Repensar a Evangelização a partir de Jesus Cristo.

 

Shane Claiborne*

(Tradução: Mozart Archilla)

 

Tenho ouvido um burburinho em círculos cristãos que tem me preocupado. É a ideia de que se fizermos Jesus alcançar as pessoas mais influentes do mundo… então todo o resto do mundo virá em seguida.

 

Eu tenho visto essa filosofia contaminar igrejas e organizações, e até movimentos e conferências inteiras. Seu objetivo é atingir os “influenciadores” – os que detêm e controlam o poder e o acesso a ele. Eu vivenciei isso do lado de dentro, porque com frequência sou considerado uma dessas pessoas.

 

Não consigo definir muito bem o meu problema com isso. Afinal de contas, muitas das pessoas que vêm a essas reuniões de elite, cúpulas, e think-tanks, são influentes com razão… são brilhantes (algumas delas). Articuladas (a maioria delas). Carismáticas (todas elas).

 

Então eu lembrei da Young Life (Vida Jovem), uma organização da qual fiz parte no ensino médio.

 

O grupo Young Life tinha uma filosofia chamada de Key Kid (Garoto Chave). A ideia era que se você tocasse os jovens mais populares – as líderes de torcida e os jogadores de futebol – então os outros jovens [menos populares] também viriam. Por anos, essa foi a estratégia que dirigiu um dos mais eficazes ministérios de juventude no país.

 

De acordo com meus amigos na Young Life, eles aprenderam duas coisas ao implementar essa estratégia:

1) Ela funcionava. 2) Ela contrariava Jesus.

 

Mesmo que a filosofia fosse bem-intencionada e eficaz em alcançar centenas de jovens,  ela era problemática. Ela não combinava com a maneira a qual Jesus ministrava.

 

Ele não escolhia os mais poderosos, influentes, populares, polidos e imaculados.

 

Na realidade, eram os que residiam no poder e na prosperidade que lhe davam muito trabalho.

 

Certamente havia líderes ricos, soldados condecorados, homens de negócio poderosos e intelectuais influentes entre os que vieram a Jesus. Eles precisavam de Deus também.

 

Porém, Jesus foi muito claro quando disse que o discipulado fiel lhes faria perder tudo o que eles possuíam e confiavam – “é mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus.” Mas nada é impossível. Todos os seus títulos, todas suas riquezas e todo o seu poder deveria ser trocado por uma cruz.



Jesus não começou de cima, e sim, de baixo. Jesus escolheu os ordinários. Ele escolheu os prostrados, os danificados e machucados, os marginalizados e excluídos. Escolheu pescadores e prostitutas, cobradores de impostos e leprosos.

 

Talvez porque eles não tinham nada a perder – a não ser as correntes que os prendiam.

 

A tentação aqui é acreditar que são os ricos e poderosos os mais preparados e eficazes em comunicar o amor de Deus, atingir pessoas para Cristo, ou transformar o mundo.

 

Mas a Bíblia nos mostra algo diferente, e a história a comprova – os melhores cristãos são os curadores feridos. Nossas credenciais não são nossos diplomas, habilidades ou reconhecimentos. Nossas feridas – machucados, cicatrizes – estas são nossas referências. Eu aguardo ansiosamente o dia em que os que possuem as feridas mais profundas se tornem as vozes mais destacadas na igreja.

 

Há alguns anos, Young Life abandonou a estratégia Key Kid. O resto da igreja precisa  fazer o mesmo.

 

Então, vamos parar um pouco e refletir.

 

Vamos olhar para nossas conferências e cúpulas, para os bancos das nossas igrejas e mesas de jantar. Estamos mais impressionados com os títulos das pessoas ou com suas lágrimas?

 

Vamos nos certificar de que atraímos as pessoas que Jesus atraía, e que se frustramos alguém, que seja os que Jesus frustrava. Frequentemente o que a igreja faz é o contrário: atraímos as pessoas que Jesus frustrava e frustramos as pessoas que Jesus atraía.

 

Será que as pessoas das quais Jesus se cercava teriam dinheiro para pagar as inscrições nas nossas conferências evangélicas? Seriam elas as convidadas dos nossos think-tanks teológicos?

 

Não tenho sequer a certeza de que Jesus se sentiria confortável pernoitando num Hotel de luxo, num Ritz Carlton [onde algumas dessas conferências acontecem].

Jesus admoestava os poderosos no alto de seus tronos e elevava os rebaixados. Ele mandava para a parte de trás do ônibus os que estavam na primeira classe, e convidava os que assistiam do lado de fora para se sentarem na área VIP. Os últimos se tornam os primeiros, os primeiros viram os últimos.

 

Os que tinham as vozes mais altas foram obrigados a ouvir, e aos que não tinham nenhuma voz, lhes foi dado um microfone.

 

O Reino de Deus não respinga de cima pra baixo… ele borbulha de baixo pra cima. Então vamos exorcizar o mal do falso merecimento. Vamos descer da escada do status e ouvir o clamor dos oprimidos.

 

Vamos sair de nossas cúpulas e tomar as ruas.

 

Porque vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes. E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são para aniquilar as que são. 1 Coríntios 1: 26-28

Traduzido de: The Myth of Trickle-Down change

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*Shane Claiborne é o autor de best-sellers, reconhecido ativista e preletor, além de um auto-declarado “pecador em recuperação”. Shane publica e palestra em vários países sobre promoção da paz, justiça social, e Jesus, e é autor de inúmeros livros como A Revolução Irresistível, Jesus for President, e o mais recente, Executing Grace (sobre a pena de morte). Ele é o líder visionário da comunidade The Simple Way, na Filadélfia, e co-diretor dos Cristãos da Letra Vermelha. Seu trabalho já foi citado e reconhecido pela Fox News, Esquire, SPIN, The Wall Street Journal, NPR e CNN. ____________________________________________________________________________________________________________

 

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