As exigências imaginárias da guerra e da religião

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Antes de me tornar cristão, acho que não me dava conta de que, depois da conversão, a vida consistiria basicamente em se continuar fazendo a maioria das coisas que se fazia antes — espera-se que com um novo espírito, mas, ainda, as mesmas coisas. Antes da minha partida para a última guerra, certamente esperava que a minha vida nas trincheiras fosse, de alguma forma misteriosa, apenas guerra. Na verdade, o que eu descobri foi que, quanto mais nos aproximávamos da linha de frente, menos falávamos e pensávamos na causa dos aliados e no progresso da campanha; e me deliciei com a descoberta de que Tolstoi, no maior livro já escrito sobre a guerra, faz o mesmo registro — e o mesmo acontece, à sua própria maneira, em Ilíada. Nem a conversão, nem o alistamento no exército jamais serão capazes de realmente destruir o lado humano da nossa vida. Os cristãos e os soldados ainda são humanos; a ideia que os infiéis têm de uma vida religiosa e que um civil tem do serviço no exército é fantasiosa. Se você tentasse suspender toda a sua atividade intelectual e estética em qualquer um dos casos, conseguiria apenas substituir uma vida cultural ruim por uma melhor. Você não deixará de ler, nem na igreja, nem na linha de frente; e, se não ler bons livros, lerá livros de péssima qualidade. Se você rejeitar o pensamento racional, acabará pensando irracionalmente. Se rejeitar a satisfação estética, acabará optando pela satisfação sensual.

Por isso é que existe essa analogia entre as afirmações da nossa religião e as afirmações da guerra: para a maioria de nós nenhuma delas será capaz de simplesmente anular ou apagar a vida humana que levávamos antes de entrar nelas.

>> Retirado de Um Ano com C. S. Lewis, Editora Ultimato.

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Um comentário para “As exigências imaginárias da guerra e da religião”

  1. Arnaldo agosto, 30 at 6:58 #

    Muito bom este texto,um olhar no qual não tinha visto, muito edificante

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