De G.K. Chesterton

Trad. Gabriele Greggersen

Daily News, 1909

Possivelmente os apreciadores do Sr. Bernard Shaw e muitos autores modernos ficariam interessadíssimos em saber: o Super-homem[1] foi localizado. Fui eu que o encontrei; ele mora na cidade inglesa de South Croydon[2]. O Sr. Shaw que seguia uma pista completamente falsa e está agora procurando a criatura na cidade de Blackpool[3]; e no que diz respeito à idéia do Sr. Wells, de produzi-lo no seu laboratório particular à base de diferentes combustíveis, sempre tive a intuição de que estava fadada ao fracasso. Posso assegurar ao Sr. Wells que o Super-homem de Croydon nasceu pelo método ordinário, embora ele mesmo evidentemente seja tudo, menos ordinário.

Seus pais também não são menos indignos do ser maravilhoso que eles puseram neste mundo. O nome da Madame Hypatia[4] Smythe-Brown (chamada hoje de Madame Hypatia Hagg[5]) jamais será esquecido no Extremo Oriente, onde ela realizou um trabalho social deveras magnífico. O seu brado retumbante, “salvem as crianças!”, referia-se ao atroz pouco caso dado à sensibilidade visual das crianças, que tinham a abusiva permissão de brincar com brinquedos escandalosamente coloridos. Ela citava estatísticas irrefutáveis de que as crianças freqüentemente expostas à visão de cores violetas e rubras, passavam a sofrer de vista cansada quando chegam a uma idade extremamente avançada. Isso representava parte relevante da sua incansável luta por livrar-se da pestilência destes charlatães travessos de Hoxton[6].

Todo trabalhador honesto deveria varrer as ruas incansavelmente atrás de brinquedos assim, e arrancá-los das pobres criancinhas, que usualmente respondem com lágrimas de comoção diante de tanta gentileza. Mas a obra de caridade da madame teve que ser interrompida, em parte pelo seu mais novo interesse pela crença no Zoroastro, mas também por um golpe violento de guarda-chuva. O mesmo foi dado por uma camponesa irlandesa decadente, que, ao voltar ao seu maltratado apartamento de alguma de suas orgias, pegou a Madame Hypatia no quarto de dormir, removendo uma pintura a óleo da parede, que ela considerava  francamente, não contribuir em nada para a elevação do seu espírito.

Diante disto a celta ignorante e parcialmente embriagada deu um golpe violento na reformadora social, acrescentando a isto uma acusação de roubo absurda. A normalmente tão equilibrada madame ficou de mente abalada. Foi durante um breve período de doença mental dessas que ela foi se casar com o Dr. Hagg.

Do próprio Dr. Hagg, espero não ter que falar. Qualquer pessoa minimamente familiarizada com os audazes experimentos de Eugenética Neo-Individualista, que se tornaram agora o assunto mais “quente” da democracia inglesa, deve ter ouvido falar neste nome, atribuindo-o muitas vezes à sua proteção profissional e poder impessoal. Já desde cedo ele defendia uma postura que lhe foi incutida na infância de engenheiro elétrico e que a história das religiões considera primitiva. Mais tarde, ele se tornaria um dos nossos maiores geólogos. Acabou, assim, desenvolvendo uma visão de mundo radiante em relação ao futuro do socialismo, que só a geologia pode proporcionar. A princípio, parece haver algo semelhante a uma brecha, uma sutil, mas perceptível fissura entre as suas idéias e as da sua esposa aristocrática.

Pois ela era a favor (para usar suas próprias palavras pomposas) da proteção dos pobres contra eles mesmos; enquanto ele declarava impiedosamente, usando uma nova e impressionante metáfora, que os mais fracos deviam ser fuzilados. No final das contas, entretanto, depois de selado o matrimônio, o casal deu-se conta de sua unidade essencial, pelo caráter inequivocadamente moderno de ambas as visões de mundo. Com isto suas almas encontraram a paz nesta expressão iluminadora e abrangente. O resultado foi que esta união entre as duas manifestações mais altas de civilização, da encantadora madame e do nada ordinário doutor, foi abençoada pelo nascimento do Super-homem, aquele ser que todos os trabalhadores de Battersea estavam aguardando dia e noite ansiosos.

Não foi nada difícil achar a casa do doutor e da Madame Hypatia Hagg; ela se situa numa das ruas menos remotas de Croydon, sendo vigiada de perto por uma galeria de árvores. Aproximei-me da porta em meio à penumbra. Era natural que eu imaginasse um vulto escuro e monstruoso na vastidão turva daquela casa que deveria supostamente abrigar a criatura mais maravilhosa entre os filhos dos homens. Quando eu entrei na casa, fui recebido com distinta cortesia pela Madame Hypatia e seu marido. A dificuldade maior foi chegar a ver o Super-homem de fato, que já estava com aproximadamente quinze anos de idade, sendo mantido isolado em um quarto silencioso. A conversa que mantive com o seu pai e sua mãe não esclareceu muita coisa, nem mesmo sobre o caráter daquele misterioso ser. O rosto de Madame Hypatia era pálido e penetrante, coberto por uma camada de maquiagem acinzentada e esverdeada intocável e cruel, com a qual ela iluminava tantos lares de Hoxton. Ela nem o quis expor, para falar do seu rebento com a vaidade vulgar de uma mãe humana ordinária. Dei um passo à frente e perguntei, se o Super-homem era bonito.

– Ele faz o seu próprio estilo, sabe? – respondeu ela, com um olhar de desdém. – Neste aspecto, ele é superior a Apollo. Isto, visto do nosso plano inferior, é claro… – E voltou a assumir aquele olhar.

Senti um ímpeto terrível e perguntei sem rodeios:

– Ele é careca?

Houve um longo e doloroso silêncio, e então Dr. Hagg disse diretamente:

– Naquela dimensão tudo é diferente, no caso dele … bem, é claro que não se trata do que chamamos de cabelo … mas …

– Você não acha – disse a esposa com ternura – não concorda que, na realidade, para efeitos didáticos, ao falarmos com gente simples, não devíamos chamá-lo de cabelo mesmo?

– Talvez você esteja certa, – disse o doutor depois de alguns minutos de reflexão- para falar de cabelos como aqueles é precisamos usar parábolas.

– Mas, o que mais, poderia ser – perguntei eu com certa irritação – se não ser, cabelo? Seriam penas?

– Não se trata de penas, no sentido que nós costumamos entender,- respondeu Hagg  com uma voz horrível.

Eu fiquei um tanto irritado.

– Será que eu posso ao menos vê-lo? – perguntei – Sou um jornalista, e não tenho nenhum interesse sobre a face da Terra, a não ser a mais pura curiosidade e vaidade pessoal. Só queria poder dizer a todos que já apertei a mão ao Super-homem.

O marido e a esposa puseram-se de pé num salto e ficaram paralisados com ar embaraçada.

– Bem, sabe como é – disse Madame Hypatia, com aquele sorriso de fato charmoso de anfitriã aristocrática. – Você deve entender que ele não tem exatamente como lhe dar a mão … ele não tem propriamente mãos, entende? … É claro que a estrutura…

Com isso, eu rompi com todos os padrões sociais e corri para a porta do quarto, onde supunha encontrar a inacreditável criatura. Eu a arrombei; o quarto estava escuro feito breu. Bem à minha frente eu ouvi um uivo pequeno e triste, e pelas costas, um duplo grito estridente.

– Veja só o que você aprontou! – choramingou Dr. Hagg, enterrando a testa calva nas mãos. – Você deixou entrar uma corrente de vento e agora, ele está morto.

Ao deixar a cidade de Croydon naquela noite eu vi homens de preto, carregando um caixão que não tinha forma humana. O vento soprava sobre mim, movimentando as árvores, de modo a se inclinavam de um lado para o outro, como plumas de algum funeral cósmico.

– É isso mesmo,- disse o Dr. Hagg, -o universo todo está chorando em virtude frustração da mais magnífica natividade.

Cá comigo eu achei que havia um tom de riso debochado no fundo do lamento nobre do vento.

[1] N.T. Evidentemente o autor não está se referindo aqui ao personagem de Hollywood que data dos anos 60, e sim do Sobre-homem ou Super-homem, como foi adotado nas traduções mais tardias de Friedrich Nietzsche, “Prólogo de Zarathustra” Assim falou Zarathustra (1883) e na obra de Bernard Shaw, Homem e Super-Homem. Evidentemente Chesterton está aqui fazendo outra das suas famosas provocações ao seu arqui-inimigo literato, Shaw, ainda que fosse seu amigo na prática.

[2] N.T. Trata-se de uma cidade em Surrey, Inglaterra.

[3] N.T. A cidade é reconhecidamente a capital do entretenimento da Grã-Bretanha.

[4] N.T. O nome é o mesmo da primeira mulher grega (350–370 d.C.)  a se destacar na matemática, que vivia na Alexandria sob o império romano. Era também filósofa neo-platônica e astrônoma.

[5] N.T. “Hag” com um “g” somente significa bruxa, velha malvada.

[6] N.T. Cidade próxima a Liverpool, Inglaterra.

Texto-Fonte disponível: <http://www.cse.dmu.ac.uk/~mward/gkc/books/HIFTS.html>. Acesso 07 Set. 2012.

por G.K. Chesterton

trad. De Gabriele Greggersen

De certa forma, essa é a era da supremacia da educação. Por outro lado, é suprema e especialmente uma era deseducativa. Trata-se de uma era em que pela primeira vez se estabeleceu o direito do governo de ensinar as crianças de todo o mundo. Trata-se também da era em que pela primeira vez se negou o direito do pai de ensinar as suas próprias crianças. Trata-se da era em que os empiristas desejam honestamente ensinar alguma coisa ao alegre menino de rua: até mesmo a criminologia e Equilíbrio Cósmico e o sistema Maya de ritmo decorativo. Mas também se trata de uma era em que filósofos honestos estão realmente duvidando, se é correto ensinar tudo a todos; até mesmo como evitar envenenar-se ou cair em precipícios.

Mas a dificuldade prática da nossa educação presente é até pior. É uma tentação conduzir um processo que acabou produzindo um mundo que incessantemente interrompe e reverte esse processo. Educação é iniciação; trata-se de um progresso de uma coisa para a outra; o arranjo de certas idéias em certas outras. Uma criança aprende a nadar antes de aprender a saltar; ela aprende o seu próprio alfabeto antes de aprender o alfabeto grego. Ou, se algum educador reverter esse processo agora, ele tem que ter ao menos uma razão para revertê-lo e, por isso mesmo, terá que recusar-se a reverter o reverso. Mas a vida real do nosso tempo reverte tudo e não tem razão para nada. O mundo real que ruge em torno do pobre pequeno menino de rua, quando ele vai para a escola é um mundo absolutamente anti-educacional. Se a escola está de fato oferecendo alguma educação, o mundo estará certamente engajado dia e noite em arruinar a sua educação. Pois o mundo lhe dá coisas de qualquer jeito, de qualquer maneira, com qualquer resultado; o mundo lhe dá coisas, sem que ele saiba que as está recebendo; o mundo lhe dá coisas que eram destinadas a outra pessoa; o mundo joga coisas em cima dele da manhã até a noite, de forma bastante cega, louca e sem sentido ou objetivo; e esse processo, não importa o que mais possa ser, é precisamente o oposto do processo de educação.O menino de rua gasta mais ou menos três quartos do seu tempo para se deseducar. Ele foi educado pelo sistema moderno de ensino público. Ele foi deseducado pelo estado moderno.

Pois, como eu me aventurei de sugerir muito delicadamente, o Estado moderno está num estado deplorável. É o próprio caos e contradição produzidos por aquela raça muito desequilibrada que produziu o seu próprio oposto numa espécie de confusão contínua. Os educadores têm a tarefa de pôr a escola em ordem, antes de qualquer um pôr o Estado em ordem. É questionável se devemos pôr o Estado em ordem, antes que seja possível ter-se realmente algo parecido com uma escola pública. Mas eu não discutirei meus próprios remédios aqui, que envolveriam alusões indecentes a uma terceira coisa, chamada Família; que hoje jamais é mencionada nos círculos respeitáveis.

 

“On education”, em Gilbert Magazine, Minneapolis: G.K. Chesterton Institute, v. 7, n. 2, 2003. (oct/nov)

 

de George MacDonald

Trad. Gabriele Greggersen

O velho Ralf Rinkelmann ganhava a vida com a apresentação de pequenas peças de comédia. E gastava quase tudo novamente para financiar os seus poemas trágicos. Então ele era o homem ideal para ser eleito rei do mundo das fadas, pois no reino das fadas deve haver eleições para a escolha o governante.

Mas elas não tinham a intenção de o obrigar a vier morar ali de vez; pois elas precisavam da sua presença só em ocasiões especiais. Entretanto era preciso, antes de tudo, achar um meio de traze-lo para a sua coroação. Uma vez que o coroassem, elas poderiam dispor dele, o quanto lhes aprouvesse, mas havia um probleminha a ser resolvido antes da cerimônia. Pois as fadas só têm poder para transportar os mortais em idade adulta para o seu país em situações de vida ou de morte. Assim, elas tiriam que esperar até que surgisse alguma boa oportunidade.

Por sorte elas não tiveram que aguardar muito tempo. Pois o velho Ralf ficou extremamente doente; e enquanto ele pairava entre a vida e a morte, elas aproveitaram para transportar e coroar o rei do Mundo das Fadas. Só que é evidente, levando em conta o seu estado de saúde, que ele não teria condições de ficar assentado no seu trono no momento seguinte. E com isso, muitos seres terríveis e maldosos, como gnomos e duendes, que vivem nos buracos e cantos do reino, tiraram proveito do seu estado, fazendo-se de loucos, fazendo todo o tipo de arte com ele, embora já fosse o seu rei. Ficavam zombando do seu reinado, subindo e descendo as escadas. Eles chegaram até a arranha-lo e roer as suas orelhas e olhos, feito ratos, de modo que ele não pudesse ver, nem pensar em mais nada. Mas, para já, preciso contar outro detalhe importante nesta parte das suas aventuras. Graças à sua enorme dedicação e esforço legítimo, depois enfrentar outros tantos problemas e sofrimentoa, ele acabou conseguindo domar os seus súditos rebeldes, fazendo tudo voltar à vida normal. Aqueles seres foram se esconder em seus respectivos cantos e buracos. E quando voltou à realidade humana, o rei Ralf viu-se devolta no seu leito, escorado em seus travesseiros.

Mas o quarto continuava cheio de criaturas obscuras, que pulavam em redor, surtindo efeitos estranhos à luz do fogo. Isso fez com que ele suspeitasse a princípio até, que alguns daqueles duendes rebeldes não foram totalmente subjugados, e que resolveram segui-lo para lá dos limites do Mundo das Fadas, até a sua casa, que se situava em Londres. Que outra explicação poderia haver para o fato desses monstrinhos malucos e brutos estarem o aterrorizando assim Ralf Rinkelmann no seu quarto? Mas ele descobriu logo que, embora eles fossem iguaizinhos àqueles duendes subterrâneos, por outro lado, eles também eram bem diferentes, e demandariam um tratamento bastante diferenciado. Ele estava convencido de que eles haviam aceitado submeter-se à condição de súditos, mas que ele devia tê-los ofendido de alguma forma no dia da sua coroação, se é que eles estavam realmente presentes; pois ele não conseguia lembrar de já ter visto seres semelhante a eles antes. Daí que ele tivesse resolvido, dar uma atenção redobrada aos seus hábitos, formas e caráter; do contrário, ele tinha plena consciência disso. Dentro em breve eles acabariam por subir à sua cabeça; pelo menos era o que esta invasão dos seus aposentos, onde a Sra. Rinkelmann claramente anunciava. Eles nem sequer tiveram em conta a presença da esposa dele, que afinal de contas, se ele era o rei, era a rainha, tomando o seu chá ao lado do fogo. Mas ela notou que ele estava olhando ao redor com uma das expressões de rosto mais serrenas que ela havia visto, por todos aqueles dias. Agora ele já ia de lá para cá rápida e silenciosamente, com seu rosto radiante de alegria. Neste meio tempo, à medida que o fogo ardia, cada vez mais animado, o comportamento das aparições ia ficando mais e mais retraído e formal, recolidas contra a parede, como serviçais bem treinados. Depois de servir-se de um pouco de chá e torradas, o rei do reino das fadas reclinou-se nas suas almofadas, e já ia pegar no sono; mas não conseguia ter descanso, pois continuava observando os invasores.

No momento em que a rainha saiu da sala para servir chá aos seus anjinhos; o fogo começou a ficar mais fraco; e era possível observar as figuras ficarem gradativamente mais escuras, e cada vez mais desvairadas, aprontando das suas, como de costume! Ao que parecia suas brincadeiras favoritas eram de esconde-esconde; estátua; queimada e muitas outras do gênero; e não era só isto; de modo que a situação foi se tornando cada vez mais alarmante. A situação estava quase tão grave quanto, se a casa tivesse sido invadida por criaturas, que não são mencionadas nem sequer nos contos de fada, já que o reino das fadas, no que depender dele, não quer ter nada a ver com eles.

Ainda bem que ao menos eles estão usando *sapatos, disse o rei a si mesmo, pois ele estava com dor de cabeça.

Então ele se deitou, com os seus olhos semicerrados, já cansado demais para prestar atenção nas brincadeiras, mas sentindo-se ao mesmo tempo, de uma maneira geral, muito mais distraído, do que propriamente ofendido com toda essa liberdade que elas se concediam. Pois, na verdade, as criaturas pareciam alegres e de boa índole, e não realmente mal intencionadas. Foi então só que ele se deu subitamente conta de que duas delas se destacavam na parede, dando um passo à frente. Pois à moda da maioria dos insetos, a grande maioria daquelas criaturas preferia espalhar-se por todos os lados. Mas naquele momento, elas se postaram no meio do corredor, aos pés da cama de vossa majestade, curvando-se para reverenciar e exalta-lo num dos mais primitivos gestos de cortesia; e, de quando em quando, eles se viravam com ar solene formando uma roda, evidentemente supondo que este gesto seria o maior sinal de respeito que alguém seria capazes de demonstrar.

  • O que é que vocês desejam?
  • Que vossa majestade nos faça o favor de nos dar mais atenção. – responderam eles. – Somos seus súditos, vossa majestade.
  • Eu sei muito bem quem vocês são: e isto me deixa muito contente.
  • Mas nós não somos o que vossa majestade está supondo que sejamos. Não somos tão estúpidos, quanto vossa majestade nos considera.
  • Não consigo associar vocês a qualquer coisa que eu já tenha visto antes – replicou o rei, que queria fazê-los falar, dizendo a primeira coisa que lhe viesse à mente- vocês não conseguem ficar suficientemente parados e quietos no lugar para que eu pudesse considerá-los soldados, marinheiros ou qualquer coisa do tipo. Suponho que, na verdade, vocês devem pertencer à brigada de incêndio, pelo menos eu os vejo o tempo todo apagando fogo.

– Pedimos que não brinque conosco, vossa majestade, por favor.

E foram estas as suas palavras, pois ambos falavam ao mesmo tempo ao longo de toda a entrevista, o que fazia o rei ficar profundamente deprimido.

– Não estou brincando – contestou ele – muito menos com vocês! Vocês é que não param de se divertir às minhas custas. Vocês são o quê, afinal?

– Somos sombras, senhor. E, se é que estamos brincando, as nossas brincadeiras sempre tem um lado sério. Mas talvez vossa majestade não esteja conseguindo nos reconhecer com clareza.

– Eu os vejo perfeitamente bem – replicou o rei.

– Permita-me, contudo – retrucou uma das sombras; e na medida em que ela falava, aproximava-se gradativamente do rei, até que, levantando o seu tenebroso dedo indicador, passou-o de leve, e com todo o cuidado, por cima de toda a superfície enrugada da sua testa. O rei sentiu o toque escorrendo suavemente feito água para dentro de todos os seus poros, inundando até os cumes das cordilheiras dos seus pensamentos. Ele havia involuntariamente fechado os olhos durante o, e quando ele os abriu novamente, assim que o dedo se afastou, teve a sensação de que num outro sentido ele os havia mantido é bem abertos. As paredes do quarto pareciam ter se expandido por todos os lados, até perder de vista, de modo que ele já não podia mais distinguir onde elas se encontravam exatamente; e as sombras permaneciam imóveis espalhadas por todo o campo. Elas eram altas e pomposas, mas, na realidade tinham uma aparência bastante assustadora, apesar de elas terem alguns traços bem grosseiros, muito semelhantes aos dos puritanos da época da reforma, com seus braços e pernas extremamente compridos e finos, dos quais pendiam grandes e pés soltos. Já nos seus rostos compridos o que se destacava eram o queixo e o nariz. A solenidade de sua aparência, entretanto, sobrepujava toda a peculiaridade da sua forma, de modo que no fundo, qualquer um ficaria  encantado em olhar para elas, vestidas assim de preto como que para um funeral. Mas o rei só teve permissão de dar uma só olhada, pois naquele instante, uma das sombras tapou os seus olhos com as suas mãos tenebrosas, de modo que tudo o que o rei pudesse enxergar fossem as paredes iluminadas pelo fogo e as formas escuras dançando sobre elas. As duas sombras que haviam falado no lugar de todas as demais também pareciam ter desaparecido. Mas no final, o rei acabou por descobrí-las paradas, uma de cada lado da lareira. Elas se encontravam próximas à chaminé e estavam conversando por sobre a lareira, evitando assim, que fossem atingidas pelos raios diretos da luz do fogo, que, embora fossem luminosos, eram necessários, para que elas se tornassem visíveis aos olhos humanos, coisa que não se justifica totalmente– pois elas nasciam dotadas de uma luminosidade bem menor do que esta, como o rei ficaria sabendo em breve. Depois de alguns poucos minutos, eles voltaram a se aproximar da cama, dizendo o seguinte:

– Por favor, vossa majestade, já está ficando escuro agora. Quero dizer– lá fora, na neve, pelo menos. Vossa majestade poderá reconhecer ali na luz fria do véu – aquela peça famosa, por sobre a qual as sombras costumam dançar. Vossa majestade poderá vê-lo daí mesmo, do lugar em que está deitado. Os nossos irmãos e irmãs todas devem estar na igreja agora, preparando-se para o serviço noturno.

  • Elas sempre vão à igreja antes de ir para o trabalho?
  • Sim, elas sempre dão uma passadinha na igreja antes.
  • E onde ela fica?
  • No país do gelo. Vossa majestade gostaria de conhecê-la?
  • Como eu poderia ir visitá-la, se você sabem muito bem que eu estou doente de cama? Além disso, tenho certeza de que eu acabaria pegando um resfriado numa noite gelada como esta, mesmo se eu vestindo uma capa e mesmo, me cobrindo com uma grossa coberta de penas.

O rosto da sombra parecia estar tremendo, mas a impressão mesmo era que era uma risada. Todos os rostos começaram a se abalar e tremer, como uma espécie de massa gelatinosa escuro, até que gradativamente elas foram voltando à sua expressão calma usual. Então uma das sombras abriu as cortinas diante da cama. Enquanto elas estavam fechadas, o brilho alvo da noite havia ficado do lado de fora, longe das vistas do rei, que lutava contra o excesso de escuridão que ameaçava tragá-lo; semelhante ao que acontece com um céu, repleto de estrelas lampejantes e brilhantes feito diamantes. A outra sombra dirigiu-se para o fogo e desapareceu dentro dele.

Alguns grupos de sombras começaram então imediatamente a dançar desvairadamente por todo o quarto, desaparecendo, uma a uma, através da janela aberta e deslizando de forma tenebrosa por sobre a face da neve branca, pois a janela dava diretamente num jardim coberto de neve. Depois de poucos minutos, o quarto ficou em silêncio total e livre de sombras, mas, ao invés de ficar aliviado com a sua ausência delas, o rei sentiu logo, como se estivesse numa casa de mortos, ficando com dificuldade até de respirar, devido ao sentimento de vazio e desolação em que ele recaiu. Mas enquanto observava a neve, que se estendia alva e extensa diante dele, deitado na sua cama, ele viu ao longe uma fileira escura, aproximando-se cada vez mais, e que acabou se revelando, no final, como sendo toda composta por sombras, que caminhavam em uma linha dupla, carregando algo parecido com um cesto. Elas sumiram no batente da janela, reaparecendo logo em seguida, depois de terem, de alguma forma, dado conta de escalar a parede da casa, pois elas entraram em fila indiana pela janela, fundindo-se com a transparência do vidro.

Elas carregavam uma espécie de cesto. Ele estava coberto das mais ricas peles e cabeças de majestosas feras selvagens, cujos olhos haviam sido substituídos por safiras e esmeraldas, que brilhavam e cintilavam à luz do fogo e do reflexo da neve. As camadas de cima reluziam ainda mais, devido à crosta de gelo, mas as de baixo estavam macias, quentes e secas, como se se encontrassem sob as asas de um cisne. As sombras aproximaram-se da cama, e jogaram o cesto sobre ela. Então, algumas delas tiraram um manto de pele enorme, colocando-o em torno dos ombros do rei, e o fizeram deitar no cesto em meio às peles. Ninguém jamais no mundo transportou alguém de modo mais gentil e reverenciador. Ao rei nem sequer passou pela cabeça recusar-se a ir. Em seguida eles colocaram algo sobre a sua cabeça e, levantando o cesto, deram uma volta com ele pela sala, só para ensaiar o passo. Quando o cesto passou diante do espelho, o rei viu que ele estava repleto de peles reais, e que sobre a sua cabeça havia uma maravilhosa coroa –toda de ouro, revestida de uma imensa variedade de pedras preciosas: rubis, esmeraldas, pedras de jade e outras tantas precisidades, cujo nome ele nem saberia especificar, elas brilhavam gloriosamente em torno da sua cabeça como a salamandrina, a essência de todos os fogos que alegram o Natal de tanta gente. Naquele instante, um espectro depositou um cetro de ébano ao lado dele, com um diamante de formato cônico na ponta, que, se fosse cortado em pedaços, certamente refletiria todas as cores do arco-íris. Ele espalhava seus raios coloridos por todos os lados, criando sombras infinitamente mais numinosas, do que aquelas que o haviam aborrecido. Em seguida as sombras o levantaram com todo o cuidado até a janela, e o ajudaram a pulá-la, pelo que ele foi para em um campo coberto de neve. Este sería o início de uma longa jornada que parecia mais um vôo coletivo, do que uma caminhada sobre uma superfície congelada.

As sombras se revezavam para carregar o rei, enquanto percorriam o campo com a suavidade de um pensamento, em uma linha reta, rumo ao norte. A estrela d´Alva nasceu por sobre as suas cabeças com crescente visibilidade, pois, na verdade, eles estavam avançando tão rápido, quanto os pensamentos mais tristes, ainda que não, na mesma velocidade que os mais felizes desejos. Aquele estranha comitiva composta de sombras, a carregar um rei, percorreu toda a Inglaterra, a Escócia. Passou por cima de rios e lagos flutuando ou deslizando. Eles escalaram altas montanhas, e cruzaram vales, como se não sentissem o peso; até que chegaram à casa de *John O´Groat no Mar Báltico. O mar não estava congelado; pois as estrelas refletidas piscavam com tanta força das suas profundezas dos lagos, quanto brilhavam as estrelas do céu acima de suas cabeças. E, à medida que os carregadores deslizavam por sobre a superfície azul-acinzentada, sem qualquer obstáculo no caminho, o rei notou que não podia enxergar a superfície da água abaixo dele, de tão iluminada que estava, muito menos o fundo, o que lhe dava a impressão de estar flutuando através da esfera azul do céu, com estrelas acima dele, e estrelas também em baixo dele, e, entre as estrelas e ele, nada mais, do que vazio. Agora, pela primeira vez em toda a sua vida, o rei sentia que a sua alma tinha conquistado o espaço que merecia.

Daí à mais algum tempo, eles chegaram até as paredes rochosas da Islândia, onde resolveram acampar, para dar continuidade à viagem só no dia seguinte. E o rei não pegou nenhum só resfriado; pois as pedras vermelhas da sua coroa o mantinham aquecido, e os olhos de esmerada e safira dos animais selvagens impediam que o gelo se formasse sobre o seu veículo.

No meio do caminho a comitiva tivera que passar por diversas florestas, cavernas e passagens escuras nas rochas, uma das quais estava tão escura, que de início, o rei ficou com medo de perder todas as sombras de vista. Mas, assim que eles entravam em lugares assim, o diamante do cetro começava a brilhar, cintilar e radiar, emitindo feixes de luz de tantas cores quantas a alma de um pintor poderia imaginar. Era tal esta luz, que tornava as sombras cada vez mais vivas e mais fortes, do que nunca. Foi assim que eles conseguiram atravessar apressadamente todos aqueles túneis escuros, numa velocidade superior à da luz. Vistas assim à luz dos diamantes, algumas das sombras também foram parecendo mais simples e humanas, enquanto outras pareciam ficar cada vez mais absurdas e selvagens.

Uma vez atravessada a caverna, o rei viu que os seus olhos eram de fato estranhos, olhos de sombra: ele nunca havia visto olhos como aqueles antes. Mas, no mesmo momento em que ele conseguiu ver os olhos deles, também teve uma visão melhor dos seus rostos, pois eles os haviam voltado completamente para ele por um instante; e as outras sombras, ao vê-lo, encolheram-se e começaram a tremer tanto, que quase desapareceram. Que adoráveis semblantes tinham eles. O rei ficou profundamente pensativo, depois de ter visto aquelas faces, e permaneceu assim impressionado pelo resto da viagem. Ele não contava com a existência de olhos tão vivos naqueles rostos, ainda mais, considerando que se tratava da face de sombras.

Finalmente a comitiva subiu pelo leito de um pequeno riacho, para em seguida, atravessar um desfiladeiro rochoso e estreito e dar subitamente em um dos lados da montanha, que dava uma maravilhosa vista para um lago azul congelado, situado no coração das majestosas montanhas. A aurora boreal se mostrava com todo o seu explendor, com um brilho que parecia o reflexo do sol lançado por milhões de espadas de soldados na batalha… Acontece que os raios de luz do tão agitados e brilhantes do céu do norte, disparavam em todas as direções, e as sombras que se encontravam na superfície do lago em baixo dele; ora se juntavam em grupos, ora ficavam tremendo, parecendo que iam afundar, ora cobrindo toda a superfície do lago, para se juntar em uma só, formando um nó escuro. De quando em quando era possível ver nas montanhas brancas duas sombras, disparando em direção dos picos, e desaparecendo por trás deles. Na verdade as sombras estava diminuindo gradativamente em quantidade, ainda que de forma pouco perceptível.

  • Com licença, vossa majestade – disseram as sombras – queira nos deixar apresentar: esta é a nossa igreja – a igreja das sombras.

E dizendo isso, o guarda-costas do rei sentou-se por um instante numa pedra para interagir com a multidão. Mas ele voltou logo para conduzir o rei até o meio do lago. As sombras reuniram-se todas em seu redor, de forma respeitosa, mas destemida. Certamente olhos mortais jamais viram uma reunião assim tão burlesca. O rei já havia visto todo o tipo de gnomos, duendes e seres tenebrosos no dia da sua coroação, mas tratava-se até que de figuras bastante homogêneas, se comparadas com a forma incongruente e desregrada de que se orgulhavam tanto as sombras; e os pulos mais selvagens daqueles seres, podiam até parecer uma dança cerimonial entre eles, sem falar da aparente falta de objetivos e improvisações aleatórias e metamorfoses que empreendiam na sua forma física. Entretanto, para a surpresa do rei, toda sombra tinha a sua identidade própria, e cada uma mantinha o seu próprio estilo, que era misteriosamente perceptível para além de toda mudança. O que interessa destacar aqui é a idéia essencial de que cada sombra tinha a sua própria forma de encanto, da mesma forma como tinha o seu estilo de efetuar mudanças radicais e às vezes até ridículas à que estavam sujeitas a qualquer momento.

  • O que é que são vocês? – perguntou o rei, apoiado sobre o seu cotovelo e olhando em redor.
  • Nós somos as sombras, majestade – responderam várias vozes imediatamente.
  • Que tipo de sombras?
  • Sombras humanas. As sombras de homens e mulheres e dos seus filhos.
  • Não seriam vocês as mesmas sombras de cadeiras, mesas ou então, fantasmas?

Esta questão gerou uma estranha e inesperada comoção no meio daquela comunidade, que ficou sinceramente chocada. Muitas das aparições se inflaram, até atingir as alturas dos céus, entretanto, voltaram imediatamente ao tamanho humano, como se querendo controlar os seus sentimentos, por puro respeito em relação a quem os havia despertado. Uma das sombras, que já havia percorrido todas aquelas redondezas, conquistando até os mais altos picos cobertos de neve, apresentou-se repentinamente à frente de todo o resto, como o porta-voz das sombras daí para frente.

  • Perdoe a nossa ansiedade, vossa majestade – disse ele – vejo que vossa majestade ainda não conseguiu muito bem familiarizar-se com a nossa natureza e costumes.
  • Estou disposto a isso – respondeu o rei.
  • Nós somos sombras – repetiu a Sombra em tom solene.
  • E daí? – disse o rei.
  • Não costumamos aparecer com muita freqüência aos homens.
  • Ah é ? – disse o rei.

– Nós não temos absolutamente nenhuma relação com raio do sol. Passamos totalmente despercebidos. Mas sempre que o homem passa diante de um de nós com tanta arrogância, bem que ele nota uma presença desconhecida.

  • Ah é? Disse o rei novamente.
  • Só na penumbra do fogo ou quando certo homem ou certa mulher estão sozinhos, diante de seu candelabro solitário, ou quando um número qualquer de pessoas compartilha do mesmo sentimento ao mesmo tempo tornando-se um só, é que a verdade das coisas se manifesta.
  • Então quer dizer que os amantes da noite existem de verdade? -perguntou o rei.
  • A escuridão é a monitora da luz – respondeu a sombra.
  • Mas quem me diz que não é quem faz pouco caso das sombras que está com a verdade? – perguntou o rei.
  • A verdade percorre como uma tempestade o mundo, sem qualquer forma, nem fundo – respondeu a sombra.
  • Ah! Ah! – pensou Ralf Rinkelmann, isto até rimou. A sombra está respondendo a todas as minhas perguntas de maneira tão singular. Isso é muito estranho! – e com isso ele voltou a se entreter com os seus pensamentos profundos.

A sombra foi a primeira a retomar a palavra.

  • Por favor, vossa majestade, será que nós poderíamos agora fazer o nosso pedido?
  • Com toda a certeza – respondeu o rei –acontece que eu ainda não estou bem o suficiente para recebe-lo da forma mais apropriada.
  • Não tem importância, vossa majestade. Não nos importamos muito com cerimônias; e, de fato nenhuma de nós está se sentindo muito bem no momento. O objeto do nosso pedido está pesando sobre nós.
  • Vá em frente, disse o rei.
  • Senhor,- começou a sombra, – a nossa existência está em perigo. São tantos os tipos de luz artificial, que se encontra nas casas e nos próprios homens, mulheres e crianças que eles estão ameaçando acabar conosco. O consumo e disposição de luzes a gás, que é especialmente alto nos centros, ameaçam cegar os nossos olhos, que são os únicos através do quais nós podemos ser vistos. Todos nós fomos sumariamente banidos das cidades. Fomos levados para as vilas e casas solitárias, e especialmente para as velhas fazendas, das quais, até mesmo as nossas amigas, as fadas, estão desaparecendo rapidamente. Por isso é que o nosso pedido junto ao nosso rei, é que com o poder de sua arte, ele nos restitua o nosso direito de morar nas casas e nos corações das pessoas.

“´Mas, disse o rei, ´não se esqueça que você assustou as crianças.´

“‘Isso só ocorreu raras vezes, vossa majestade; e mesmo nos casos em que aconteceu, foi só para o bem delas. É raro nós procuramos meter medo em alguém. O que nós queremos mesmo é fazer as pessoas ficarem quietas por um momento, para refletirem, fazendo-as sentirem um pouco de terror, vossa majestade.

“‘É mais provável que vocês as façam rir,’ disse o rei.

“‘Será mesmo?’ disse a sombra.”

E, aproximando-se um pouco do rei, ele ficou por alguns instantes parado. O diamante do cetro do rei estava irradiando um brilho vivo de cor violeta, e o rei fitou a sombra em silêncio, até que o seu lábio inferior começou a tremer.

“‘O problema,’ replicou a sombra, ‘é que se nós não mantemos os pensamentos fixos em algum objeto particular, os nossos corpos ficam sujeitos a qualquer tipo de interferência elementar. Entre os homens e mulheres ordinários deste mundo, basta nós nos atermos a alguma peça de mobília ou de roupa; e eles nunca desconfiam de que nós sejamos mais do que meros efeitos bobos e imprecisos das incidências dos feixes da luz sobre os objetos sólidos, das quais as sua casas estão cheias. Nós nem nos preocupamos em dizer-lhes a verdade, pois eles jamais acreditariam. Mas um dia este homem —- ou mulher ordinários do mundo —- quem sabe —- ‘

Entre uma e outra reticência siginificativa como esta, a multidão de sombras aplaudia e começava a agitar-se de emoção, mas a agitação não durava muito, e a multidão voltava logo ao seu silêncio contemplativo.

E, no mesmo instante que a sombra representante já ensaiava a sua retomada da palavra, todos levantaram os olhos, e o rei, acompanhando o olhar deles, viu que a aurora estava começavando a empalidecer.

“‘A lua está nascendo,’ disse a sombra. Assim que ela aparecer por cima das montanhas, inundando o vale com sua luz, nós teremos que ter ido, pois temos muita coisa a fazer sob a lua: nós ficamos energizadas com a sua luz. Mas, se vossa majestade vier aqui amanhã à noite, poderá aprender muitas coisas mais sobre nós, e julgar por si mesmo, se é apropriado concordar com o nosso pedido; pois neste caso nós faremos a nossa grande assembléia anual, na qual nós reportamos aos nossos chefes todos nossos feitos, e os bons ou maus resultados a que chegamos.

“‘Se você me chamar,’ respondeu o rei, ‘certamente que eu irei.’

“Antes que a sombra pudesse responder, uma pontinha da lua crescente surgiu por trás de um monte de gelo, e um raio delgado caiu sobre o lago. Mas ele não incindiu sobre nenhuma das sombras. Antes que os olhos do rei conseguissem novamente vilumbrar a terra, depois de contemplar os primeiros raios da lua, todas as sombras desapareceram e a superfície do lago passou a brilhar fria e azul no esplendor pálido do luar.

“Lá estava o rei, sozinho no meio do lago congelado, com a lua a raiar sobre ele. Mas, depois de algum tempo, ele ouviu uma voz conhecida que lhe dizia:

“‘Você aceita outra xícara de chá, meu amor?’ disse a Sra. Rinkelmann; e Ralf, recobrando lentamente a consciência, notou que estava deitado na sua própria cama.

“‘Sim, aceito, obrigado,’ respondeu ele; ‘ e uma boa fatia de torrada, se for possível, por favor; pois eu empreendi uma longa jornada, desde a última vez que eu a vi.’

“‘Ele ainda não está bem consciente,’ disse a Sra. Rinkelmann, para si mesma.

“‘Será que você ficaria muito surpresa,´continuou Ralf` se eu lhe contasse onde estive, e tudo o mais.’

“Confesso que ficaria,’ respondeu a sua esposa.

“‘Então eu vou lhe contar,’ celebrou Ralf.

“Mas naquele momento, uma grande sombra pulou de dentro do fogo, com um enorme salto, encobrindo a sala toda. Em seguida ele se recolheu em um canto e Ralf viu que ele estava lhe fazendo gestos de ameaça com a mão cerrada atada ao seu braço ridículo. Esta foi a maneira que ele emcontrou para passar o seu recado e manter a sua paz de espírito. E isso lhe fez bem. Pois a estas alturas eu mesmo já conhecia as sombras o bastante; e sabia que, se ele ameaçasse contar tudo sobre eles à sua esposa naquele momento, eles certamente viriam busca-lo na noite seguinte.

“Assim, o rei deitou , depois de tomar o café e comer a sua torrada e olhou em volta. E as sombras dançantes do seu quarto lhe pareciam ainda mais estranhas e inexplicáveis do que nunca. Todo o seu quarto estava repleto de mistério. E se isto já era verdade de uma maneira geral, agora o ambiente era mais misterioso do que nunca. Depois de tudo o que ele viu na igreja das sombras, no seu próprio quarto, ele achou que as sombras estavam ainda mais maravilhosas e insondáveis do que aquelas.

Com isso tudo ficava mais verossímil do que se ele tivesse tido uma visão de verdade; pois, ao invés de faze-lo considerar o corriqueiro parecer um lugar comum, como as visões enganosas costumam fazer, tudo aquilo fez com que ele tivesse a visão ampliada para o maravilhoso que há nas coisas do dia a dia.

“‘O mesmo vale para toda arte verdadeira,’ pensou Ralf Rinkelmann.

“Na tarde seguinte, na medida em que o crepúsculo ia se escurecendo, o rei foi se deitar com uma só dúvida: será que as sombras mandariam buscá-lo de novo? Ele desejava muito partir, pois adorou aquelas viagens, além do que, estava louco para ouvir as histórias de alguns fantasmas. No entanto, a escuridão foi se aprofundando cada vez mais, e as sombras não apareceram. É que a Sra. Rinkelmann continuava sentada junto ao fogo no crepúsculo e eles não tinham como levar o rei, enquanto ela estivesse ali. Alguns deles tentaram assustá-la, projetando as mais estranhas sombras nas paredes, no chão e no teto; mas nada disso surtiu o efeito desejado: a rainha apenas sorriu, pois ela tinha uma consciência tranqüila. No entanto, de repente ouviu-se um grito terrível do quarto das crianças, e a Sra. Rinkelmann precipitou-se escadas acima para ver o que estava acontecendo. Mal ela chegou lá, apareceram os dois vigias dos cantos da chaminé e se postaram no meio da sala, dizendo em voz baixa:

 

“´Vossa majestade está pronto?’

 

“‘Será que vocês não têm coração?’ disse o rei; ‘ou serão eles tão escuros, quanto os seus rostos? Isso não foi um grito de criança? Preciso saber o que está acontecendo lá em cima, antes de eu ir.’

 

“‘Vossa majestade há de convir que este é uma boa forma de concentrar a mente,’ responderam os vigilantes. ‘Nós imaginamos tudo o que nos veio à mente, para nos livrar da vossa majestade, a rainha, mas não tivemos sucesso. Foi então que uma sombra desvairada, meio contra a vontade dos mais velhos entre nós, precipitou-se escada acima, até o quarto das crianças e sem dúvida nenhuma, teve sucesso em assustar o bebê, pois ela é bastante flexível e rápida nas pernas.

-E agora, vossa majestade?’

 

“‘Não quero que ninguém faça mais este tipo de brincadeira no quarto das minhas crianças,’ disse o rei muito nervoso. ‘Vocês podiam ter feito a criança ficar totalmente fora de si.’”

 

“‘Então, neste caso teríamos um clone, vossa majestade. E nós gostamos muito de gêmeos.’

 

“‘Não quero mais saber dos seus miseráveis gracejos! O que quero dizer é que vocês poderiam ter feito a criança perder a cabeça…’

 

“‘Isso é impossível, senhor, pois ela nem sequer tem uma cabeça para perder ainda…’

 

“Suma daqui”, disse o rei.

 

“‘Perdoe-nos, vossa majestade. Na verdade, isso vai fazer bem à criança, pois aquela sombra passará a ser um símbolo de tudo o que é feio e do mal, por toda a sua vida. Quando ela se sentir tentada a odiar ou sentir inveja de alguém, aquela sombra voltará à sua mente e lhe dará calafrios.’

 

“‘Tudo bem’ disse o rei ‘ Esta idéia já me agrada mais. Vamos embora.’

 

“As sombras empreenderam os mesmos rituais e preparações de outrora, durante as quais, a mencionada sombra jovem que tramou a história de fazer caretas, mantinha o bebê aterrorizado e a rainha no quarto dela, até que tudo estivesse acabado. Em seguida, com um impulso que o arremessou contra o teto e um ponta-pé no seu próprio traseiro, ele desapareceu pela porta do quarto de crianças, alcançando a câmara de dormir do rei, bem a tempo de sair junto com as últimas sombras pela janela, seguindo a cesta e assumindo o seu posto na neve bem embaixo dela.

E assim, eles foram embora, formando uma enorme sombra que deslizava por sobre o carpete branco, da mesma forma como fizeram anteriormente. E era Véspera de Natal.

 

“Quando, a certa altura, eles reconheceram o lago da montanha, o rei viu que toda a superfície estava coberta por uma mistura mutante de sombras. Todas elas estavam falando e ouvindo alternativamente, aos pares, trios, e grupos de todos os tamanhos. Lá e cá havia confrarias enormes com toda a atenção concentrada em uma determinada sombra que se destacava do resto. Ela não estava falando de nenhum púlpito ou plataforma, mas sobre as suas próprias longas pernas, que ele alongou especialmente para o evento.

A aurora, bem acima da cabeça deles, iluminava o lago e as laterais das montanhas, enviando grandes ondas de vapores luminousos, que brilhavam em todas as cores do arco-íris do seu cume, quase até a superfície do lago.

 

Entretanto, enquanto as palavras se espalhavam por todos os lados, não havia praticamente nenhuma palavra capaz de alcançar os ouvidos do rei: o discurso das sombras não podia ser captado pelos seus órgãos corpóreos. Entretanto, um dos líderes das sombras, vendo que o rei estava tentando entender e não conseguia, começou a manipular a sua cabeça e ouvidos de maneira muito estranha; e com isso ele passou a entender tudo perfeitamente, embora somente as sombras para as quais ele voltava a sua atenção. Isto, entretanto, acabou sendo uma grande vantagem, que o rei quis até levar consigo devolta para o mundo dos mortais.

 

Naquele momento o rei percebeu que aquela não era só uma igreja das sombras, mas ao mesmo tempo também o seu lugar de troca de novidades. Pois, como as sombras não têm escrita ou imprensa, a única forma pela qual eles podem informar-se uns aos outros sobre os seus feitos e pensamentos, era de se encontrar e trocar idéias neste mercado de idéias que era o parlamento de sombras. E como as pessoas deste mundo preferem ler os seus autores favoritos e dão preferência a dar ouvidos aos seus preletores favoritos, as sombras também buscam as suas preletoras favoritas para ouvir acerca das suas aventuras e geralmente dão ouvidos ao que elas têm a dizer.

 

“Sentindo-se bastante forte, o rei levantou-se e começou a andar entre elas, enrolado na sua túnica de pele, com a sua coroa vermelha na cabeça, e o seu cetro de diamantes na sua mão. Cada grupo de sombras de que ele se aproximava, parava de falar, assim que eles o viam se aproximar, mas depois de um aceno as sombras continuavam imediatamente a conversar e relatar e comentar, como se ninguém estivesse lá que não fosse do mesmo calão e nível deles mesmos.

Assim o rei acabou ouvindo uma série de histórias; algumas o fizeram rir, e outras, o levaram a chorar. Mas, se as histórias que as sombras contavam fossem impressas, elas teriam que escrever um livro que nenhum editor seria capaz de produzir rápido o bastante para satisfazer os seus compradores. Eu registrei algumas das coisas que o rei ouviu, que ele me contou logo depois. O fato é que eu fui o secretário particular dele por algum tempo. Foi assim que eu fiquei sabendo de todas estas aventuras.

 

“‘Eu o fiz alguém se confessar um assassinato no prazo de uma só semana,’ disse uma sombra com ar sombrio.

 

“‘Mas que vantagem teve isso?’ disse um jovem de ar alegre; ‘isso não pode desfazer o que já foi feito.’

 

“‘Pode, sim. ‘

 

“´O quê! Trazer os mortos devolta à vida?’

 

“‘Não; mas pode trazer conforto ao assassino. Eu não suportaria jamais continuar assistindo à miséria de dar dó, em que ele se encontrava. Ele seria muito mais feliz com a corda amarrada ao pescoço, do que ele foi com a carteira recehada no seu bolso. Eu também o salvei de quere r de se matar.’

 

“‘Como você o fez confessar?’

 

“‘Foi só lançar algumas sombras na parede..’

 

“‘Como isso poderia faze-lo falar?’

 

“‘Ele sabe muito bem.’

 

“A sombra ficou em silêncio; e o rei voltou-se para outra.

 

“‘E eu fiz uma mãe moderna arrepender-se.’

 

“‘E como foi isso?’ em muitas vozes podia-se ouvir um certo tom de incredulidade.

 

“‘Foi só imitar a sombra de um pequeno caixão na parede,’ foi a resposta.

 

“‘E então a mãe moderna confessou?’

 

“‘Ela não tinha nada a confessar, que todos já não soubessem.’

 

“‘O que é, então, que todo mundo já sabia?’

 

“‘Que ela podia beijar uma criança viva, enquanto estava querendo seguir uma criança morta para o túmulo. O próximo filhos será menos custoso.’

 

“‘E eu acabei com um noivado,’ disse outro.

 

“‘Que coisa horrível você fez!’ observou um demônio poético.

 

“Como foi isso?’ perguntaram os outros. ‘Conte-nos, como foi isso.’

 

“‘Eu simplesmente imitei a sombra de parte do corpo de uma bela garota.-eles ainda não eram casados, e eu não acredito que eles jamais casariam. Mas eu amava o rapaz que a amou. Que interessante foi, como tudo começou! Aquilo foi uma revelação para ele.’

 

“‘Mas isso não o deixouconfuso?’

 

“‘Bem pelo contrário.’

 

“‘Mas tratava-se só de uma sombra forjada, e de nenhuma sombra que pertencesse a uma garota real.’

 

“‘É verdade. Pode-se dizer que sim. Mas isso foi o bastante para que lhe caísse a trave do olho– sim, de toda a sua face, que, ocasionalmente deixava perturbada a sua juventude. Todo o seu semblante, nariz arrebitado, lábios pujantes, queixo destacado, entendeu-se num instante com aquela escuridão que havia entre as suas sombrancelhas. O rapaz o percebeu imediatamente e voltou para casa, sentindo-se miserável. E eles não casaram até hoje.’

 

“‘Eu peguei um bêbado sozinho, em cima do seu garrafão de vinho do porto,’ disse uma sombra bem escura; ‘e não permiti que ele bebesse! Primeiro eu fiz tive um trimilique desvairado; e depois eu comecei a encenar um funeral, percorrendo devagarinho toda a parede da sala de jantar. E inventei muitas plumas e carruagens de luto. E depois eu me ofereci para organizar um funeral como esse, só o que eu não consegui arranjar de jeito nenhum foi uma batina branca, que ficaria muito melhor em um pecador com aquele. O desgraçado hesitou, até que a sua face passou de púrpura para cinzenta, e na verdade ele só estava sendo obrigado renunciar ao seu quinto copo e, para a sua máxima surpresa, ele foi buscar refúgio precisamente no seu quarto, com a sua esposa e os seus filhos. Acredito que, na verdade, ele estava bebendo um copo de chá e, por mais que o visitasse novamente, eu pelo menos nunca mais o vi bebendo sozinho.’

 

“‘Mas ele passou a beber menos? Será que você fez algum bem a ele?’

 

“‘Eu espero que sim; mas lamento muito confessar que não posso dize-lo com muita certeza.’

 

“‘Hum! Hum! Hum!’ grunhiram várias sombras.

 

“‘E eu me diverti tanto certa vez!’ berrou outro. ‘Com uma peça que eu preguei em um jovem padre!’

 

“‘Você não tem o direito pregar peças em ninguém.’

 

“‘Ah, sim. Tenho sim, se é para o próprio bem da pessoa. Você acha mesmo que ele costumava preparar os seus sermões?’

 

“Considerando o seu estudo, é evidente que sim.’

 

“‘Sim e não. Continue advinhando.’

 

“‘Eles se inspirava nas expressões de rosto das pessoas na rua.’

 

“‘Adivinhe novamente.’

 

“‘Em lugares que ainda estão verdes na cidade?’

 

“Tente mais uma vez.’

 

“´Em livros antigos?’

 

“´E mais uma.’

 

“‘Não, não. Chega! Conte logo.’

 

“‘No espelho. Ha! ha! ha!’

 

“‘Esta é boa; uma bela piada de sombra.’

 

“‘Eu também achei. E eu me diverti tanto com ele uma noite na parede! Ele teve bom senso o bastante para perceber que era ele mesmo que ele estava vendo e que ele estava se parecendo muito com um macaco. Então ele ficou com vergonha, virou o espelho com a face para a parede, e começou a pensar um pouco mais no seu povo, e um pouco menos em si mesmo. Eu fiquei muito contente; pois, por favor vossa majestade,’- e neste momento ele se dirigiu para o rei -‘nós não gostamos das pessoas que vivem nos espelhos. Vocês os chamam de fantasmas, não é?’

 

“Antes que o rei pudesse responder, outra sombra começou a falar. Mas só a menção do padre despertou no rei o desejo de ouvir um dos sermões do padre qualquer dia. Então ele se voltou para uma sombra comprida, que estava pregando para uma multidão muito silenciosa e atenta. Ele já estava na parte final do seu sermão.

 

“Portanto, queridas sombras, é ainda mais necessário que nós, as sombras, nos amemos umas às outras o máximo que pudermos, porque isso não é querer demais. Não temos desculpa para não amar, como os mortais têm, pois nós não morremos como eles. Eu imagino que seja é esta morte que faça com que eles odeiem tanto. Além disso, nós costumamos dormir o dia todo, pelo menos a maioria de nós, e não à noite, como os homens fazem. E todos sabem muito bem que nós esquecemos tudo o que aconteceu na noite anterior; por isso, temos que amar bem, pois o amor é breve. Ah! Querida sombra, que eu amo agora com toda a minha alma sombria, provavelmente eu não as amarei mais amanhã à noite, pois já nem terei como as conhecer, devo passar por vocês na multidão, sem nem imaginar que a sombra que eu amo agora pode estar bem do meu lado então. Abençoadas sombras! Por só nos lembrarmos das nossas histórias até que as tenhamos contado aqui, para depois elas desaparecerem pelo patio sombrio da igreja, onde tudo o que nós só enterramos são os nossos egos mortos. Ah! Irmãos, quem quer ser um homem para lembrar? Quem quer ser homem para chorar? Na verdade, nós temos que amar uns aos outros, porque só nós é que herdamos o dom do esquecimento; só nós somos renovados continuamente com o nascimento eterno; somente nós não acumulamos o peso dos anos. Preciso lhes contar acerca do destino cruel de uma sombra que se rebelou contra a sua natureza, e buscou lembrar-se do passado. Ela disse, ‘a partir de hoje eu hei de lembrarar de tudo.’Ela ainda estava lutando contra as influências benéficas do sono benigno, quando o sol nasceu em um dia iluminado e terrivelmente mórbido. Embora ele não tivesse conseguido ficar totalmente acordado, ela sonhou a respeito do ocorrido na tarde anterior e nunca mais esqueceu-se do seu sonho. Depois ela tentou novamente na noite seguinte e na próxima e na seguinte; e passou a tentar outra sombra a fazer a experiência junto com ela. Finalmente a sua terrível sina recaiu sobre elas; e, ao invé de continuarem sendo sombras, elss começaram a ter corpos aderidos a elas; e foram engrossando e engrossando, até que desapareceram do nosso mundo; e agora elas estão condenadas a zanzar sobre a Terra, um homem e uma mulher sob a ameaça da morte, e memórias dentro delas. Ah, irmão sombras! É preciso nos amarmos umas às outras, pois só nós é que poderemos esquecer rapidamente. Nós não somos humanos, e sim sombras.’

 

“O rei virou as costas e ficou com mais pena daquelas pobres sombras, do que daquele homem e mulher.

 

“‘Oh! Como nós brincamos com aquele músico certa noite!’ exclamou outro grupo, ao qual o rei havia dirigido um pensamento passageiro. Ele parou para ouvir.

-‘Nós subíamos e descíamos por sobre as teclas e abafadores do seu piano. Mas ele se vingou de nós. Pois depois que ficou nos observando meia hora na penumbra, ele se levantou e dirigiu até o seu instrumento. Daí ele passou a tocar a “dança das sombras” que nos prendeu a todas em forma de som para sempre. Cada uma de nós poderia até contar o significado que cada nota teve para ela; e à medida que ele tocava, nós não podíamos mais parar, mas só continuar dançando e dançando com todo o prazer de acordo com a música, como se ele fosse um mágico – estou falando do músico – E ele até que inventou uma boa punição; pois ele quase nos fez dançar para fora das nossas pernas e fora da nossa forma até que viramos um monte exausto de escuridão palpitante e colapsa. Nós nem sequer chegamos perto dele denovo por algum tempo, e nunca cehgaríamos, se pudéssemos nos lembrar de tudo aquilo. Ele se sentiu muito miserável por todo aquele dia, pois era tão pobre que; e não conseguíamos imaginar outra forma de conforta-lo, a não ser, fazendo-o rir. Nós não tivemos sucesso, nem mesmo empenhando os maiores esforços; mas, no final tudo acabou melhor do que esperávamos, pois a dança das sombras o tornou celebre e famoso, e ele é bastante popular até hoje, ganhando dinheiro rápido.-Se ele não tomar cuidado, nós acabaremos pregando outra peça nele de quando em quando, pobre rapaz!’

 

“‘Eu mais outras colegas fizemos o mesmo para um pobre diretor de teatro certa vez. Ele estava precisando escrever uma peça de natal e, como não era nenhum gênio em originalidade, não conseguiu pensar em nada que já não tivesse sido criado e repetido mais de vinte vezes. Eu entendi a enrascada em que ele estava, e, juntando-me com mais algumas poucas sombras errantes, nós apresentamos uma peça, muda, é claro. Aquele foi o teoatro do absurdo mais engraçado que já inventamos; e obteve considerável sucesso. O pobre rapaz observou cada movimento, urrando de rir de nós, e de prazer pelas idéias que nós lhe demos. Ele transformou tudo em palavras e cenas e ações; e a peça “fez o maior sucesso”, sem precedentes nos registros daquele teatro;”-pelo menos foi isso que o repórter do Palpiteiro Fuxiqueiro disse.’

 

“‘Mas quanto tempo será que teremos que esperar para ter uma chance de fazer algo que realmente vale a pena!’ disse uma sombra especialmente longa, esbelta e lúgubre. ‘Da minha parte eu só realizei uma façanha digna de menção, desde a última vez que nós nos encontramos. Mas eu estou orgulhosa disso.’

 

“‘O que foi que aconteceu? ‘ perguntaram umas vinte vozes.

 

“‘Eu invadi uma sala de jantar no cair de uma tarde, logo depois do último dia das comemorações de Natal. Eu havia sido atraído para lá pelo brilho de um grande fogo através das cortinas vermelhas da janela. Primeiro eu pensei que não houvesse ninguém ali, e já estava a ponto de abandonar o quarto para sair novamente para a rua coberta de neve, quando eu subitamente captei o cintilar de olhos, e notei que eles pertenciam a um pequeno garoto que se encontrava deitado e paralisado no sofá. Então eu resolvi ficar no quarto em um canto escuro, atrás do batente da porta e ficar olhando para ele. Ele parecia muito triste, e não fazia nada, a não ser olhar fixamente para o fogo. No final, ele deu um suspiro nostálgico: ‘Eu queria que a mamãe voltasse para casa.’ ‘Pobre menino!’ pensei comigo, ‘não há quem possa ajuda-lo a não ser a mãe dele.’ Mesmo assim eu vou tentar fazer o tempo passar mais depressa para ele. Assim, eu estiquei o meu longo braço de sombra para fora do meu canto, passando por cima de todo o teto, e simulei estar tentando seqüestrá-lo. Primeiro ele ficou muito assustado; mas ele era um garoto valente, e logo viu que tudo não passava só de uma brincadeira. Assim, quando eu repeti o gesto, ele me agarrou com força; e depois disso ele passou a se divertir a valer! Pois embora ele continuasse suspirando freqüentemente, desejando que a mamãe voltasse para casa, ele sempre recomeçava a brincadeira comigo; e nós ficamos brincando assim selvagemente. Até que finalmente pudemos ouvir a mãe batendo à porta, e, num salto de prazer, ele correu para o hall para se encontrar com ela, esquecendo tudo sobre a minha pobre pessoa escura. Mas, no final, eu não liguei nada para isso; pois quando eu deslizei atrás dele para o hall, eu fui bem recompensado pelo meu esforço, quando ouvi a sua mãe lhe dizendo: ‘Que surpresa boa, Charlie, meu amor, você está com uma cara mil vezes melhor desde que eu te deixei!’ Naquele momento eu saí pela porta antes que ela fosse fechada, e, enquanto eu corria por sobre a neve, ouvi a mãe dizer ainda: ‘Que sombra pode ter sido aquela, passando tão rápido?’ E Charlie respondeu com um mero riso: ‘Oh! mamãe, acho que deve ser a sombra engraçada que esteve fazendo aquelas brincadeiras comigo, enquanto você esteve fora.’ Assim que a porta foi fechada, eu arrastei-me ao longo da parede e olhei para dentro da janela da sala de jantar. E ouvi a sua mãe dizer, enquanto ela o levava para o quarto: ‘Que imaginação que este garoto tem!’ Ha! ha! ha! Então ela olhou para ele com muita seriedade por um minuto, e as lágrimas vieram aos seus olhos; e quando ela parou, curvando-se sobre ele, eu ouvi algo que parecia um beijo, misturado com choro.'”

 

“‘Eu sempre saio em busca de berçários cheios de crianças,’ disse outro; ‘e neste inverno eu tive uma sorte especial. Tenho certeza de que nós pertencemos de uma maneira especial às crianças. Certa noite, enquanto eu perambulava pela cidade grande, eu olhei, através de uma janela para dentro de um grande berçário, em que a odiosa lâmpada a gás ainda não havia sido acesa. Em volta do fogo estava assentada uma turma das crianças mais bonitinhas que eu já vi no mundo. Elas estavam aguardando pacientemente o seu chá. Esta era uma oportunidade boa demais para ser desperdiçada. Eu corri para juntar vinte das melhores sombras que eu pude encontrar, e voltei em alguns segundos para o berçário. Ali nós começamos a dançar na parede, uma das nossas melhores danças. Podem ter certeza de que estávamos improvisando, mas conseguimos manter uma certa harmonia, cantando uma canção que eu fui criando, enquanto dançávamos. É claro que as crianças não tinham como ouvir aquilo; pois só podiam ver os movimentos. Mas elas pareciam, de fato, estar extremamente felizes em ver aquilo.

(…)

 

“‘Que enormes que são estas sombras!’ disse uma das crianças – uma menininha pensativa.

 

“‘Gostaria de saber de onde elas vêm.’ disse um garoto pequeno e sonolento.

 

“‘Eu acho que elas nascem para fora da parede,’ respondeu a garotinha; ‘pois eu os estive observando chegando; primeiro uma e depois outra, até que chegou uma enorme quantidade delas. Tenho certeza de que elas nascem para fora das paredes.’

 

“‘Talvez elas tenham mamães e papais,’ disse um menino mais velho, com um sorriso.

 

“‘Sim, sim, o doutor os traz em seu bolso,’ disse uma outra pequena garota conclusivamente.

 

“‘Não; Eu preciso lhes dizer,’ disse o garoto mais velho. ‘Eles são fantasmas.’

 

“‘Mas como, se os fantasmas são brancos.’

 

“‘Oh! Estes ficaram pretos ao descer pela chaminé. ‘

 

“‘Não,’ disse um menino de aparência curiosa e quatorze anos de idade, que estava lendo junto à luz do fogo, e parou para ouvir a conversa dos menores.; ‘eles são fantasmas de corpo; eles não são fantasmas de alma.’

 

“Seguiu-se um silêncio, quebrado pelo primeiro garoto, o do olhar sonhador, que disse:

 

“‘Eu espero que eles não me tenham criado;’ o que fez todos cair na maior risada, bem na hora em que a crecheira lhes trouxe o chá. Quando ela se voltou para ligar a lâmpada a gás nós desaparecemos.

 

“‘Eu impedi um assassinato,’ gritou outra sombra.

 

“Como? Como?Como?’

 

“‘Calma, que vou lhes contar.-Estava eu à caça de um quarto de repouso, em que um pobre avaro estava deitado doente há algum tempo, aparentemente morrendo. Eu não estava gostando nada daquele lugar, mas eu me senti como se estivesse sendo desejado ali. Havia muitos lugares para se esconder por lá, pois ele estava repleto de toda a espécie de móveis, – especialmente armários, cofres e prensas. Acho que ele mantinha naquele quarto cada peça de sua propriedade que ele passou a vida toda para juntar. E eu sabia que ele tinha um monte de ouro naqueles lugares, pois uma noite, quando a sua enfermeira estava fora, ele levantou da cama, resmungando e tremendo, e deu um jeito de abrir um dos seus cofres, embora ele quase tivesse desmaiado devido ao esforço. Eu estava besbilhotando por sobre o seu ombro, e um brilho tão grande de ouro caiu sobre mim, que quase me matou. Mas quando se podia ouvir a enfermeira voltando, ele fechou a tampa, e eu me recuperei. Eu bem que me empenhei com todas as minhas forças, mas não consegui fazer-lhe nenhum bem. Pois, por mais que eu criasse todos os tipos de sombras nas paredes e teto, representando as más ações que ele havia cometido, que eram tantas, que ficava difícil escolher, não fui capaz de criar nenhuma sombra na sua cabeça ou consciência. Ele não tinha olhos para nada, a não ser para o ouro. E foi assim que aconteceu que a sua enfermeira não tinha nem olhos, nem coração para mais nada.

 

“‘Um dia, quando ela estava sentada ao lado da cama dele, mas em um lugar de onde ele não podia vê-la, mexendo algum tipo de mingau em uma bacia, para esfria-lo para ele, eu a vi tirar um pequeno frasco do seu decote, e eu soube, pela expressão do rosto dela, tanto o que era quando o que ela viria a fazer com aquilo. Felizmente a rosca era um pouco difícil de tirar, e isso me deu um momento para pensar.

 

“‘O quarto estava tão lotado com todo o tipo de coisas, que embora não houvesse curtinas na cama de quatro níveis para esconder das vistas do avaro os seus tesouros preciosos, havia entretanto ali ainda um único ponto no teto adequado para que eu pudesse aparecer na forma que eu desejava assumir. E aquele ponto era difícil de alcançar. Mas eu descobri que sobre este preciso ponto, incidia um raio largo da luz do fogo, lançado de um espelho estranho, velho e empoeirado, largado em algum canto, então eu me coloquei diante do fogo, espiando onde o espelho estava, joguei-me sobre ele, e confinei-me da sua face sobre a piscina larga de luz turva no teto, assumindo, enquanto passava, a forma de uma velha bruxa corcunda, vertendo algo do frasco em uma baxia. Eu formei o cabo da colher com o meu próprio nariz, ha! ha!’

 

“E uma mão sombria acariciou a ponta sombria do nariz de sombra antes de que a língua da sombra retornasse.

 

“‘O velho avaro me viu. Ele não viria a provar o mingau naquela noite, por mais que a sua enfermeira o procurasse seduzir e ralhasse com ele até que ambos ficarem exaustos. Ela fez de conta que o estava provando, e que estava muito bom, e no final retirou-se para um canto, fazendo de conta que o estava comendo ela mesma, mas eu via que ela estava tomando cuidado para expelir tudo novamente.’

 

“‘Mas chegaria uma hora em que ela divia ter tido sucesso, ou acabaria por matá-lo de fome.’

 

“‘Nem te conto.’

 

“‘Mas,’ interveio outro, ´ele não era digno de ser salvo.’

 

“‘Ele podia se arrepender,’ disse uma outra sombra mais benevolente.

 

“‘Nem pensar,’ replicou o primeiro. ‘Os avaros nunca fazem isso. O amor pelo dinheiro tem menos cura em si mesmo do que qualquer outra fraqueza em que os seres humanos desgraçados podem cair.

Que bênção que é, ter nascido como sombra. As fraquezas não nos atingem. Que interesse poderiamos nós ter em ouro! Não passa de lixo.’

“‘Amén! Amén! Amén!’ ouviu-se de uma centena de vozes de sombra.

“‘Você deveria tê-la deixado matar-te e com isso estaria tudo acabado com ele.’

“‘E além disso, afinal, que chance tinha ele de ter escapado? Ele jamais teria como se livrar dela.

“‘Eu bem que ia lhes contra,’ repetiu o narrador, ‘é só que você me interrompeu com tantas observações de sombra que não me deixava.’

 

“‘Prossiga, prossiga.’

 

“‘Havia uma pequena neta que costumava vir e visitá-lo às vezes a única criatura com a qual o avaro se preocupava. A mãe dela foi a sua filha, mas o velho nunca ia vê-la, porque ela casou contra a vontade dele. O seu marido estava morto agora, mas ele ainda não a perdoou.

Depois que ele viu a sombra, entretanto, ele disse a ele mesmo, enquanto estava deitado acordado aquele noite – e eu via as palavras escritas no seu rosto -‘Como é que eu vou fazer para me livrar daquele velho diabo? Se eu não comer, acabarei morrendo. Gostaria que a pequena Mary viesse amanhã. Ah! A sua mão jamais me trataria desse jeito, nem se eu vivesse uns cem anos mais.’ Ele ficou assim deitado em vigília, pensando e remoendo estas coisas thinking a noite toda, e eu fiquei parado observando-o de um canto escuro, até o raiar do dia, que me espantou. Quando eu voltei na noite seguinte, o quarto estava limpo e arrumado. A sua própria filha, que tinha uma feição triste, mas era ainda uma bela mulher, sentou-se a seu lado, e a pequena Maria estava enrolada no chão, junto ao fogo, imitando-nos, projetando sombras estranhas no teto com as suas mãos enganchadas. Mas ela não podia sequer imaginar como foi que elas apareceram ali. E não é de estranhar, pois eu ajudei a criar algumas das mais incontáveis.’

 

“‘Eu também tenho uma história sobre uma netinha,’ disse uma outra, na mesma hora em que o outro narrador terminou.

 

“‘Conte. Conte.’

 

“‘No Natal passado,’ começou ele, ‘eu e um grupo de sombras saímos pela penumbra afora, para encontrar alguma casa, onde todos nós pudéssemos ter algo a fazer; pois nós havíamos decidido agir em conjunto. Nós procuramos e vários lugares, mas encontramos objeções a todos eles. Finalmente demos uma espiada numa ampla casa de campo, e nos precipitamos na sua direção, onde encontramos várias pessoas ocupadas em grandes preparativos para o jantar de natal. Nós entramos, quase nos atropelamos, e decidimos na hora que ali daria certo. Nós nos divertimos primeiro no quarto das crianças, onde havia diversas crianças sendo vestidas para o jantar.

Geralmente nós nos dirigimos primeiro para o quarto das crianças, vossa majestade. Desta vez estávamos especialmente encantados com uma pequena garota de mais ou menos cinco anos de idade que bateu palmas e dançava por aí com prazer devido às travessuras que nós empreendemos; e nós dissemos que faríamos algo para ela se tivéssemos chance para isso. A companhia começou a comparecer; e a cada chegada, corríamos para o hall, e damos maravilhosas cambalhotas de boas-vindas. No meio tempo, nós voamos embora para ver, como as coisas estavam indo.

Uma garota de mais ou menos dezoito anos dava gosto de ver. Ela se vestia, como se não tivesse ligado muito para aquilo, mas não podia deixar de faze-lo de modo bonito. Quando ela deu a sua última olhada no vulto no espelho, ela deu um meio sorriso para ele.

– Mas nós não gostamos nada, nada daquelas criaturas que aparecem nos espelhos, vossa majestade. Nós não as entendemos. Elas são assombrosas para nós.

-Ela parecia muito séria e pálida, mas muito doce e cheia de esperanças. Nós queríamos saber tudo sobre ela, e logo descobrimos que ela era uma parente distante e grande favorita de um cavaleiro da casa, um senhor de idade, com uma expressão de benevolência misturada com obstinação e uma profunda sombra com algo de tirânico. Nós não conseguiríamos admirá-lo muito; mas nós não mudaríamos de opinião todos ao mesmo tempo: as sombras nunca fazem isto.

 

“‘O sinal de jantar tocou e nós nos precipitamos escadas abaixo. Todas as crianças pareciam contentes, e nós estávamos felizes. Havia um camarada entre os serventes que aguardava ansioso. Como nós o atormentamos! E como nós nos divertimos! Quando ele estava pondo os pratos, nós esperamos deitados por ele por todos os cantos e pulamos sobre ele do chão e por sobre os corrimões, e para baixo das cornijas. Ele pulou, cambaleou e zanzou por aí, de modo que os seus colegas serventes começaram a achar que ele estava bêbado. Uma vez ele derrubou uma bandeja, e teve que reunir todos os pedaços, e fugiu com eles.

E como nós o perseguimos e eprturbamos no trabalho! Sorte dele foi que o seu chefe não o viu; mas nós tomamos cuidado para que ele não entrasse em nenhuma complicação mais séria, embora os seus olhos estivessem ficado bastante ofuscados com o sumiço das incontáveis sombras. Algumas vezes ele achou como se a parede estivesse caindo sobre ele; outras vezes, que o chão estava se abrindo para tragá-lo; outras ainda, que ele seria espancado e rasgado em pedaços correndo para cima e para baixo ou que fosse sucumbir na multidão negra.

 

“‘Quando o medroso foi trazido para dentro, nós promovemos um perfeito carnaval de sombras em torno dele, dançando e nos transformando em chamas azuis, como demônios enlouquecidos. E como as crianças gritaram de prazer!

 

“‘O velho cavaleiro, que gostava muito de crianças, riu com uma risada que vinha do mais fundo do seu coração, quando alguém bateu fortemente na porta do hall. A bela menina deu um pulo, ficou mais pálida e em seguida, vermelha como o fogo do Natal. Eu o vi, e arremessei as minhas mãos por sobre o seu rosto. Ela ficou muito contente, e eu sei que ela disse no seu coração, “Minhas sombras do coração!” o que deceu muito bem. Em seguida eu segui o resto para o hall, e encontrei um marinheiro muito jovial, bonito, de face bronzeada pelo sol, evidentemente era algum filho da casa. O velho o recebeu com lágrimas nos olhos, e as crianças com gritos de alegria. A garotinha escapou na confusão em tempo somente de salvar a si mesma de um desmaio. Nós nos reunimos sob a lâmpada para esconder a sua fuga, e quase a deixamos a descoberto. O mordomo não conseguiu acendê-lo enquanto ela não escorregasse novamente para o seu lugar, muito feliz por encontrar a sala tão escura. Foi só o marinheiro ver ela sair, que ele se sentou ao lado dela e, sem uma só palavra, pegou na sua mão na penumbra. Mas agora nós todos nos dispersamos pelas paredes e cantos; e a lâmpada foi novamente acesa, e ele largou da mão dela.

 

“‘Por todo o resto do jantar, o velho observeou os dois e viu que havia algo entre eles, e ficou muito bravo. Pois ele era um homem importante na sua própria estimative e eles nunca o consultaram. O fato era que eles mesmos nem sabiam ao certo o que lhes estava acontecendo, até que o marinheiro foi embora para a sua última viagem; e eles só conheceram um ao outro naquele momento.

-Nós descobrimos tudo observando-os, e depois conversando sobre isso juntos depois.

-O velho cavaleiro viu também que o seu favorito, que estava sob tal obrigação em relação a ele por amá-la tanto, amava o seu filho mais do que a ele; e isso o deixou tão enciumado, que em pouco tempo ele estava lançando uma nuvem negra sobre toda a mesa com o seu olhar moroso e respostas curtas.

Este tipo de sombra é muito diferente da nossa; e a sobremesa de Natal acabou ficando tão deprimente que nós as sombras não conseguimos suporta-lo, e ficamos felizes quando as senhoras se levantaram para ir até a sala de estar. Os cavaleiros não iriam atrás das damas, nem para provar do bem conhecido vinho. Então o anfitrião mal-humorado, não obstante a sua hospitalidade, foi abandonado sozinho à mesa, no grande e silencioso salão. Nós seguimos a comitiva escada acima para a sala de visitas e depois para o quarto das crianças para brincar de “pega-dragão”. Enquanto elas se ocupavam com este jogo, que é um dos mais sombrios, quase todas as sombras dispararam escadas abaixo novamente para a sala de jantar, onde o velho ainda se encontrava assentado, remoendo o osso duro do seu próprio egocentrismo. Elas invadiram a sala e usando todo o tipo de método para se expandir e inflar como bolhas de sabão, elas obtiverma sucesso em preencher toda a sala com uma sombra depois da outra. Eles se fizeram o mais gordas possível em torno do fogo e da lâmpada, até que finalmente elas quase que inundaram todo o ambiente com montes de escuridão.

 

“‘Antes de terem conseguido tudo isso, as crianças, cansadas de tanto divertimento e bagunça foram postas para dormir. Mas a pequena garota de cinco anos de idade, com a qual nós ficamos tão enquantados quando chegamos pela primeira vez não conseguia or dormir. Ela tinha pouco espaço para si; e eu a estava observando na cama e agora a mantinha acordada saltitando nos raios da luz noturna. Quando os olhos dela ficaram certo dia fixos sobre mim, eu assumi as formas do avô dela, representando-o na parede, assentado na sua cadeira, com a sua cabeça baixa, e os seus braços indiferentes frouxos soltos a seu lado. E a criança lembrou que foi assim precisamente que ela o havia visto pela última vez; pois acontece que ela havia dado uma espiada pela porta da sala de jantar, depois que todo o mundo se levantou e subiu as escadas. “E se ele ainda estiver sentado ali,” pensou ela, “abandonado sozinho no escuro!” Ela desceu da cama e engatinhou para baixo.

 

“‘Neste meio tempo os outros fizeram o quarto de baixo ficar tão escuro, que apenas a face e cabelos broncos do velho homem podiam ser vagamente discernidos em meio à multidão de sombras. Pois ele havia enchido a sua própria mente com sombras, que nós, as Sombras, desejávamos expulsar dele. Aquelas sombras eram bem diferentes de nós, vossa majesta bem o sabe. Ele estava pensando em todos os decepções que ele já teve na vida, e de toda a ingratidão que ele encontrou. Ele pensou muito mais no bem que ele havia feito, do que no bem que outros lhe fizeram. “Depois de tudo o que eu fiz para eles,” disse ele, com um suspiro de amargura, “nenhum deles me dá um só pingo de atenção. Meus próprios filhos ficarão contentes quando eu me for!” Naquele instante ele levantou os olhos e viu, parada junto à porta, uma figura delicada em uma camisola. A porta atrás dela estava fechada. Era a minha pequena amiga que havia entrado sem fazer barualho. Uma forte pontada de gelado pavor tomou o coração do homem velho – mas ele derreteu-se rapidamente, pois nós fizemos um corredor entre nós, para que um só raio de luz do fogo caísse sobre a face da pequena fada, e ele achou que fosse um dos seus filhos que havia morrido quando tinha exatamente a mesma idade da sua pequena neta, que estava agora olhando para o seu avô por entre as sombras. Ele pensou que ela havia se levantado do seu túmulo na velha escuridão para perguntar, porque é que o seu pai estava ali sentado, sozinho no dia do Natal. E ele sentiu que não tinha resposta alguma a dar para a sua pequena fantasma, a não ser alguma coisa que ele ficaria envergonhado de lhe dizer. Mas a pequena garota o havia visto agora. Ela caminhou até ele com uma dignidade infantile, entre um tropeço e outro, no que lhe parecia ser uma corda comprida. Abrindo o seu caminho entre as sombras amontoadas, ela o alcançou, subiu no seu colo, deitou a sua cabecinha de cabelos compridos nos seus ombros e disse: “Vô! Ce ta tiste? Não é natal para você também, vovô?”

 

“‘Uma nova onda de amor parecia jorrar do fundo do coração do velho homem. Ele deu um abraço apertado na criança e começou a chorar. Em seguida, sem uma só palavra, ele a levantou nos seus braços, carregou-a para cima até o quarto dela e a deitou na sua caminha, cobriu-a, beijou a sua pequena boca doce, sem dar-se conta de qualquer censura, e depois seguiu para a sala de visitas.

 

“‘Assim que entrou, viu os réus sozinhos em um canto silencioso. Ele se dirigiu a eles, pegou na mão de cada um e predeu-as nas dele, dizendo: “Deus os abençoe a todos!” Então ele se dirigiu para o resto do grupo, e disse “Agora, vamos celebrar o natal.”

– E eles devem ter comemorado bastante, pois por mais visitas que eu tenha feito àquela casa, eu nunca mais o vi deprimido desde aquele dia; e eu tenho certeza de que isso deve ter lhe custado bastante esforço.’

 

“‘Nós acabamos de chegar de um arrojado palácio,’ disse outra sombra, ‘onde ficamos sabendo que havia muitas crianças, e onde pensamos ter ouvido vozes contentes, e vimos rostos com aparência real e feliz. Mas, assim que nós entramos, nós nos demos conta de que uma grande e poderosa sombra encobria o todo; e que aquela sombra se aprofundava cada vez mais, até que ele se consolidou tanto em escuridão, até que sossegou na forma de um sábio príncipe. Quando nós o vimos, não conseguimos mais nos mover, mas batíamos fortemente nas paredes, pelo nosso silêncio acrescido à tristeza da hora. E quando nós vimos a mãe daquele povo chorando cabisbaixa pela perda daquele em quem ela confiava, nós fomos acometidos de um desejo tão grande de deixarmos de ser sombras, mas anjos alados, que são as sombras alvas criados nos céus pela Luz de todas as Luzes, então, para juntar em torno dela, e fazer pairar sobre ela um consolo tal, que desaparecemos das paredes e nos encontramos flutuando bem acima das torres do palácio, onde nós nos encontramos com os anjos no seu caminho; e sabíamos que o nosso serviço não estava sendo demandado. ‘

 

“Naquele momento houve um brilho de uma luz luar que se aproximava, e o rei comecou a ver vários daquelas Sombras estrangeiras, com rostos humanos e olhos, que se moviam entre a multidão. Ele sabia de imediato que eles não pertenciam ao seu domínio. Eles olharam para ele, e se aproximaram dele, e passaram rapidamente, mas eles nunca fizeram qualquer reverência, ou deram sinais de respeito e admiração. E o que os seus olhos diziam a ele, só o rei seria capaz de dizer. Mas ele não disse.

 

“‘O que são aquelas outras sombras que estão se movendo através da multidão?’ disse ele para um de seus súditos que estava próximo dele.

 

“A sombra começou, olhando ao redor, e tremendo um pouco, colocou um dedo sobre os seus lábios. Em seguida, puxando o rei um pouco de lado, e olhando com atenção para ele mais uma vez, disse em um tom baixo:

 

“‘Eu não sei bem o que eles são. Ouvi dizer muito a seu respeito, mas eu só vi um deles certa vez em toda a minha vida. Isso foi quando alguns de nós prestamos certa vez uma visita a um homem que ficava muito sozinho, e diziam que ele costumava pensar muito. Nós vimos dois dels sentados no quarto jutno com ele, e ele estava tão pálido quanto eles eram. Não conseguimos cruzar a soleira da porta, mas começamos a temer e tremitar, e estávamos prontos para derreter totalmente. Vossa majestade também não tem medo deles?’

 

“Mas o rei não deu resposta; e antes de conseguirmos falar novamente, a lua se elevou acima dos poderosos pilares da igreja das sombras, e olhou para dentro da grande janela do céu.

 

“As sombras desapareceram todas e o rei, levantando os seus olhos novamente, não via mais nada a não ser a parede do seu próprio quarto, na qual trimulava a sombra de uma pequena criança. Ele olhou para baixo e ali, sentado em uma cadeirinho junto ao fogo, ele viu um dos seus filhos, esperando para desejar boa noite para o seu pai, e ir para a cama cedo, para que pudesse acordar igualmente cedo e ser muito bonzinho e feliz no dia do natal.

 

“E Ralf Rinkelmann sentiu-se muito grato por ser um ser humano, e nenhuma sombra. ”

Fonte:

http://kirov.seanet.com/~eldrbarry/mous/bibl/csr.htm

http:www.geocities.com/Athens/Atlantes/6510/col-chesterton.htm

 

 

Por Gabriele Greggersen

Como saber se um livro novo é bom, se pouca gente o leu?

Muitos dos que apreciam a leitura, às vezes, ficam desorientados quanto ao que ler. Então, frequentemente, seguem a moda, os best-sellers ou os mais vendidos. Mas nem sempre os mais vendidos são os melhores livros, e, muitas vezes, os melhores não são os mais novos ou os lançamentos.

Então, como saber se um livro novo é bom, se pouca gente o leu? É precisamente isso que Lewis questiona na introdução à tradução inglesa de um clássico de Atanásio, “On the Incarnation” [Sobre a encarnação], datada do século IV. Ao autor é atribuído também um Credo de Atanásio, mas cuja autoria é questionada por Lewis.

O fato é que o tema central desse credo também é a encarnação e só por isso, merece fazer parte da biblioteca dos credos clássicos cristãos.

É sobre os clássicos, que ele chama de “old books” (livros antigos), que Lewis escreve a sua introdução. Não é precisamente sobre o conteúdo da obra de Atanásio que Lewis discorre, mas por que ler livros como o dele, para começo de conversa. A tentação foi certamente grande, pois, como anglicano, o tema da encarnação lhe era especialmente caro. Talvez, por isso mesmo ele tenha sido escolhido para a introdução. Mas ele decidiu priorizar falar sobre um tema que lhe pareceu mais urgente.

Lewis poderia dizer que essa desvalorização dos clássicos e preferência pelos mais novos seja por causa do que, em outro artigo, ele chama de “esnobismo cronológico”. Achamos tudo que é mais novo mais “na moda”, porque é “de última geração”, e, portanto, necessariamente melhor e mais verdadeiro. Mas ele prefere atribuí-lo à nossa humildade e medo dos grandes pensadores, pois achamos que não vamos compreendê-los.

Talvez, mas acho que o preconceito é um motivo mais forte, mesmo nos meios em que o estudo se refere à teologia. Nesse meio, acredito que o esnobismo cronológico é especialmente agudo, pois todos querem seguir as doutrinas mais avançadas e inseridas na contemporaneidade para parecerem mais modernos, ou pós-modernos.

Os clássicos foram testados pelo tempo

Nesse esforço de mostrar o porquê de os clássicos serem mais importantes de se ler – que é pelo simples fato de eles cometerem erros que já foram denunciados e terem lições a oferecer à nossa época, que só quem está de fora pode nos oferecer –, Lewis se coloca lado a lado com os reformadores. Já que um dos pilares da Reforma era, justamente, fazer um resgate da igreja primitiva, dos primeiros pais da teologia e filosofia cristã, e de autores que fazem parte do patrimônio comum, não apenas do cristianismo, mas de toda a humanidade.

Em nosso país, temos alguns representantes dos defensores da escola dos clássicos, como Ana Maria Machado em seu “Como o por que ler os clássicos desde cedo”, em que Lewis e Tolkien têm um espaço especial.

Mas internacionalmente podemos citar o Projeto dos “The Great Books”, que defende o retorno das Artes liberais, o “trivium” e o “quadrivium”, praticado nas escolas gregas e romanas, retomadas na Academia de Genebra e escolas de Lutero e Melanchton.

Mas há mais um motivo por que ler os clássicos: porque eles foram testados pelo tempo e sobreviveram à crítica. Por isso eles também são chamados de imortais. Apesar de se colocar como autor moderno, sem dúvida, Lewis pode ser considerado um clássico. Gostaríamos de homenageá-lo com a tradução inédita do texto “On the Reading of Old Books”.

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Como ler livros antigos 

C.S. Lewis

Há uma ideia estranha rolando por aí de que, não importa o assunto de que se trate, qualquer livro antigo tenha que ser lido exclusivamente pelos profissionais e que o amador deva se contentar com os livros modernos. De acordo com a minha experiência, como professor de literatura inglesa, quando o estudante médio quer descobrir algo sobre o platonismo, a última coisa que ele pensa em fazer é pegar uma tradução de Platão da estante da biblioteca e ler o Simpósio. Em vez disso, ele leria algum abominável e grosso livro moderno, que se resume a “ismos” e influências sofridas por ele, tendo apenas uma numa dúzia de páginas que lhe dizem o que Platão realmente disse. Esse erro é desculpável, pois deve-se à humildade. É que o estudante fica tremendo de medo de se encontrar face a face com os grandes filósofos. Ele se sente despreparado e acha que não vai compreendê-los. Mas se ao menos ele soubesse que o grande homem, precisamente por sua grandeza, é muito mais inteligível do que o seu comentador moderno. Até mesmo o estudante mais limitado estará em condições de entender, se não tudo, pelo menos uma grande parte do que Platão disse, mas é difícil haver alguém que entenda certos livros modernos sobre o platonismo. Por isso, uma das minhas principais causas como professor sempre foi a de persuadir os jovens de que o conhecimento de primeira mão não só vale mais a pena de ser adquirido do que o conhecimento de segunda, mas, usualmente, também é mais fácil e mais prazeroso de se adquirir.Não há lugar em que essa preferência equivocada pelos livros modernos e essa timidez em relação aos antigos esteja mais presente do que na teologia. Pegue qualquer grupo de estudos de leigos cristãos, e poderá ter certeza de que eles não estarão estudando São Lucas, São Paulo ou Santo Agostinho ou São Tomás ou Hooker ou Butler; mas M. Berdyaev ou M. Maritain ou M. Niebuhr ou Dorothy L. Sayers ou mesmo a mim.

Ora, esse estado de coisas me parece bastante invertido. É claro que, como escritor, não desejo que o leitor comum deixe de ler livros modernos. Mas se fosse para eu optar por recomendar que se leia apenas livros novos ou exclusivamente os antigos, eu escolheria os últimos. E daria esse conselho principalmente aos amadores que, precisamente por isso, estão menos protegidos do que o especialista contra os perigos de uma dieta exclusivamente contemporânea. Um livro novo ainda está no período de teste e um amador não estará em condições de julgá-lo. Ele terá que ser testado em relação ao grande corpo de conhecimentos cristãos ao longo das eras e todas as suas implicações ocultas (muitas vezes insuspeitas pelo próprio autor) tiveram que ser trazidas à luz. Muitas vezes elas não podem ser compreendidas plenamente sem o conhecimento de uma boa quantidade de outros livros modernos.

Se você entra de paraquedas numa conversa que havia começado três horas atrás, muitas vezes não verá a real importância do que está sendo dito. Observações que lhe pareçam muito normais estarão provocando risos ou irritação e você não entenderá por que — a razão, claro, é que os estágios anteriores da conversa lhes tenham dado um motivo especial para tanto.

Da mesma forma, as sentenças de um livro moderno que parecem bem ordinárias, podem estar sendo relacionadas a algum outro livro, e dessa forma você pode ser induzido a aceitar o que você teria rejeitado com indignação se soubesse o seu significado real. A única segurança que se pode ter é partir de um padrão de cristianismo claro, central (“Cristianismo puro e simples”, na formulação de Baxter), que coloca as controvérsias do momento no seu ângulo mais apropriado. Tal padrão só pode ser adquirido a partir dos livros antigos. Uma boa regra para se adotar é de não se permitir ler outro livro novo, enquanto não se tiver lido um antigo entre um e outro. Se essa regra for demasiada para você, deve ler pelo menos um livro antigo a cada três novos.

Toda época tem a suas idiossincrasias. Cada uma se especializa em ver certas verdades e em cometer certos erros. Por isso mesmo, todos nós precisamos daqueles livros que irão corrigir os erros característicos de nossa própria era. E isso significa os livros antigos. Todos os escritores contemporâneos compartilham até certo ponto da cosmovisão contemporânea – mesmo aqueles que, como eu, parecem mais contrários a ela. Nada me impressiona mais ao ler as controvérsias do passado do que o fato de que ambos os lados estavam assumindo sem questionamento uma boa quantidade de ideias que hoje estão absolutamente negadas. Eles achavam que elas eram absolutamente opostas, mas, ao mesmo tempo, elas estavam secretamente unidas – unidas umas com as outras e contra as eras anteriores e posteriores – por um grande volume de suposições em comum. Podemos ter certeza de que a cegueira característica do século vinte – a cegueira sobre a qual a posteridade viria a perguntar: “Mas como é que pode eles terem ensinado tal coisa” – se encontra onde nós nunca suspeitávamos, e se refere a algo sobre um acordo claro que há entre Hitler e o Presidente Roosevelt, ou entre o Sr. H.G. Wells e Karl Barth. Nenhum de nós pode escapar completamente dessa cegueira, mas acabaremos certamente por aumentá-la e afrouxar a nossa guarda contra ela, se nos limitarmos a ler livros modernos. Onde eles estão ao lado da verdade, vão nos fornecer verdades que já conhecemos em parte. Onde eles são falsos, vão agravar o erro com o qual já estamos contaminados perigosamente. O único antídoto a isso é de manter a brisa clara e limpa do mar dos séculos soprando através das nossas mentes, e isso só pode ser feito lendo livros antigos. É claro que não estou defendendo que haja alguma magia com relação ao passado. As pessoas não eram mais inteligentes do que são agora; eles cometiam tantos erros quanto nós. Mas não os mesmos erros, que uma vez conhecidos e palpáveis no presente, não vão representar perigo para nós hoje. Duas cabeças pensam melhor do que uma, não porque alguma delas seja infalível, mas porque é improvável que elas errem na mesma direção. Com certeza, os livros do futuro seriam um corretivo tão bom quanto os livros do passado, mas infelizmente não temos acesso a eles.

Eu mesmo fui levado a ler os clássicos cristãos quase por acidente, em decorrência dos meus estudos de língua e literatura inglesa. Alguns deles, como Hooker, Herbert, Traherne, Taylor e Bunyan, eu li porque eram grandes escritores ingleses propriamente ditos; outros, como Boécio, Santo Agostinho, Tomás de Aquino e Dante, porque representaram “influências” sobre eles. George Macdonald eu encontrei por mim mesmo aos dezesseis anos de idade e nunca vacilei na minha lealdade a ele, embora eu tivesse tentado, por muito tempo, ignorar o seu cristianismo. Esse, como você vai notar, é um pacote bastante misto, com representantes de várias igrejas, climas e épocas. E isso me leva a mais um motivo para lê-los. As divisões do cristianismo são inegáveis e são expressas com ímpeto por muitos desses escritores. Mas se alguém for tentado a pensar — como é o caso de alguém que só leu autores contemporâneos — que o “cristianismo” seja uma palavra com tantos significados, que não quer dizer mais nada, poderá aprender que, sem dúvida alguma, não é bem assim, dando um passo para fora de seu próprio século. Comparado com as épocas, o “cristianismo puro e simples” se revela como não sendo nenhuma transparência interdenominacional insípida, mas algo positivo, auto consistente e inexaurível.

Eu o sei, com efeito, por experiência própria. Na época em que eu ainda odiava o cristianismo, aprendi a reconhecê-lo como um aroma bastante familiar, que emanava quase que invariavelmente, seja do puritano Bunyan, seja do Hooker anglicano, seja do Dante tomista. Ele estava ali (de flores e mel) em Francois de Sales; ele estava presente (grave e caseiro) em Spenser e Walton; estava presente (impiedoso, mas viril) em Pascal e em Johnson; estava ali, novamente, com um sabor suave e tremendamente paradisíaco, em Vaughan e Boehme e Traherne. Na sobriedade urbana do século XVIII não se estava a salvo — Law e Butler eram dois leões no meio do caminho. O suposto “paganismo” dos elizabetanos não poderia deixá-lo de fora; ele estava à espreita até mesmo onde uma pessoa poderia se achar mais segura possível, bem no centro de “A rainha das fadas” e da “Arcadia”. É claro que o aroma era variado, mas, ainda assim — afinal de contas — tão invariavelmente o mesmo, reconhecível, inescapável, o odor que sempre representará a morte para nós, se não permitirmos que adquira vida:

“Um ar que mata
Sopra de um país longínquo”

Ficamos todos angustiados e igualmente envergonhados quanto às divisões do cristianismo. Mas os que sempre viveram num meio cristão ficarão mais facilmente desanimados por elas. Elas são más, mas pessoas assim não sabem como a coisa se parece olhando de fora. Visto dessa perspectiva, o que permanece intacto apesar de todas as divisões ainda parece ser (como realmente é) uma unidade impressionante. Eu sei, porque a vi, e nossos inimigos o sabem muito bem também. Qualquer um pode encontrar essa unidade, saindo de sua própria época. Não é o suficiente, mas é mais do que você havia pensado até então. Uma vez que você esteja bem encharcado disso, se então você se aventurar a falar, terá uma experiência surpreendente. Será tido como um papista, quando na verdade está reproduzindo Bunyan; um panteísta, quando está citando Aquino; e assim por diante. Pois agora você deve avançar para o grande viaduto que atravessa as eras e que parece tão alto, a partir dos vales; tão baixo, a partir das montanhas; tão estreito, comparado com o mangue; e tão largo, comparado com picada de burro.

O presente livro é uma espécie de experimento. A tradução é destinada ao mundo como um todo, não apenas para os estudantes de teologia. Se ele suceder, outras traduções de grandes livros cristãos presumivelmente seguirão. Em certo sentido, é claro, não se trata do primeiro do gênero. Traduções da “Theologia Germanica”, de “A Imitação de Cristo”, de “A escala da Perfeição” e de “As Revelações da Sra. Juliana de Norwich” já estão no mercado e são muito valiosas, embora algumas delas não sejam muito acadêmicas. Mas é perceptível que todos esses livros são mais devocionais do que doutrinais. Agora, o leigo ou amador precisa ser instruído, bem como exortado. Nos tempos de hoje, sua necessidade de conhecimento é particularmente urgente. Eu também nem sequer admitiria alguma divisão precisa entre os dois tipos de livro. Da minha própria parte, tendo a achar os livros doutrinais muitas vezes mais úteis para a devoção do que os livros devocionais, e suspeito que a mesma experiência possa acometer muitas outras pessoas. Acredito que muitos daqueles que acham que “nada acontece” quando se sentam ou se ajoelham diante de um livro de devoção, acharão que o coração canta de forma espontânea, enquanto estão digerindo uma porção dura de teologia com um cachimbo entre os dentes e uma caneta na mão.

Esta aqui é uma ótima tradução de mui grandioso livro. Santo Atanásio sofreu na opinião popular devido a certa sentença no “Credo de Atanásio”. Não vou discutir aqui o ponto de que essa obra não é exatamente um credo e não foi escrita por Atanásio, pois eu acho que se trata de uma obra de escrita da mais alta qualidade. As palavras “A qual [a fé universal], a menos que cada um preserve perfeita e inviolável, certamente perecerá para sempre” é que representam o ponto ofensivo. Elas são usualmente mal compreendidas. A palavra operacional é preservar, não adquirir, ou mesmo crer, mas manter. O autor não está falando, na verdade, sobre descrentes, mas de desertores; não daqueles que nunca ouviram falar de Cristo, nem mesmo daqueles que o entenderam mal e se recusaram a aceitá-lo, mas daqueles que, tendo realmente compreendido e realmente crido, depois se permitiram, debaixo de um ataque de preguiça ou a pressão da moda ou qualquer outra confusão que tiverem deixado ingressar, partir para modos sub-cristãos de pensamento. Eles são um alerta contra a crença moderna de que todas as mudanças de crença, por mais que sejam provocadas, sejam necessariamente isentas de culpa. Mas essa não é a minha preocupação imediata. Mencionei o “credo (usualmente assim chamado) de Atanásio” só para tirar do caminho do leitor o que poderia ser um fantasma e colocar o verdadeiro Atanásio no seu lugar. O seu epitáfio é Athanasius contra mundum, “Atanásio contra o mundo”. Temos orgulho de que nosso próprio país se colocou contra o mundo mais de uma vez. Atanásio fez o mesmo. Ele se colocou a favor da doutrina da Trindade “completa e imaculada” quando parecia que todo o mundo civilizado estava recaindo do cristianismo na religião de Ario — numa daquelas religiões sintéticas e “sensíveis” que são recomendadas de forma tão efusiva hoje e que, então, da mesma forma como agora, incluíam entre os seus devotos muitos clérigos altamente cultos. E sua glória está em que ele não se moveu com os tempos; seu mérito é que ele permanece até agora, enquanto os tempos, como fazem em todas as eras, passaram.

Quando eu abri o seu De Incarnatione pela primeira vez, logo descobri por um teste muito simples que estava lendo uma obra de arte. Eu conhecia muito pouco de grego cristão, exceto daquele no Novo Testamento, e esperava ter dificuldades. Para a minha surpresa eu o achei quase tão fácil quanto Xenofonte e apenas a mente de um mestre poderia, no século IV, ter escrito de forma tão profunda sobre tal objeto com uma simplicidade tão clássica. Cada página que eu lia confirmava essa impressão. Sua abordagem dos milagres é muito necessária para os dias de hoje, pois é a resposta definitiva àqueles que se opõem a eles como “violações arbitrárias e sem sentido das leis da natureza”. Eles são apresentados aqui como sendo uma reprodução em letras garrafais da mesma mensagem que a natureza escreve em sua letra cursiva, que mais parece um garrancho. Trata-se das mesmas operações que se esperaria daquele que estava tão cheio de vida que, quando desejou morrer, teve que “emprestar a morte de outros”. Todo o livro, com efeito, é um retrato da árvore da vida — um livro meloso e dourado, cheio de leveza e confiança. Não conseguimos nos apropriar de toda essa confiança nos dias de hoje, eu admito. Não podemos apontar para a alta virtude da vida cristã e da coragem alegre, quase escarnecedora, do martírio cristão como uma prova de nossas doutrinas com a mesma segurança que Atanásio toma por hábito. Mas se há alguém que possa ser acusado disso não é Atanásio.

A tradutora conhece tanto mais de grego cristão do que eu, que seria despropositado de minha parte louvar a sua versão. Mas me parece que ela está em linha com a tradição da tradução inglesa. Não penso que o leitor irá achar aqui qualquer traço daquelas imprecisões que são tão comuns nas interpretações modernas das línguas antigas. Isso é o máximo que o leitor inglês irá perceber. Aqueles capazes de comparar a versão com o original estarão em condições de estimar quanta inteligência e talento é pressuposta em uma escolha como, por exemplo, por “esses sabichões” na primeira página.

Dedicado aos recém casados Rev. Dr. Daniel R. Cabral e Dra. Gabriele Greggersen .

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine.” (1 Coríntios 13: 01)
“Assim é que o amar e o Amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar belamente.” (Platão, O Banquete)

Em Quatro Amores C.S.Lewis faz uma bela distinção e uma das melhores abordagens da Afeição, da Amizade, Eros e Caridade. Nosso trabalho, a nível de introdução, é estabelecer os limites de proximidade, ou ainda, se deve haver realmente limites, entre dois desses amores: Eros e Amizade. Lewis foi sempre muito cauteloso em tratar desse tema que nos é tão comum, suspeito que a causa disso seja que a mera tentativa de descrever a intensidade que pode, em alguns poucos casos, diga-se de passagem, haver entre esses dois amores não é só difícil, mas comprometedor. A amizade deve ser de tal modo valorizada que possa receber a honra de sua grandeza sem a intervenção de Eros. O contrário disso já acontece com frequência em tempos de demasiado romantismo hollywoodiano, mas não deveria, de fato, acontecer. Quem leu a mitologia de J.R.R.Tolkien sabe do vigor que Eros dá a Beren e Luthien no resgate, aparentemente impossível, das Silmarilion. Mas quem não ficou só nos tempos primitivos da Idade Média ou pode acompanhar a super produção de O Senhor dos Anéis, sabe que o paralelo perfeito à essa aparente impossibilidade encontra-se em Frodo Bolseiro e Sam Wise, com duas únicas diferenças, não se tratava de um resgate, mas de uma incumbência de destruição, e não fora Eros o amor que lhes suscitou a força necessária, mas a Amizade; a mesma que fez com que Olga saísse em busca de Policarpo Quaresma na tentativa de salvá-lo da morte na triste história de Lima Barreto; ou ainda a que fez Jonatas amar a Davi e livrá-lo da perseguição de Saul, legando-nos uma das mais belas histórias de amizade já registradas. Podemos ter plena certeza de que às vezes nossas amizades são mais intensas do que nossos outros amores, obviamente não há perigo em afirmar isso, nosso Senhor disse ser nosso Pai, mas também disse ser o nosso amigo (João 15:14).

Há ainda um outro tipo de perigo, a idéia de que todo tipo de amor é, por si só, bom. Pretendo falar mais sobre isso no final deste artigo, mas não dá nem para começar se não estivermos conscientes do perigo em que estamos se todos os nossos amores não dependerem daquela experiência extraordinária de amor que nós chamamos graça e que só a achamos em Cristo Jesus. O único amor sobre o qual podemos solidificar nossa esperança, alegria e paz, é aquele que, para usar as palavras de Paulo, “não passa” (1 Coríntios 13:13).

Feita as devidas observações, passo agora à pergunta principal: pode Amizade conviver junto com Eros?
Antes de fornecer uma resposta, rápida e objetiva, quero conduzi-los à uma história que certamente deve esclarecer um pouco mais as coisas. Antes eu disse que Lewis não compôs algo como um capítulo dedicado à relação entre Amizade e Eros, mas é preciso acrescentar que sua própria biografia nos fornece esse conteúdo. A partir de agora vamos penetrar na emocionante história de amor vivida entre Joy Davidman e C.S.Lewis.

Em Os Quatro Amores Lewis nos lembra da pouca probabilidade de um homem tornar-se amigo de uma mulher, principalmente pelo fato de o gosto dos dois sexos serem, na maioria das vezes, absolutamente diferentes. Mas isso tem se tornado uma realidade cada vez mais restrita ao passado. Em tempos em que a mulher se torna cada dia mais participativa na sociedade, e de forma prática, torna-se mais comum ambos os sexos compartilharem preferências políticas, ambientais, trabalhistas, religiosas e etc. Mesmo na época de Lewis essa mudança já era evidente para o autor. Entretanto, com algumas exceções, o círculo de amigos de Lewis geralmente era composto por homens. Além disso, Lewis sempre fora bastante receoso em sua relação com mulheres que ultrapassa-se os limites da amizade. No capítulo em que ele fala sobre Caridade, descreve uma característica própria de sua personalidade da seguinte forma:

“Sou uma criatura que põe a segurança em primeiro lugar. De todos os argumentos contra o amor, nenhum seduz tão fortemente minha natureza quanto esse: “Cuidado! Isso pode fazê-lo sofrer!”

Talvez tenha sido exatamente esse tipo de pensamento a passar pela sua cabeça quando conheceu Joy Davidman. A principio Joy era apenas mais uma das muitas leitoras de Lewis residentes dos EUA, passou a ser uma correspondente e os dois passaram a compartilhar tanto experiências religiosas como literárias. Joy naquela época era casada, mas a relação com seu marido tornava-se cada vez pior. Com o tempo Joy mudou-se para a Inglaterra com a desculpa de que iria visitar uma amiga e dar continuidade em um livro que estava escrevendo. Em 1998, Douglas Gresham, em entrevista, deu sua opinião sobre o motivo que levou sua mãe à Inglaterra: “Seduzir Lewis”. *

Joy obteve um visto com algumas condições e passou a fazer parte dos Inklings, o seleto grupo literário que incluía tanto Tolkien quanto Lewis. É verdade que naquela época o grupo já não se reunia com tanta frequência, mas, de qualquer forma, as conversas de Joy e Lewis só aumentavam. Nesse interin, Joy fica sabendo que seu marido a traía com sua própria prima, talvez ela realmente nāo esperasse menos de um casamento que infelizmente encontrava-se em frangalhos. Em 1953 Joy volta aos EUA e se divorcia. Quando retorna à Inglaterra, não demora muito tempo, descobre um grave problema de saúde: câncer. Joy está divorciada, com dois filhos, longe de seu país e à beira da morte.

Talvez essa seja a fase em que Lewis e Joy mais se aproximam. É verdade que antes de Joy ficar doente ela já tinha se casado com Lewis, mas era um casamento, para usar as palavras de Tolkien (amigo próximo de Lewis), “estranhíssimo”. Casaram-se para viabilizar a permanência de Joy na Inglaterra, já que o prazo de seu visto havia terminado. Era, portanto, um casamento que não comprometia emocionalmente os dois. Porém, realmente não podemos imaginar outra coisa se não que, aos poucos, o humor e a inteligência de Joy iriam cativar o cauteloso coração de Lewis. O cenário é exatamente esse e a doença de Joy foi a cartada final do destino que decidira unir os dois não só na Amizade, mas também em Eros. Em carta à sua famosa amiga e romancista Dorothy Sayers, Lewis escreve sobre sua mudança de sentimento em relação a Joy fazendo alusão a Thanatos, o deus grego da morte. Ele escreve :

“Meus sentimentos haviam mudado. Dizem que um rival transforma um amigo num amante. Thanatos certamente (dizem) se aproximando, mas em uma velocidade incerta, é um rival eficientíssimo nesse sentido. Nós logo aprendemos a amar o que nós sabemos que devemos perder.”**

A alegria que Lewis e Joy compartilhavam, mesmo está estando doente, nos faz lembrar de Santo Agostinho e da famosa passagem de Confissões em que o bispo de Hipona relata a perda de seu amigo Nebrídio. A tristeza que Agostinho descreve em relação à perda de seu amigo nos leva à consideração de que não devemos depositar nossa felicidade em nada que possamos perder. Foi justamente esse registro primitivo que levou Lewis a escrever uma das máximas mais citadas de Os Quatro Amores:

“Para que o amor seja uma bênção, e não uma dor, ele deve se dirigir ao único Amado que nunca morrerá.”

Mas o que o leitor desatento não percebe é que Lewis cita Agostinho quase em um tom de reprovação – note que ele faz isso, para usar suas próprias palavras, com muita “hesitação”. Após confessar a dívida que tem com Agostinho, Lewis chega mesmo a dizer que tal pensamento é mais um “remanescente das nobres filosofias pagās da formação de Santo Agostinho do que parte de seu cristianismo”. Lewis vira a mesa citando o choro de Cristo sobre o túmulo de Lázaro e a possível perda que o apóstolo Paulo teria se Epafrodito, seu “companheiro de lutas”, partisse dessa para melhor. Paulo não se detém em dizer que tal coisa o levaria a “tristeza sobre tristeza” (Filipenses 2;27). O ponto de Lewis é que, mesmo sabendo que Lázaro poderia morrer, Jesus não o deixou de amar, mesmo sabendo, em sua onisciência, que iria derramar lágrimas sobre sua morte; o apóstolo dos gentios, da mesma forma, não deixou de amar Epafrodito mesmo presumindo sua possível perda e Paulo, diz Lewis, “tem maior autoridade sobre nós do que Santo Agostinho”. Em uma conclusão que deveria ficar registrada como o parágrafo mais estonteante de toda literatura cristã produzida no séc. XX, Lewis nos leva à uma reflexão estarrecedora:

“Nāo há saída pelo método sugerido por Santo Agostinho. Nem por nenhum outro método. Não existe investimento seguro. Amar é sempre ser vulnerável. Ame qualquer coisa e seu coração certamente vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, você não deve intregá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva-o cuidadosamente em seus hobbies e pequenos luxos, evite qualquer envolvimento, guarde-o na segurança do esquife de seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro, sombrio, sem movimento, sem ar -ele vai mudar. Ele não vai se partir – vai se tornar indestrutível, impenetrável, irredimível. A alternativa à tragédia, ou pelo menos ao risco de uma tragédia, é a condenação. O único lugar além do Céu onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os riscos e perturbações do amor… é o inferno.”

Em 21 de março de 1957 Lewis e Joy celebram uma cerimônia religiosa de casamento feita de improviso no leito do hospital onde Joy estava internada. Aquela cerimônia, diferente do registro civil, tornava o relacionamento mais do que um simples álibe para que Joy permanecesse de forma legal na Inglaterra. A coisa toda se tornou muito mais do que isso, Lewis se entregara à vulnerabilidade do amor.

É claro que, sobre todos os aspectos, Lewis e Joy permaneceram amigos. O encontro da Amizade e Eros nāo precisa arruinar um em detrimento de outro. Lewis retrata Joy como “minha amada, mas, ao mesmo tempo, tudo o que nenhum amigo (e olha que tenho bons amigos) jamais foi para mim” ***. O encontro perfeito nāo coloca em perigo a majestade que carrega os amores, a dádiva consiste justamente em que a combinação torne ainda mais forte as características próprias de cada um dos sentimentos. Os anos de inverno da vida sentimental de Lewis havia chegado ao fim, a primavera dera os seus primeiros sinais.
O período em que esteve próximo de Joy fora, de fato, um dos mais inspiradores da vida literária de Lewis. É nessa época que Lewis escreve “Até que Tenhamos Rostos” (1956), “Lendo os Salmos” (1958) e “Os Quatro Amores” (1960). Principalmente Os Quatro Amores, deixa claro a influência do relacionamento de Joy e Lewis. O romance entre o casal que tinham em comum o gosto pela boa literatura, só podia ser nitidamente compreendido por aqueles que sabiam que havia algo mais que os unia, a busca de Deus. Em uma passagem épica de O Banquete encontramos uma boa sinalização pré-cristā de como o amor pode refletir uma busca que transcende os limites do tempo:

“[…] Depois de ouvir essas palavras, sabemos que nem um só diria que não, ou demonstraria querer outra coisa, mas simplesmente pensaria ter ouvido o que há muito estava desejando, sim, unir-se e confundir-se com o amado e de dois ficarem um só. 0 motivo disso é que nossa antiga natureza era assim e nós éramos um todo; é portanto ao desejo e procura do todo que se dá o nome de amor.”****
Quem seria cético o suficiente para não enxergar o claro significado dessa passagem. O “todo” de Platão pode muito bem ser entendido como o estado natural do homem ligado à Deus, o amor entre um homem e uma mulher é um reflexo da constante busca de retorno à esse estado de plena comunhão com Deus. Há, contudo, duas possibilidades sobre como os nossos relacionamemtos refletem essa busca: podemos estar no caminho certo ou completamente perdidos.
Quem poderia negar que Lewis e Joy estavam na estrada certa, mesmo havendo, a princípio, uma série de circunstâncias negativas e todo um oceano que os separava. No entanto, infelizmente o romance entre Lewis e Joy durou muito pouco, e Joy faleceu de câncer três anos após se casarem no leito do hospital, em 1960. O risco sempre é real e o período de alegria compartilhada com aquela a quem ele havia entregado o seu coração chegou ao fim. Talvez uma das piores experiências de Lewis. Durante seu período de luto escreveu algumas notas que revelam o desespero desse momento, mais tarde foram publicadas sob o título de “A Anatomia de uma Dor”. Essa obra, por si só, daria um novo artigo. Ali, C.S.Lewis lida de forma prática com o problema do sofrimento e expressa o tamanho da sua angústia com a perda de sua amada.

A morte a levou e ensinou Lewis que arriscar é preciso, mas o sofrimento da perda é sempre mais real na prática do que na teoria. Não há muita segurança no amor, mas a possibilidade da perda ou da decepção não deveria desanimar ninguém, apenas fazer refletir sobre se o amor em questão é reflexo de um amor maior ou se, na pior das hipóteses, apenas uma tentativa deseperada de preencher um vazio que só pode estar perfeitamente pleno com a presença e o amor do Criador.

Lewis perdeu Joy, mas dizem que na eternidade nos encontraremos com aquilo que há de eterno em cada pessoa – quem leu O Grande Abismo já aprendeu isso. Talvez possamos imaginar que, ao falecer em 1963, Lewis tenha tido a oportunidade de rever o melhor de Joy no “céu”. Mas, como escreve Lewis (por incrível que pareça, antes da morte de Joy), isso tudo”está distante, no ‘mundo da Trindade’, e não aqui, no exílio, no vale de lágrimas”.*****

Não temos certeza de como são algumas coisas além do nosso campo de vista decaído e temporal, mas podemos ter certeza que se o relacionamento deles tinha alguma coisa de eterno, eles hāo de reencontrá-lo em Cristo. Podemos ter certeza de que todas as história de verdadeira amizade e amor foram desde antes de todos os tempos planejadas por Aquele que sabe e quer que todas as coisas cooperem para o nosso bem. Ele não coloca uma vírgula que não seja necessária e nem um ponto onde não se perceba sua soberania. Ele é o começo e o fim, o Alfa e o Ômega. Todos os amores só são possíveis a medida que refletem o brilho de sua graça.

Com efeito, os filósofos costumam dizer que a beleza nāo está no amor, no simples ato de amar não se encontra a chave para a felicidade. Aqueles que assim acharem morrerão esperando à porta. Mas é no que leva a amar é que se encontra a verdadeira alegria e beleza. É exatamente como disse Platão: “[…] o amar e o Amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar belamente.” **** Lewis, sem dúvida, teria dito que isso é uma placa que indica a direção de Cristo, no qual encontramos toda fonte de verdadeira amizade e verdadeiro amor, Ele próprio é a Dádiva do encontro. Sem Ele todas as histórias de amor seriam foscas e sem brilho.

Voltemos agora à nossa pergunta inicial: pode a Amizade conviver junto com Eros? A própria história de Lewis e Joy demonstra que a resposta é sim, mas não um sim definitivo que dispense exceções. Já aprendemos que respostas rápidas para questões complexas, são respostas ruins. Às vezes não precisamos tanto de uma resposta quanto de tempo e talvez o grande segredo que a vida nos ensine sobre esses casos seja o de que é preciso viver um dia após o outro. Joy não obteve respostas rápidas de Lewis e nem tomou decisões precipitadas quando ainda estava nos EUA, e nem Lewis quando ela já havia chegado à Inglaterra. Dentre todas as qualidades do amor, podemos dizer junto com Sāo Paulo, que ele também deve ser paciente além de recíproco. Se tem uma coisa que nós aprendemos na história de Lewis e Joy é que as circunstâncias nunca são capazes de fazer morrer os amores que se encontram enraizados naquele que ressurgiu dentre os mortos. O tempo nunca será um problema se nossos objetivos forem eternos e, como disse um grande pensador, “tudo o que não é eterno é eternamente inútil”.

* Ver McGrath, Alister. A Vida de C.S.Lewis: do ateísmo às Crônicas de Nárnia, cap. 13. Pg. 335.

**Carta a Dorothy L. Sayers, 25 de jun. 1957; The Collected Letters, vol. 3, pg. 861.

*** A Anatomia de uma Dor: Um Luto em Observação. Sāo Paulo: Editora Vida, 2007. Pg.63.

**** Platão. O Banquete (o amor, o belo), versão Kindle.

***** Idem.
Obs.: Todas as citações de Lewis (salvo indicação contrária), inclusive a que se encerra o texto, encontram-se no sexto capítulo de Os Quatro Amores, em que se fala sobre a Caridade.

Sobre o autor:
Filipe Galhardo é editor da Sociedade C.S.Lewis Brasil e Diácono na Igreja Presbiteriana de Jaconé.