Colaboradores na criação

quarta-feira
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Se algumas vezes o sofrimento elimina a falsa suficiência da criatura, em condições de “juízo” ou “sacrifício”, o sofrimento lhe ensina a autossuficiência que ela realmente deveria possuir — a “força que, quando dada pelos céus, pode ser chamada de sua”. Nesse caso, na falta de todos os motivos e apoios naturais, ela age somente na força que Deus lhe confere por meio da sua vontade sujeitada. A vontade humana se tornará realmente criativa e verdadeiramente nossa quando se tornar de Deus, e esse é um dos muitos sentidos em que o que perde a sua alma poderá achá-la de novo. Em todos os outros atos nossa vontade é alimentada pela natureza, isto é, por meio de coisas criadas e não pelo eu — pelos desejos que o nosso organismo e que a nossa hereditariedade nos provocam. Quando agimos por nós mesmos, isto é, por Deus em nós, somos colaboradores ou instrumentos vivos da criação; eis por que um ato como esse desfaz com “expressões de poder desagregador” o estado de não-criatividade que Adão instituiu sobre a sua espécie. Assim, da mesma forma que o suicídio é a expressão típica do espírito estóico, e a batalha, a do espírito guerreiro, o martírio sempre será a suprema ordenança e perfeição do cristianismo. Essa grande ação foi iniciada para nós, realizada por nossa causa, exemplificada para a nossa imitação e inconcebivelmente comunicada a todos os crentes, por Cristo no Calvário. Lá, a morte atinge os limites do imaginável e talvez vá além; a vítima não é abandonada apenas por todos os apoios naturais, mas também pelo próprio Pai a quem o sacrifício é feito, e não há hesitação na rendição a Deus, apesar de Deus a ter “abandonado”.

>> Retirado de Um Ano com C. S. Lewis, Editora Ultimato.

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