Por Dorothy L. Sayers[1]

(trad. William Campos da Cruz

E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo. Do pecado, porque não creem em mim; Da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais; E do juízo, porque já o príncipe deste mundo está julgado.

João 16:8-11

Para os cristãos, falar sobre a importância da moralidade cristã é pior do que inútil se não estiverem preparados para defender suas posições tomando como fundamento a teologia cristã. É uma mentira dizer que o dogma não tem importância; o dogma tem uma importância imensa. É fatal deixar as pessoas suporem que o cristianismo é só uma maneira de sentir; é uma necessidade vital insistir que [o cristianismo] é, em primeiro lugar e acima de tudo, uma explicação racional do universo. É inútil oferecer o cristianismo como uma aspiração vagamente idealista de tipo simples e consolador; ele é, pelo contrário, uma doutrina sólida, robusta, minuciosa e complexa, impregnada de um realismo enérgico e intransigente. E é fatal imaginar que todo mundo sabe muito bem o que o cristianismo é e que basta incentivar sua prática. O fato brutal é que neste país cristão nem uma pessoa em cem tem a menor noção do que a Igreja ensina acerca de Deus, ou do homem, ou da sociedade, ou da pessoa de Jesus Cristo.

Se você acha que estou exagerando, pergunte aos capelães do exército. Com exceção do possível um por cento de cristãos inteligentes e instruídos, há três tipos de pessoas com que temos de lidar. Há os que são franca e abertamente pagãos, cujas noções de cristianismo são um amontoado terrível de trapos e farrapos de histórias bíblicas e pura besteira mitológica. Há os cristãos ignorantes, que combinam o sentimentalismo de um Jesus pacífico e bonzinho com uma ética vagamente humanista – a maioria destes são hereges arianos.[2] Por fim, há os frequentadores de igrejas mais ou menos instruídos, que conhecem toda a discussão acerca do divórcio, da confissão auricular e da comunhão sob as duas espécies [o pão e o vinho], mas estão quase tão bem equipados para a batalha sobre os fundamentos contra um ateu marxista ou um agnóstico wellsiano quanto um garotinho com uma zarabatana que enfrenta alguém que porte uma metralhadora. Teologicamente, no momento, este país está num estado de caos absoluto, instituído em nome da tolerância religiosa, degenerando-se a passos largos na fuga da razão e na morte da esperança. Não estamos felizes nesta situação, e sobretudo entre os mais jovens há sinais de grande ânsia de encontrar um credo a que possam aderir de todo o coração.

Esta é a oportunidade da Igreja, se esta resolver aproveitá-la. Enquanto a disposição das pessoas para ouvir passa, ela não tem estado numa posição muito boa por pelo menos dois séculos. As filosofias rivais do humanismo, do egoísmo esclarecido e do progresso mecânico fracassaram redondamente; o antagonismo da ciência provou-se mais aparente que real; e a doutrina otimista do laissez-faire está totalmente desacreditada. No entanto, nenhum bem será feito pelo recolhimento à piedade pessoal ou pela mera exortação a um retorno à oração. O que está em perigo é toda a estrutura da sociedade, e é necessário persuadir homens e mulheres de pensamento da relação íntima e vital entre a estrutura da sociedade e as doutrinas teológicas do cristianismo.

A tarefa não é facilitada pela recusa obstinada de uma grande massa de cristãos nominais, tanto leigos como clérigos, de enfrentar a questão teológica. “Levem embora a teologia e deem-nos uma religião agradável” tem sido um slogan popular por tanto tempo que estamos propensos a aceitá-lo, sem questionar se religião sem teologia tem algum sentido. E, por mais impopular que me torne, devo afirmar, e o farei, que a razão por que as igrejas estão desacreditadas hoje não é que sejam intransigentes demais quanto à teologia, mas, antes, porque têm fugido da teologia. A Igreja Católica é uma sociedade teológica – num sentido em que a Igreja da Inglaterra, tomada como um todo, não o é – e, por causa dessa insistência da teologia, é um corpo disciplinado, honrado e sociologicamente importante.

Gostaria de fazer duas coisas. Primeiro, apontar que, se realmente queremos uma sociedade cristã, temos de ensinar o cristianismo, e é absolutamente impossível ensinar cristianismo sem ensinar o dogma cristão. Em segundo lugar, colocar diante de vocês uma lista de meia dúzia dos principais pontos doutrinários que o mundo precisa, de um modo todo especial, ter martelado em seus ouvidos neste momento – doutrinas esquecidas ou mal interpretadas mas que (se são tão verdadeiras quanto a Igreja sustenta) são as pedras angulares daquela estrutura racional da sociedade humana que é a alternativa ao mundo do caos.

Começarei com a questão da inevitabilidade do dogma, se o cristianismo há de ser mais do que um pensamento brando, trivial e autoiludido sobre o comportamento ético.

Escrevendo em The Spectator, o Dr. Selbie, ex-diretor do Mansfield College, discutia sobre “O Exército e as Igrejas”. No meio do artigo há uma passagem que expõe a causa fundamental do fracasso das igrejas em influenciar a vida das pessoas comuns:

[…] a ascensão de um novo dogmatismo – seja calvinista, seja tomista – constitui uma ameaça séria e renovada à unidade cristã. A tragédia é que tudo isso, embora de interesse dos teólogos, é extremamente irrelevante para a vida e para o pensamento do homem médio, que fica mais confuso pela desunião das igrejas e pelas diferenças teológicas e eclesiásticas nas quais se baseiam.

Estou agora inteiramente disposta a concordar que as disputas entre igrejas constituem uma ameaça à Cristandade. E admitirei não ter muita certeza do que se pretende dizer com “novo dogmatismo”; pode ser, suponho, o surgimento de novos dogmas entre os seguidores de Santo Tomás e de Calvino, respectivamente. Mas, antes, imagino que quer dizer uma atenção renovada ao velho dogma, uma reafirmação dele, e que quando diz que tudo isso é irrelevante para a vida e para o pensamento do homem médio, o Dr. Selbie está deliberadamente dizendo que o dogma cristão, como tal, é irrelevante.

Mas se o dogma cristão é irrelevante para vida, para que, pelo amor de Deus, ele é relevante? – uma vez que o dogma religioso não é senão uma declaração das doutrinas concernentes à natureza da vida e do universo. Se os ministros cristãos realmente creem que [o dogma] é apenas um jogo intelectual para teólogos e não tem nenhum apoio na vida humana, não é de surpreender que suas congregações estejam ignorantes, entediadas e confusas. E, na verdade, no parágrafo imediatamente seguinte, o Dr. Selbie reconhece a relação do dogma cristão com a vida:

[…] a paz só pode dar-se por meio da aplicação prática dos princípios e valores cristãos. Mas isso deve ter por trás algo mais do que a mera reação contra aquele humanismo pagão que tem sido insatisfatório.

O “algo mais” é o dogma, e não pode ser nenhuma outra coisa, pois entre humanismo e cristianismo e entre paganismo e teísmo não há distinção alguma senão uma distinção de dogma. Que não se pode ter princípios cristãos sem Cristo fica cada vez mais claro, porque sua validade como princípios depende da autoridade de Cristo; e, como vimos, os estados totalitários, tendo deixado de crer na autoridade de Cristo, estão logicamente justificados em repudiar os princípios cristãos. Se se exige do homem médio que creia no Cristo e aceite sua autoridade sobre os princípios cristãos, é decerto relevante perguntar quem ou o que é o Cristo, e por que Sua autoridade deve ser aceita. Mas a pergunta “O que pensamos de Cristo?” chega ao homem médio junto com o tipo mais espinhoso de mistério dogmático. É absolutamente inútil dizer que não interessa de modo particular quem ou que era o Cristo ou com que autoridade fez aquelas coisas, e que mesmo se fosse apenas um homem, era um homem muito bom e devemos viver segundo seus princípios; pois isso é meramente humanismo, e se o homem médio na Alemanha decide pensar que Hitler é um tipo de homem mais perfeito, com princípios ainda mais atraentes, o humanismo cristão não tem resposta a dar.

Não é verdade de maneira alguma que o dogma é extremamente irrelevante para a vida e para o pensamento do homem médio. A verdade é que ministros da religião cristã frequentemente declaram que ele o é, apresentam-no para exame como se o fosse e, de fato, por sua exposição falha, tornam-no assim. O dogma central da Encarnação é aquele pelo qual a relevância se sustenta ou rui. Se fosse apenas homem, Cristo seria irrelevante a qualquer pensamento sobre Deus; se fosse apenas Deus, então seria inteiramente irrelevante para qualquer experiência de vida humana. No sentido mais estrito, é necessário à salvação da relevância que um homem acredite corretamente na Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo. A menos que creia corretamente, não há o menor motivo para que creia de qualquer outra maneira. E, nesse caso, é inteiramente irrelevante tagarelar sobre princípios cristãos.

Se o homem médio vai interessar-se por Cristo de todo modo, é o dogma que fornecerá o interesse. O problema é que, em nove de dez casos, nunca lhe foi oferecido o dogma. O que lhe tem sido oferecido é um conjunto de termos técnicos teológicos que ninguém assumiu a tarefa de traduzir numa linguagem relevante para a vida comum.

“… Jesus Cristo, o Filho de Deus, é Deus e homem”. O que isso sugere senão que Deus, o Criador (o velho irritadiço de barba branca), de alguma maneira misteriosa gerou na Virgem Maria algo anfíbio, nem uma coisa nem outra, como um tritão? E, assim como os filhos humanos, inteiramente distinto e (com alguma vênia) provavelmente antagônico ao pai? E o que, em todo caso, esse híbrido notável tem que ver com o Zezinho ou com a Mariazinha? Essa atitude de espírito é o que os teólogos chamam de nestorianismo, ou talvez uma forma degradada de arianismo. Mas realmente não podemos dar um rótulo técnico e pô-lo de lado como algo irrelevante para o pensamento do homem médio. Foi o homem médio quem o produziu. É, na verdade, uma expressão imediata e simplória do pensamento do homem médio. E sob o risco de mergulhá-lo na abominável heresia do patripassianismo ou do teopasquismo, devemos unir-nos a Atanásio para assegurar a Zezinho e Mariazinha que o Deus que viveu e morreu no mundo era o mesmo Deus que fez o mundo e que, portanto, o próprio Deus tem as melhores razões possíveis para compreender e simpatizar-se com os problemas pessoais de quem quer que seja.

“Mas”, Zezinho e Mariazinha logo objetarão, “para ele não importava muito se era Deus. Um deus não pode sofrer realmente como você e eu. Ademais, o ministro diz que devemos tentar ser como Cristo; mas isso é uma insensatez – não podemos ser Deus e é tolice pedir-nos que tentemos”. Essa hábil exposição da heresia eutiquiana mal pode ser descartada como meramente “interessante para teólogos”; parece interessante a Zezinho e Mariazinha ao ponto de irritá-los. A contragosto, somos forçados a envolver-nos ainda mais em teologia dogmática e insistir em que Cristo é Deus perfeito e homem perfeito.

Neste ponto, a linguagem pode trair-nos. O homem médio não deve ser impedido de pensar que “Deus perfeito” implica uma comparação com deuses menos perfeitos, e que “homem perfeito” significa “o melhor tipo de homem que se pode ter”. Embora ambas as proposições sejam absolutamente verdadeiras, não são exatamente o que queremos transmitir. Talvez seja melhor dizer, “inteiramente Deus e inteiramente homem” – Deus e homem ao mesmo tempo, em cada aspecto particular e também no todo; Deus de eternidade a eternidade e do ventre ao sepulcro e também homem, do ventre ao sepulcro e agora.

“Tudo muito bem”, responde Zezinho, “mas isso me é indiferente. Porque, se ele era Deus todo o tempo, deve ter tomado conhecimento de que seu sofrimento, morte, etc., não durariam, e ele podia tê-los interrompido por milagre, se quisesse, de maneira que sua pretensão de ser um homem comum não é outra coisa se não puro teatro”. E Mariazinha acrescenta: “Você não pode chamar uma pessoa de ‘inteiramente homem’ se ele era Deus e não quis fazer nada errado. Era fácil para ele ser bom, mas para mim não é, de jeito nenhum. E quanto a todas as tentações? Encenação de novo. Não me ajuda viver o que você chama de vida cristã”.

Zezinho e Mariazinha estão agora no caminho de tornarem-se apolinarianos convictos, um fato que, embora interessante aos teólogos, tem relevância distinta também para a vida do homem médio, uma vez que propõem, com base nele, descartar os princípios cristãos como impraticáveis. Não há ajuda possível. Temos de insistir em que Cristo tinha uma alma racional bem como carne humana; temos de admitir as limitações humanas do conhecimento e do intelecto; temos de aceitar uma pista do próprio Cristo e sugerir que os milagres pertencem ao Filho do Homem bem como ao Filho de Deus; temos de postular uma vontade humana sujeita à tentação; e temos de ser muito firmes quanto a “igual ao Pai no tocante a sua divindade e inferior ao Pai no tocante a sua humanidade”. Complicada como a teologia é, o homem médio tem caminhado direto ao coração do credo atanasiano, e somos obrigados a seguir.

Professores e pregadores nunca, eu acho, deixam claro o suficiente que dogmas não são um conjunto arbitrário de regras inventadas a priori por um comitê de teólogos deleitando-se numa luta livre dialética. A maioria deles foram forjados sob a pressão da necessidade prática urgente de oferecer uma resposta à heresia. E heresia é, em grande medida, como tenho tentado mostrar, a expressão da opinião do homem médio não instruído, tentando enfrentar os problemas do universo a partir do ponto em que começam a interferir na vida e no pensamento cotidianos. Para mim, comprometida com minha ocupação diabólica de seguir o vai e vem do mundo e caminhar para cima e para baixo nele, conversas e correspondências trazem diariamente um recorte magnífico de todas as heresias padrão. Estou muito bem familiarizada com elas como exemplos práticos da vida e do pensamento do homem médio, embora tenha de pesquisar numa enciclopédia para enquadrá-las nos rótulos teológicos adequados para os fins deste discurso. Para respondê-las, no entanto, não preciso ir tão longe; estão concisamente apresentadas nos credos.

Mas um fato interessante é o seguinte: que nove entre dez dos meus hereges ficam surpresíssimos em descobrir que os credos contêm declarações dotadas de um sentido prático e compreensível. Se lhes digo que é um artigo de fé que o mesmo Deus que fez o mundo suportou o sofrimento do mundo, perguntam na mais perfeita boa fé que relação há entre aquela declaração e a história de Jesus. Se chamo-lhes a atenção ao dogma de que o mesmo Jesus que era o amor divino era também luz de luz, a sabedoria divina, surpreendem-se. Alguns deles me agradecem sinceramente por essa interpretação de todo nova e original das Escrituras, da qual nunca ouviram antes e supõem que eu a inventei. Outros dizem com irritação que não gostam de pensar que sabedoria e religião têm algo que ver uma com a outra, e que eu faria muito melhor em romper com a sabedoria, com a razão e com a inteligência e apegar-me a um simples evangelho de amor. Mas, satisfeitos ou incomodados, estão interessados; e o que lhes interessa, quer suponham ser invenção minha quer não, é a resoluta afirmação do dogma.

Quanto à queixa do Dr. Selbie de que a insistência no dogma somente afronta as pessoas e evidencia as lutas mortais da Cristandade, posso dizer duas coisas? Primeiro, creio ser um equívoco grave apresentar o cristianismo como algo atraente e popular sem nada ofensivo. Vendo que o Cristo veio ao mundo trazer a mais violenta ofensa a todos os tipos de pessoas, pareceria absurdo esperar que a doutrina de sua pessoa pudesse ser apresentada sem ofender ninguém. Não podemos ignorar o fato de que o Jesus gentil, meigo e manso, era tão rígido em suas opiniões e tão inflamado em sua linguagem que foi expulso da igreja, apedrejado, caçado por toda parte e, enfim, levado ao madeiro como um agitador ou uma ameaça pública. O que quer que fosse sua paz, não era a paz de uma indiferença cordial; e ele disse em muitas palavras que o que ele trouxe consigo foi fogo e espada. Sendo assim, ninguém precisa ficar muito surpreso ou desconcertado ao constatar que determinada pregação do dogma cristão pode às vezes resultar numas poucas cartas irritadas de protesto ou numa diferença de opinião sobre o concílio eclesiástico.

A outra coisa é: percebo pela experiência que há uma medida muito grande de concórdia entre as denominações cristãs sobre todas as doutrinas que são realmente ecumênicas. Uma interpretação rigidamente católica dos credos, por exemplo – incluindo o credo atanasiano – encontrará apoio tanto em Roma quanto em Genebra. As objeções virão principalmente dos pagãos, e de um ramo ruidoso mas não muito representativo de pastores heréticos que uma vez em sua juventude leram Robertson ou Conybeare e nunca se recuperaram. Mas o que é urgentemente necessário é que certos fundamentos sejam reafirmados em termos que tornem seu sentido – e aliás o mero fato de que eles têm um sentido – importante para os pagãos não instruídos e comum para aqueles a quem a linguagem técnica teológica tornou-se letra morta.

 

Extraído do ensaio intitulado Creed or Chaos?, publicado no livro Letters to a Diminished Church (2004).

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[1] Dorothy L. Sayers (1893–1957) foi uma escritora de romances policiais, poetisa, dramaturga, ensaísta, tradutora e humanista cristã. Sua obra A Mente do Criador foi recentemente publicada no Brasil pela É Realizações Editora.

[2] Ou possivelmente adocionistas; eles não formulam suas teorias com grande precisão. [A autora menciona outras heresias cristológicas dos primórdios da era cristã. Como ficará claro, a datação e a definição precisas são desnecessárias para os fins deste texto, por isso não me dei o trabalho de inserir notas explicativas. (N. T.)]

 

Fonte: http://esbocoserascunhos.blogspot.com.br/2016/06/credo-ou-caos.html

Obs: O texto a seguir, é a adaptação resumida de um projeto em andamento, previsto para ser publicado no final do primeiro semestre de 2017.

por Maurício Avoletta Júnior

“Conta-se aqui uma aventura que começou na Calormânia e foi acabar em Nárnia, na Idade do Ouro, quando Pedro era o Grande Rei de Nárnia e seu irmão também era rei, e rainhas suas irmãs.” Assim, se inicia, O Cavalo e seu Menino, que pessoalmente, considero o melhor dos sete livros da série do célebre escritor, C. S. Lewis, As Crônicas de Nárnia. Nárnia, como já é de conhecimento de muitos, é uma série de histórias que contém alegorias da vida cristã. Embora, conforme a história foi crescendo, graças a influência de seu amigo J. R. R. Tolkien, podemos dizer que essas alegorias foram amadurecendo. Não que Lewis fosse imaturo para escrever tais histórias, mas apenas que em nível de profundidade, as histórias foram crescendo.

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Aqui, pretendo analisar alguns trechos de O Cavalo e seu Menino, terceiro livro em ordem cronológica de As Crônicas de Nárnia, mas o quinto a ser lançado em 1954, com o fim de explicitar a doutrina da Providência Divina na obra. Providência Divina, resumidamente, seria a atuação de Deus na história, com o fim de fazer com que ela siga o rumo que Ele quer. Como disse Santo Agostinho em, O Livre-Arbítrio: “(…) é a Providência que dirige o Universo.” [1]

Por providência entendemos a ação contínua de Deus pela qual ele preserva a existência da criação que ele fez surgir e a dirige para os propósitos que designou para ela. [2]

Em seu livro, Confissões, Santo Agostinho deixa claro a Providência de Deus agindo durante diversos acontecimentos de sua vida, onde ele diz estar sendo dirigido pelo que ele chama apenas de Providência. Tolkien, em algumas de suas cartas, chega até mesmo a atribuir a Providência como uma personagem implícita em suas obras, principalmente em O Hobbit e na trilogia O Senhor dos Anéis. Lewis, assim como Tolkien, era abertamente um leitor de Santo Agostinho e nitidamente influenciado por seu pensamento, traz essa ideia de providência para O Cavalo e seu Menino.

– Não acho que você seja um desgraçado – disse a grande voz.

– Mas não foi falta de sorte ter encontrado tantos leões?

– Só há um leão – respondeu a voz.

– Não estou entendendo nada. Havia pelo menos dois naquela noite…

– Só há um leão, mas tem o pé ligeiro.

– Como sabe disso?

– Eu sou o leão. [3]

Neste trecho, Shasta está falando com algo grande que ele ainda não soube identificar o que é. Depois de uma curta conversa, Shasta conta suas aventuras para esse “algo”, e diz o quão ele se acha um desgraçado depois de tudo o que aconteceu com ele até aquele momento. Aquilo que gerou tanto desconforto e até um certo sofrimento em Shasta, estava diante dele, se apresentando, como o próprio Lewis descreve mais a frente, como algo “belo e ao mesmo tempo terrível”, semelhante a ideia do Numinoso de Rudolf Otto, o Mysterium Tremendum et Fascinans.

É interessante vermos esse diálogo da Providência Divina, com aquilo que podemos chamar de mal pedagógico, ou seja, o ato de Deus causar alguma espécie de sofrimento em seus filhos, para que estes fiquem da forma como Ele quer, assim como vemos em Hebreus 12:6, 7. Em seu livro, O Problema do Sofrimento, Lewis desenvolve um pouco essa ideia, chegando a afirmar que Deus pode causar sofrimento nos homens, com o fim de estes ficarem inteiramente amáveis [4], ou, como ilustra em seu livro, Os Quatro Amores: “(…) a Igreja não tem beleza alguma exceto a que o Esposo lhe confere: ele não a percebe amável, mas a torna amável.” [5] Dessa forma, ressaltando a ideia de que aquele que ama, no caso Deus, pode e fará “mudanças”, para que o objeto de seu amor se torne completamente amável. Chesterton, por fim, acrescenta o seguinte:

Há a grande lição de “A Bela e a Fera”, dizendo que uma criatura precisa ser amada antes de ser amável. [6]

Durante O Cavalo e seu Menino, vemos que Shasta vai evoluindo após cada dificuldade enfrentada. Vemos ele no começo da história, apenas um garotinho assutado, aos poucos se tornar uma personagem corajosa, como por exemplo, após passar uma noite na casa dos mortos com um gato, sendo assustado por chacais, ou então, quando ele vai correndo até o Rei Luna. Estes acontecimentos, por si só, já renderiam uma boa análise da jornada do herói, mas analisando com as lentes da Teologia Cristã, podemos perceber a Doutrina da Providência saltando aos nossos olhos.

– Fui eu o leão que o forçou a encontrar-se com Aravis. Fui eu o gato que o consolou na casa dos mortos. Fui eu o leão que espantou os chacais para que você dormisse. Fui eu o leão que assustou os cavalos a fim de que chegassem a tempo de avisar o rei Luna. E fui eu o leão que empurrou para a praia a canoa em que você dormia, uma criança quase morta, para que um homem, acordado à meia-noite o acolhesse. [7]

Shasta está cercado por todas as partes pelo grande Leão que estava cuidando dele mesmo nas horasaravis mais difíceis. E nos momentos em que ele achava que tudo estava mal, era por que na verdade, sua jornada ainda não havia chegado ao fim, pois, para usar do pensamento um pouco das ideias de Tolkien, Shasta ainda estava passando pela sua Catástrofe, portanto, ele estava caminhando para Eucatástrofe, seu final feliz. Shasta, assim como muitos de nós, estava olhando apenas uma parte do quadro e dizendo ser um pintura horrível, ao invés de esperar o artista terminar sua obra. Em seu livro, O Homem Eterno, Chesterton diz a mesma coisa, embora em outro contexto, mas ilustrando perfeitamente o que quero dizer:

Como todos os livros que nunca escrevi, [este] é de longe o melhor livro que jamais escrevi. […] Fala de um garoto cuja fazenda ou chalé ficava em uma dessas encostas e que encetou suas viagens para descobrir alguma coisa algo como a efígie e o túmulo de algum gigante; e, quando ele já estava muito longe de casa, olhava para trás e via que sua própria fazenda e horta, luzindo achatadas na encosta como as cores e cantões de um escudo, não eram senão partes de uma figura gigantesca sobre a qual ele sempre vivera, mas que era grande demais e estava próxima demais para ser vista. [8]

A Providência se assemelha a paisagem que este garoto viu, pois não à perceberemos logo de início, é necessário tempo para entendermos as situações e podermos ver a Providência Divina atuando. Da mesma forma, só percebemos a Providência em O Hobbit e em O Senhor dos Anéis quando terminamos a história e olhamos para trás e percebemos que se a Providência não tivesse feito Bilbo sentir piedade de Gollum em O Hobbit ao invés de matá-lo, e se Frodo não tivesse igualmente tido compaixão de Gollum e protegido-o, Gollum não teria destruído o Um Anel, e  Terra-média não teria o final que conhecemos. Assim também, Shasta apenas entendeu a ação de Aslan em sua história, no momento em que Aslan se apresentou a ele e o mostrou a história novamente, só que dessa vez por uma outra perspectiva.

Preservação é Deus mantendo a existência de sua criação. Isso envolve a proteção de sua criação, evitando danos e destruição, e sua provisão para as necessidades dos elementos ou dos membros da criação. [9]

Lewis, novamente em seu livro, O Problema do Sofrimento, nos mostra que a moral de Deus é diferente da nossa em alguns aspectos, mas não totalmente diferente como o preto é diferente do branco, mas, como o próprio autor disse, diferente assim como o círculo desenhado por uma criança é diferente de um círculo perfeito [10].  E acredito que a Providência Divina, muitas vezes se da nessas situações, onde a nossa moral difere da de Deus.

Shasta, depois de se deparar com o Grande Leão que criou Nárnia e descobrir que, assim como Santo Agostinho, ele foi sustentado pela Providência Divina desde que nasceu, ele poderia facilmente declarar assim como Santo Agostinho: “Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora.” [11]. Talvez, seja por isso que Lewis tenha escrito O Cavalo e seu Menino, como a única história das Crônicas de Nárnia que não tem a travessia do nosso mundo para Nárnia. Shasta não precisava passar do nosso mundo para o outro, como fizeram os irmãos Pevensie, para se descobrir parte de Nárnia, porque ele já nasceu um Narniano.

Desde as primeiras palavras dessa história, já nos deparamos com a providência atuando sutilmente, mas, como já disse, só fará sentido quando chegarmos no final da jornada e olharmos a história novamente.

Conta-se aqui uma aventura que começou na Calormânia e foi acabar em Nárnia [12]

Referências:

[1] AGOSTINHO. O Livre-Arbítrio. São Paulo. Ed. Paulus.1995. p. 25.

[2] ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo. Ed. Vida Nova. 2012. p. 169.

[3] LEWIS, C. S. As Crônicas de Nárnia. São Paulo. Ed. WMF Martins Fontes. 2011. p. 262.

[4] “[…] o amor pode causar sofrimento ao objeto desse amor, mas apenas na suposição de que ele deve sofrer alterações para tornar-se inteiramente amável.” ______. O Problema do Sofrimento. São Paulo. Ed. Vida. 2013. p. 65.

[5] ______. Os Quatro Amores. São Paulo. Ed. WMF Martins Fontes. 2013. p. 146.

[6] CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo. Ed. Mundo Cristão. 2008. p. 83.

[7] LEWIS, C. S. As Crônicas de Nárnia. São Paulo. Ed. WMF Martins Fontes. 2011. p. 262.

[8] CHESTERTON, G. K. O Homem Eterno. São Paulo. Ed. Ecclesiae. 2014. p. 9.

[9] ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo. Ed. Vida Nova. 2012. p. 170.

[10] “A ‘bondade divina’ difere da nossa, mas não é absolutamente diversa: ela difere da nossa não como o branco do preto, mas como o círculo perfeito se distingue da primeira tentativa de uma criança em desenhar uma roda: quando a criança aprender a desenhar, ela saberá que o círculo que agora consegue fazer é justamente aquele que estava tentando fazer desde o começo.” LEWIS, C. S. O Problema do Sofrimento. São Paulo. Ed. Vida. 2013. p. 47.

[11] AGOSTINHO. Confissões. São Paulo. Ed. Paulus. 2013. p. 299.

[12] LEWIS, C. S. As Crônicas de Nárnia. São Paulo. Ed. WMF Martins Fontes. 2011. p. 193.

Fonte:  https://becounderground.wordpress.com/2016/05/18/sobre-a-providencia-divina-em-o-cavalo-e-seu-menino/

Por Maurício Avolleta Jr.
Obs.: O texto a seguir é um resumo de um projeto em andamento previsto para ser publicado no início de 2017, portanto, não se aprofundara tanto nos assuntos propostos, assim como algumas perguntas que serão levantadas neste texto, serão respondidas e aprofundadas apenas no trabalho final.

Neste texto, buscaremos levantar algumas perguntas e diálogos em cima do Imaginarium do Professor Tolkien relacionados ao problema do mal, pois assim como o Professor Carlos Caldas, entendemos que, O Silmarillion, é uma Teodiceia, ou seja, uma explicação para o problema do mal [1].Dito isso, podemos observar semelhanças entre a criação de , que o próprio Tolkien se referiu como sendo o mito de sua sub-criação [2], e a criação do mundo, narrada nos primeiros capítulos do Gênesis.

O-Silmarillion

Havia Eru, o Único, que em Arda é chamado de Ilúvatar. Ele criou primeiro os Ainur, os Sagrados, Gerados por seu pensamento, e eles lhe faziam companhia antes que tudo o mais fosse criado. E ele lhes falou, propondo-lhes temas musicais; e eles cantaram em sua presença, e ele se alegrou. [3]

Assim como na narrativa Bíblica, o mito de Tolkien nos apresenta apenas um deus soberano e que ele se encontra fora do tempo, em outros trechos, podemos encontrar outros atributos semelhantes ao Deus Bíblico como ser pré-existente, criador e criativo, não se revelava por completo, é soberano sobre sua criação, se revela parcialmente através das coisas criadas e mais alguns outros. Podemos também identificar os Ainur como correspondentes aos anjos da mitologia cristã. Outro ponto interessante para prestarmos atenção, é que toda a criação é gerada a partir de temas sugeridos pelo próprio Ilúvatar, nos remetendo a ideia da Teologia Paulina que diz que tudo nEle subsiste (Cl 1:17).

O Professor e Teólogo Carlos Caldas, cita que a ideia da música ser divina está presente em uma antiga tradição rabínica, o que torna plausível a influência não só da tradição rabínica e judaica, como da tradição cristã sobre a sub-criação de Tolkien.

Parece que Tolkien e Lewis encontram inspiração para esse ponto (a criação do mundo pela música) não em mitologias nórdicas ou celtas, mas em uma antiga tradição rabínica, que diz ser a música uma linguagem divina. Ainda que nenhuma tradição rabínica afirme explicitamente que Deus criou o mundo pela música, é razoável inferir que a fala de Deus se expressou com musicalidade. Com criatividade, Tolkien combina um pano de fundo escandinavo com uma antiga tradição da sabedoria judaica. Essa mescla, assaz curiosa, é um louvor ao Criados. [4]

Voltando para O Silmarillion, vemos que Tolkien descreve um Ainur que se rebela contra Ilúvatar, pois desejava possuir a chama imperecível, que dava a quem a possuía, a possibilidade de trazer seus pensamentos a realidade. Melkor se rebela contra Ilúvatar por um desejo de ser igual a deus, semelhante ao que ensina a Tradição Cristã a respeito da queda de Satanás.

Tolkien diz o seguinte em, O Silmarillion:

Enquanto o tema se desenvolvia, no entanto, surgiu no coração de Melkor o impulso de entremear motivos da sua própria imaginação que não estavam em harmonia com o tema de Ilúvatar; com isso procurava aumentar o poder e a glória do papel a ele designado. [5]

Aqui podemos perceber, que além de um aparente diálogo com a Tradição Cristã quando a queda de Satanás, encontramos também a ideia do mal como corrupção de algo primariamente bom, no caso, Melkor, um Ainur que por desejar a chama imperecível para assim ser como Ilúvatar, corrompeu-se e se tornou um ser mal.

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A ideia do mal como corrupção é presente na Teologia e na Filosofia de C. S. Lewis, que partilhou de uma longa amizade com Tolkien e que explicitamente se influenciaram mutuamente na criação de suas estórias. Em seu livro, Cristianismo Puro e Simples, Lewis elabora sua ideia a respeito da existência do mal. Lewis entendia que o mal não era algo em si, mas uma consequência de um agente moralmente livre. Para Lewis, o mal era a corrupção gerada pela escolha errada de alguma criatura.

Para ser mau, ele tem de querer algo de bom e buscá-lo de forma errada: tem de ter impulsos originariamente bons para depois pervertê-los. Mas, se é mau, não pode fornecer a si mesmo nem as coisas boas e desejáveis nem os bons impulsos passíveis de perversão. [6]

Lewis, ainda acrescenta que:

Para que seja mau, esse poder tem de existir e ter inteligência e vontade. Ora, a existência, a inteligência e a vontade são, em si mesmas, coisas boas. […] o Mal é um parasita, não um ente original. [7]

Contudo, não foi Lewis quem primeiro concebeu a ideia do mal como corrupção, na verdade, essa ideia nasce com Santo Agostinho. Em suas confissões, como resposta a seita Maniqueísta da qual fez parte durante sua juventude, Santo Agostinho chega a seguinte conclusão a respeito do que seria o mal:

Vi claramente que as coisas corruptíveis são boas. Não se poderiam corromper se fossem sumamente boas, ou se não fossem boas. Se fossem absolutamente boas, não seriam corruptíveis. E se não fossem boas nada haveria a corromper. A corrupção de fato é um mal, porém, não seria nociva se não diminuísse um bem real. Portanto, ou a corrupção não é um mal, o que é impossível, ou – e isto é certo – tudo que se corrompe sofre diminuição de bem. [8]sant_agostino_di_canterbury

Frente a isso, voltamos para O Silmarillion, onde podemos observar um eco da Teologia de Lewis e Agostinho quanto o mal na Sub-criação de Tolkien. Tolkien narra o seguinte:

Alguns desses pensamentos ele agora entrelaçava em sua música e logo a dissonância surgiu ao seu redor. Muitos dos que cantavam próximo perderam o ânimo, seu pensamento foi perturbado e sua música hesitou; mas alguns começaram a afinar sua música à de Melkor, em vez de manter a fidelidade ao pensamento que haviam tido no início. [9]

Vemos nesse trecho da narrativa, os aspectos levantados por Lewis e Santo Agostinho a respeito do mal como corrupção, principalmente no momento onde a canção de Melkor destoa da canção original de Ilúvatar e corrompe os outros Ainur que estavam ao seu redor, mostrando que realmente existe um diálogo de ideias. Em uma de suas cartas, Tolkien explicita a ideia da corrupção em seu Imagiarium.

Sauron, é claro, não era “mau” em origem. Foi um “espírito” corrompido pelo Primeiro Senhor do Escuro (o Primeiro Rebelde subcriativo), Morgoth. [10]

Facilmente podemos notar a ideia agostiniana de mal como corrupção na obra de Tolkien, no entanto, alguns problemas a mais podem ser são levantados. Agostinho, como já observado, não atribuía ao mal uma forma física, mas aparentemente, Tolkien parece atribuir a Melkor a figura do mal, ou seja, seria Melkor o mal físico?

Em O Silmarillion, observa-se o seguinte:

Cresceu-lhe então muito mais a inveja; e ele também assumiu forma visível; mas, em virtude de seu ânimo e do rancor que nele ardia, essa forma era escura e terrível. E ele desceu sobre Arda com poder e majestade maiores do que os de qualquer outro Valar, como uma montanha que avançava sobre o mar e tem seu topo acima das nuvens, que é revestida de gelo e coroada de fumaça e fogo; e a luz dos olhos de Melkor era como uma chama que faz murchar com seu calor e perfura com uma frio mortal. [11]

Um pouco mais adiante, o autor escreve o seguinte:

Diz-se, porém, entre os eldar que os Valar sempre se esforçaram, apesar de Melkor, para governar a Terra e prepará-la para a chegada dos Primogênitos: e eles criaram terras, e Melkor as destruía; sulcavam vales, e Melkor os erguia; esculpiam montanhas, e Melkor as derrubava; abriam cavidades para os mares, e Melkor os fazia transbordar; e nada tinha paz ou se desenvolvia, pois mal os Valar começavam algum trabalho, Melkor o desfazia ou corrompia. [12]

Nestes trechos, nota-se uma diferença com a Teologia agostiniana e o que ainda não sabemos se é o pensamento de Tolkien, ou apenas parte da Teologia de sua Sub-criação. Percebemos que Melkor foi criado como todos os Ainur, mas que assim como entendia Santo Agostinho, por não ser totalmente bom, tinha a possibilidade, através do livre-arbítrio, de se corromper com desejos ruins, e foi o que aconteceu com Melkor, a ponto de o mesmo, como observado nos trechos acima, ter sua aparência alterada devido a estes desejos ruins e corruptíveis. Vemos também que o autor passa a atribuir a Melkor o ato de corromper: Contudo, devemos nos lembrar que antes de ele tomar uma “forma má” e passar a ser o agente de corrupção, ele foi antes corrompido, mas pelo fato de não nos ser informado em nenhuma parte d’O Silmarillion e nem em qualquer outra obra de Tolkien de um “mal pré-Melkor”, ficamos com as seguintes perguntas: seria Melkor realmente uma forma física do mal? Se sim, essa ideia de um mal com forma física seria parte da teologia de Tolkien ou apenas parte de sua Sub-criação?

Outro problema nos é apresentado em O Silmarillion, causando-nos algumas dúvidas semelhantes as que acabei de apresentar. Tolkien diz o seguinte:

Já os filhos dos homens morrem de verdade e deixam o mundo; motivo pelo qual são chamados Hóspedes ou Forasteiros. A morte é seu destino, o dom de Ilúvatar, que, com o passar do tempo, até os Poderes hão de invejar. Melkor, porém, lançou sua sombra sobre esse dom, confundindo-o com as trevas; e fez surgir o mal do bem; e o medo, da esperança. [14]

Estaria Tolkien nos dizendo que existia uma “morte pré-queda? Vemos nesse trecho que a morte, ao invés de ser um fruto de uma queda, como acredita a Tradição Cristã, seria na verdade um dom corrompido, mas tudo isso na Teologia interna da sub-criação de Tolkien. Contudo, em um nota feita em uma de suas cartas, Tolkien faz algumas considerações interessantes sobre isso:

Visto que a “mortalidade” é assim representada como uma dádiva especial de Deus [15] à segunda Raça dos Filhos (os Eruhíni, os Filhos do Deus Único) e não como uma punição por uma Queda, o senhor pode chamar isso de “má teologia”. Talvez o seja, no mundo primário, mas é uma imaginação capaz de elucidar a verdade, e uma base legítima de lendas. [16]

Tolkien confirma que essa ideia é realmente presente em sua obra e o mesmo se refere a ela como uma má teologia no mundo primário, mas perfeitamente possível em sua Sub-criação por se tratar apenas de um mundo que reflete a realidade, mas que não é a realidade em si. Como dizia Tolkien em alguns ensaios e cartas, esse mundo contém apenas a essência da verdade mas não o verdadeiro. Mas o que levanta hipóteses de isto ser parte da Teologia pessoal de Tolkien são as últimas linhas: “Talvez o seja, no mundo primário, mas é uma imaginação capaz de elucidar a verdade, e uma base legítima de lendas.”

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Em seu ensaio, Sobre Contos de Fadas, Tolkien elabora a ideia de Faërie, o mundo encantado das fadas, onde as coisas lá existentes são reflexos da realidade, embora como já dissemos, não é a realidade em si, e portanto, não são necessariamente mentiras, mas “verdades em potencial”.

A história muitas vezes se parece com o “Mito”, porque ambos, em última análise, compõem-se da mesma matéria. Se de fato Ingeld e Freawaru jamais viveram, ou pelo menos jamais amaram, então em última análise eles obtêm sua história de um homem e uma mulher anônimos, ou melhor, entraram na história deles. [17]

Michael White, em sua biografia de Tolkien, acrescenta o seguinte sobre a teoria de Tolkien sobre histórias de fadas: “Mitos, (…) com certeza não são mentiras. Mitos derivam de um núcleo verdadeiro e carregam consigo um significado cultural muito específico” [18]. Ou seja, se um conto de fadas reflete uma verdade, logo certos pontos dessa Sub-criação são, se levarmos em conta a teoria de Tolkien, verdade. Sendo assim, afirmar que a ideia de uma morte pré-queda e de que a morte haveria tido seu entendimento corrompido com a queda e se tornado algo ruim é razoável não só na Teologia do mundo Sub-criativo de Tolkien, como provavelmente também faz parte de sua Teologia pessoal, assim como parte da teodiceia aqui encontrada, justamente por dialogar com o “mundo primário”, assim como Tolkien pressupõe que um mito deve fazer.

Por fim, gostaria de deixar claro que isso não é a palavra final dizendo: “Foi isso que Tolkien quis passar SIM!” ou “Essa é sim a ‘Teologia Tolkieniana’”. Como já afirmei no início, isso é apenas parte de uma pesquisa maior que está em andamento. A real intenção desse breve artigo foi apenas incentivar amantes de Tolkien e de fantasia em geral, a ler com um olhar mais crítico e atencioso para perceber que a Literatura tem muito para nos ensinar.

Referências e notas:

[1] CALDAS, Carlos. Religião e Literatura – Reflexões sobre O Silmarillion. São Paulo. Ed. Mackenzie. 2003. p. 151.

[2] TOLKIEN, J. R. R. As Cartas de J. R. R. Tolkien. Curitiba. Arte e Letra Editora. 2006. p. 242.

[3] ______. O Silmarillion. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 3.

[4] CALDAS, Carlos. Religião e Literatura – Reflexões sobre O Silmarillion. São Paulo. Ed. Mackenzie. 2003. p. 142

[5] TOLKIEN, J. R. R.. O Silmarillion. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 4.

[6] LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2014. p. 59.

[7] ______. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2014. p. 60.

[8] SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo. Ed. Paulus. 2013. p. 191.

[9] TOLKIEN, J. R. R.. O Silmarillion. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 4-5.

[10] TOLKIEN, J. R. R. As Cartas de J. R. R. Tolkien. Curitiba. Arte e Letra Editora. 2006. p. 183.

[11] TOLKIEN, J. R. R.. O Silmarillion. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 12.

[12] ______. O Silmarillion. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 12.

[13] Idem.

[14] Ibdem, p. 37.

[15] Em suas cartas, Tolkien se refere a Erú Ilúvatar, o deus soberano de sua Sub-criação apenas como Deus, as vezes também como LORD, Lord, ou até mesmo “Ele”.

[16] TOLKIEN, J. R. R. As Cartas de J. R. R. Tolkien. Curitiba. Arte e Letra Editora. 2006. p. 182.

[17] TOLKIEN, J. R. R. Árvore e Folha. São Paulo. WMF Martins Fontes. 2014. p. 29.

[18] WHITE, Michael. J. R. R. Tolkien; o senhor da fantasia. Rio de Janeiro. Darkside. 2013. p. 131.

Fonte: https://becounderground.wordpress.com/2016/06/02/sobre-tolkien-e-a-teodiceia-de-o-silmarillion/

por Maurício Avolleta Jr.

E no início nada havia a não ser Deus. Mas foi quando Deus falou, que tudo através do verbo foi feito. A luz foi feita, os mares, as montanhas, as árvores, a grama, as flores, os animais, as cores, a arte, os sons, o homem. Um Deus criador. Um Deus que criou tudo e todos exatamente como Ele quis. Sem mais, nem menos.

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”Creio no Deus pai, todo poderoso. Criador do céu e da terra.”, é assim que se inícia o famoso Credo dos Apóstolos, o documento básico da doutrina da Igreja Cristã. Acredito eu, que não é por acaso que o credo se inicie afirmando que Deus é todo poderoso e que Ele é o criador de tudo. Assim como não creio que é por acaso que o Gênesis também se inicie assim, tomando por início o próprio início. A primeira coisa que nos é revelada nas Escrituras é um Deus, criador do céu e da terra. Um Deus criador, que atravéz dEle mesmo, criou todas as coisas. Por meio dEle, o nada se tornou tudo. Por meio daquele que atravéz do Verbo disse ”Luz” e a luz passou a existir, todas as coisas tomaram forma, exatamente como Ele perfeitamente planejou.

Certa vez, disse aqui no blog, que a Bíblia antes de mais nada conta a minha história. Ela se preocupa em falar da minha criação, até a minha queda. Logo em seguida, ela fala sobre a minha redenção e depois do meu final feliz. Ao ler a Bíblia, percebi que eu participo do maior conto de fadas que já existiu, pois é o único que foi verdadeiro do início ao fim.

Já ouvi muitas vezes dizerem que certa pessoa criou algo. E adimito que ri todas as vezes que ouvi isso. A criação criando algo? Sinceramente, acho engraçado a nossa prepotência de dizer que somos os criadores de alguma coisa. Somos criaturas feitas do único que verdadeiramente é criador. Se tudo veio de Deus, o que vem de nós ainda vem dEle primeiramente e não de nós. Somos espelhos, só refletimos. Refletimos de angulos diferentes a criação de Deus, não criamos.

O coração do homem não é feito de fantasia,
Ele antes acessa do único Sábio alguma sabedoria,
E dele ainda se lembra. Mesmo que agora distante.
Nem totalmente perdido, nem totalmente mutante.
Des-graçado, sim, porém nunca destronado
O retalho da nobreza que possuiu mantém guardado
Homem subcriador, luz refratada;
Tantos tons, a combinarem-se infinitamente
De formas vivas a passar de mente em mente.

J. R. R. Tolkien – Mythopoeia

Aquele que É, de eternidade a eternidade, esvaziou-se para criar a maior obra de arte de todas. A obra prima, a master piece. A maior expressão de arte de todos os tempos, veio do único capaz de criar algo. O único que criou a partir dEle mesmo. Nós não criamos, somos partes da criação. Somos criativos, subcriadores, somos espelhos. Vemos como espelhos e criamos atravéz de espelhos. Vemos parcialmente, e criamos a partir daquilo que já é.

Nós não inventamos as fadas, elas surgiram quando tentamos explicar os anjos. Nós não inventamos os deuses, eles surgiram quando tentamos explicar Deus. Nós não inventamos os monstros, eles surgiram quando tentamos explicar nossos medos. Nós não criamos, simplesmente somos criativos.

Se as paixões, sendo imateriais, podem ser copiadas por invenções materiais, então quem sabe não seja possível fazer com que o mundo material, por seu turno, seja a cópia de um mundo invisível?

C. S. Lewis – Alegoria do Amor

Somos criativos, pois transformamos os nossos desejos em coisas aparentemente novas, ou que pelo menos não entendemos ainda. Somos, como já disse Tolkien, luz refratada. Fomos feitos a Imagem e Semelhança dàquele que Tudo fez, e de certa forma, tudo é. Assim como o Criador criou a partir dEle mesmo, continuamos a criar a partir de sua criação. Deus nos deu o quadro pronto, e juntamente como quadro, nos deu tintas de diversas cores para que colorissemos esse quadro.

Tolkien, certa vez escreveu sobre um pintor chamado Niggle que passou sua vida inteira tentando transformar em um quadro, a imagem de uma Árvore que havia em sua cabeça, mas nunca era como quando ele imaginava. A imagem que estava em sua cabeça era perfeita demais para que ele conseguisse com todas as suas limitações, coloca-la no quadro. A imagem que ele via, não era a imagem que ele fazia. Ele pintava apenas um reflexo. Mas um dia, Niggle, assim como todos, morreu. Mas depois de sua morte, Niggle se viu em um gigante bosque, e nesse bosque ele encontrou a sua Árvore. Exatamente como ele imaginara. Não era apenas sua imaginação, era real!

Assim como a fala é invenção sobre coisas e ideias, os mitos são invenções sobre a verdade.

Humphrey Carpenter – J. R. R. Tolkien: a biography

Como Niggle, um dia nossa imaginação alcançara a redenção. Um dia, conheceremos assim como somos conhecidos. Um dia, o subcriador e o Criador se encontrarão, e tudo fará sentido. Todas as perguntas serão respondidas. Finalmente saberemos por que o sofrimento gera poesia. Saberemos por que a morte gera vida. Saberemos por que a dúvida gera confiança. Saberemos por que o ódio gera amor. Saberemos por que o Verbo se fez carne. Saberemos o por que um Deus se sujeitou ao sofrimento e a morte. Na verdade, já sabemos, mas sabemos apenas de forma parcial. Um dia conheceremos, assim como somos conhecidos, plenamente.

 

Fonte: https://becounderground.wordpress.com/2015/05/11/sobre-criar-e-sobre-ser-criativo/

Lewis_destaqueGente de todo o Brasil (e de fora) me procura pelas diferentes mídias, com as mais variadas perguntas sobre C.S. Lewis. Alguns são apenas curiosos, outros são estudantes em busca de orientação na vasta obra de Lewis, na ilusão de que eu possa dar uma resposta fácil para as suas pretensões de encarar o homem em um TCC ou trabalho escolar.

Outros já vêm com temas mais delimitados, que, assim, me ajudam um pouco mais a ajudá-los. Para isso, muitos procuram me conquistar e favorecer uma resposta, chamando-me de “especialista” no assunto. Isso muito me lisonjeia, mas depois de mais de vinte anos de pesquisa, uma tese e alguns escritos sobre ele, estou muito longe de me considerar uma “especialista” em C.S. Lewis.
E quero que saibam que isso é totalmente desnecessário, pois o que estiver em meu alcance para promover o pensamento desse autor, no Brasil e além dele, eu farei. Encaro isso como uma espécie de missão a mim confiada e que só pude cumprir até agora (e o poderia fazer daqui pra frente) pela graça e para a glória do nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo, a quem Lewis servia de todo o coração. Continue lendo →

por Ana Paula de Fátima Bueno
por Adrian Lincoln Ferreira Clarindo

RESUMO

O objetivo do presente trabalho é abordar alguns aspectos religiosos judaico-cristãos encontrados na obra As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, do autor inglês Clive Staples Lewis. Para investigar esta intertextualidade bíblica, usaremos as bases teóricas de Alister McGrath, Déborah Silva Stafussi, Raquel Lima Botelho, entre outras. Serão abordados alguns pontos por nós considerados relevantes dentro da obra em questão, a fim de que possamos observar com clareza a influência e mesmo as referências dentro dela ao texto bíblico. Logo, neste trabalho faremos o seguinte percurso: 1) Apresentaremos a obra, objeto de nosso estudo; 2) Investigaremos os seres mitológicos ficcionais presentes na obra. 3) Analisaremos como acontece a narrativa em U, que se dá em três picos: acontecimentos felizes, declínio e desfecho e 4) Observaremos qual a relação de Cristo com Aslam, personagem do livro. Continue lendo →