“Amanhã, quando teu filho te perguntar: ‘Que são estes testemunhos e estatutos e normas que Iahweh nosso Deus vos ordenou?’, dirás ao teu filho: ‘Nós éramos escravo do Faraó no Egito, mas Iahweh nos fez sair do Egito com mão forte’”

Deuteronômio 6: 20-21

 

Moisés e os 10 mandamentos por G. Doré

Moisés e os 10 mandamentos por G. Doré

Reportar ao momento em que se dá o grande encontro do povo hebreu com o Deus libertador é recorrente no Antigo Testamento. Quase uma pedagogia. Não apenas esta passagem que aqui nos serve de epígrafe, mas diversas espalhadas pelo Deuteronômio, nos fala da exigência de uma ética a partir de Deus, que não está fundamentada exclusivamente no decálogo, não está na obediência mecânica dos dez mandamentos, mas na escolha cotidiana do não esquecer, a opção pelo permanente lembrar. Não que o decálogo não fosse importante, mas porque antes dele, marcante mesmo foi que um povo que vivia como escravo alcançou a liberdade (Dt. 26: 5-9).

 

O cuidado com o escravo, inclusive observando a possibilidade de deixá-lo ir, livre, e mesmo assim sem que ele fosse sem nada, é uma referência, e ao mesmo tempo uma reverência, à lembrança de que um dia, Israel também fora escravo, a vida era dura, e Deus se importou com eles, viu e olhando pra eles, viu que a liberdade era um bem que não deveria ser negada a ninguém (Dt 15: 12-15). O compromisso em não perverter o direito do estrangeiro, órfão e da viúva (Dt 24: 17-18), antes de qualquer ordem heterônoma, vem de uma espécie de “imperativo” ético gerado a partir da memória. Vem da gratidão à lembrança de que foram escravos no Egito, e seus direitos não eram respeitados.

Temos um dilema com a memória. É a memória que torna a história uma metodologia do bom seguir, orientadora de percursos, pois mesmo quando não se sabe exatamente para onde se está indo, a memória nos ajuda a evitar caminhos que não se devem seguir. É isso que há um pouco na afirmação do uruguaio Eduardo Galeano, de que a história é um profeta com os olhos voltados para trás. É verdade.

A heteronomia do decálogo é atualizada na autonomia das Bem-aventuranças. O que foi estabelecido como controle, se completa pelo convite ao cuidado. A memória deveria nos fazer olhar para trás e lembrar que é uma péssima ideia odiar o outro, querer transformá-lo numa projeção do que nós mesmos somos, crendo que nossas opções (de conduta, de valores, de credo, de posicionamento ideológico ou coisa que valha) são as melhores, e por isso deveriam valer pra todos. A memória deveria conseguir nos ensinar que o medo e a insegurança constroem inimigos, e transforma todas as nossas principais exigências para um estado que nos atenda, na exigência de que a nossa insegurança e os nossos medos sejam combatidos, bem como a eliminação de quem os personifica. A memória grita pela interpretação do que outrora houve, da leitura correta da gramática no acúmulo do conflito, do litígio, da resistência e da opressão, da luta inclemente.

Uma ética da memória não se dá nem ao prescritivo (ou seja, não se dá por satisfeita com o que deve ser, porque a vida humana clama por ideais que não estão postos, e já não podem ser ditados e aceitos com facilidade), nem com simplismo ao descritivo (ou seja, não se dá por satisfeita em se construir e pensar a partir do que se é, porque o sujeito humano não se entrega à definição, o espírito humano não se dá por vencido). Uma ética da memória está em construção, dialogando com o que viu e com o que a experiência lhe permitiu vivenciar. Sua palavra essencial é o cuidado e não o controle, sua principal desconstrução rompe com a imposição do presente resultado da permanente disputa das diversas correlações de forças na esfera pública.

Uma ética da memória buscaria não a imposição, mas a construção de um presente comum, que torna a afirmação da sua lembrança na negação da repetição dos seus excessos (que alienou sujeitos, que subjugou identidades, que destruiu histórias, que negou existências, que perseguiu diferentes, que invisibilizou pobres, que excluiu estranhos, que suprimiu direitos, que calou com morte).

 

Ronilso Pacheco