desde sua juventude, como alguém que “já criticava o militarismo alemão, e fazia isso de dentro da tradição socialista e democrática Suíça, citando os reformadores Suíços como precursores deste tipo de entendimento [político-teológico]”[24]. E, também na contramão do retrato que Franklin tenta traçar de Barth, sua teologia protestante demonstra, desde seus primeiros escritos, uma “estreita conexão com o tema do socialismo”, onde se encontra também a “fundação da própria crítica de Barth a identidade nacional”[25], e à subserviência da Igreja ao Estado.

 

Diferente da barulhenta oposição de Franklin ao socialismo, que acompanha sua clara e inequívoca adesão a ideologia do liberalismo econômico, Barth mantinha sua oposição aos dois sistemas políticos econômicos vigentes após a Segunda Guerra Mundial e, especialmente, a política internacional dos Estados Unidos da América (EUA) que incendiava a Guerra Fria, e que ele classificava de irresponsável. Em sua correspondência sincera sobre o tema, endereçada a um pastor na Alemanha Oriental, e publicada anos depois, ele dispara:

 

Como eu poderia escrever [esta carta] a você, sem revelar que eu desaprovo da mesma maneira o espírito, as palavras, os métodos, e as práticas tanto do sistema no qual você vive; quanto os poderes e domínios que nos governam aqui, no Ocidente?”[26]

 

 

O Cristo de Thorvaldsen

O Cristo de Thorvaldsen

 

No mesmo sentido, Barth prossegue demonstrando ao seu interlocutor na Alemanha Oriental – portanto, sob um regime comunista e totalitário, ligado diretamente a extinta União das Republicas Socialistas Soviéticas (URSS) – que seria um erro considerar que apenas ao lado leste da Cortina de Ferro haveria uma “representação única e encarnada”[27] do Anticristo. Este argumento me parece um dos mais interessantes do autor. Para Barth, é um erro dos cristãos acreditar que o opositor de Cristo se manifestaria como um regime político ou Estado opressor, totalitário – um erro por demais comum na história da Igreja. Para ele, o Anticristo se revelaria como algo muito mais sedutor para a igreja; algo tão sedutor e protetor dela, que poderia ser confundido com a mais bem elaborada representação do próprio Cristo[28]. Nesse sentido, tanto as ideologias marxistas, quanto o liberalismo econômico, poderiam cumprir o mesmo papel. No texto, Barth faz menção aos “poderes do ocidente”, ou do “Oeste”, para se referir aos EUA; e aos poderes do “Oriente”, ou do “Leste”, para se referir a URSS. Barth termina, inclusive, sugerindo que o totalitarismo declarado da URSS teria paralelos no totalitarismo silencioso dos EUA[29]. Transcrevo na íntegra este trecho de Karl Barth:

 

Você provavelmente sabe que as pessoas no século XVI falavam dos Turcos e do Papa como um Anticristo oriental e um ocidental. Eu prefiro não utilizar esse termo, nem para me referir aos poderes do Leste, nem aos poderes do Oeste. Nem a Hitler, no seu tempo, eu me referi dessa maneira. Eu entendo que o “anticristo” será mais inspirador e mais convidativo, porque mais amigável e mais convincente no seu caráter do que o Papa ou os Turcos do século XVI, ou o maldito Hitler, ou os dois antagonistas contemporâneos. O verdadeiro anticristo será muito mais difícil de se distinguir de Cristo do que qualquer um desses; de fato, ele será um tipo de figura de Cristo. Quem sabe, talvez de alguma maneira nos lembre uma humilde e gentil representação de Cristo como aquela do Thorwaldsen. (…) Eu trago a memória esses antigos antagonistas porque uma coisa é certa: não é possível interpretar o comportamento particular e as atividades dos poderes contemporâneos do Leste no país onde você vive como representando a única e certa personificação do incansável adversário da Cristandade. Os poderes atuais do Oeste tem pelo menos um ponto em comum com os do Leste, porque eles também, da sua maneira, tentam dissuadir a Igreja Cristã de ser a Igreja. Fazem isso quando tentam silenciar a corajosa e ressonante proclamação [do evangelho], tão estranha e perturbadora ao mundo, de que o Reino de Deus está próximo de nós e que será finalmente revelado a todo o mundo, e que Seu Reino será supremo e vitorioso sobre todas as formas de vida econômicas, políticas, ideológicas, culturais e mesmo religiosas. (…) Um espírito antagonista, e seu poder, trabalham poderosamente contra este testemunho não apenas no Leste, mas também no Oeste; não apenas no declarado totalitarismo no qual você vive, mas também no totalitarismo silencioso no qual nós vivemos“.[30] (grifo do autor)

 

 

A leitura (ideologicamente) enviesada de Karl Barth, então, consiste no terceiro problema que apontamos aqui com a segunda tese teológico-política de Franklin Ferreira. Para Barth, apesar das semelhanças entre os totalitarismos do Leste e do Oeste; e das práticas imperialistas dos dois antagonistas da época em que escreve esta carta – os EUA e a URSS; haveria, ainda assim, do ponto de vista ideológico, uma diferença qualitativa considerável entre os ideais daquilo que poderíamos dividir como direita e esquerda, liberalismo econômico e fascismo de um lado; e socialismo e comunismo, do outro. O teólogo declara, nesse sentido, que “até certo ponto o estado comunista pode ser interpretado ou compreendido como uma imagem da graça” – certamente, uma imagem “grosseiramente distorcida e obscurecida”, ele completa. Isso porque “a graça é completa, totalitária”, porém, “é graça totalitária como uma ação livre e libertadora, e não como direito[ou lei]”[31].

 

Contudo, o argumento de Franklin é mais elaborado do que isso e, para sobreviver a contradição doutrinária entre socialismo e fascismo; e a sua leitura equivocada da teologia de Karl Barth; passa, também, pelo uso do termo “progressista” pelos cristãos de esquerda no Brasil. Segundo Franklin, o termo teria sido utilizado da mesma maneira tanto por socialistas e comunistas, como também por nazistas e fascistas, o que provaria, historicamente, a afinidade entre estes grupos. E aqui está o quarto problema da segunda tese política de Franklin. A confusão que Franklin faz, no entanto, é novamente compreensível nesse caso: assim como os termos liberal e liberalismo econômico, em inglês, são frequentemente associados a sentidos políticos divergentes – como ocorrem nas disputas políticas internas dos partidos Republicano e Democrata nos EUA, onde “liberal democracy” (posição de esquerda) e “economic liberalism” (posição de direita), figuram em polos opostos, por exemplo – o mesmo acontece com a ideia de progresso.

 

Cunhada com este sentido durante e ao final do Iluminismo e da Revolução Industrial, a ideia de Progresso percorre boa parte do pensamento político do século XIX, e se cristaliza nos movimentos Positivistas do início do século XX. Assim, os ideais positivistas, e a ideia de progresso – frequentemente concebida dentro de uma lógica de evolução social, mas também associada a noções de desenvolvimento, civilização e colonialismo –, influenciam quase todas as posições políticas disponíveis no período mencionado. De maneira alguma pode se dizer que o termo “progressista” tenha sido utilizado apenas pelos sujeitos históricos descritos por Franklin: socialistas, nazistas, comunistas e fascistas. A ideia de progresso tem muito mais capilaridade do que isso e foi utilizada também no contexto dos EUA – onde, de certa maneira, “progressist[32] se opunha a “liberal” – mas também no Brasil, onde unia no mesmo escopo tanto políticos liberais quanto positivistas – excluindo dessa equação, talvez, apenas os conservadores, monarquistas e escravocratas[33] do período.

 

"The Bosses of the Senate" (Os donos do Senado), charge de Joseph Keppler, publicada em 1889.

“The Bosses of the Senate” (Os donos do Senado), charge de Joseph Keppler, publicada em 1889, representando o lobby “progressista” industrial nos EUA. As galerias, ao fundo, estavam fechadas para o povo.

 

Entretanto, é preciso deixar claro que, de minha parte, concordo parcialmente com a crítica de Franklin ao uso do termo progressista – ressalvada sua atribuição histórica equivocada aos grupos que o utilizaram – pelos problemas que trás. Mas é exatamente nesse ponto que Franklin erra o alvo: enquanto o autor se preocupa em destituir de um lugar ao sol as ideologias “idólatras” e “totalitárias” do socialismo que poderiam adentrar as portas da igreja cristã; enquanto volta sua teologia política para combater quem acredita serem os grandes inimigo da fé cristã – os Estados comunistas de Cuba, Coréia do Norte, etc[34]; erra o alvo e perde o foco daquilo que talvez seja a mais tenebrosa consequência do liberalismo econômico na atualidade: o modo de produção capitalista-cognitivo[35] e a fé consumista no progresso técnico-econômico que se associa a ele – a Técnica (ou a tecnologia)[36].

 

A formulação que considero mais impressionante e convincente do fenômeno é aquela desenvolvida na obra do sociólogo e teólogo neo-ortodoxo Jacques Ellul[37]. Segundo ele, a noção de técnica no século XX, equivaleria ao que Marx denominou de capital, para o século XIX; se em Marx o capital é “poder social”, através do qual os detentores dos meios de produção (a burguesia liberal) organizam o estado, escravizam os trabalhadores[38] e se tornam a elite da sociedade; a técnica, para Ellul, é o fator organizador de toda a existência humana, capaz de determinar as próprias prerrogativas e valores[39] com os quais a ciência, o estado, e a sociedade explicarão a realidade e serão, por sua vez, explicados; é no domínio da técnica que a utilidade e o princípio do utilitarismo liberal terão sua expressão maior, onde racionalidade e racionalismo substituirão, por fim, a própria ideia de Razão; a técnica e sua filha, a tecnologia, seriam, em resumo, a expressão máxima da adoração do homem pela obra de suas mãos.

 

Curiosamente, o socialismo é o único dos termos discutidos acima por Franklin, e também por mim, cujas origens não estão no século XIX – se descartadas as leituras doutrinárias e positivistas de sua formulação na época, tanto cristãs quanto científica. Socialismo talvez seja a única dessas concepções que remonta a ideias mais antigas do que o progresso técnico, cujas origens estão no próprio Cristianismo[40]. A esquerda cristã que Franklin rejeita é radicalmente democrática, socialista e/ou anarquista e, é bom lembrar também, esteve entre aqueles que primeiro denunciaram o totalitarismo em sua formulações nazista, fascista e estalinista[41].

 

A idolatria do dinheiro, ou o fetichismo da mercadoria, está em depositar nossa fé no dinheiro, no vil metal, na moeda. Em decorrência dessa fé nos mitos do liberalismo econômico, o dinheiro faz conosco aquilo que os ídolos fazem com os que se ajoelham diante deles: roubam-lhes a vida. Ao curvar nosso joelho diante dos mitos e deuses do liberalismo econômico, sofremos um efeito meduza, e trocamos de lugar com eles; nós nos tornamos a imagem, o ídolo, a estátua; e os ídolos e imagens, ao roubar nossa alma, adquirem vida. O dinheiro faz isso, rouba a vida de quem nele crê e deposita nele suas esperanças. Mas há quem negue esse princípio básico da fé cristã, incentivando o egoísmo, o individualismo e o acúmulo de riquezas.

 

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O dinheiro do Tributo (“The tribute money”), de Joachim Wttewaal, 1616

Talvez a grande lição que devemos aprender com Jesus Cristo, neste tema, esteja em interpretar o texto bíblico de Mateus 22:16-22 à luz de outros textos que tratam da relação com o dinheiro e as riquezas, como Mateus 6: 19-34 e Mateus 19:16-30. Quando Jesus responde aos discípulos dos fariseus e aos herodianos com a famosa frase “dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, talvez esteja ali a lição maior de que carece a teologia política e a economia liberal moderna. Frequentemente este texto é utilizado para falar da licitude (ou da obrigação) em pagar impostos às autoridades; mas talvez nos ensine algo também sobre este debate. Jesus manda entregar o dinheiro a quem nele crê, a quem o produz, a quem está estampado nele, e a quem ele pertence: os poderes deste mundo. Diz isso porque mais importante do que a lealdade ideológica a César, que assumia uma forma divina, na época, é a materialidade da ideologia, a realidade a qual ela corresponde – no nosso caso, a idolatria (do)de mercado. A ideologia é menos importante do que a realidade que a criou, onde está o objeto concreto da idolatria. Por isso, Jesus nos ensina, antes: “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; Mas ajuntai tesouros no céu”.

 

 

Por: Marcus Vinicius Matos*

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*Marcus Vinicius Matos é doutorando em Direito pelo Birkbeck College, na Universidade de Londres, onde leciona Teoria do Direito (Legal Theory II and II) e Direito de Propriedade  (Property Law I – Land law). É também líder do ministério estudantil na igreja All Souls, em Londres.

[1] Nessa série de posts no blog Dignidade!, responderei a diversos argumentos de Franklin Ferreira que se encontram em 3 posts diferentes. A maioria dos argumentos, no entanto, se encontram nos seguintes posts: “Espectro político, mentes cativas e idolatria”, disponível em: http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=381 ; E, com especial atenção também ao post “Totalitarismo, o culto do Estado e a liberdade do evangelho”, disponível em: http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=392

[2] Ideologia é uma das noções mais complexas utilizadas nas ciências humanas e sociais para explicar a relação entre ideias, compreensões de mundo e posicionamentos políticos. A raiz da palavra, no entanto, remonta aos debates sobre idolatria, como desenvolverei a seguir. Isso ocorre porque “a noção de idolatria é profundamente enraizada no conceito de imagem, e reabilita as disputas ancestrais da iconoclastia, da idolatria, e do fetichismo”. Cf: W. J. T. Mitchell, Iconology: image, text, ideology. University of Chicago Press, 1987, p.11. Tradução livre do autor. O termo é geralmente utilizado exatamente para discutir marxismo e capitalismo como sistemas, mas sua origem é muito anterior a esse debate, remontando as próprias noções de “perspectiva”, e “paradigma”: “It is therefore first necessary to state that although Marxism contributed a great deal to the original statement of the problem, both the word and its meaning go farther back in history than Marxism, and ever since its time new meanings of the word have emerged, which have taken shape independently of it.” – Karl Menheim, Ideology and Utopia, pp.49. No contexto cristão reformado brasileiro, o conceito mais próximo da noção de ideologia discutida aqui me parece ser a concepção de “cosmovisão”. Um exemplo interessante de como imagem e palavras podem ser associadas a cosmovisão (e também ideologia) me parece ser o trabalho do jornalista e blogueiro Allen Porto – https://allenporto.wordpress.com/cosmovisao-arteimagem/

[3] O problema com ideia de um estado liberal como delineada pelo autor é que ela pressupõe, do ponto de vista cristão, a crença num direito natural também “cristão”: “If we remain determinedly ‘theocentric’ in our interpretation of law, we must admit that we have to first know the meaning of human institutions, human justice, etc., with reference to God, and what place according to his revelation they occupy in God’s design. Only then may we probe their value for man and his conduct with respect to them. The latter can only be a consequence of the former. The relationship between God and worldly institutions must have precedence over the possible relationship between these institutions and man (…) Accordingly, it proceeds on a radically different basis from the one generally adopted by the Christians eager to work out a foundation of natural law”. A consequência disso, segundo Ellul, seria que: “This theocentric idea is essentially different from what may be called theocratic systems. The latter are relatively simple: human law is the direct expression of the will of God. “It has the gods as authors”, as Plato says. This idea is diametrically opposed to what God reveals to us. Cf: Jacques Ellul, The Theological Foundation of Law, Seabury, 1969, pp. 10.

[4] Ellul observa que a inexistência – ou o fracasso – de uma teoria do direito calvinista devido ao problema do direito natural não ser resolvido por Calvino: “The same holds true for Calvin’s theory of natural law. Influential as was his theory of the state, his theory of natural law remained a dead letter. The reason again is that this is a philosophical theory which has nothing to do with law. It is neither an explanation nor an interpretation of law, but an intellectual creation”. Cf: Jacques Ellul, The Theological Foundation of Law, 1969, pp. 19. A respeito de outros problemas contemporâneos do ensino de teoria do estado nos cursos de direito, ver: De Matos; Souza. Teoria do Estado e Globalização: Pesquisa em movimento para a crítica da dogmática. Revista da Faculade de Direito da Universidade Federal de Uberlândia, v. 41, n. 1 (2013). Disponível em: http://www.seer.ufu.br/index.php/revistafadir/article/view/18597

[5] Esta idéia é de Terry Eagleton, para quem a teoria marxista em si, não possui uma ética própria, dissociada da ética desenvolvida na sociedade Ocidental, sob influencia do pensamento cristão. Ao perder contato com essa tradição cristã e sua ética, o marxismo pode permitir as maiores atrocidades. O mesmo, no entanto, ocorre quando “humanistas” e “liberais” deixam de admitir a existência do mal, e sua estreita relação com a independência humana de Deus e dessa ética – a expressão maior disso seria o apego a noção de “indivíduo”. O perigo, segundo ele, é que “podemos deixar escapar o Khmer Vermelho do mesmo gancho onde adolescentes deliquentes foram impalados”. Cf. Eagleton, On Evil, 2007. Texto parcialmente disponível em: http://www.newstatesman.com/ideas/2010/04/evil-social-essay-human-case

[6] Nas palavras exatas de Franklin, os “cristãos não dividem sua lealdade com um Estado/partido/governo que requer fidelidade religiosa, pois os cristãos sabem que tal lealdade é idolatria”.

[7] Karl Marx, em sua obra O Capital, é possivelmente o autor que formula esse argumento da idolatria a mercadoria, acusando exatamente o sistema capitalista de provoca-la. O autor usa o termo “fetichismo da mercadoria”, que equivaleria a formas mais primitivas do fenômeno, e menos as religiões pagãs helenísticas que também foram classificadas pelos Cristãos como idólatras. No entanto, vou usar os dois temos, nesse texto, como sinônimos. Cf: “A commodity is therefore a mysterious thing (…).There is a physical relation between physical things. But it is different with commodities. There, the existence of the things qua commodities, and the value-relation between the products of labour which stamps them as commodities, have absolutely no connexion with their physical properties and with the material relations arising therefrom. There it is a definite social relation between men, that assumes, in their eyes, the fantastic form of a relation between things. In order, therefore, to find an analogy, we must have recourse to the mist-enveloped regions of the religious world. In that world the productions of the human brain appear as independent beings endowed with life, and entering into relation both with one another and the human race. So it is in the world of commodities with the products of men’s hands. This I call the Fetishism which attaches itself to the products of labour, so soon as they are produced as commodities, and which is therefore inseparable from the production of commodities.” (Karl Marx, Capital, Volume 1, 1995, pp.35 – ebook)

[8] Segundo Mitchell, a noção de “ideologia, então, que historicamente surge como uma ‘ciência das idéias’ iconoclasta destinada a derrubar os ‘idolos da mente’, termina sendo caracterizada, ela própria, como uma nova forma de idolatria – a ideolatria”. O autor continua, explicando a origem do problema: “This characterization comes not only from English reactionaries like Burke and Coleridge, but from within the heart of the Revolution. Napoleon’s expulsion of the ideologues from the leadership of the Revolution is well known; but perhaps less familiar is the psychological theory on which it was based: ‘there are some,’ Napoleon is reported to have said, ‘who, from some physical or moral peculiarity of character, form a picture (tableau) of everything. No matter what knowledge, intellect, courage, or good qualities they may have, these men are unfit to command.’ Mitchell, Iconology, pp.167. Tradução livre do autor.

[9] Franklin atribui ao teólogo Emil Brunner a seguinte formulação (não chequei essa fonte): “O Estado totalitário é, pois, ateu e antidivino per definitionem, pois reivindica para si a totalidade do homem”. A frase ecoa na minha memória no depoimento que ouvi a respeito de cristãos luteranos do sul do Brasil que foram coagidos por milícias nazistas brasileiras a optar por sua fidelidade a pátria mãe (alemã) ou sua adoração “aquele menino Judeu” – no caso, Jesus Cristo. Os cristãos das narrativas que ouvi, no Brasil, abandonaram as milícias depois disso.

[10] Esta ideia de Marx é também desenvolvida por Mitchell, para quem a mercadoria não seria apenas um símbolo ‘imaginário’ de troca de valores, mas sim ‘a encarnação direta de todo trabalho humano’, a ‘personificação’ do valor”. Cf: Mitchell, Iconology, 191. Tradução livre do autor.

[11] Idem, 193

[12] Idem, 200

[13] Idem, 244.

[14] A expressão mão invisível é atribuída a Adam Smith, cf: The Wealth of Nations, ElecBook classics, p.593. Mas a citação aqui vem do autor libertário (e de direita) Estadunidense, Robert Nozik: cf. R. Nozik, Anarchy, State and Utopia, 1974, p.18. Nozik ataca aqui tanto autores clássicos como Locke, com seu “estado de natureza,” quanto autores liberais como Friedrich Hayek. Me pergunto se a explicação do “véu da ignorância”, na filosofia liberal contemporânea de John Rawls, também não poderia também entrar na mesma categoria.

[15] Ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Carl_Schmitt

[16] Dom Helder Câmara foi um famoso bispo católico que se opôs ao regime militar no Brasil, tendo sido indicado ao Prêmio Nobel da Paz, por sua defesa intransigente dos direitos humanos na época da ditadura. O regime, no entanto, conseguiu que ele não fosse premiado através de uma campanha difamatória onde o associavam, em sua mocidade, ao Integralismo, forma brasileira de fascismo. Essa informação está em: Elio Gaspari, A ditadura escancarada, 2014. Para maiores detalhes da vida de Câmara, ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hélder_Câmara#cite_note-Avila-2

[17] Abdias do Nascimento foi o primeiro senador negro do Brasil, eleito como suplente pelo PDT em 1997. Tive a oportunidade de conviver com ele por ocasião da fundação do Núcleo Educafro Abdias do Nascimento, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Abdias abandonou a posição integralista em prol da sua militância pela causa da igualdade racial, que perpassa sua obra artística desde o exílio. Passou pelo comunismo, ainda no Brasil, quando foi preso, e finalmente entrou na política pelo PDT, na época encarado como um partido socialista e democrata. Ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hélder_Câmara#cite_note-Avila-2

[18] A informação de que Golberi foi comunista na juventude está em: Elio Gaspari, A Ditadura Derrotada, v.3, 2014. A atribuição de que tenha sido fascista não é justa, uma vez que o general talvez tenha sido o mais duro combatente dos fascistas que integravam o Exército Brasileiro durante a ditadura militar, enquanto integrava um governo que dependia justamente de uma coalizão entre forças políticas liberais e fascistas. Era, na verdade, um político extremamente pragmático. No entanto, é importante lembrar que a virada contra o fascismo nas Forças Armadas Brasileiras se dá muito em torno do fato de que o Estado Novo recusa adesão a doutrina fascista, já que Getúlio foi obrigado a se opor ao Eixo, afinal. Desenvolverei melhor essa ideia no próximo texto. Para maiores detalhes, ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Golbery_do_Couto_e_Silva

[19] Benito Mussolini, The Doctrine of Fascism, in: The Living Age, 1933, published by Political Quarterly, London, p.235-236. Tradução livre do autor.

[20] Essa visão minoritária da historiografia está perceptível aqui: Hitler e o sonho socialista. Cf. http://www.independent.co.uk/arts-entertainment/hitler-and-the-socialist-dream-1186455.html (em inglês).

[21] Um dos mais respeitados historiadores do período, discorda absolutamente dessa formulação: “Despite the change of name, however, it would be wrong to see Nazism as a form of, or an outgrowth from, socialism. True, as some have pointed out, its rhetoric was frequently egalitarian, it stressed the need to put common needs above the needs of the individual, and it often declared itself opposed to big business and international finance capital. Famously, too, antisemitism was once declared to be ‘the socialism of fools’. But from the very beginning, Hitler declared himself implacably opposed to Social Democracy and, initially to a much smaller extent, Communism: after all, the ‘November traitors’ who had signed the Armistice and later the Treaty of Versailles were not Communists at all, but the Social Democrats and their allies”, Richard J. Evans. The Coming of the Third Reich. iBooks. (p.548). Disponível em: https://itunes.apple.com/WebObjects/MZStore.woa/wa/viewBook?id=7634CFBAAF536E85EB696B89CF116CAA

[22]The gentlemen of the National Socialist party call the movement they have unleashed a national revolution, not a National Socialist one. So far, the relationship of their revolution to socialism has been limited to the attempt to destroy the social democratic movement, which for more than two generations has been the bearer of socialist ideas and will remain so. If the gentlemen of the National Socialist Party wanted to perform socialist acts, they would not need an Enabling Law. They would be assured of an overwhelming majority in this house. Every motion submitted by them in the interest of workers, farmers, white-collar employees, civil servants, or the middle class could expect to be approved, if not unanimously, then certainly with an enormous majority.” Volume 7. Nazi Germany, 1933-1945. Speech by the Social Democrat Otto Wels against the Passage of the “Enabling Act” (March 23, 1933). http://germanhistorydocs.ghi-dc.org/pdf/eng/English_6.pdf

[23] O texto original completo da declaração está disponível aqui: http://www.luteranos.com.br/textos/a-declaracao-teologica-de-barmen Para maiores informações sobre o contexto, é interessante a página da Wikipedia de mesmo título: http://pt.wikipedia.org/wiki/Declaração_Teológica_de_Barmen

[24] Carys Moseley. Nations and Nationalism in the Theology of Karl Barth. Oxford University Press (2013), p.35. Tradução livre do autor. Grifo do autor.

[25] Idem, p.37. Segundo o autor, Barth entendia que o socialismo decorria do próprio desenvolvimento da doutrina calvinista aplicada em Genebra.

[26] Karl Barth, Letter to a Pastor in the German Democratic Republic. In: Karl Barth and Johannes Hamel, How to serve God in a communist land, Associated Press, New York, 1959., p.48

[27] Idem, p. 51

[28] A imagem conhecida como o Cristo de Thorwaldsen, citada por Karl Barth como exemplo dessa representação perfeita, é considerada como uma das mais impressionantes e bem elaboradas representações de Jesus Cristo. A imagem original está na Igreja de Nossa Senhora, em Copenhagen, na Dinamarca. Cf. http://en.wikipedia.org/wiki/Christus_(statue)

[29] Talvez aqui a metáfora nos leve a algo semelhante ao termo “fascismo-gente-boa”, de Brentam Gross, que utilizei no primeiro post dessa série. Ver: http://ultimato.com.br/sites/dignidade/2015/03/04/a-idolatria-dode-mercado-contra-a-teologia-politica-neoliberal/

[30] Karl Barth, Letter to a Pastor in the German Democratic Republic. In: Karl Barth and Johannes Hamel, How to serve God in a communist land, Associated Press, New York, 1959., p.51-52. Tradução livre do autor. Grifos do autor. Também aqui podemos ver o aspecto “convidativo”, “amigável” e perigoso do anticristo, talvez próximo do “fascismo-boa-praça” que decorre do neoliberalismo atual. Ver nota 25 acima.

[31] Karl Barth, 1959, p.58. Tradução livre do autor.

[32] Para o uso do termo “progressista” nos EUA, Ver: http://www.alternet.org/story/23706/what_is_progressive

e também: http://prorev.com/proglib.htm , Finalmente, a página da Wikipedia, em inglês, também é útil: http://en.wikipedia.org/wiki/Progressivism_in_the_United_States

[33] Vou desenvolver esse raciocínio com maiores detalhes na próxima postagem desta série. Basicamente, as fontes históricas que demonstram a aproximação entre liberais e positivistas na Primeira República do, então chamado, Estados Unidos do Brasil, são acessíveis através dos seguintes textos: Gisele Silva Araújo, Tradição Liberal, Positivismo e Pedagogia: a síntese derrotada de Ruy Barbosa. Perspectivas, São Paulo, v. 37, p. 113-144, jan./jun. 2010; e também em: Paulo Bonavides, Ciencia Política, 10a edição. São Paulo, Malheiros editores, 2000.

[34] Me refiro aqui a retórica muito comum hoje em dia nos movimentos sociais de Direita no Brasil: “gosta de Cuba, mas quer ter um iPhone!”; “quer ser comunista, mas usa tênis Nike!” etc. Esse tipo de atitude acaba sendo muito revelador: de fato, como os comunistas, por assim dizer nas palavras dos seus detratores, vão resistir ao consumo e a tentação promovida pela sedutora tecnologia e seus benefícios? É possível estar nessa sociedade técnica e de consumo sem fazer parte ou tomar parte nela? Apenas como contraponto, vale dizer que há grupos de “causa única” que, por vezes, se organizam fora da sociedade, promovendo o não-consumo, ou um consumo consciente e ecologicamente comprometido – com todas as contradições que decorrem disso. Muitos desses grupos, partem de um escopo socialista e cristão, por vezes soam aos seus detratores como “hippies”. Ver, por exemplo: http://www.speak.org.uk

[35] Chamo atenção aqui para o fato de que a semelhança do atual estágio do capitalismo técnico cognitivo com o modelo libertador, e convidativo do “Anticristo” proposto por Karl Barth, que é hoje bem maior e mais universal do que as seduções dos dois “opositores” em conflito na época do autor – contando com os tênis Nike e os iPhones citados acima. Ver também: http://pt.wikipedia.org/wiki/Capitalismo_cognitivo

[36] Utilizarei aqui os termos “técnica” ou “tecnologia” como sinônimos, equivalendo a tradução de “technique” do francês, conforme as divergentes traduções disponíveis do original para o inglês ou o português. Cf. Jacques Ellul, A Técnica e o desafio do Século, 1968

[37] Ellul é um autor complexo, cuja obra transcende barreiras disciplinares, e é ainda pouco conhecida no Brasil. Um primeiro esforço de discussão da obra do autor foi empreendido pelo Grupo de Estudos sobre Jacques Ellul, da UNESP: https://jacquesellulbrasil.wordpress.com ; Um dos resultados desse primeiro esforço acadêmico foi a publicação “Direito, Técnica, Imagem: os limites e os fundamentos do humano”, disponível aqui: http://culturaacademica.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=382

[38] Marx desenvolve a noção de capital tanto no texto do famoso Manifesto do Partido Comunista, quanto na sua obra – talvez, principal –, O Capital. Chamo atenção aqui para a realidade nua e crua do liberalismo do século XIX, a partir de onde Marx responde a assertiva liberal, de John Locke, de que é o trabalho que gera propriedade privada, contrastando a premissa com a situação dramática dos trabalhadores de sua época. Cf. Marx & Engels, The Communist Manifesto, 1874, pp. 14. Marx traça uma descrição detalhada do processo através do qual os trabalhadores do século XIX perdiam sua liberdade, a partir da comparação do extasiante número de horas trabalhados por eles e o salário pago; e aponta para a assertiva de que, no liberalismo econômico, não há direito, sendo o sistema regido por “apenas uma lei”: “a troca de mercadorias”. Cf. Karl Marx, Das Capital, v.1, 1867, pp.224. Tradução livre do autor.

[39] Hannah Arendt, em um de seus textos mais famosos, faz questionamentos muito semelhantes ao e-maravilhamento da humanidade com os desenvolvimentos técnicos e tecnológicos do século XX. Sob o domínio técnico, “passaremos, sem dúvida à condição de escravos indefesos, não tanto de nossas máquinas quanto de nosso Know-how, criaturas desprovidas de raciocínio, à mercê de qualquer engenhoca tecnicamente possível, por mais mortífera que seja.” Cf. Arendt, A condição humana, 2007, p.11.

[40] Nos próximos post desta série desenvolverei essa noção tentando resgatar, inclusive, a histórica controvérsia entre os Franciscanos e o Papa sobre se Cristo tinha ou não direito de propriedade sobre suas roupas.

[41] Novamente, a narrativa da vida de Jacques Ellul nos ajuda, com o exemplo alguém que viveu o que pregou, e pode ser tomada no próprio sentido cristão da palavra testemunho. Ellul lutou na resistência francesa contra o Nazismo e seus aliados na França, o governo Vichy. Após a denúncia do totalitarismo soviético nas décadas de 1960-1970, Ellul teria sido questionado como marxista e cristão, a respeito de sua posição a respeito do estalinismo soviético e, supostamente teria respondido que aqueles que foram os primeiros a rejeitar o estalinismo, não precisam sequer ter dúvidas em rever sua posição. Parte dessa narrativa está disponível aqui: https://curlewriver.wordpress.com/2012/10/19/ellul-what-i-learned-from-marx/

A página da Wikipedia também em inglês também trás informações interessantes sobre a vida do autor: http://en.wikipedia.org/wiki/Jacques_Ellul

Resenha do livro Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente*, de Edward Said

 

 

“Ela nunca falou de si mesma, ela nunca representou suas emoções, sua presença, ou a sua história. Ele falou por e representou ela. Ele era estrangeiro, comparativamente rico, do sexo masculino, e estes foram os fatos históricos de dominação que permitiram a ele não só possuir fisicamente Kuchuk Haman, mas de falar por ela e dizer aos seus leitores de que formas ela era “tipicamente Oriental”.

– Edward Said

 

Pintura orientalista, anonima, Venesiana: A recepção dos embaixadores em Damasco, de 1511, no Museu do Louvre. (Detalhe da imagem: Os cervos com chifres no fundo da pintura nunca existiram na Fauna silvestre da Síria.)

 

Como entendemos e nos relacionamos com o Oriente, em particular aqueles que vivem e são provenientes das “Terras da Bíblia”? Quem decide quais são os ‘valores’ do Leste, no que ele acredita, o que ele deseja? Por que “eles” são considerados tão diferentes de “nós”?

Em “Orientalismo”, um texto fundamental para os estudos pós-coloniais, Edward Said argumenta que a hegemonia histórica e cultural do Ocidente sobre o Oriente, como um colonizador, um ocupante, e um opressor ao longo dos últimos três séculos, resultou na “criação” do ‘Oriente’ ou, como denomina o autor, na “orientalização”, pelo Ocidente. Ou seja, o Ocidente, em primeiro lugar a Europa e, em seguida, a América (após a Segunda Guerra Mundial), foi capaz de decidir – e continua decidindo – o que é o Oriente, uma vez que “a relação entre o Ocidente e o Oriente é uma relação de poder, de dominação, de vários graus de uma hegemonia complexa”. O que é preeminente sobre o Oriente não é a sua existência, mas o que é dito sobre ele.

Uma forma de entender o “Orientalismo” é vê-lo como um “estilo de pensamento” que insiste afirmar que há um “nós” e um “eles”, e que “eles” são muito diferentes, ontológica e epistemologicamente, de “nós”. Esta “distinção básica” foi aceita por todos, desde poetas e romancistas ate cientistas políticos e economistas. Ela tem sido usado como uma plataforma para lançamento de “teorias elaboradas, épicos, novelas, descrições sociais e narrativas políticas a respeito do Oriente, o seu povo, sua conduta, sua “mente”, seu destino, e assim por diante. “Eles” têm sido inferior ao “nós” europeu e americano. “Eles” são atrasados, “eles” não compartilham “nossos” valores. “Eles” são … diferentes, inferiores.

Outro significado de “Orientalismo” é o de uma “instituição corporativa para lidar com o Oriente – lidar com ele pela via de fazer declarações sobre ele, autorizandovisões sobre ele, descrevendo-o, ensinando-o, ocupando-o, governando-o: em suma, Orientalismo como um estilo ocidental para dominar, reestruturar e ter autoridade sobre o Oriente”. Longe de ser uma “fantasia Europeia frívola”, que pode ser facilmente descartada, o orientalismo é um “órgão criado entre teoria e prática”, em que foi investido fortemente e ao que se foi adicionando elementos ao longo de muitas gerações. Said argumenta que o “Orientalismo” deve ser estudado como um discurso a fim de compreender a dimensão dessa disciplina sistemática, através do qual o Ocidente gerenciou e produziu o Oriente em todas as formas possíveis – politicamente, sociologicamente, militarmente, ideologicamente, cientificamente, e imaginativamente .

O discurso do Orientalismo é tão autoritário que “ninguém que escrevesse, pensasse ou agisse sobre o Oriente poderia [ou pode] fazê-lo sem ter em conta as limitações em pensamento e ação imposta pelo orientalismo…Em suma, por causa do Orientalismo o Oriente não foi (e não é) um sujeito livre para pensar ou agir”.

Enquanto oramos pela paz no Oriente Médio e no Norte da África, enquanto lamentamos a morte de seres humanos, devemos ter cuidado com quais conclusões fazemos sobre o Oriente. Devemos questionar a lente através da qual vemos aqueles que são supostamente tão diferentes de nós. Devemos ser pró-ativos na busca de ouvir as vozes daqueles que são oriundos e/ou vivem dentro das ‘terras da Bíblia’. E devemos questionar o uso dessa proclamada diferença para justificar a guerra, a islamofobia, a ocupação e a violência.

 

Sharone Birapaka**

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**Formada em Relações Humanas e Religião (Concordia University, Canadá), e mestranda em Estudos Interdisciplinares (Athabasca University, Canadá)

* Said, Edward W. Orientalism. New York: Vintage, 1979. Print.

 

Carla Naoum Coelho*

mulher corcovada 001

 

O texto de Lucas 13,10-17 relata a cura de uma mulher que há dezoito anos andava encurvada e, de modo algum, podia se endireitar (v. 11). Aconteceu em um sábado, em uma sinagoga e a mulher foi curada por Jesus.

Diante das várias possibilidades que temos de olhar para esse texto, nesse momento, queremos sugerir que essa mulher representa simbolicamente a situação de todas as mulheres da época de Jesus que eram consideradas inferiores aos homens. Assim sendo, ao tocar essa mulher e curá-la publicamente, Jesus estava ‘gritando’ contra todas as maneiras pelas quais as mulheres eram diminuídas em seu valor de ser humano e lutando contra tudo o que as proibiam de assumir a postura que Deus lhes havia dado, desde a criação, de permanecerem eretas diante dos homens e de toda a comunidade. Jesus, portanto, invade um contexto histórico no qual a mulher é despersonalizada, isto é, desfigurada em seu valor, e a restaura à sua postura de ser humano, criada à imagem de Deus.

Mas não apenas as mulheres da época de Jesus. Aqui, podemos fazer nossas as palavras de Maxine Hancock: “quando eu vejo Jesus estender as mãos para endireitar, elevar e colocar essa mulher na posição correta, eu vejo Jesus se importando com todas as mulheres do mundo […], eu vejo Jesus se interessando por qualquer situação em que a mulher esteja sendo diminuída perante um homem”.

É interessante notar que, ao se referir a esta mulher, Jesus usa a expressão ‘filha de Abraão”. Ter Abraão como pai era uma afirmação judaica de orgulho e dignidade. Ter Abraão como pai era fazer parte de uma aliança. Ao chamar a atenção da congregação para o status dessa mulher como ‘filha de Abraão’, Jesus estava colocando-a integralmente dentro da comunidade da aliança. Ou seja, Jesus estava mostrando a todos ali presentes que o lugar da mulher era ao lado de seus irmãos: filhos e filhas da mesma aliança.

A partir das atitudes e palavras de Jesus demonstradas nesse texto de Lucas, entendemos que o Reino de Deus, que irrompeu na história através de Jesus Cristo, quer libertar todas as mulheres, inclusive aquelas que continuam amarradas pelas cordas de uma hermenêutica que prende a mulher em um mundo em que os privilégios são dos homens, e que vê esses privilégios não como um sintoma do nosso mundo caído, mas como o plano de Deus para a humanidade. E mais, trata os privilégios conferidos ao sexo masculino como sendo a vontade de Deus para o relacionamento entre homem e mulher.

É interessante notar que, logo em seguida ao episódio da cura dessa mulher que há dezoito anos andava encurvada, Jesus conta 2 parábolas que falam do Reino de Deus, ou, mais especificamente, que explicam como se dá o avanço do Reino de Deus no mundo. “A que é semelhante o reino de Deus, e a que o compararei?” (Lc 13:18), indaga Jesus, como que procurando uma maneira de apresentar a sua própria perspectiva de como as coisas acontecem no Reino de Deus. E Ele continua: “é semelhante a um grão de mostarda que um homem plantou na sua horta, e cresceu e fez- se árvore […] (VS 19); É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado (VS 20). Mesmo em uma leitura casual do texto, percebe-se que estas duas parábolas andam juntas e não apenas porque ambas falam de crescimento mas também porque Jesus emprega os dois gêneros – homem e mulher – para ilustrar como Ele e seu Reino operam no mundo. É possível notar aqui um eco com o relato da criação onde encontramos o propósito de Deus: homem e mulher juntos na mordomia de toda a criação (Gen 1:28).

Com a atitude de Jesus de curar essa mulher, podemos perceber os sinais do Reino de Deus brotando na história e perceber também o que o Reino de Deus faz pelas mulheres: liberta-as de todas as amarras que as prendem e as impedem de viver a integralidade da vida humana.

 

*Mestre em Comunicação, Doutoranda em Ciências da Religião (PUC Goiás)