Amor sem igual

domingo
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É inútil dizer que todas as pessoas têm o mesmo valor. Se tomarmos a palavra “valor” num sentido literal, se o que queremos dizer é que todas as pessoas são igualmente úteis, belas, boas ou divertidas, estaremos falando bobagens. Se isso significa que todos têm o mesmo valor como almas imortais, acho que esse pensamento encobre um erro perigoso. O valor indefinido de toda alma humana não é uma doutrina cristã. Deus não morreu pelo homem por causa de algum valor que ele tivesse notado nele. O valor de toda alma humana por si só, sem estar em relação com Deus, é igual a zero. Como Paulo escreve, morrer por homens valorosos não seria divino, mas meramente heróico; no entanto, Deus morreu por pecadores. Ele nos amou não porque fôssemos amáveis, mas porque ele é amor. Pode até ser que ele ame a todos igualmente (ele certamente amou a todos até a morte), mas não estou certo do que essa expressão quer dizer. Se existe alguma igualdade, ela está em seu amor e não em nós.

Igualdade é um termo quantitativo e, por isso, o amor muitas vezes não a conhece. A autoridade exercida com humildade e a obediência aceita com prazer são os caminhos que fazem nosso espírito viver. Mesmo na vida afetiva, e muito mais no corpo de Cristo, saímos do mundo que diz: “Sou tão bom quanto você”. É como mudar de uma marcha para uma dança. É como tirar a roupa. Como dizia Chesterton, quando nos curvamos, ficamos mais altos; e ficamos menores quando ensinamos. Fico contente em saber que em alguns momentos no culto na minha igreja o pastor ou bispo fica de pé e eu me ajoelho. À medida que a democracia se torna mais completa no mundo lá fora e as oportunidades para a reverência são sucessivamente removidas, os alívios, as purificações e as voltas revigorantes à desigualdade, que a igreja nos oferece, tornam-se cada vez mais necessárias. 

>> Retirado de Um Ano com C. S. Lewis, Editora Ultimato.

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