Tolkien e C. S. Lewis

Tolkien e C. S. Lewis

by Eduardo Stark

Antes do grande sucesso de O Senhor dos Anéis, as únicas pessoas que realmente se interessavam em saber mais sobre o mundo da Terra-média eram Christopher Tolkien e o C.S. Lewis. Ambos tiveram o privilégio de escutar o próprio autor lendo e apresentando comentários aos manuscritos.

Pelo fato de Lewis ter essa proximidade há certa presunção de que o Tolkien teria sido influenciado por ele. Mas isso não corresponde ao que realmente aconteceu. Mesmo sendo amigos, e debatendo sobre as histórias da Terra-média, Tolkien não sofreu influência do autor de Crônicas de Nárnia.

J.R.R. Tolkien havia iniciado seus primeiros escritos relacionados ao seu mundo secundário muito antes de conhecer C.S. Lewis. Ele entendia aquele universo como algo privado e decorrência de seu entretenimento pessoal. Sendo assim, Tolkien se sentia desconfortável quando alguém “tentava” intervir em alguma coisa de sua obra, sugerindo alguma mudança ou pedindo que se acrescentasse algo.

O fato de C. S. Lewis ter lançado as Crônicas de Nárnia primeiro que o Senhor dos Anéis gerava a impressão para o público geral que o Tolkien havia se inspirado no seu amigo, quando na verdade o que aconteceu foi o contrário.

Enquanto Tolkien terminou o Senhor dos Anéis em 1948 e enviou uma cópia para leitura ao C. S. Lewis na metade de 1949, o mesmo começou a escrever o primeiro livro de Crônicas de Nárnia logo após a leitura dos escritos do Tolkien. Contudo, o livro de Lewis foi escrito em pouco tempo. Era bem mais fino, menos complexo e, portanto, mais fácil de ser publicado.

Tolkien demorou doze anos para terminar O Senhor dos Anéis (e ainda não considerava bom o suficiente), Lewis começou na metade de 1949 e terminou no mesmo ano, publicando a obra no ano seguinte (1950). Enquanto que o Senhor dos Anéis demorou mais cinco anos até que fosse publicado.

Mas como seria possível analisar se ocorreu ou não influências entre os autores¿ Se apresentasse apenas argumentos, ainda que lógicos e com base no que está posto nas obras, não seria algo que corresponderia a realidade. Isso por que afirmar que um autor foi influenciado por outro requer um entendimento do que se passava na mente dele no momento em que estava escrevendo. Por ser algo muito subjetivo devemos recorrer às declarações dos próprios autores sobre suas influências.

Em vários trechos de cartas tanto do Tolkien quanto do C. S. Lewis, há referências sobre quem influenciou quem. Os trechos parecem se comunicar entre si. É como se o Tolkien estivesse falando com o C. S. Lewis a respeito do mesmo assunto e com a mesma opinião formada.

C. S. Lewis, escritor e amigo de Tolkien

C. S. Lewis, escritor e amigo de Tolkien

As declarações de Tolkien sobre Lewis ter influenciado

C.S. Lewis foi importante como um expectador da origem da obra. Tolkien precisava de um ‘apoio moral’ para continuar sua obra. Afinal ele tinha seus trabalhos como professor, a vida pós-segunda guerra mundial, e as constantes mudanças do mundo tornavam tudo mais cansativo.

Dessa forma, Tolkien reconhecia em Lewis um amigo que pudesse ‘desabafar’ sua criatividade e mostrar o material escrito. Foi por isso que afirmou em carta que:

…foi apenas por seu apoio e por sua amizade que consegui lutar até o fim do trabalho. – Carta 149 – Para Rayner Unwin – 9 setembro de 1954

Pelo fato de C. S. Lewis ter conhecido suas histórias antes de publicar as Crônicas de Nárnia, Tolkien acreditava que isso implicou em ‘apropriação’ de várias expressões e termos naquela obra. Ele cita como exemplo a palavra “Numinor”:

C. S. Lewis é um velho amigo e colega meu, e de fato devo ao seu encorajamento o fato de que, apesar dos obstáculos (incluindo a guerra de 1939!), perseverei e eventualmente terminei O Senhor dos Anéis. Ele ouviu a história ser lida em voz alta, pedaço por pedaço, mas nunca a viu impressa até que sua trilogia foi publicada. Sua Numinor derivou-se, de ouvido, de Númenor, e realmente tinha intenção de se referir à minha obra e outras lendas minhas (não-publicadas) que ele ouvira. Carta 227 E. C. Ossen Drijver 5 de janeiro de 1961.

Não se trata de um plágio, pois Lewis deu um significado diferente ao que Tolkien criou. Mas nota-se nas cartas que há um certo desconforto por parte de Tolkien em relação às Crônicas de Nárnia. Aliás, ele declarava abertamente que não gostava nem um pouco dessa série de livros do Lewis.

Em grande parte dos escritos de C.S. Lewis, o professor Tolkien apresentava discordâncias de ideias. Como pode ser visto no seguinte trecho da Carta 224:

Acabei de receber um exemplar do último livro de C.S.L: Studies in Words. Ai! Sua tolice cansativa está se tornando um estilo permanente. Estou profundamente aliviado por saber que não sou mencionado”. Carta 224 para C. Tolkien, 12 setembro 1960

Frequentemente C.S. Lewis citava o Tolkien em algum trabalho acadêmico ou mesmo livros. E as vezes isso era para Tolkien objeto de constrangimento quando discordava de alguma ideia. Lewis não costumava informar antes de publicar algo que iria citar algo o Tolkien.

Em outra carta, mais uma vez Tolkien nega ter influência de seu amigo com relação ao conteúdo de sua obra. Dessa vez ressaltando o tipo de influência que sofreu de Lewis:

Lewis era um homem impressionável, e isso era estimulado por sua grande generosidade e capacidade para amizade. A dívida impagável que tenho para com ele não foi “influência” como é comumente compreendida, mas puro encorajamento. Por muito tempo ele foi meu único público. Apenas a partir dele tive noção de que meu “material” poderia ser mais do que um passatempo particular. Se não fosse por seu interesse e avidez incessante por mais, eu jamais teria concluído O S. dos A….” Carta 276 para Dick plotz 12 setembro de 1965

Novamente Tolkien ressalta a importância de C.S. Lewis no processo de incentivar a obra, ressaltando como foi essencial essa participação de seu amigo:

Se não fosse pelo encorajamento de C.S.L., não creio que teria terminado ou oferecido para publicação O Senhor dos Anéis. Carta 282 para Clybe S. Kilby. 18 dezembro de 1965

Ainda, em entrevista para o The Telegraph, Tolkien dá detalhes de como era esse incentivo de C.S. Lewis:

Ele costumava insistir na minha leitura em voz alta de passagens que eu havia terminado, e então ele fazia sugestões. Ele ficava furioso quando eu não as aceitava. Uma vez ele disse: “Não adianta tentar influenciar você. Você não é influenciável!”. Mas isso não era bem verdade. Sempre que ele dizia: “Você pode fazer melhor do que isso. Melhor Tolkien, por favor!”Eu costumava tentar. (Entrevista The Man who undertands Hobbits telegraph 1966).

Por todas essas considerações, Tolkien afirmou em várias oportunidades que C.S. Lewis contribuiu sim com a sua obra, mas não quanto ao conteúdo, ele participou dando incentivo ao seu amigo para que continuasse escrevendo.

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As declarações de C.S. Lewis sobre Tolkien ter sido influenciado

Em várias oportunidades Lewis apresenta sua dificuldade em tentar influenciar Tolkien. A primeira referência sobre isso está na Carta para Charles A. Brady, datada de 5 de janeiro de 1957:

…quanto a qualquer pessoa influenciar Tolkien, você poderia também (para adaptar o Rei Branco) tentar influenciar um bandersnatch.

Bandersnatch é um personagem criado por Lewis Caroll, autor de Alice no País das Maravilhas, que é descrito como astuto, feroz e muito rápido. Ou seja, Tolkien dificilmente seria influenciado por alguém.

A segunda referência pode ser lida na Carta para Charles Moorman, de 15 de maio de 1959:

Ninguém jamais influenciou Tolkien – você pode também tentar influenciar um bandersnatch. Ouvimos sua obra, mas apenas podemos afetá-lo com encorajamento. Ele tem só duas reações à crítica: Ou começa toda a obra novamente desde o início ou então não faz absolutamente nenhuma observação.

Novamente C.S. Lewis compara Tolkien a um bandersnatch, para mostrar a dificuldade que é influenciar seu amigo. Assim como Christopher Tolkien, Lewis teve a possibilidade escutar e ler as obras de Tolkien ainda na sua gestação. Mas o autor de O Hobbit não se deixava influenciar. Ele era altamente crítico de seu próprio trabalho. Isso devido a sua forma de lidar com situações de forma peculiar.

Esse perfeccionismo gerou vários e vários manuscritos que se amontoaram em seu escritório. Coube ao seu filho organizar todos de uma forma coerente e foi assim que surgiu a maioria dos livros póstumos que conhecemos atualmente. Tal como a série de doze volumes chamada “The History of Middle” e livros como O Silmarillion, Os Filhos de Húrin, Contos Inacabados e Beren e Lúthien.

Em uma de suas últimas cartas escritas, para Francis Anderson, em 23 de setembro de 1963, C.S. Lewis novamente reafirma que não influenciou Tolkien, mas dessa vez tenta explicar as razões do por que suas obras tem certa semelhança.

Eu não acho que Tolkien me influenciou, e estou certo de que eu não o influenciei. Isto é, não influenciei o que ele escreveu. Meu encorajamento contínuo, levado ao ponto de irritar, influenciou-o muito ao escrever com essa gravidade e extensão. Em outras palavras, agi como parteiro e não como pai.

E nessa mesma carta, Lewis explica que essas comparações e semelhanças podem se dar especialmente por dois fatores:

As semelhanças entre sua obra e a minha são devidas, eu acho à: (a) natureza – temperamento e, (B) a fontes comuns. Nós dois estamos embebidos em mitologia nórdica, contos de fadas de George MacDonald, Homero, Beowulf e romances medievais. Além disso, claramente, nós dois somos cristãos (ele, um C.R.).

Lewis cita alguns autores e obras que eram comuns entre ele e Tolkien, demonstrando que sua base literária seria praticamente a mesma que a do seu amigo.

O fato de Tolkien dizer não ser influenciável, não quer dizer que ele negue todas as fontes que teve contato antes de criar sua própria mitologia. Em carta para L.M. Cutts, em 26 de outubro de 1958, Tolkien explica uma de suas fontes:

… se assim posso dizer, com humildade, a religião cristã (que eu professo) é, de longe, a mais poderosa fonte suprema, num plano inferior: o meu interesse linguístico é a força mais poderosa …

Tolkien reconhecia suas fontes e livros que se inspirou ao criar sua mitologia própria. Porém, ele enfaticamente dizia que não sofreu influência de Lewis e este reafirmava a mesma ideia.

CONCLUSÃO

C.S. Lewis influenciou Tolkien no sentido formal e não material. Ou seja, ele deu apoio psicológico, mas não alterou o conteúdo da obra. Isso devido ao perfeccionismo de Tolkien e o fato de ser a escrita um passatempo particular do autor. A amizade entre os dois produziu longos debates literários, políticos e religiosos e o fruto disso foi o constante incentivo de Lewis para que Tolkien concluísse sua obra máxima O Senhor dos Anéis.

Fonte: http://tolkienbrasil.com/noticias/diversas/j-r-r-tolkien-e-influencia-de-c-s-lewis/

Leia artigo de Filipe Galhardo:

Ele [C.S.Lewis] era centrado em Cristo, um cristão de tendência da grande tradição, cuja estatura, uma geração após sua morte, parece maior do que qualquer um jamais pensou enquanto ele ainda estava vivo, e cujos escritos cristãos são agora vistos como tendo status de clássicos… Eu duvido que alguém tenha conseguido compreendê-lo completamente”.                – John Stott

“Acredito que muitos que acham que nada acontece quando sentam ou se ajoelham com um livro devocional nas mãos achariam que o coração canta espontaneamente enquanto estão trilhando o árduo caminho da teologia.”                            – C.S.Lewis.

 

  • Por: Filipe Galhardo Sant’anna

Em 13 de novembro de 354, nascia em Tagaste um dos mais imponentes personagens da era cristã, o pensador que marcou a passagem da tradição patrística para a medieval, Agostinho de Hipona, um dos maiores filósofos de todos os tempos. Cerca  de quatro anos antes nascia na Britânia seu principal oponente teológico,  o monge ascético Pelágio, um dos principais mestres da moral cristã do seu tempo. Esses dois gigantes, Agostinho e Pelágio, travaram o mais importante debate a respeito do livre-arbitrio e da graça de Deus. Enquanto Pelágio defendia que a salvação poderia ser alcançada por nossos próprios esforços, através do livre-arbitrio, Agostinho argumentava que nossa salvação depende necessariamente de Deus e da sua soberana graça. Os concílios eclesiásticos deram a vitória a Agostinho, mas, por incrivel que pareça, quase toda a Idade Média se mostrou semi-pelagiana. O debate voltou a ganhar visibilidade em uma nāo menos acalorada disputa no século 15, dessa vez entre o então monge agostiniano Martinho Lutero e o já famoso doutor da Igreja Herasmo de Hoterdan, o tema do debate era, uma vez mais, soberania e livre arbítrio. Lutero defendia “A justificação somente pela fé”, já Erasmo, tal como Pelágio,  atribuia muito poder ao nosso livre arbítrio, defendendo que depende também dos méritos a nossa salvação.  O duelo marcou a divisão da Igreja entre protestantes e católicos e mais uma vez acontece uma transição histórica, da Idade Média para a Moderna.

A discussão parece nunca ter chegado ao fim e os gigantes irão continuar duelando, no entanto, no século XX ouvimos uma voz menos clerical, mas não menos lúcida.

Em 29 de Novembro de 1898 nascia em Belfast, na Irlanda do norte, Clive Staples Lewis, filho de Albert J.Lewis (1863-1929) e Florence Augusta Hamilton (1862-1908). Lewis veio a se tornar um dos maiores escritores do século passado, seu talento tornou-se evidente ainda na infância, na casa de seus pais Lewis podia encontrar pilhas e mais pilhas de livros em quase todos os cômodos, foi o que lhe permitiu o encontro com um universo sem fim de escritores. Toda essa variada literatura formaram em Lewis um pensador cuja visão de mundo encontra poucos paralelos na história. Os filósofos gregos lhe deram a frieza e a precisão do argumento bem articulado; os medievais, uma arguta e penetrada  imaginação,  talvez uma das mais brilhantes do século XX; os grandes romancistas como Shakespeare lhe incutiram uma criatividade poucas vezes vista.
Seu futuro já era de se esperar, tornou-se um notável erudito em literatura, lecionando nas universidades de Oxford e, mais tarde, Cambridge. Em 1930 converteu-se do ateísmo ao teísmo e deste ao cristianismo, ganhando notoriedade com a publicação de diversos livros e artigos na área da crítica literária e teologia, além de emblemáticos romances como a Trilogia Cósmica e O Grande Abismo que, além de serem histórias fantásticas, refletem com bastante expressão seus conceitos teológicos – isso para não mencionar as famosas Crônicas de Nárnia no gênero infantil. Lewis faleceu no ano de 1963, deixando um vasto legado literário. Desde sua morte até os dias atuais doutores de diferentes partes do mundo debruçam-se sobre suas obras no anseio de acompanhar o raciocínio do mestre. Neste breve texto – na condição de admiradores e não de doutores – iremos analisar a importância de toda a sua erudição literária e filosófica para a teologia. Recuperando o equilíbrio epistemológico de Lewis e retornando à antiga discussão sobre as doutrinas do Livre-arbitrio, Providência e Soberania Divina e de que modo se deve harmoniza-las. No entanto, antes de se passar ao conteudo propriamente dito, há pelo menos uma advertência a ser feita. Queria deixar bem claro que eu mesmo estou bastante consciente de que Lewis está muito mais pra crítica literária do que pra teologia , fica evidente que nesta área do conhecimento poderíamos usar outros nomes de muito maior expressão teológica, como Agostinho ou Tomás de Aquino. No entanto, dei a preferência a C.S.Lewis e isso, assim espero, é fácil de explicar. Quando Lewis se tornou cristão já era um literato formado, com graduações em inglês, história antiga e filosofia, além do que já lecionava na prestigiosa  Oxford. Mas foi somente a partir da sua conversão ao cristianismo que tudo o que ele aprendera começou a aganhar vida, foi o que mais tarde ele chamou de “reavivamento intelectual”, era a passagem para além da sua própria personalidade.

Dessa experiência em diante Lewis nāo abdicou do acumulo de suas informações, mas aos poucos todas elas foram se harmonizando e formando um todo literalmente fantástico, a descoberta da teologia cristã foi para Lewis, em suas próprias palavras, “o despertar de um sonho”. Essa foi a transição de um escritor secular quase anônimo a um verdadeiro gigante da apologética cristã, cujo tamanho da compreensão do que é de fato o cristianismo o tornou um dos autores cristãos de comovisāo mais ampla dos últimos tempos. Acho que, por esse motivo, pode ser uma boa darmos uma olhadela em suas opiniões.
Providência O Livre-arbítrio como argumento apologético e The Great Divorce: no tempo e fora do tempo

“O  mal  moral  tem  sua  origem  no  livre-arbítrio  de nossa  vontade.’’                             – Agostinho, Sobre o  Livre-arbítrio.

“Liberdade: o dom por meio do qual nos assemelhamos mais ao nosso Criador e somos nós mesmos partes da realidade eterna. Entretanto você só pode vê-la pelas lentes do tempo […].” C.S.Lewis, The Great Divorce.

“[…]Mas a natureza eterna desse ser vivo não podia ser atribuída em toda a sua plenitude ao que é engendrado. Então, pensou em compor uma imagem móbil da eternidade, e, ao mesmo tempo em que organizou o céu, fez da eternidade que perdura na unidade essa imagem eterna que se movimenta de acordo com o número e a que chamamos tempo.”                         -Platão, Timeu.

Dizem-nos que falar sobre  livre-arbítrio é sempre se arriscar a ser polêmico ou desnecessário. Polêmico até posso admitir, mas desnecessário jamais. A matéria é de interesse totalmente prático, afinal todos nós fazemos distinção ética do que é certo e do que é errado, e desse ponto de vista os seres humanos são, não sem motivos, classificados como intelectual e moralmente responsáveis diante de suas ações. No entanto, essa perspectiva parece incluir a existência do livre-arbitrio como indispensável à natureza. Mas há muitas controvérsias dentro da filosofia, da metafísica e da teologia que parecem por em dúvida essa indispensabilidade. Como nosso assunto é teologia na obra de C.S.Lewis, vamos abordar a controvérsia dentro dos limites teológicos. O grande desafio que sempre se ergueu aos teólogos foi o de conciliar o conceito de liberdade com a clássica doutrina da onipotência e soberania divina,  a harmonia dessas doutrinas normalmente resulta em uma grande complicação: o problema do sofrimento.
Usarmos C.S.Lewis é uma boa oportunidade de vermos pelas lentes de alguém que começou a desenvolver seus pensamentos sobre o livre-arbítrio a partir de suas experiências com o sofrimento que começaram na sua mais tenra infância.

Em 23 de Agosto de 1908 morre Florence Augusta Lewis. A abrupta perda da mãe para o câncer torna a infância dos irmãos Lewis um tanto dolorosa, acrescenta-se a isso o temperamento um tanto ruim do pai Albert e uma deficiência na mão do ainda muito novo Jack – modo como C.S.Lewis era conhecido entre parentes e amigos. A dor da perda e o temperamento ruim do pai – agravado pela morte da esposa – tornam-se fator preponderante para o abandono da religião cristã na qual foi criado C.S.Lewis, mais tarde a leitura de escritores materialistas foi apenas uma fagulha em uma lenha que já estava a muito tempo incendiada. Anos depois, em seu caminho de volta ao cristianismo, uma das suas primeiras publicações foi justamente um livro cujo título era: O Problema do Sofrimento.  Nele, Lewis lida com o problema de conciliar um Deus bom e todo poderoso com a existência do sofrimento, afinal, por que um Deus bom e soberano permitiria a dor de suas criaturas?

A resposta de Lewis a essa pergunta é que o sofrimento não é causado diretamente por Deus – apesar de ser usado por Ele – mas por suas criaturas dotadas de livre-arbítrio. O argumento de Lewis – levando em consideração a doutrina da queda- distingue:
1) O bem simples que vem de Deus;
2) O mal simples produzido por criaturas rebeldes;
3) A exploração do mal por parte de Deus, para seu propósito redentor, que produz
4) O bem complexo para o qual contribuem o sofrimento aceito e o pecado de que nos arrependemos.’1
É claro que os amplos argumentos de Lewis a respeito do sofrimento não poderiam caber em um tão pequeno texto, nem é a minha intenção. Apenas pretendo deixar claro ao leitor que o livre-arbítrio na obra de Lewis normalmente surge nesse contexto apologético.

Além do que, o assunto é  sem dúvida parte fundamental de seu pensamento, sua mente em termos teológicos pode chegar a surpreender muita gente que espera encontrar em Lewis mais um cristão liberal.  O livre-arbítrio em sua obra ganha contornos bem ortodoxos. Embora ele admita livre-arbítrio depois da queda – diferente de como pensavam os reformadores no século 16 – em O Problema do Sofrimento ele dá uma extraordinária contribuição ao diferenciar o livre-arbítrio do primeiro homem e a liberdade da posteridade. Com toda a sua fantástica capacidade imaginativa Lewis infere do relato de Gênesis e da tradição patrística que o homem paradisíaco não só possuía plena autoridade sobre as feras, mas sobre a sua mente e tudo o mais que lhe dizia respeito, de fato, sobre o próprio organismo, plenamente de acordo com Tertuliano,  segundo o qual, como resultado do pecado, “todo o nosso ser havia sido alterado, deixando sua saúde original e caindo em um estado de rebelião contra o criador” ‘2 . O primeiro homem seria, pois, uma espécie própria que entrou em extinção com o advento da Queda, deste modo, ele escreve: “Assim, o espírito humano, de senhor da natureza humana passou a simples hóspede em sua própria casa, ou até mesmo um prisioneiro” ‘3. Essa distinção de Lewis mostra com clareza sua proximidade com o pensamento tradicional a respeito do pecado e bastante afinidade mesmo com Lutero e sua ideia de livre-agência. Para Lutero o homem se torna, depois da Queda, escravo; para Lewis, prisioneiro. Não há diferença, pois, em que os dois admitem uma vontade escrava ou aprisionada – embora Lewis tenha sido enfático ao não concordar com a ideia de depravação total defendida pelos calvinistas ‘4.
Nota-se, portanto, como já fora dito, que o livre-arbítrio na obra de Lewis quase sempre surge como argumento apologético, seja pra dar solução ao problema do sofrimento, seja para não fazer com que, no final das contas, Deus seja acusado de criar o mal. Em suas palavras:” A doutrina da Queda pelo livre-arbítrio afirma que o mal gera o combustível ou a matéria-prima para o segundo e mais complexo tipo de bem. O mal não é uma contribuição de Deus, mas do homem.” ‘5.
Além disso, o pensamento de Lewis acerca da liberdade também lança fora o perigo do fatalismo, o problema da origem do pecado e a dificuldade de se entender as passagens bíblicas acerca da responsabilidade do homem. Mesmo que não concordemos com Lewis, devemos admitir que esse argumento foi usado pela maioria dos Pais da Igreja na tarefa apologética. No entanto, não se pode confundir esse pensamento acerca do árbitro com o de Pelágio ou Erasmo, que o relacionavam quase sempre a termos soteriológicos. Não temos em C.S.Lewis mais um humanista preocupado em defender salvação por méritos, mas uma mente incansável em defender a fé que é comum a todos, o cristianismo puro e simples.
***
Em The Great Divorce, no entanto, o tema é abordado em um contexto mais doutrinário, além de filosófico. Nesta obra C.S.Lewis se vale uma vez mais de seu incomparável talento para fábulas e alegorias.

wp-1479396910549.jpg A trama se passa em um sonho, aonde o narrador-escritor se vê em uma viagem inacreditável, atravessando Céu e Inferno. Nesta viagem inesperada C.S.Lewis encontra-se com George Mcdonald, pastor presbiteriano e escritor escocês do século XIX, que tornar-se seu guia, além de mestre. Juntos eles tiram conclusões significativas sobre tudo o que veem, em especial trataremos aqui do diálogo fictício elaborado por Lewis que encontra-se nos dois últimos capítulos deste mesmo livro. Ali Lewis desenvolve de forma bastante profunda o seu pensamento acerca da Liberdade e do Tempo e estabelece uma relação fundamental entre os dois temas. Lewis parte do pressuposto platônico de que Deus é eterno e nāo se condiciona ao tempo por Ele criado, dada as devidas diferenças, o mesmo ponto de vista foi abraçado tanto por Santo Agostinho como por São Tomás, e em Lewis os argumentos são lançados exatamente nesses fundamentos e suas conclusões a respeito de nossa liberdade devem ser vistos sob esse aspecto, ou seja, Deus é atemporal e nós não, logo as postulações feitas a partir do ponto de vista divino não são as mesmas que se enquadram em nosso limite de tempo e espaço.
Portanto, o livre arbítrio e a soberania divina que antes eu disse serem parte conflitantes da filosofia e da teologia, ganham dentro desse panorama uma explicação plausível: para nós, que estamos no tempo e sujeito às suas peculiaridades, torna-se seguro de se dizer sobre a difícil questão da liberdade, mesmo com respeito a salvação ou condenação eterna: “A escolha dos caminhos está à sua frente. Não há nada restrito. Qualquer homem pode escolher a morte eterna e os que fizerem essa opção vão tê-la” ‘6. Isso, levando em consideração a nossa percepção temporal, nesse sentido, a Liberdade só pode ser vista ou percebida através do Tempo, que funciona como uma espécie de lente: “uma cena de momentos que se seguem uns aos outros e você, em cada momento, fazendo alguma escolha que poderia ter sido diferente”. Mas se formos abordar a coisa do ponto de vista de Deus e analisarmos doutrinas como a da Predestinação ou o Universalismo nos colocaremos, inevitavelmente, de um ponto de vista fora do tempo, perdendo assim o conhecimento da liberdade que temos por experiência.
Boa parte das aparentes contradições da Bíblia em relação ao livre-arbítrio e a soberania são solucionadas se tão simplesmente levarmos em consideração que pelo menos duas perspectivas diferentes podem estar sendo empregadas, a de Deus que é atemporal e a do homem cuja vida se limita ao movimento dos números do nosso relógio, que possui apenas 24hs.

E toda discussão teológica que trate de Livre-arbítrio e Soberania, deve considerar a realidade experimental além da teológica. Filósofos e teólogos dissertam sobre coisas profundas que muitas vezes estão além da nossa compreensão, mas isso não quer dizer que negligenciam a verdade. Um pastor fala com propriedade da Soberania de Deus e o carpinteiro, sentado no banco da Igreja, sabe que é livre para fazer escolhas, ambos estão certos e Deus não deixou de ser Deus. No argumento de C.S.Lewis podemos compreender Livre-arbítrio e Predestinação sem precisar acender uma fogueira e procurar um herege, é tudo uma questão de percepção. Mas essas coisas devem ficar um pouco mais claras no próximo tópico.

Um Deus Atemporal: os primeiros passos na doutrina da Providência

“Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso” Apocalipse: 01-08

“A folha pendente da árvore não cai, nem os dois pardais vendidos por um asse caem, nem qualquer outra coisa acontece sem a providência e a vontade de Deus, quer se considere isso um detalhe ou se permita como detalhe.”                                                          – Luis Molina, Concórdia 4.53.3.17

“Se Deus dirigi realmente o curso dos acontecimentos, Ele então governa o movimento de cada átomo a cada momento. Nem um pardal cai por terra sem sua permissão.  A “naturalidade” dos eventos naturais não consiste, de alguma forma, em estar fora da providência de Deus, mas consiste em sua interligação mútua dentro de um espaço-tempo comum, de acordo com o padrão estabelecido das “leis”.”                   – C.S.Lewis, Sobre as Providências.

“Todo esse problema de predestinação, livre-arbítrio e mérito encontra-se na questão da providência.” – Ulrich Zuínglio

A Bíblia diz que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, mas até que ponto podemos classificar a palavra ‘todas’?

Nós sabemos que certamente se refere não só às coisas boas, mas também aos sofrimentos, as perdas e às dores, enfim, todas as coisas. Mas dentro de nossa perspectiva temporal em qual período ou tempo elas se organizam em nosso favor? Todas as coisas que nos cercam no nosso presente, ou também inclui o nosso passado e futuro?

Todas essas perguntas e as respostas que delas devem vir pertencem à doutrina da providência e a melhor maneira de aborda-la do ponto de vista cristão é levando em consideração as passagens da Bíblia. As escrituras nos ensinam que Deus não está sujeito ao tempo e é sobre esse fundamento que C.S.Lewis constrói seus argumentos, eles podem  ser vistos no segundo apêndice do livro Milagres, sob o título: A respeito das providencias especiais; e no capítulo cinco de Cristianismo Puro e Simples.
Como já dizia o reformador alemão Ulrich Zuínglio, boa parte do problema filosófico e teológico envolvendo o livre-arbítrio e a soberania encontra-se na questão da providência ‘8. A primeira coisa que deve nortear a nossa mente é que Ele, nosso Senhor, é o Alfa e o Ômega e tudo que provém dEle não se sujeita à nossa noção de espaço e tempo, na obra de Lewis nāo é diferente, ele nos ensina: “todos os eventos físicos e todos os atos humanos estão presentes para Ele num eterno Agora. […] Deus, neste sentido, não criou o universo há muito tempo, mas ele o cria neste minuto, a cada minuto.’’

 C.S.Lewis nos fornece uma imagem ainda mais didática. Imaginemos que eu encontre uma folha e nela uma linha preta ondulada que segue de uma extremidade à outra e que eu, deliberadamente, resolva escrever outras linhas – vermelha, por exemplo. Vamos imaginar então que a primeira linha, que já estava escrita, seja consciente. Mas ela não tem consciência ao longo de todo o seu trajeto, mas em cada ponto de seu percurso. Ela, de fato, movimenta-se da esquerda para a direita e retém o ponto A apenas como memória ao alcançar B, incapaz de tornar-se consciente de D até deixar C. Vamos atribuir a essa linha preta livre-arbítrio, de forma que foi ela mesmo que escolheu sua forma ondulada especial e a direção que está a seguir. Apesar de ela não saber o que fazer em F até deixar o ponto E, eu, que estou com o papel na mão e sei todo o seu percurso, escrevo as linhas vermelhas de modo a considerar todo o trajeto da linha preta, de forma que ela irá sempre encontrar com minhas linhas vermelhas ao longo de sua trajetória. Em resumidas palavras, essa é a forma como Lewis enxerga o cenário da atuaçāo da Providência, a linha preta representa uma criatura dotada de livre-arbítrio, as vermelhas os acontecimentos materiais e o autor do desenho representa Deus. É claro que o exemplo de Lewis seria mais real se o autor das linhas vermelhas também tivesse criado tanto o papel quanto o próprio padrão utilizado e, aliás, também deveríamos levar em conta outras centenas de milhares de linhas pretas e não uma apenas.    O conjunto de linhas pretas e o entrelaçamento com as linhas vermelhas deveriam formar um desenho artisticamente impressionante, de modo que, na composição do todo, as linhas pretas dependeriam da formação das linhas vermelhas. A liberdade de arbítrio previamente concebida pelo provedor das providências é, grosso modo, o cenário da atuaçāo divina.’9
Mas essa é apenas uma imagem que nos introduz à doutrina propriamente dita. Aprendemos que as coisas que cooperam para o nosso bem emanam de Deus e não se limitam ao nosso ponto de vista do tempo.Uma grande parte de nossas orações, se forem devidamente analisadas, exigem uma intervenção de Deus que antecede não só o nosso ato de fé como muitas vezes o nosso próprio nascimento, noutras os fundamentos precisariam ser lançados antes da fundação do mundo. Embora numa sucessão temporal pareça impossível, para Deus, que olha da eternidade, tanto quem faz a oração quanto o milagre ao qual pede já estavam tão presentes na criação do mundo como estão agora e estarão daqui a um milhão de anos. Deste modo “ao meio-dia podemo-nos tornar causas parciais de um evento ocorrido às 10 da manhã” ’11.

A Providência funciona como mediadora entre o conceito que temos de liberdade e soberania justamente no ponto em que dela inferimos que Deus é atemporal e que intervém em nossas vidas de acordo com seus planos e propósitos. Suas intervenções chegam a nós em um determinado tempo, mas fluem dEle da eternidade. Poderíamos dizer que Ele conduz todas as coisas através de sua Providência para a realização de seus planos. Lembremos do exemplo das linhas pretas e vermelhas na composição de um desenho completo redigido com maestria. Nós continuamos livres e Ele soberano. É claro que nós já aprendemos que nossa liberdade tornou-se restrita pela nossa própria natureza corrompida e que mesmo C.S.Lewis admite que tornamo-nos escravo desta. E é precisamente por isso que a Soberania por meio da Providência precisa atuar. Falando em uma linguagem bíblica, se Deus não nos chamar, nós não iremos a Ele. Foi o que aconteceu particularmente na conversão de Lewis.
Se a doutrina da Providência permiti-nos segurança na oração, com respeito a obra redentora de Jesus Cristo, Lewis sentiu na pele que dela – a Providência por meio da Redenção – não podemos esperar a tão desejável “independência” de nossa vontade, qualquer segurança ou o mínimo de estabilidade. “Há armadilhas por toda a parte” ’12 diz Lewis em sua autobiografia. Foi muito provavelmente tendo esses pressupostos em mente que ele registrou em “Surpreendido pela Alegria” o modo como Deus usou o apologista cristão G.K.Chesterton na sua conversão: “Parece até que a Providência, ou uma causa segunda de uma espécie bem obscura, supera nossas inclinações quando decide aproximar duas mentes” ’13. Chesterton viria a se tornar peça fundamental no dramático processo da conversão de C.S.Lewis, mas esse assunto já faz parte do próximo tópico.

Deus Compellegal Intrare: Surpreendido pela Soberania

“Dê-me graças [Ó Senhor] para fazer o que ordenas, e ordena-me a fazer o que tu queres! Ó santo Deus (…) quando teus mandamentos são obedecidos, é do Senhor que recebemos o poder de obedecê-los’’ – Santo Agostinho (Tagaste, 13 de novembro de 354 – Hipona, 28 de agosto de 430)
“A dureza de Deus é mais suave que a suavidade dos homens, e sua coerção é nossa libertação.”       – C.S.Lewis, Surpreendido pela Alegria.”

Bom, neste momento iremos analisar, de uma forma mais especifica, como Lewis veio a acreditar em Jesus Cristo e de que forma isso se deu. Do ateísmo ao teísmo e deste ao cristianismo, em quais circunstancias se realizou aquilo que, para muitos, parecia impossível: a queda de um dos mais empedernidos ateus do século XX.
Desde a mais tenra infância Lewis nunca lidou muito bem com a ideia de qualquer autoridade que roubasse sua privacidade ou sua segurança, alguns de seus biógrafos relacionam isso ao relacionamento ruim que ele teve com o pai. Quando ainda era ateu, a ideia de um Deus pessoal, como ensinava o cristianismo, lhe causava desprezo, “nenhuma palavra do meu vocabulário despertava ódio mais profundo do que a palavra interferência”. O Antigo e o Novo Testamento “colocavam no centro o que a mim parecia ser um Intruso transcendental” ’14.
Lewis, de fato, ansiaria em se manter o mais longe possível dessa fé, não queria nada, de nenhuma espécie, roubando sua liberdade. Apesar de isso ser um motivo emocional e pessoal, Lewis fez de tudo para que seu intelecto também criasse anticorpos à essa crença, com a leitura de escritores materialistas ele, de fato, vinha conseguindo se manter em defesa durante um bom tempo. O que ele não contava é que, fizesse o que fizesse, quanto mais ele se aprofundava em suas áreas de pesquisa acadêmica – que incluíam história, filosofia, literatura inglesa e medieval – mais ele se deparava com escritores que, apesar de serem muito inteligentes, tinham um leve defeito, eram crentes. E todos os materialistas começaram a parecer meio “raquíticos” em comparação a autores cristãos como Dante e Milton, além dos mais contemporâneos como George Mcdonald e G.K. Chesterton. Lewis chegou mesmo a dizer, anos mais tarde, que “um jovem que deseja continuar sendo um ateu convicto jamais poderá ser suficientemente cauteloso quanto às suas leituras. Há armadilhas por toda parte.” ’15
O Deus que se apresentava, de forma bastante inconveniente, através das leituras de Lewis, também se manifestaria através de suas novas amizades na universidade de Oxford e por muitos outros meios. Foi nesta mesma universidade que Lewis viria a conhecer Owen Barfild que atacou com bastante contundência a incoerência lógica de seu ateísmo. Ao entrar para a Faculdade de Inglês no Magdalen College, em Oxford, Lewis conheceu mais dois cristãos, Hugo Dyson e J.R.R. Tolkien. Estes homens tornaram-se amigos íntimos dele e o influenciaram profundamente. Os tempos de incrédulo estavam chegando ao fim, Lewis se sentia exatamente como uma presa que se põe em desespero na fuga de seu predador natural, era um período que iria delinear uma grande transição. Uma verdadeira mudança de paradigmas estava prestes a acontecer, no período entre 1928 e 1931 duras e contundentes provas em favor da existência de Deus e da veracidade da Bíblia começavam a imergir de onde Lewis menos esperava, a presa estava prestes a ser alcançada, mas “antes de Deus fechar o cerco sobre mim”, relembrou Lewis em Surpreendido pela Alegria, “foi-me oferecido aquilo que hoje me parece um momento de escolha absolutamente livre. […] Senti, ali e então, que me era dada a possibilidade de escolha. Eu poderia abrir a porta ou deixá-la trancada; poderia tirar a carapaça ou conservá-la. […] Escolhi abrir, tirar a carapaça, afrouxar as rédeas. Digo “escolhi”, mas não me parecia realmente possível fazer o contrário.” ’16
É neste ponto paradoxal que desejava chegar, enfim a tênue linha que separa liberdade humana e soberania divina, uma divisória que necessariamente não existiu para Lewis. Até aqui acompanhamos alguns traços biográficos a partir de Surpreendido pela Alegria, mas antes de avançarmos no assunto veremos que em O Regresso do Peregrino soberania também é um tema corrente.  

Essa  foi a primeira publicação de Lewis depois de convertido, a trama descreve a busca de John – protagonista da saga alegórica- para chegar à ilha encantada, reflexo da busca do próprio Lewis “por uma experiência particular recorrente” que mais tarde ele veio a chamar de alegria. No caminho da ilha John encontra diferentes tipos de filosofias, a maioria delas afirmava que tal ilha, de fato, não existia. Outras afirmavam que existia, mas seria impossível, ou pouco recomendável, o caminho que leva até ela. John, no entanto, não podia conceber duas coisas: que a ilha, de fato, não existisse e que o Proprietário – alegoria de Deus -, do qual fugira a vida inteira, fosse real. Mas não havia mais saída. As alegorias da Razão, da Sabedoria e da história mostravam a John a ilusão de todas as filosofias que negavam a existência da Ilha e do Proprietário. Jhon reluta em acreditar, mas diante da incapacidade de continuar sua jornada com as próprias forças ele se inquieta cada vez mais e “na amargura de sua alma, ele olhou para cima novamente, dizendo: Ajuda, ajuda, eu quero ajuda!” e então ele percebe “eu estava orando!”[…] “Em apenas uma noite, o Proprietário – chame-o pelo nome que quiser – tinha voltado a fazer parte do seu mundo e  havia o ocupado, preenchendo-o plenamente, sem deixar livre um espaço se quer. (…) E todas as coisas apontavam para uma única palavra: Capturado.” ’17
A experiência de Lewis foi semelhante, ou melhor, idêntica. Sua conversão ao cristianismo não se deu de forma imediata, mas após muito relutar. A fuga de Lewis desse Ser transcendental que lhe roubava a privacidade foi um longo e dramático processo, uma fuga que teve um desfecho inevitável, bastante similar ao de Jhon: “Aquilo que eu temia tanto pairava afinal sobre mim. Cedi enfim […] admitindo que Deus era Deus, ajoelhei-me e orei: talvez, naquela noite, o mais deprimido e relutante dos convertidos de toda a Inglaterra.” Ele se auto descreveu como “o Filho Pródigo que afinal caminhava para casa com as próprias pernas. Mas quem é que pode respeitar de fato o Amor que abre os portões ao pródigo que é arrastado para dentro esperneando, lutando, ressentido e girando os olhos em torno, à procura de uma chance de fuga? As palavras compelle intrare, forçá-los a entrar, foram tão violentadas por homens impiedosos que chegamos estremecer diante delas; mas, entendidas de forma correta, determinam a profundidade da misericórdia divina. A dureza de Deus é mais suave que a suavidade dos homens, e sua coerção é nossa libertação.” ’18
Como podemos ver, em suas duas auto biografias, Lewis tinha um conceito de soberania muito forte, mesmo Agostinho um dos maiores defensores da graça soberana se acautelou em usar a palavra coerção com referencia à ação de Deus em nossa conversão. Ele porém, tal como Agostinho, acreditava, em algum nível, na liberdade e no arbítrio do homem. Como ele entedia isso já foi dito no primeiro tópico desse texto, é tudo uma questão de percepção temporal. Ele nunca esteve disposto a fazer uma escolha entre o fatalismo e o humanismo. Como ele mesmo diria, nem o Norte e nem O Sul. Jack (como costumava ser chamado pelos amigos) estava ciente de um caminho em que a soberania e a liberdade se encontravam, tornando-se doutrinas diferente de um mesmo credo. Talvez ele visse essa aparente contradição entre teoria e pratica, como Ranson – o personagem principal de sua Trilogia Cósmica. 

Em Perelandra, Elwin Ranson se vê diante da responsabilidade de enfrentar o Não-Homem – aquele que instigava a Queda no Gênesis mitológico de Vênus. Ranson nota que enfrentar o Não-Homem lhe parecia literalmente impossível, mas de alguma forma ele sabia que iria ser feito. Isso já tinha acontecido antes com ele, e “o mesmo acontecia agora […] poderia implorar, chorar ou se rebelar, poderia amaldiçoar ou adorar, cantar como um mártir ou blasfemar como um demônio. Não fazia a menor diferença. […] O ato futuro já estava ali, fixo e inalterável, como se ele já o tivesse executado. […] Talvez fosse possível dizer que o poder da escolha tinha sido simplesmente afastado e substituído por um destino inflexível. Por outro lado, talvez se pudesse dizer que Ranson tinha sido libertado […] para uma liberdade inexpugnável. Por mais que se esforçasse, Ranson não conseguia ver nenhuma diferença entre essas duas formulações.” ’19
Essa é provavelmente a forma como o próprio Lewis via o assunto. Ranson carregava muitos traços de seu criador. Talvez depois de convertido, experimentado e estudado nas doutrinas teológicas, ele enfim tenha chegado à mesma conclusão que seu personagem de ficção cientifica. Talvez Lewis pudesse dizer o mesmo de si próprio quando disse que para Ranson enfim “A predestinação e a liberdade eram aparentemente idênticas.” e que  “Ele já não conseguia ver o menor significado nos muitos argumentos que ouvira sobre o assunto.” ’20

Referências:
Sobre o Livre-arbítrio:
‘1- O Problema do Sofrimento, editora Vida. pg.126
‘2- Sobre os Espetáculos, 2. Ver  Justo González, Uma breve história das doutrinas cristãs, editora Hagnos, pg.116.
‘3- O Problema do Sofrimento, editora Vida. pg. 94
‘4- Ibid., pg 77. Aonde  se lê sobre a Depravação Total: “Não creio nessa doutrina”.
‘5- Ibid., pg 96
‘6- O Grande Abismo, editora Vida. pg.143
‘7- Ibid.
Sobre a Providência:
‘8- Ver Teologia dos Reformadores, pg.124
‘9- Sobre a Providência, editora Vida. pg.268-269.
’10- Ibid. pg. 270.
’11- Ibid. pg.272.
’12- Surpreendido pela Alegria, editora Ultimato.  pg. 171
’13- Ibid. pg. 170
Sobre a Soberania:
’14- Surpreendido pela Alegripe, editora Ultimato. pg.155
’15- Ibid. pg. 171
’16- Ibid. pg. 198-199
’17- O Regresso do Peregrino,Icthus Editorial. pg. 223-224/ 229-230
’18- Surpreendido pela Alegria, editora Ultimato. pg. 202-204
’19- Perelandra, Martins Fontes. pg.198
’20- Ibid. pg.199.

Livre-arbítrio, Providência e Soberania na vida e obra de C.S.Lewis

Por C.S. Lewis (tradução conservadorismopolitico.wordress.com)

Fonte: http://www.spiked-online.com/images/273-275-1-PB.pdf

Na Inglaterra, temos recentemente tido uma controvérsia sobre a Pena Capital. Eu não sei se um homicida é mais capaz de se arrepender e fazer o bem na forca, algumas semanas após seu julgamento, ou na enfermaria da prisão, trinta anos depois. Eu não sei se o medo da morte é um dissuasor indispensável. Eu não preciso, para o propósito desse artigo, decidir se este é um dissuasor moralmente permissível. Essas são questões que proponho deixar intocada. Meu assunto não é a Pena Capital em particular, mas aquela teoria da punição em geral que a controvérsia revelou ser chamada a teoria Humanitária. Aqueles que a defendem pensam que ela é suave e misericordiosa. Nisto acredito que eles estão seriamente enganados. Acredito que a “Humanidade” que eles afirmam é uma ilusão perigosa e disfarça a possibilidade de crueldade e injustiça sem fim. Insto um retorno à teoria tradicional, ou Retributiva, não apenas, nem sequer primariamente, nos interesses da sociedade, mas nos interesses do criminoso.

De acordo com a teoria Humanitária, punir um homem porque ele merece, e tão quanto ele merece, é mera vingança, e, portanto, bárbaro e imoral. Alega-se que os únicos motivos legítimos para punir são os desejo de dissuadir outros por exemplo ou consertar o criminoso. Quando essa teoria é combinada, como frequentemente acontece, com a crença de que todo o crime é mais ou menos patológico, a ideia de consertar diminui-se àquela de cicatrizar ou curar [healing or curing], e a punição se torna terapêutica. Dessa forma, parece à primeira vista que nós passamos da noção dura e farisaica de dar aos ímpios seus merecimentos [Desert, termo filosófico: sentido aproximado] para a caridosa e esclarecida de cuidar dos psicologicamente doentes. O que poderia ser mais afável? Um pequeno ponto que é dado como certo por essa teoria, porém, precisa ser explicitado. As coisas feitas ao criminoso, mesmo que elas sejam chamadas de curas, serão tão compulsórias quanto elas eram nos velhos dias em que as chamávamos de punições. Se uma tendência de roubar pode ser curada por psicoterapia, o ladrão, sem dúvida, será forçado a submeter-se ao tratamento. De outra forma, a sociedade não pode continuar.

Meu argumento é de que essa doutrina, misericordiosa que pareça, na realidade significa que cada um de nós, a partir do momento em que ele quebra a lei, é privado dos direitos de um ser humano.

A razão é essa. A teoria Humanitária remove da Punição o conceito de Merecimento. Mas o conceito de Merecimento é o único elo de ligação entre punição e justiça. É apenas como merecida ou imerecida que uma pena pode ser justa ou injusta. Eu não alego aqui que a questão ‘Ela é merecida?’ é a única que podemos razoavelmente perguntar sobre uma punição. Podemos bem apropriadamente perguntar se ela é suscetível de dissuadir outros e de reformar o criminoso. Mas nenhuma dessas duas últimas questões é uma questão de justiça. Não há sentido em falar sobre uma “dissuasão justa” ou de uma “cura justa”. Exigimos de um dissuasor não se é justo, mas que detenha. Exigimos de uma cura não se é justa, mas se  tem êxito. Logo, quando deixamos de considerar o que o criminoso merece e consideramos apenas o que irá curá-lo ou dissuadir outros, nós tacitamente o removemos por completo da esfera da justiça; em vez de uma pessoa, um sujeito de direitos, temos agora meramente um objeto, um paciente, um “caso”.

A distinção se tornará mais clara se nós perguntarmos quem será qualificado para determinar penas quando as penas não forem mais tidas como derivando sua adequação dos merecimentos do criminoso. Na visão antiga, o problema de fixar a pena certa era um problema moral. Por conseguinte, o juiz que fazia isso era uma pessoa treinada em jurisprudência; treinada, isto é, em uma ciência que lida com direitos e deveres, e que, pelo menos em sua origem, aceitava conscientemente a orientação da Lei da Natureza e da Escritura. Devemos também admitir que no código penal real da maioria dos países na maior parte do tempo esses originais elevados foram tão modificados pelo costume local, interesses de classe e concessões utilitárias ao ponto de ser muito imperfeitamente reconhecível. Mas o código nunca esteve em princípio, e nem sempre de fato, além do controle da consciência da sociedade. E quando (digamos, na Inglaterra do século dezoito) punições reais conflitavam muito violentamente com o senso moral da comunidade, os júris se recusaram a condenar e a reforma foi finalmente provocada. Isto foi possível  porque, enquanto estivermos pensando em termos de Merecimento, a propriedade do código penal, sendo uma questão moral, é uma questão em que todo homem tem o direito a uma opinião, não porque ele segue essa ou aquela profissão, mas simplesmente porque ele é um homem, um animal racional desfrutando da Luz Natural. Mas tudo isso muda quando deixamos de lado o conceito de Merecimento. As únicas duas questões que podemos agora perguntar sobre uma punição são se ela dissuade e se cura. Mas essas não são questões sobre as quais qualquer um tem o direito de ter uma opinião simplesmente por ser um homem. Ele não tem o direito a uma opinião mesmo que, além de ser um homem, ele por acaso seja também um jurista, um Cristão e um teólogo moral. Pois elas não são questões sobre princípio, mas sobre assuntos de fato; e, para tais, quicam in sua arte credendum [latim: algo como “qualquer um, em sua arte/habilidade, acredite”]. Apenas o ‘penólogo’ especialista (deixemos coisas bárbaras terem nomes bárbaros), à luz de experimento anterior, pode nos dizer o que é provável de dissuadir: só o psicoterapeuta pode nos dizer o que é provável de curar. Será vão para o resto de nós, falando simplesmente como homens, dizer, ‘mas essa punição é medonhamente injusta, medonhamente desproporcional aos merecimentos do criminoso’. O especialista, com lógica perfeita, responderá, ‘mas ninguém estava falando sobre merecimentos. Ninguém estava falando de punição em seu sentido vingativo arcaico da palavra. Aqui estão as estatísticas provando que esse tratamento dissuade. Aqui estão as estatísticas provando que esse outro tratamento cura. Qual sua dificuldade?’

A teoria Humanitária, então, remove as penas das mãos de juristas a quem a consciência pública tem o direito de criticar e as coloca nas mãos de especialistas técnicos cujas ciências especiais nem ao menos empregam tais categorias como direitos ou justiça. Pode-se argumentar de que, como essa transferência resulta de um abandono da velha ideia de punição, e, portanto, de todos os motivos vingativos, será mais seguro deixar nossos criminosos em tais mãos. Não farei uma pausa para comentar sobre a visão simplória da natureza humana decaída que tal crença implica. Deixe-nos, em vez disso, lembrar que a ‘cura’ dos criminosos deve ser compulsória; e deixe-nos então assistir como a teoria realmente funciona na mente do Humanitário. O ponto de partida imediato desse artigo foi uma carta que li em uma de nossos semanais Esquerdistas. O autor estava suplicando que um pecado que um determinado pecado, hoje tratado por nossas leis como um crime, deveria doravante ser tratado como uma doença. E ele queixou-se que, sob nosso sistema atual, o infrator, após um tempo na cadeia, era simplesmente solto para retornar ao seu ambiente original, onde ele provavelmente teria uma recaída. O que ele queixou-se de não foi o fechamento [do preso na cadeia], mas o deixar sair. Em sua visão curativa da punição o infrator deveria, naturalmente, ser detido até que ele fosse curado. E, é claro que os endireitadores oficiais são as únicas pessoas que podem dizer quando isto é. O primeiro resultado da teoria Humanitária é, portanto, substituir uma sentença definitiva (refletindo até certo ponto o julgamento moral da comunidade sobre o grau de mal-merecimento envolvido) por uma sentença indefinida terminável somente pela palavra daqueles especialistas—e eles não são especialistas em teologia moral e nem mesmo na Lei da Natureza—que a infligem. Qual de nós, se estivesse no banco dos réus, não preferiria ser julgado pelo sistema antigo?

Pode ser dito que através utilização continuada da palavra punição e o uso do verbo ‘infligir’ eu estou deturpando os Humanitários. Eles não estão punindo, não infligindo, apenas curando. Mas não nos deixemos enganar por um nome. Ser levado sem minha permissão de minha casa e amigos; perder minha liberdade; ser submetido a todos esses ataques a minha personalidade que a psicoterapia moderna sabe bem como proporcionar; ser refeito em função de algum padrão de ‘normalidade’ chocado em um laboratório Vienense ao qual nunca professei fidelidade; saber que esse processo nunca terminará até meus raptores terem sucesso, ou até que eu me torne sábio o suficiente para enganá-los com sucesso aparente—quem se importa se isso é chamado Punição ou não? Que isso inclui a maior parte dos elementos pelos quais qualquer punição é temida—vergonha, exílio, servidão, e anos consumidos pelo gafanhoto—é óbvio. Apenas um enorme mal-merecimento poderia justificar isso; mas mal-merecimento é a própria concepção que a teoria Humanitária jogou fora.

Se nos voltamos agora da justificação curativa da punição para a dissuasiva, descobriremos a nova teoria ainda mais alarmante. Quando você pune um homem in terrorem [latim: para/sobre o medo], fazemos dele um ‘exemplo’ para outros, você está assumidamente usando-o como um meio para um fim; o fim de outra pessoa. Isso, por si só, seria uma coisa bem perversa de se fazer. Na teoria clássica da Punição isto era, é claro, justificado com o fundamento de que o homem o merecia. Isso era suposto estabelecido antes que qualquer pergunta de ‘fazer dele um exemplo’ surgisse. Você, então, como diz o ditado, matou dois coelhos com uma cajadada só [em inglês, dois pássaros com uma pedra; o sentido é o mesmo]; no processo de lhe dar o que ele merecia, você dava como exemplo aos outros. Mas retire o merecimento e toda a moralidade da punição desaparece. Por que, em nome dos Céus, eu devo ser sacrificado pelo bem da sociedade desta maneira?—a não ser, é claro, que eu mereça isso.

Mas isto não é o pior. Se a justificação da punição exemplar não deve ser baseada no merecimento, mas apenas em sua eficácia como um dissuasor, então não é absolutamente necessário que o homem que punimos deva ao menos ter cometido o crime. O efeito de dissuasão exige que o público capte a moral ‘Se fizermos tal ato nós sofreremos como aquele homem.’ A punição de um homem realmente culpado que o público acha inocente não terá o efeito desejado; a punição de um homem na realidade inocente irá, dado que o público ache-o culpado. Mas todo Estado moderno  tem poderes que tornam fácil fingir um julgamento. Quando uma vítima é urgentemente necessária para propósitos de exemplificação e uma vítima culpada não pode ser encontrada, todos os propósitos de dissuasão serão igualmente servidos pela punição (chame de ‘cura’ se preferir) de um homem inocente, dado que o público possa ser enganado a achá-lo culpado. Não adianta me perguntar por que eu assume que nossos governantes serão tão maus. A punição de um inocente, isto é, um homem não merecedor, é má apenas se concedermos a visão tradicional de que punição justa significa punição merecida. Após abandonarmos esse critério, todas as punições terão que ser justificadas, se de todo, com outros fundamentos que nada tem nada a ver com merecimento. Onde a punição de um inocente possa ser justificada com base nesses fundamentos (e poderia em alguns casos ser justificada como um dissuasor), não será menos moral que qualquer outra punição. Qualquer desgosto por ela da parte do Humanitário será meramente uma ressaca da teoria Retributiva.

É, de fato, importante ressaltar que meu argumento até agora não pressupõe nenhuma má intenção da parte do Humanitário e considera apenas o que está envolvido na lógica de sua posição. Minha contenda é que homens bons (não homens maus), agindo consistentemente sobre essa posição, iriam agir tão cruel e injustamente quanto os maiores tiranos. Eles podem em alguns aspectos agir até pior. De todas as tiranias, uma tirania sinceramente exercida pelo bem de suas vítimas pode ser a mais opressiva. Pode ser melhor viver sob barões ladrões [robber barons, plutocratas inescrupulosos] do que sob intrometidos morais onipotentes. A crueldade do barão ladrão pode algumas vezes dormir, sua cupidez pode ser em algum momento saciada; mas aqueles que nos atormentam para o nosso próprio bem nos atormentarão sem fim, pois eles o fazem com a aprovação de suas próprias consciências. Eles podem ser mais propensos a ir para o Céu, mas, ao mesmo tempo mais propensos a fazer da terra um Inferno. Sua própria bondade ferroa com insulto intolerável. Ser ‘curado’ contra sua vontade, e curados de estados que podemos não considerar como doença, é ser posto no mesmo nível daqueles que ainda não atingiram a idade da razão, ou daqueles que nunca irão; ser classificado com crianças, imbecis e animais domésticos. Mas ser punido, seja quão severamente, porque nós o merecemos, porque ‘devíamos saber melhor’, é ser tratado como uma pessoa humana feita  à imagem de Deus.

Na realidade, porém, devemos encarar a possibilidade de maus governantes armados com uma teoria Humanitária de punição. Um grande número de plantas [de projeto, blueprint] para uma sociedade Cristã são meramente o que os Elizabetanos chamavam ‘cascata’ [‘eggs in moonshine‘, prato elisabetano. Expressão usada de forma não literal; foi traduzida assim em sua ocorrência no Príncipe Caspian, de autoria de Lewis], porque elas assumem que a totalidade da sociedade é Cristã, ou que os Cristãos estão no controle. Esse não é o caso na maior parte dos estados Contemporâneos. Mesmo se fosse, nossos governantes ainda seriam homem decaídos, e, portanto nem muito sábios nem muito bons. Como é, eles geralmente serão descrentes. E já que a sabedoria e a virtude não são as únicas ou as mais comuns qualificações para um lugar no governo, eles normalmente não serão sequer os melhores descrentes.

O problema prático da política Cristã não é aquele de elaborar esquemas para uma sociedade Cristã, mas aquele de viver tão inocentemente quanto podemos com nossos companheiros súditos sob governantes descrentes que nunca serão perfeitamente sábios e bons e que algumas vezes serão bem maus e bem tolos. E quando eles são maus, a teoria Humanitária da punição colocará em suas mãos um instrumento de tirania melhor do que a malvadez já teve antes. Pois se crime e doença devem ser considerados a mesma coisa, segue-se que qualquer estado de espírito que nossos mestres escolherem chamar de ‘doença’ podem ser tratados como um crime; e compulsoriamente curados. Será inútil alegar que estados de espírito que desagradam o governo não precisam sempre envolver torpeza moral e, portanto, não merecem sempre a perda da liberdade. Pois nossos mestres não estarão usando os conceitos de Merecimento e Punição, mas aqueles de doença e cura. Nós sabemos que uma escola da psicologia já considera a religião como uma neurose. Quando essa neurose em particular se tornar inconveniente para o governo, o que impedirá  o governo de prosseguir para ‘curá’-la? Tal ‘cura’, é claro, será compulsória; mas sob a teoria Humanitária isso não será chamado pelo nome chocante de Perseguição. Ninguém irá nos culpar por sermos Cristãos, ninguém irá nos odiar, ninguém irá nos injuriar. O novo Nero irá se aproximar de nós com as maneiras sedosas de um médico, e embora tudo será de fato tão compulsório quanto a tunica molesta [latim: camisa irritante; método de execução por queima usado na Roma Antiga] ou Smithfield ou Tyburn [áreas da Inglaterra associadas à execuções], tudo irá ocorrer dentro da esfera terapêutica sem emoção na qual palavras como ‘certo’ e ‘errado’ ou ‘liberdade’ e ‘escravidão’ nunca são escutadas. E de tal forma, quando o comando for dado, todo Cristão proeminente na terra poderá desaparecer noturnamente em Instituições para o Tratamento dos Ideologicamente Doentios, e recairá sobre os carcereiros especialistas dizer quando (se algum dia) eles irão reemergir. Mas não será perseguição. Mesmo que o tratamento seja doloroso, mesmo que seja vitalício, mesmo que seja fatal, tudo isso será apenas um acidente lastimável; a intenção era puramente terapêutica. Na medicina comum haviam operações dolorosas e operações fatais; igualmente nisto. Mas, porque eles são ‘tratamentos’, não punição, eles podem ser criticados apenas por colegas especialistas, e apenas em bases técnicas, nunca por homens como homens e com bases na justiça.

É por isso que acho essencial se opor a teoria Humanitária da punição, raiz e ramos, onde quer que a encontremos. Ela carrega em sua fronte um semblante de misericórdia que é completamente falso. E assim que ela engana homens de boa vontade. O erro começou com a afirmação de Shelley de que a distinção entre misericórdia e justiça foi inventada nas cortes de tiranos. Soa nobre, e foi de fato o erro de uma mente nobre. Mas a distinção é essencial. A visão mais velha era de que a misericórdia ‘temperava’ a justiça, ou (no nível mais alto de todos) que a misericórdia e a justiça tinham se encontrado e se beijado. O ato essencial da misericórdia era perdoar; e perdoar em sua própria essência envolve o reconhecimento de culpa e mal-merecimento no recipiente. Se o crime é apenas uma doença que precisa ser curada, não um pecado que merece punição, não pode ser perdoado. Como você pode perdoar um homem por ter um abcesso dentário ou um pé torto? Mas a teoria Humanitária quer simplesmente abolir a Justiça e substituí-la pela Misericórdia. Isto significa que você começa sendo ‘gentil’ para as pessoas antes de você ter considerado seus direitos e  então força sobre elas supostas gentilezas que ninguém além de você irá reconhecer como gentilezas, e cujo recipiente irá sentir como crueldades abomináveis. Você extrapolou o objetivo [overshot the mark]. A Misericórdia, separada da justiça, se torna imisericordiosa. Esse é o paradoxo importante. Assim comohá plantas que irão florescer apenas em solo montanhoso, da mesma forma parece que a Misericórdia florescerá apenas quando ela cresce nas fendas da rocha da Justiça; transplantada para os pântanos do mero humanitarismo, torna-se uma erva daninha devoradora de homens, ainda mais perigosa porque ainda é chamada pelo mesmo nome que a variedade da montanha. Mas deveríamos há muito ter aprendido nossa lição. Nós deveríamos agora ser velhos demais para sermos enganados por essas pretensões humanitárias que têm servido para iniciar cada crueldade do período revolucionário no qual vivemos. Estes são os ‘bálsamos preciosos’ que irão ‘quebrar nossas cabeças’.

Há uma boa frase em Bunyan: ‘Me veio queimando na mente a ideia de que, apesar do que ele disse, e por mais que me bajulasse, quando ele me levasse para sua casa, me venderia como escravo.’ Há um bom dístico, também, em John Ball:

‘Cuidado antes do aflito

Saiba [diferenciar] seu amigo do seu inimigo.’

[Descobri o que “ye be woo” significava perguntando na internet, “woo” seria “woe” e “ere” seria “before”. O original era ‘Be ware ere ye be woo; Know your friend from your foe.‘, escrito em um inglês de séculos atrás. O atual seria algo como “Beware before you woe”. Basicamente: tenha cuidado antes de se arrepender/sofrer/dizer ai, saiba distinguir amigos e inimigos]

Uma última palavra. Você pode perguntar porque eu enviei isto para um periódico australiano. A razão é simples e talvez valha a pena registrar; não consigo audiência para ele na Inglaterra.

C.S. Lewis (1898-1963) era um ensaísta, novelista e poeta, e na faculdade de Magdalen College, Oxford, quando ele escreveu esse artigo.

*Reimpresso de C.S. Lewis (1949), A teoria humanitária da punição, The Twentieth Century: An Australian Quarterly Review, 3 (3), 5-12

 

Fonte: https://conservadorismopolitico.wordpress.com/2014/11/15/a-teoria-humanitaria-da-punicao/

Leia o artigo de Juan Esteban Londoño B.

Leer Las Crónicas de Narnia desde una experiencia de fe es una experiencia enriquecedora, llena de máscaras y de sombras, de seres ocultos que se van desocultando poco a poco, de aguas divinas de las cuales sale voz en el momento adecuado. Pero leer Las Crónicas de Narnia desde nuestra realidad latinoamericana de la fe se hace más mágico aún, pues encontramos un llamado y un compromiso, una invitación a adentrarnos al armario lleno de nieve para traer esa experiencia de fe y de vida a nuestras cimas andinas, a nuestros llanos y a nuestras costas caribeñas, y poder convertirnos en narnianos y en narnianas para nuestra realidad latinoamericana, en cristianos y cristianas comprometidos con la fe y con la realidad que vivimos.

  1. Leer desde nuestro contexto

Leer desde nuestro propio contexto de vida, desde nuestras propias circunstancias es lo que se llama una lectura hermenéutica. Los textos literarios nos ofrecen una multiplicidad de sentidos, y el trabajo hermenéutico consiste en leer desde nuestra propia realidad y para nuestra propia realidad el significado de los textos.

Los libros son incompletos hasta que los leamos desde nuestras propias realidades. Re-construyendo sus intenciones originales y re-construyendo también nuestras propias experiencias de vida y de fe, podemos hacer que los textos hablen para nuestras situaciones.

Un ejemplo de este ejercicio hermenéutico se da en la lectura que hace Elsa Tamez de la carta 1 Timoteo (Luchas de poder en los orígenes del cristianismo). Esta biblista y teóloga mexicana propone leer la carta a partir de una reconstrucción de la situación del autor y de sus lectores, comprender histórica y culturalmente por qué se afirma tal o cual cosa, y luego tener la libertad de interpretarla para nuestras situaciones de vida, teniendo en cuenta que no necesariamente se presentan los mismos problemas, y por lo tanto buscar opciones viables y posibles para experimentar el evangelio de Jesús en nuestras propias situaciones. Esta es una lectura inculturada, que cree que la voz del Dios solidario es eterna y viva, y que debe discernirse en la historia y en la experiencia de vida que tenemos hoy. Este es el mismo procedimiento que podremos emplear para hacer un recuento de las ideas fundamentales de Las Crónicas de Narnia.

  1. Narnia

Las Crónicas de Narnia son siete libros que C.S. Lewis escribió en un período relativamente corto. Su intención era enseñar los principios del evangelio a los niños y las niñas. Evidentemente esos principios del evangelio estuvieron permeados por lo que Lewis comprendía por “evangelio”. A decir verdad, un evangelio muy occidentalizado, cargado con un trasfondo de filosofía platónica, y de cultura europea. Siguiendo la línea de pensamiento de Theo Donner, es una lástima Lewis no hubiera aprendido hebreo, pues su teología está muy cargada de filosofía helenista y tiene poco de un trasfondo judío, más material, más realista y más social, que es el trasfondo en el que se escribió la Biblia.

Sin embargo, Narnia nos ofrece unos elementos muy importantes para interpretar, celebrar y evaluar críticamente nuestra fe. Unos de estos elementos son:

  • La creación: El sobrino del Mago, primer texto en orden cronológico de la obra de Lewis, enfatiza una creación que bendice y dignifica no solamente a las criaturas humanas, sino a los animales, a las plantas, los minerales y la tierra. Un excelente aporte para una lectura cósmica de la fe y la salvación.
  • La salvación: El León, la Bruja y el Armario habla de la salvación de toda la creación, de toda la tierra de Narnia, gracias a la muerte de Aslan en lugar de un ser humano pecador. Lewis hace una reflexión llena de lucidez sobre la muerte del León que nos permite pensar en el amor de Dios para perdonar a pecadores y pecadoras y restaurar su relación con la humanidad.
  • La consumación: La última Batalla nos presenta el fin de todas las cosas, que consiste en el principio mismo, en la nueva creación, en la re-creación en que no hay sufrimiento ni dolor, ni llanto, en que toda la creación será renovada en un mundo de justicia y dignidad. Se trata de una lectura desde la esperanza, a partir del futuro, en el que se debe basar nuestro caminar, para poder trabajar por el presente y comenzar a construir ese futuro a partir de nuestro presente como anuncio del Reino de Dios.

Estos tres elementos son importantes para hacer una lectura contextualizada de esta obra, y replantearle a ella, como replantearnos a nosotros estos elementos fundamentales de nuestra fe.

  1. Implicaciones para la lectura de Narnia desde nuestro contexto

Paul Ricoeur dice que la lectura de los textos se da a partir de la lectura del mundo del autor con el mundo del lector, lo que Gadamer ha llamado “encuentro de horizontes”. La función simbólica de la literatura mítica es poder descubrir, revelar, el vínculo del ser humano con lo que para él es sagrado. La manifestación del símbolo es una matriz de significaciones simbólicas en forma de palabras que se viven y se experimentan en el rito, en la celebración del culto. Así, el símbolo, y el mito en cuanto instancia simbólica es verdad y no una mera reducción a mentiras, pues comunica un sentido y oculta una intencionalidad analógica para un segundo sentido. Y el elemento de una lectura simbólica es muy importante en nuestra era posmoderna, pues los y las jóvenes comprenden a través de la imagen onírica, la imagen simbólica, más que desde los conceptos tradicionales y metafísicos.

En mi experiencia eclesial, he notado cómo un libro como El Señor de los Anillos de Tolkien, o Las Crónicas de Narnia de C.S. Lewis, pueden internarse con más profundidad en el corazón de la generación posmoderna y ayudarle a experimentar la fe de una manera viva y comprometida.

Esta verdad simbólica reflejada en Narnia la podemos leer desde América Latina de una forma muy enriquecedora. Pienso que el aporte fundamental que hace Narnia lo hace a nuestra propia forma de leer. C.S. Lewis habla de un León, y permite que los lectores reconstruyan en sus propios imaginarios de quién se trata. De igual manera refleja unos valores fundamentales para el cristianismo que pueden ser re-construidos y re-leídos a partir del universo simbólico de los lectores y las lecturas en distintas partes del mundo. Esto es enriquecedor al leer la Biblia, pues entonces comprendemos la dimensión de textos simbólicos como los primeros capítulos del Génesis o el libro de Apocalipsis, que no se reducen a la mera recopilación de datos históricos sino que nos abren panoramas simbólicos para que leamos nuestra realidad en ellos. Podemos entonces comprender con el primer capítulo del Génesis que Dios ha avergonzado los relatos babilónicos y sumerios, mantenedores de órdenes políticos de pecado y esclavitud, y ha creado a los astros (que por las culturas cercanas a Israel eran considerados dioses), y además ha creado al ser humano para la libertad y el descanso sabático y no para la esclavitud a los reyes o a los sacerdotes (como lo cuenta el relato babilónico del Enumah Elish).

Si hacemos una re-lectura de la obra de Narnia para nuestra realidad latinoamericana, podríamos enriquecerla a partir de la literatura fantástica. Este ejercicio tan sólo es mi aproximación personal. Considero que si otras personas lo hacen, encontrarán muchas más riquezas y podrán re-crear el texto desde nuevos horizontes de lectura, eso sí en consonancia con el evangelio de Jesús de Nazaret, con la experiencia del Espíritu Santo y la fe en el Dios de la vida; y posiblemente en disonancia con muchas tradiciones religiosas, posturas teológicas, y hasta con el mismo Lewis en su interpretación narrativa de la fe cristiana. Algunos de estos elementos son:

  • El compromiso de los y las creyentes con el cuidado y la manutención de toda la creación:Cuando Aslan llama a los hombres y las mujeres, a los niños y a las niñas, incluso a los animales que hablan y a los seres de los bosques para que cuiden de la Creación y no la maltraten, es posible leerlo desde nuestra realidad latinoamericana y mundial en pro del bienestar del Universo. Debemos recordar que somos los mayordomos y las mayordomas de la Creación, que debemos también rendir cuenta a Dios por ella y que la Creación es buena, por lo que la debemos cuidar.
  • La participación activa de los y las creyentes en la salvación: Si bien Aslan muere en lugar de Edmundo y de todos los pecadores de Narnia, no es una muerte para que los narnianos se queden de manos cruzadas, esperando que derrote también a la Bruja él solo. De igual manera, los cristianos y las cristianas debemos participar activamente en la salvación que ya tenemos, viviéndola, con una ética radical, con un compromiso de seguimiento de Jesús inamovible, que no sólo demuestre nuestra salvación sino que también actúe para la salvación de todas las personas.
  • La participación de los y las creyentes en la lucha contra el mal: En todos los libros de Narnia, se muestra cómo los personajes luchan contra las estructuras del mal, sin sentarse simplemente a cantar y a orar, sino comprometiéndose activamente contra el dominio de la Bruja y sus secuaces. En nuestro tiempo, también es fundamental que los cristianos y las cristianas nos comprometamos a luchar contra Satanás y sus manifestaciones, tales como las estructuras de pecado políticas, sociales, económicas e ideológicas, que buscan aplastar la dignidad humana, y erigir a personalidades fuertes y ricas por encima de los pequeñitos y los pobres. Por esto la iglesia debe mantener su papel profético y denunciar el pecado manifestado en las estructuras, a la vez que hacer propuestas creativas, edificantes y buenas no sólo para el bienestar de las iglesias sino también de todas las personas, creyentes y no creyentes, que también son criaturas de Dios.
  • La victoria de los pequeñitos y las pequeñitas en contra de las grandes estructuras de poder: Es interesante notar que en Narnia, al igual que en El Señor de los Anillos de Tolkien, la lucha más fuerte aunque menos vistosa es la de los pequeñitos y las pequeñitas. Es la lucha en la obediencia a Dios contra el pecado, pero también en la oposición a las políticas de los malos, a las imposiciones de los dictadores, es la lucha especialmente no-violenta, pero sí ética, para derrocar a los poderes opresores. Este es el llamado que también tienen las iglesias, las cuales no se deben asumir con la reina del mundo, sino como la Iglesia peregrina, como aguas subterráneas, que con su día a día de seguimiento radical de Jesús y compromiso, debe debilitar las estructuras de pecado, de racismo, de clases sociales, de resentimiento y de manipulación ideológica.
  • La esperanza en el futuro como compromiso por el presente: En La última batalla, dice el autor que la primera Narnia desapareció, pero que todo lo bueno que en ella se construyó y se vivió va a estar en la segunda Narnia, la Narnia verdadera. Esto es importante para nuestra lectura porque no nos permite despreciar la vida presente ni nuestro trabajo comprometido por anunciar el Reino de Dios con acciones además de con palabras. De esta manera, el futuro es nuestro horizonte de esperanza, pero no un horizonte para despreciar el presente, sino precisamente para valorarlo, para anunciar el mundo venidero con acciones, compromisos de justicia social y ecológica y así dar razón de nuestra esperanza.
  • La experiencia simbólica de la fe y nuestra manera de leer la realidad: Narnia permite a los lectores leer de otras maneras. Aunque Lewis se vale de la alegoría para narrar, su intención es fundamentalmente simbólica. Quien lee a Narnia tiene ahora la capacidad simbólica de leer muchos textos difíciles de la Biblia, y comprender el hablar de Dios a través de ellos. También puede experimentar simbólicamente su fe y comprenderse como un narniano o una narniana viviendo la batalla ética contra el mundo dominado ideológicamente por el mal, al cual hay que desenmascarar y ante el cual hay que proponer maneras alternativas de vivir, erigiendo como modelo fundamental la vida, ética y enseñanzas de Jesús de Nazaret, nuestro Señor y Salvador.

Fonte: http://recursosteologicos.org/Documents/Narnia.htm