“É a presença desse elemento de bondade, que torna justa e humana a Justiça”

François Poirié, refletindo o conceito de bondade em Lévinas

 

Para um blog que se debruça sobre a luta pela valorização da dignidade humana, eu penso sobre o papel da bondade. Levinasiano, assumo esse conceito da bondade como essa gratuidade desinteressada. Preservar a dignidade.

Não estamos, enquanto seres humanos, nos nossos momentos mais felizes socialmente. Não aprendemos o suficiente com os avanços que nos levaram para trás, com a nossa disputa desenfreada, com a nossa liberdade que termina quando a do outro começa, o que nos faz evitar que a do outro comece, para que a nossa nunca termine, pois a liberdade exige espaço. Compartilhar os espaços disputados pelas liberdades individuais exige a bondade, gratuidade desinteressada que enxerga no outro a dignidade que prezo em mim.

Na história “De onde virá o meu socorro?”, a igreja promove consulta para identificar as necessidades da comunidade em que está inserida.

Na história “De onde me virá o socorro?”, a igreja promove consulta para identificar as necessidades da comunidade em que está inserida.

Diálogos para a dignidade, diálogos para a valorização da dignidade, diálogos para a luta pela dignidade humana. Poirié fala da bondade como uma preocupação com o outro vivenciada no cotidiano, permanente. O recado de Deus por Miquéias é a exigência da prática da justiça, de andar humildemente com Deus e, de amar a bondade – onde outras traduções dizem fidelidade, misericórdia, tudo amalgamado num mesmo sentido. Atender ao chamado de Deus é possível quando se responde com a bondade – que é fidelidade, que é misericórdia. E para Lévinas ser res-posta é colocar a si mesmo como a coisa posta. É estar disponível para denunciar a violência, a falta de alimento, o racismo mesmo dissimulado, o abandono, os caminhos de morte, da morte do outro. A bondade nos inclina para a dignidade.

Vivências de dignidade, abertura à dignidade para além da nossa própria dignidade, a dignidade não objetivada. É lindo a interpretação de Lévinas para o chamado de Abrão: “Pai dos crentes? Certamente. Mas sobretudo, aquele que soube receber e alimentar homens; aquele cuja tenda era aberta aos quatro ventos. Por todas essas aberturas, ele observava os passantes para acolhê-los”. Um chamado que se responde com bondade, e a bondade vai ao encontro, ela mesma busca a dignidade no outro.

Dignidade e bondade. Ter um espaço onde a dignidade humana é razão principal de reflexão, narrativa, discussão, pensamento, observação, valorização, partilha, elogio de sua presença, denúncia de sua ausência, é de alegrar o coração. Onde a dignidade encontra-se sobre os escombros, a bondade é ferramenta de remoção dos escombros, despertadora do engajamento, incômodo da apatia, espelho que reflete, mediante sua ausência em nós, a inumanidade de nossa poderosa subjetividade.

Viva a dignidade humana. Um viva também a bondade que nos faz lutar por ela.

 

Ronilso Pacheco