Ou Sobre Livros antigos

Por C. S. Lewis
trad. William Campos da Cruz
Há uma ideia estranha por aí segundo a qual os livros antigos devem ser lidos apenas por profissionais, e o leitor amador deve contentar-se com os livros modernos. Assim, como professor de Literatura Inglesa, tenho constatado que a última coisa que o estudante médio pensa em fazer é pegar uma tradução de Platão na estante da biblioteca e ler O Banquete. Ele, ao contrário, tende a ler algum enfadonho livro moderno dez vezes, apresentando-lhe tudo sobre os “ismos” e influências de Platão e apenas uma vez a cada vinte páginas contando-lhe o que Platão de fato disse. Trata-se de um erro compreensível, pois surge da humildade. O estudante está meio temeroso de encontrar-se com um grande filósofo cara a cara. Sente-se incapaz e acha que não o compreenderá. Mas se apenas soubesse que o grande homem, justamente por sua grandeza, é muito mais inteligível que seu comentador moderno… O estudante mais simples seria capaz de compreender, se não tudo, ao menos a maior parte do que Platão disse. Mas dificilmente se é capaz de compreender alguns dos livros modernos sobre platonismo. Sempre foi um dos meus principais esforços como professor convencer o jovem não só de que o conhecimento de primeira mão vale mais a pena que o de segunda, mas que é geralmente muito mais fácil e mais prazeroso de adquirir.
Essa preferência equivocada pelos livros modernos e essa timidez diante dos antigos em nenhuma área é mais gritante que na teologia. Sempre que se encontra um pequeno grupo de estudos de cristãos leigos, pode-se ter quase certeza de que não estão estudando São Lucas, São Paulo, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Hooker ou Butler, mas Berdyaev, Maritain, Niebuhr, Dorothy Sayers ou até eu mesmo.
Ora, isso me parece estar do avesso. Naturalmente, uma vez que sou escritor, não desejo que o leitor comum deixe de ler os livros modernos. Mas se ele tem de ler apenas os novos ou apenas os velhos, eu recomendaria que lesse os velhos. E lhes daria este conselho exatamente porque se trata de um amador e, portanto, está muito menos protegido do que o especialista contra os perigos de uma dieta exclusivamente contemporânea. Um livro novo ainda está à prova, e o amador não está em condições de julgá-lo. A obra terá de ser testada frente ao grande corpo do pensamento cristão ao longo das eras, e todas as suas implicações ocultas (muitas vezes insuspeitadas pelo autor) têm de ser trazidas à luz. Geralmente não pode ser plenamente compreendida sem o conhecimento de um bom número de outros livros modernos. Se chegar às 11h a uma conversa que começou às 8h, você não verá o peso real do que é dito. Dados que lhe parecerão bastante comuns despertarão risos ou irritação e você não saberá por que – a razão, claro, é que os estágios anteriores da conversa lhes deram um significado especial. Do mesmo modo, sentenças num livro moderno que parecem ordinárias podem dirigir-se a algum outro livro; dessa forma, pode-se ser levado a aceitar o que teria sido rejeitado com indignação se se soubesse seu real significado. A única segurança é ter um padrão de cristianismo simples, central (o mero cristianismo, como Baxter o chamou), que coloque as controvérsias do momento em sua própria perspectiva. Tal padrão somente pode ser adquirido nos livros antigos. É uma boa regra, depois de ler um livro novo, nunca se permitir um outro livro novo até que tenha lido um velho entre eles. Se isso parece exagerado para você, deveria pelo menos ler um livro velho a cada três novos.
Todas as eras têm sua própria perspectiva. São especialmente boas para enxergar certas verdades e especialmente suscetíveis a cometer certos equívocos. Todos nós, portanto, precisamos dos livros que corrigirão os erros característicos de nossa própria época. E isso quer dizer os livros antigos. Todos os escritores contemporâneos compartilham, em alguma medida, a perspectiva contemporânea – mesmo aqueles, como eu mesmo, que parecem opor-se a elas. Nada me choca mais quando leio as controvérsias de eras passadas do que o fato de que ambos os lados geralmente pressupõem, sem questionar, uma porção de coisas que hoje nós negaríamos completamente. Eles pensavam que estavam de lados completamente opostos, mas na verdade estavam o tempo todo secretamente unidos – unidos um ao outro e contra as eras anteriores e posteriores – por um grande volume de pressupostos. Podemos ter certeza de que a cegueira característica do século XX – a cegueira da qual a posteridade nos perguntará “Mas como eles podiam ter pensado isso?” – se encontra onde nunca desconfiamos, e diz respeito a algo em que há claro acordo entre Hitler e o presidente Roosevelt ou entre o Sr. H. G. Wells e Karl Barth. Nenhum de nós pode escapar completamente desta cegueira, mas podemos aumentá-la ou baixar nossa guarda diante dela, se lermos apenas livros modernos.

Naquilo em que estão certos, tais livros nos dão verdades que já sabíamos parcialmente. No que estão errados, eles agravam perigosamente o erro de que já padecemos. O único paliativo é manter soprando em nossas mentes a limpa brisa dos séculos, e isso só pode ser feito pela leitura dos livros velhos. Claro, não há nada de mágico no passado. As pessoas não eram mais espertas do que são hoje; elas cometiam tantos equívocos quanto nós. Mas não os mesmos equívocos. Elas não se gloriam nos erros que estamos cometendo; e seus próprios erros, sendo agora visíveis e palpáveis, não nos ameaçarão. Duas cabeças são melhores do que uma não porque uma delas é infalível, mas porque é improvável que ambas errem na mesma direção. Aliás, os livros do futuro seriam tão bons corretivos quanto os livros do passado, mas infelizmente não podemos ter acesso a eles.

No meu caso, fui conduzido à leitura dos clássicos cristãos quase que por acidente, em consequência de meus estudos de língua inglesa. Alguns, como Hooker, Herbert, Traherne, Taylor e Bunyan, eu li porque são grandes escritores de língua inglesa; outros, como Boécio, Santo Agostinho, Tomás de Aquino e Dante, porque eram “influências”. George Macdonald eu encontrei por conta própria, aos 16 anos, e nunca oscilei em meu devotamento, embora tenha tentado por bastante tempo ignorar seu cristianismo. Eles são, você perceberá, um saco de gatos, representantes de muitas igrejas, ambientes e épocas. E isso me dá outra razão para lê-los. As divisões da cristandade são inegáveis e são expressas por alguns desses autores da maneira mais virulenta. Mas se algum homem é tentado a pensar – como pode ter sido tentado alguém que lê apenas os contemporâneos – que o “cristianismo” é uma palavra de tantos significados que acaba por não significar nada, pode-se aprender, para além de toda dúvida, ao afastar-se de seu próprio século, que este não é o caso. Avaliado em contraste com as eras passadas, o “cristianismo puro e simples” não se torna nenhuma insípida transparência interdenominacional, mas algo positivo, autoconsistente e inesgotável. E sei disso por experiência própria. No tempo em que ainda repudiava o cristianismo, aprendi a reconhecer, como a algum aroma familiar, que me deparava com algo praticamente invariável ora no puritano Bunyan, ora no anglicano Hooker, ora no tomista Dante. Estava lá em Francisco de Sales; estava lá (grave e rústico) em Spenser e Walton; estava lá (austero mas corajoso) em Pascal e Johnson; estava lá, mais uma vez, com um sabor brando, assustador e paradisíaco em Vaughan, Boehme e Traherne. Na sobriedade urbana do século XVIII não se estava a salvo – [William] Law e Butler eram dois leões à solta. O suposto “paganismo” dos elisabetanos não o excluiu; estava à espreita onde um homem pudesse imaginar-se seguro, bem no centro do The Faerie Queene e na Arcadia. Era, claro, variado; e, mesmo assim, apesar de tudo, tão inconfundivelmente o mesmo; reconhecível, não para ser evitado, o odor que para nós é de morte até que permitamos que se torne vida:

an air that kills
From yon far country blows.

 

[Um ar que mata
sopra daquela terra distante]

Todos nos afligimos, e também nos envergonhamos, das divisões da cristandade. Mas aqueles que sempre viveram no aprisco cristão podem ser muito facilmente desanimados por elas. Elas são ruins, mas essas pessoas não sabem como elas são desde fora. Vistas exteriormente, o que fica intacto, a despeito de todas as divisões, ainda se mostra (como realmente é) uma unidade incrivelmente formidável. Eu sei porque vi; e, bem, nossos inimigos sabem disso. Qualquer um de nós pode encontrar essa unidade afastando-se de sua própria época. Não é suficiente, mas é mais do que se tinha pensado até então. Uma vez que se está imerso nela, se você se arriscar falar, terá uma experiência divertida. Pensarão que você é um papista quando na verdade está reproduzindo as palavras de Bunyan; um panteísta, quando cita Tomás de Aquino; e assim por diante. Pois agora você chegou ao viaduto de alto nível que cruza as eras e que parece tão alto dos vales, tão baixo das montanhas, tão estreitos em comparação com os pântanos e tão largos em comparação com as trilhas de ovelhas.
O presente livro é meio experimental. A tradução pretende dirigir-se ao mundo em geral, não apenas aos estudantes de teologia. Se for bem sucedida, outras traduções de outros grandes livros cristãos presumivelmente se seguirão. Em certo sentido, é claro, não é a primeira neste campo. Traduções da Theologia GermanicaImitaçãoA Escala da Perfeição e as Revelações de Júlia de Norwich já estão no mercado, e são preciosas, embora em parte não muito eruditas. Mas perceber-se-á que esses são livros de devoção e não de doutrina. Agora, o leigo ou amador precisa ser instruído tanto quanto precisa ser exortado. Em nossa época, sua necessidade de conhecimento é particularmente urgente. Tampouco eu admitiria qualquer divisão rígida entre os dois tipos de livro. De minha parte, tendo a achar os livros de doutrina muito mais úteis na devoção do que os livros devocionais e, aliás, suspeito que muitos outros tenham a mesma experiência. Acredito que muitos que acham que “nada acontece” quando eles sentam ou se ajoelham com um livro devocional, achariam que o coração canta espontaneamente enquanto estão trilhando o caminho árduo da teologia com um cachimbo na boca e um lápis na mão.
Trata-se de uma excelente tradução de um grande livro. Santo Atanásio carecia de estima popular por causa de certa sentença do “Credo Atanasiano”. Não vou insistir no fato de que aquela obra não é exatamente um credo e não o era para Atanásio, pois acho que é um belo escrito. As palavras “Quem quer que não a conservar íntegra e inviolada, sem dúvida perecerá eternamente” são a ofensa. Geralmente são mal compreendidas. A palavra operante aqui é “conservar”; não adquirir, nem mesmo crer, mas conservar. O autor, na verdade, não está falando de descrentes, mas de desertores; não daqueles que nunca ouviram de Cristo, nem mesmo daqueles que não o compreenderam e recusaram-se a aceitá-lo, mas daqueles que, tendo realmente o compreendido e nele crido, mais tarde se permitem, por influência da preguiça ou da moda ou de qualquer outra coisa, convidar a confusão a se desenvolver num dos modos de pensamento subcristão. São uma advertência contra a curiosa presunção moderna de que todas as mudanças de crença, embora provocadas, são necessariamente isentas de culpa. Mas esta não é minha preocupação imediata. Mencionei o “credo de Santo Atanásio”, como geralmente é chamado, apenas para afastar do caminho do leitor um fantasma e situar o verdadeiro Atanásio em seu lugar. Seu epitáfio é “Athanasius contra mundum”. Atanásio contra o mundo. Orgulhamo-nos de que nosso país ergueu-se mais de uma vez contra o mundo. Atanásio fez o mesmo. Ele ergueu-se pela doutrina trinitária, “íntegra e inviolada”, quando parecia que todo o mundo civilizado estava regredindo do Cristianismo para a religião de Ário – para uma daquelas religiões sintéticas “sensíveis” que são tão intensamente recomendadas hoje e que, tanto naquela época quanto hoje, incluía entre seus devotos muitos clérigos bastante cultos. A sua glória é não ter mudado com o tempo; e sua recompensa é que hoje ainda permanece quando aquele tempo, como todos os tempos, já passou.
Quando abri pela primeira vez seu De incarnatione, logo descobri com uma simples amostra que estava lendo uma obra-prima. Sabia bem pouco grego cristão, com exceção daquele do Novo Testamento, e eu tinha dificuldades previsíveis. Para minha surpresa, constatei que era quase tão fácil quanto Xenofonte; e somente a mente de um mestre poderia, no século IV, ter escrito tão profundamente sobre tal assunto com simplicidade clássica. A cada página que lia, essa impressão se confirmava. Sua abordagem dos milagres é muito necessária hoje, pois é a resposta final àqueles que objetam-lhes que são “arbitrárias e despropositadas violações das leis da natureza”. Aqui eles são mostrados como o recontar, com maiúsculas, da mesma mensagem que a Natureza escreve com sua obscura letra cursiva; as mesmas ações que se esperaria Daquele que era tão cheio de vida que, quando desejou morrer, teve de “tomar emprestada a morte de outros”. O livro inteiro, de fato, é um retrato da Árvore da Vida – um livro dourado e vigoroso, cheio de esperança e segurança; não podemos, admito, nos apropriar totalmente desta confiança hoje. Não podemos apontar para a elevada virtude da vida cristã e a alegre, quase zombeteira coragem do martírio cristão, como uma prova de nossas doutrinas com exatamente a mesma segurança que Atanásio as tomava como consequência natural. Mas quem quer que seja o culpado por isso, este não é Atanásio.
O tradutor conhece o grego cristão muito mais que eu, de maneira que seria inadequado a mim elogiar a sua versão. Mas parece estar na tradição correta da tradução inglesa. Não acho que o leitor encontrará aqui nada daquele aspecto empoeirado que é tão comum nas versões modernas de línguas antigas. Que está vertido em língua inglesa o leitor há de notar; aqueles que compararem a versão com o original serão capazes de estimar quanto apuro e talento está pressuposto em cada escolha, por exemplo, como “estes pedantes” logo na primeira página.

EDUCAR PARA O AMOR, MAS COMO? AS CONTRIBUIÇÕES DE C. S. LEWIS E
JOSEF PIEPER

Cadernos da Pedagogia. São Carlos, Ano 4 v. 4 n. 7, p. 56-74, jan -jun. 2010
ISSN: 1982-4440

Thiago de Almeida1

com permissão do autor

Resumo:
O tema do amor é uma das áreas mais importantes (e geralmente problemáticas) da vida das
pessoas. Ele participou e participa ativamente da evolução e estruturação da personalidade,
dado que é capaz de aproximar a pessoa de sua essência e propiciar o desenvolvimento de
relações sociais, dentre outras coisas. Inúmeros, atualmente, são os desafios a serem
enfrentados no contexto atual da ação educativa. Um destes é uma educação emocional
voltada para crianças, adolescentes e adultos. Entretanto, como falar de uma educação para o
amor, se a própria palavra “amor”, banalizada, já quase não significa mais nada? Precisamente
para esse resgate da palavra (conceito /acesso à realidade do) amor é que se empreendeu este
exercício filosófico: registrar e analisar um par de contribuições de C. S. Lewis e de Josef
Pieper em seus livros tematicamente dedicados ao amor. Acredita-se assim, que o estudo do
tema através dessa perspectiva filosófica pode ser uma contribuição relevante para a educação,
pois somente ao compreendermos mais adequadamente a realidade do amor, poderemos
propor uma educação para o amor.
Palavras-chave: Amor; educação; Filosofia; Filosofia da Linguagem; Filosofia da educação.

Abstract:
The love is one of the most important (and generally problematic) subject of the life of the
people. It actively participated and participates of the evolution and constitution of the
personality, given that he is capable to approach the person of its essence and to propitiate the
development of social relations, amongst other things. Innumerable, currently, they are the
challenges to be faced in the current context of the educative action. One of these is an
emotional education directed toward children, adolescents and adults. However, as to speak of
an education for the love, if the proper word “love”, vulgarized, already almost does not mean
nothing more? Necessarily for this rescue of the word (access to concept/ to the reality of)
love is that this philosophical exercise was undertaken: to register and to analyze a pair of
contributions of C.S. Lewis and Josef Pieper in its thematically dedicated books to the love.
The reality of the love is given credit thus, that the study of the subject through this
philosophical perspective it can be an excellent contribution for the education, therefore only
when understanding more adequately, will be able to consider an education for the love.

Key-words: Love; Education; Philosophy; Language’s Philosophy; Education’s Philosophy.

1 Mestre pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Site: www.thiagodealmeida.com.br. Email
de contato com o autor: thiagodealmeida@thiagodealmeida.com.br.

“Nos tempos em que a vida
na terra era plena, ninguém dava
atenção especial aos homens
notáveis, nem distinguiam o
homem de habilidade. Os
governantes eram apenas os ramos
mais altos das árvores e o povo
com cervos na floresta. Eram
honestos e justos sem se darem
conta que estavam ‘cumprindo seu
dever’. Amavam-se uns aos outros,
mas não sabiam o significado de
amar ‘o próximo’. A ninguém
iludiam, mas nenhum deles se
julgava um ‘homem de confiança’.
Eram fidedignos, mas
desconheciam que isso fosse ‘boa
fé’. Viviam juntos em liberdade,
dando e recebendo, mas não
sabiam que eram generosos. Por
esse motivo, seus feitos não foram
narrados. Eles não deixaram
história.”(Chuang Tzu, Chuang Tzu –
Escritos Básicos).

A importância do estudo do amor.

O amor e os relacionamentos amorosos são assuntos muito presentes em nossas vidas,
e constituem temas centrais de diversas manifestações artístico-culturais, tais como músicas,
filmes, poemas e romances, dentre outros. Apesar disso, o amor é algo que permite o
levantamento de inúmeras questões a seu respeito, a começar pela sua própria definição. A
despeito desses questionamentos, em nosso cotidiano, quase que freneticamente, procura-se
cada vez mais o amor. Na verdade, sua vivência e sua busca tendem a perdurar
indeterminadamente, não se restringindo a uma fase ou século (Almeida, 2008). Logo, a
temática do amor é uma das áreas mais importantes (e geralmente problemáticas) da vida das
pessoas. Infelizmente, tal importância é mais bem percebida quando as coisas não vão bem.
Quando isso acontece, tanto o nosso humor, como a nossa capacidade de concentração, a
nossa energia, o nosso trabalho e a nossa saúde, dentre outras dimensões das nossas vidas,
podem ser profundamente afetados (Amélio, 2001; Almeida & Madeira, 2008). A maioria das
pessoas utiliza o termo “amor” para descrever seus sentimentos em relação a uma pessoa por
quem é mais fortemente atraída ou a quem se vê mais apegada. E assim, listas intermináveis
foram elaboradas com todos os tipos de constituintes que esse sentimento poderia conter em
si. Conseqüentemente; palavra que pelo mau uso, abuso e banalização esvaziou-se de seu
grandioso significado originário.

Embora haja essa tendência de se promover o amor, ao que parece, ele ainda não passa
de uma vivência desconhecida. Dele se ignoram as fontes, os fundamentos, as raízes, a autoria
e até o tempo de aparecimento. Ignora-se que ele não nasceu conosco e cogita-se sobre a
hipótese de se somos, de fato, seus inventores (Almeida, 2004). Como podemos perceber,
escrever ou falar de amor é uma façanha árdua. Corre-se o risco de cair na banalidade, na
ambigüidade, no espiritualismo ou até mesmo no sentimentalismo, de maneira que os literatos,
pregadores, ou mesmo os cantores não são mais convincentes (Almeida, 2003).

Para Solomon (1992), o amor é um processo emocional que deriva de um conjunto de
idéias que são influenciadas pela sociedade e pelo contexto histórico-social nos quais se insere.

Essa, também, é uma boa explicação para mostrar o porquê de haver tanta confusão e tantos
entendimentos diversos, quando se discorre sobre tal tema. Há, então, que se ter em mente que
o amor, aprioristicamente, é uma crença emocional. E como toda e qualquer crença “pode ser
mantida, alterada, dispensada, trocada, melhorada, piorada ou abolida. Nenhum de seus
constituintes afetivos é fixo por natureza” (Costa, 1999, p. 12). E como poderia haver uma
afirmação veemente de validade universal no que diz respeito ao amor, levando-se em
consideração a pluralidade de idiossincrasias (muitas delas provavelmente contaminadas pelo
etnocentrismo), que tentam estabelecer uma soberania na definição do que viria ou não a ser
concebido como amor? Paradoxalmente, consolidamos em nosso cotidiano alguns
pensamentos contraditórios, como o de Costa, em referência aos relacionamentos amorosos:
“Quando é bom não dura e quando dura já não entusiasma” (Costa, 1998, p. 11).

Segundo Amélio (2001) “amor é um termo utilizado para nomear um grupo de
sentimentos, ações e padrões de pensamentos que, embora relacionados, são bastante
diversificados” (p. 23). Adicionalmente, Almeida e Mayor (2006) concebem o amor como um
aspecto inerente ao ser humano, que tende a se perdurar e possui inúmeras formas válidas de
manifestação. Dito isso, poder-se-á partir para analisar o amor de várias formas, pois, talvez,
para cada ser humano exista um amor diferente (Almeida, 2003). E todos eles são viáveis,
efetivos e têm o seu valor. Deve-se ainda acrescentar que cada pessoa experimenta o amor à
sua maneira, pois ele é uma experiência que cada um vivencia de modo diferente e novo (Beck
e Miller, 1969).

De acordo com Braz (2006), o amor é a condição fundamental para o nascimento
ontogenético da pessoa. Ele participou e participa ativamente da evolução e estruturação da
personalidade, dado que é capaz de aproximar a pessoa de sua essência e propiciar o
desenvolvimento de relações sociais, dentre outras coisas. Inúmeros, atualmente, são os
desafios a serem enfrentados no contexto atual da ação educativa. Um destes é uma educação
emocional voltada para crianças, adolescentes e adultos. Entretanto, como falar de uma
educação para o amor, se a própria palavra “amor”, banalizada, já quase não significa mais
nada?

Assim, tomamos dois exemplos, um em cada autor2: a fecunda distinção entre pleasures
of appreciation/need pleasures (Lewis) e a não menos fecunda análise da “confusão” da palavra
Liebe na língua alemã (Pieper). E, assim, indicar como podemos aprofundar na compreensão

2 Os autores estudados neste ensaio são dois grandes pensadores cristãos do século XX – um deles católico e o
outro evangélico – ambos grandes intérpretes contemporâneos da filosofia clássica e da filosofia cristã.

do tema “amor” a partir dessas discussões. Precisamente para esse resgate da palavra (conceito
/acesso à realidade do) amor é que se empreendeu este exercício filosófico: registrar e analisar
um par de contribuições de C. S. Lewis e de Josef Pieper em seus livros tematicamente
dedicados ao amor. Dessa forma, acredita-se que o estudo do tema através dessa perspectiva
filosófica pode ser uma contribuição relevante para a educação, pois só compreendendo a
realidade do amor, poderemos propor uma educação para o amor.

A análise do amor na obra On Love3 de Josef Pieper4

O próprio Pieper fez um resumo de seu tratado sobre o amor na conferência “Crer,
Esperar, Amar5”, que utilizaremos neste tópico, juntamente com o livro On Love. Sempre
atento à linguagem, Pieper nota que as palavras mais centrais e importantes utilizadas na
comunicação do cotidiano de uma língua viva tendem a sofrer, concomitantemente,
esvaziamento e perversões, muitas vezes transformando palavras que significam uma virtude,
por exemplo, no seu extremo oposto:

É necessário estarmos atentos para o fato de que, no campo da linguagem,
ocorre um contínuo desgaste das palavras. Precisamente as grandes palavras,
que designam – ou deveriam designar – algum aspecto grandioso da
realidade humana, estão expostas a esse desgaste. Até que chega um
momento em que simplesmente já não suportamos mais ouvi-las porque
começam a causar-nos irritação. Quem, por exemplo, ao folhear uma revista
ilustrada no barbeiro, já não sentiu o desejo irresistível de nunca mais
pronunciar a grande palavra “amor”? Mas, não se pode simplesmente calar e
deixar de lado essas palavras fundamentais, como também não se pode
substituí-las por outras. É verdade que este constrangimento, pelo qual
talvez nos sentíssemos tentados a não abordar o tema “amor”, situa-se no
âmbito dos gostos e das impressões. E quando, apesar de tudo, nos
decidimos a falar sobre o amor – esta palavra, “amor”, tantas vezes mal
conceituada e de tantas formas deturpada –, percebemos então a imensa
dificuldade inerente a esse assunto, a dificuldade que reside na
incomensurabilidade simplesmente arrebatadora do próprio objeto. 6

Precisamente, no começo de seu livro, Pieper considera outro importante fato da
linguagem: que, em alemão, amor (Liebe) é uma palavra que engloba uma vasta gama de
significados. Então, quando se discorre a respeito do amor, referimo-nos a algo com uma

3 Pieper, Josef On Love em Faith, Hope, Love, Ignatius Press, San Francisco, 1997

4 Josef Pieper nasceu em Elte (Westfalia), em 1904 e morreu em Münster, em 1997. É hoje o filósofo mais lido
pelo grande público da Alemanha. Cursou Filosofia, Sociologia e Direito nas Universidades de Berlim e Münster e
doutorou-se em Filosofia também pela Universidade de Münster, na qual lecionou por toda sua vida. Foi o grande
intérprete de S. Tomás de Aquino no século XX.

5 Pieper, Josef “Crer, Esperar, Amar” http://www.hottopos.com.br/notand4/crer.htm
6 Pieper, Josef “Crer, Esperar, Amar” http://www.hottopos.com.br/notand4/crer.htm

extensa pluralidade de significados e significações, entretanto, todas essas sendo expressas por
esta mesma palavra que seria seu denominador comum, ou seja, “amor”. Se, entretanto, existe
apenas um termo para nomear esta grande variedade de sentimentos e fenômenos bastante
relacionados ao qual denominamos por “amor”, eles devem todos ter algo em comum entre si.

E é por meio desta “confusão” de significados englobados em uma mesma palavra que Pieper
procura analisar o amor e descobrir a essência de seu significado, pois acredita que
“presumivelmente, então, pode haver uma mensagem escondida na aparente ou suposta
‘pobreza’ do vocabulário alemão do amor” (p. 147). E na conferência, esclarece:

Precisamente a língua alemã – pelo menos esta é a impressão que se tem à
primeira vista –, parece acentuar infinitamente essa dificuldade. Os gregos,
os romanos e mesmo as línguas modernas derivadas do latim dispõem de um
grande número de substantivos para designar as múltiplas facetas do
fenômeno amor, ao passo que a nossa própria língua alemã é carente: vê-se
obrigada a designar realidades diversas pela palavra Liebe. Assim, usamos
Liebe para expressar a preferência por uma determinada qualidade de vinho
(“eu amo o Borgonha”); como também para designar o solícito amor por
uma pessoa que está passando dificuldades; a atração mútua entre homem e
mulher; ou ainda, a dedicação do coração a Deus. Para tudo isto, dispomos
de um único substantivo: Liebe7

A respeito desse caráter que confunde da língua alemã, no caso, e seu potencial
heurístico é que versa a parte final e mais importante deste artigo. Como contraste em relação à
“pobreza” da língua alemã, Pieper não deixa de citar a riqueza dos vários termos para amor nas
línguas grega e latina (e nas línguas modernas, derivadas do latim).

No Latim, ele fala sobre o amor misericordioso em pietas; o amor que se aplica à ação
em studio; o caráter “passivo” do amor na afeição; o caráter eletivo do amor em dilectio; o caro
preço em que se estima o amado em caritas; e a própria palavra amor, como termo geral.
Similarmente, no grego, Pieper mostra as distinções entre eros, philia, agape, etc. Ao analisar
brevemente as línguas modernas, Pieper se depara, no inglês, com as distinções e semelhanças
entre “amar” e “gostar” (“to love” e “to like”), e se questiona quanto à semelhança entre
likeness e to like: a sugestiva coincidência entre gostar e parecer-se.

Através do to like, Pieper chega ao to be fond of, e descobre que em sua raiz, está fonned,
que significava encantado, ou enfeitiçado por algo ou alguém. Ao analisarmos a língua russa,
Pieper descobre um termo específico para “amar com os olhos” – lubovatsia – e um para o
amor de Deus para com os homens: blágost. Logo no início do capítulo II, Pieper parece
convencido de que não pode haver um traço comum entre tantos tipos de “amores”
diferentes, mas lembra-se de que o fato de que todos eles recebem o mesmo nome em alemão
deve indicar uma relação. E a relação entre todos estes “amores” é certo tipo de aprovação:
Pieper conclui que o amor, em sua forma básica é a aprovação da existência de algo ou alguém.
É a notável conclusão: amar é dizer “é bom que você exista!”.

7 Pieper, Josef “Crer, Esperar, Amar” http://www.hottopos.com.br/notand4/crer.htm

Além do mais, esta manifesta, ou simplesmente aparente, pobreza do
vocabulário alemão oferece-nos uma oportunidade especial: a de enfrentar o
desafio, imposto pela própria linguagem, de, apesar de tudo, não perder de
vista aquilo que há de comum, de coincidente, entre todas as formas de
amor. E qual poderia ser este elo de ligação comum? Em outras palavras: o
que há de comum entre os amores, o que significa em geral “amar”: amar o
vinho, a música, o amigo, a pessoa amada ou o próprio Deus? Estou
convencido de que há, de fato, uma resposta para esta questão. E a resposta
é a seguinte: amar, em qualquer caso, denota aprovação. Amar algo ou amar
alguém sempre significa afirmar: “Que bom que isto existe!”, “Que bom, que
maravilha que você está no mundo!”.8

Contudo, Pieper salienta que é uma aprovação que nasce da vontade, como que um
“eu quero que você exista”. Ao falar da vontade, Pieper distingue dois tipos: a vontade na qual
pensamos primariamente, a vontade por algo que não se tem, a vontade de conquistar algo; e a
vontade dirigida a algo que já aí está, no sentido de aprovação. Para Pieper, este segundo tipo
de vontade, este segundo tipo de querer, é que é o amor fundamental. Pieper observa que esta
relação entre o amor e a vontade não aparece apenas na literatura mais ou menos especializada,
mas também na fala comum, como nos versos de Jerome, que diz o que será traduzido como
“Deus quer ao homem”, ou “Deus me libertou porque me quis”, correspondentemente ao que
em português queremos dizer quando falamos que “queremos bem” a alguém.

No entanto, se a aprovação é realmente o que há de comum a todas as
formas de amor, se é o impulso fundamental de todo o amor, então é
necessário, naturalmente, que essa aprovação não possa considerar-se mero
fenômeno verbal. “Que bom que isto existe!”. “Que bom, que maravilha,
que você está no mundo!”: estas, obviamente, não são afirmações neutras e
inócuas. Não, não se trata de modo algum de meras declarações verbais; elas
têm um sentido de expressão de uma vontade. A aprovação que se realiza no
amor significa: estou de acordo, comprometo-me, aprovo e reafirmo,
envolvo-me, reconheço e assumo, endosso através do meu aplauso; louvo,
exalto e glorifico o fato de determinada coisa ou determinado alguém,
precisamente a pessoa amada, existir. Naturalmente, aprovar representa um
grau muito menos intenso de afirmação do que exaltar e glorificar. No
entanto, os itens da enumeração acima têm algo em comum: trata-se, em
todos os casos, de formas de estar de acordo, de uma sintonia da vontade. O
que todas dizem é: eu quero que este algo ou que este alguém exista. Amor é
um tipo de querer, uma forma de vontade. O fato de nós, ao ouvirmos essa
caracterização do amor, inicialmente ficarmos com uma certa reserva, guarda
relação com o esvaziamento e empobrecimento de nossa concepção de

8 Pieper, Josef “Crer, Esperar, Amar” http://www.hottopos.com.br/notand4/crer.htm

vontade, um empobrecimento ao qual já acabamos por acostumar-nos.

Querer, no sentido que damos à palavra hoje, é essencialmente e acima de
tudo: querer-fazer! Para a grande tradição do pensamento europeu, porém, era
óbvio que a afirmação é que é o ato fundamental da vontade, e, portanto, do
amor. E este ato fundamental se caracteriza precisamente não por buscar a
alteração do que aí está, mas pelo endosso e afirmação daquilo que já é. 9

A partir disto, Pieper chega a uma questão de suma importância: se o amor como a
mais fundamental das forças da vontade é o princípio de toda existência, então que vontade é
essa, o que é que queremos de fato, quando dizemos a algo ou alguém que “é bom que você
exista”? Conseqüentemente, Pieper procura respostas para esta pergunta em autores
renomados e grandes pensadores, como Tomás de Aquino, Alexander Pfänder, Ortega y
Gasset, Vladimir Soloviev e Gabriel Marcel, e se surpreende que todos eles tenham chegado
mais ou menos à mesma conclusão: que o que o amor quer quando ama é que a outra pessoa
exista, ou continue existindo; mais ainda: que ela nunca morra. Para Pieper, acreditar que o
amor verdadeiro seja incompatível com a inevitabilidade da morte, ou que ele até mesmo a
exclua, é chegar muito perto da loucura. Entretanto, ao se deparar com a possível loucura que
estas afirmações possam parecer, Pieper se lembra da engenhosa frase de Nietzsche que diz
que “sempre há loucura no amor”, mas que em toda loucura também sempre há certo sentido.

Partindo daí, acredita-se então que é possível haver um certo sentido nas afirmações
dos autores anteriormente citados quando falam da negação da morte presente no amor, então
se pode chegar também a dois aspectos que se deve considerar: primeiro, quando se diz “que
bom que você exista”, não se quer dizer “que bom que você seja assim ou assado” (inteligente,
bonito, esperto, etc.), mas simplesmente “que bom que você seja”, “que maravilha que você
exista!” (p. 170). E segundo: a mais extrema forma de afirmação ou amor que pode ser
concebida é a creatio – o próprio ato de fazer existir no estrito sentido da palavra (p. 170).

Porém, esta semelhança ao ato da criação que existe no amor dos seres humanos não pode ser
confundida com o fundamental ato da criação em si, ou com a crença num real poder criador
concedido aos seres humanos. A única e verdadeira Criação foi realizada por Deus, quando ao
formar os seres humanos antecipou neles o amor e disse: “eu quero que vocês sejam; é bom,
‘muito bom’ (Gn 1:31), que vocês existam”. (p. 171). A partir desta perspectiva, o amor
humano nada mais é do que um eco da primeira afirmação divina e criativa de todas as coisas.
E, mais do que isso ainda, Pieper encerra seu segundo capítulo: o amor humano é uma
continuação e um aperfeiçoamento do que se iniciou na criação.

Ao iniciar o terceiro capítulo, Pieper se pergunta: mas se a pessoa amada já existe, de
que adianta afirmar sua existência e achá-la maravilhosa? Será que isso tem algo a acrescentar,
de fato, àquela pessoa? Em outras palavras: qual é, afinal, a função do amor?

A fim de responder à questão, Pieper lembra-se – paradoxalmente – de Sartre, para
quem a base da alegria do amor é sentir que nossa existência é justificada. Mais do que existir
simplesmente, o que faríamos de qualquer maneira, o que os seres humanos precisam é se
sentir amados por alguém. Antes de formular uma resposta, Pieper esclarece que está
procurando pelo sentido do amor especificamente para a pessoa amada neste caso, e não para
quem ama. Apesar de esta conclusão causar um certo espanto em Pieper, ele reconhece que as

9 Pieper, Josef “Crer, Esperar, Amar” http://www.hottopos.com.br/notand4/crer.htm

experiências palpáveis do cotidiano apenas a confirmam, como por exemplo, quando se diz
que uma pessoa “floresce” ou “se torna quem ela é pela primeira vez na vida” quando está
passando pela experiência de ser amada.

O que se afirma é algo assim: no amor afiança-se, confere-se diretamente ao
ser amado o seu existir. Mesmo Jean-Paul Sartre que, em sua teoria filosófica,
defende a afirmação de que cada ser humano é inimigo do outro e mesmo o
seu verdugo em potencial, mesmo Sartre, que felizmente também é um poeta
e sabe descrever a realidade humana concreta de forma genial, mesmo Sartre
responde à nossa pergunta afirmando que isto é o núcleo, le fonds, da alegria
de ser amado: é então que nos sentimos justificados por existir. E, em
Gabriel Marcel, encontramos esta grandiosa afirmação: “Amar uma pessoa é
dizer-lhe: ‘Você não morrerá jamais'”.

Por mais que se possa considerar euforicamente exageradas essas
formulações e que tenham ultrapassado os limites impostos à finitude do ser
humano, um aspecto da realidade, porém, é posto em foco e manifesta-se ao
olhar; a saber, que de fato a máxima forma de afirmação que se possa
conceber é a creatio, a criação em sentido estrito.

Na formulação de um filósofo alemão, a criação é o grau máximo da
afirmação, do dizer-sim. É precisamente isto também o que se impõe como
evidente, para além do âmbito das argumentações e das demonstrações, para
quem realmente está amando. Este sabe que o seu ato de afirmação dirigido
ao outro, ao ser amado, cairia simplesmente no vazio, se não estivesse em
jogo algo como a criação, e isto não apenas como dado já pré-estabelecido
ao próprio ser amado, mas como uma realidade que ainda está em processo
de desenvolvimento e do qual ele mesmo, o que ama, participa precisamente
pelo próprio ato de amar.

Naturalmente, também esta intuição cairia no absurdo e na ficção se
pretendesse atribuir ao homem uma força criadora em sentido estrito e
literal. Mesmo porque já houve um outro alguém, um Alguém absoluto, que
antes mesmo que se pudesse falar em amor humano ou coisa assim, já disse:

“Eu quero que você seja. É bom, é muito bom que você exista!”. Daí que
todo o amor humano não seja mais do que uma constante reconstituição,
uma espécie de repetição, do amor criador de Deus. Uma reprodução que, se
tudo corre bem, é ao mesmo tempo um prolongamento e uma consumação
daquilo que começou com a Criação. 10

Outro exemplo também citado por Pieper é o famoso experimento do Dr. René Spitz,
que revelou que crianças criadas por suas mães na cadeia, em péssimas condições de higiene e
conforto, estavam muito melhores do que outras crianças criadas sem suas mães, mas em
ambientes perfeitamente limpos e confortáveis, recebendo do melhor alimento e do
tratamento de enfermeiras muito bem treinadas. É que ao ser humano não basta a “infraestrutura”
(estar bem alimentado, agasalhado etc.); é necessário também ser amado. Utilizando-se

10 Pieper, Josef “Crer, Esperar, Amar” http://www.hottopos.com.br/notand4/crer.htm

de uma metáfora bíblica encontrada nos trabalhos do psicólogo Erich Fromm, Pieper
reconhece que as crianças criadas nos ambientes esterilizados e tratadas pelas enfermeiras
especializadas recebiam, de fato, todo o leite de que precisavam. Mas lhes faltava o mel (de
acordo com Êxodo 3:8, Deus promete ao seu povo “uma terra onde manam leite e mel”). Para
Fromm (2000), o leite representa todas as necessidades fisiológicas de uma pessoa, enquanto o
mel simboliza a doçura da vida e a alegria da existência. Isto claramente mostra que para os
seres humanos não basta apenas o leite; também necessitamos do mel – o amor. E aqui, o que
fora dito anteriormente a respeito do amor como uma necessária continuação e um
aperfeiçoamento da existência, ganha sentido:

No amor humano o ato criativo da Divindade em estabelecer a existência é
continuado – para que alguém que esteja conscientemente experimentando o
amor possa dizer, “Eu preciso de você para ser eu mesmo… Ao me amar
você me dá a mim mesmo, você me deixa ser” (p. 176).
Colocado de outra maneira, “O que ser amado faz com que o ser faça é precisamente: ser.” (p.
176).

Descrição sumariada do livro The Four Loves11 de C. S. Lewis

Lewis12 pensou que a partir da afirmação e da verdade bíblica pressuposta de que
“Deus é amor”, anteriormente declarada na Bíblia por S. João, poderia desenvolver todo o seu
trabalho a respeito do amor. Assim, o amor humano seria definido como digno de ser
chamado amor apenas na medida em que se assemelhasse ao amor divino, ou seja, ao amor
que é o próprio Deus. A partir daí ele identificou duas categorias distintas de amor. O gift-love
(do inglês – gift: presente, oferta, dádiva; love: amor), o que poderia ser traduzido como um amor
doador, e o need-love (need: necessidade), o que poderia ser traduzido como amor da necessidade.

Inicialmente, C. S. Lewis estava disposto a fundamentar todo o seu tratado a respeito
do amor elogiando o gift-love e depreciando o need-love, e afirma que ainda concorda com muito
do que iria dizer, entretanto, acredita que não chamar o amor da necessidade de amor é fazer
violência à língua, já que afinal de contas, o need-love ainda é chamado de amor. Neste aspecto,
Lewis acha que “É melhor não seguirmos Humpty Dumpty em fazer com que as palavras
signifiquem o que quer que acharmos melhor” (p. 8).

Lewis também acredita que não se pode considerar o need-love como puro egoísmo, uma
vez que todos os seres humanos precisam uns dos outros, e também porque ele é o primeiro
amor que podemos sentir por Deus. Aqui, Lewis se depara com um paradoxo: estamos mais

11 Lewis, C. S. The four loves. Great Britain: Fount Paperbacks, 1978.
12 C. S. Lewis nasceu em 1898 na Irlanda e morreu em 1963, em Oxford, foi professor de Literatura Medieval e

Renascentista em Cambridge. É hoje um dos autores mais lidos no meio evangélico, também autor das famosas
Crônicas de Nárnia, entre elas O leão, a feiticeira e o guarda-roupa, que foi recentemente lançada em forma de filme
pelos estúdios de Walt Disney, com enorme sucesso.
perto de Deus quando estamos mais “longe” dele. Em outras palavras: estamos mais próximos
de Deus quando estamos mais longe dele no sentido de semelhança – quando somos menos
parecidos com Ele. Lewis distingue estar próximo no sentido de semelhança de estar próximo
no sentido de distância física. Os seres humanos já são próximos de Deus em semelhança, pois
Ele fez cada criatura sua refletir um pouco de sua glória. Nem por isso quer dizer
automaticamente que estejamos também próximos de Deus em distância. A proximidade em
semelhança é algo que nos é dado por natureza, a proximidade em distância “iniciada e
suportada pela Graça, é algo que devemos fazer” (p. 11).

Lewis diz que nossa imitação de Deus nesta vida não deve ser do Pai que está nos
Céus, todo-poderoso, onisciente e onipresente, mas do Cristo encarnado, não apenas o do
Calvário, mas o da pobreza, das privações, das multidões e das interrupções, pois Ele é “a vida
Divina operando debaixo de condições humanas” (p. 11). Lewis explica que fez estas
distinções a fim de prevenir que se confunda “Deus é amor” com “o amor é um deus”. Para
Lewis, um amor que se deixa tornar um deus se torna também um demônio; e então acaba
deixando de ser amor para se tornar uma forma de ódio. Mas o tipo de amor que corre o risco
de ser idolatrado não é o need-love. É o gift-love, justamente por ser o mais próximo de Deus em
semelhança; o que – afirma-se mais uma vez – não garante nem um pouco uma proximidade
real. Esta deve ser trabalhada por nós.

Em seu segundo capítulo, intitulado Likings and Loves for the Sub-human (Gostos e Amores
pelo Sub-humano), Lewis discute o amor e o gostar humanos por coisas não humanas, uma vez
que acredita haver uma continuidade entre eles e os nossos amores pelas pessoas. Chegamos
ao ponto sobre o qual, ao final deste trabalho, deteremos nossa atenção para a linguagem
como método filosófico: se a intuição de Pieper versa sobre o pensamento confundente e a
linguagem confundente, a de Lewis se volta para o pensamento que distingue, a linguagem que
distingue. Trata-se da distinção entre Need-pleasures e Pleasures of Appreciation.

Como um nível mais baixo do amor é o gostar, e gostar significa ter um tipo de prazer
em algo, Lewis decide começar com o prazer. E distingue entre dois tipos de prazer: needpleasures
e os pleasures of appreciation. Semelhantemente ao need-love, o need-pleasure também parte
sempre de uma necessidade; uma necessidade que pressupõe uma preparação: é um prazer que
só é prazer porque antes ocorreu algo que o requer como a necessidade de beber água depois
de horas ao sol, por exemplo: é justamente o prazer que se sente em saciar a necessidade.

Entretanto, o pleasure of appreciation é um tipo de prazer que nos faz apreciar algo por si mesmo
independentemente de preparação, mas simplesmente pelos atributos admiráveis do objeto:
como a entrega à contemplação de um belo quadro.

Lewis observa que em alguns casos, o pleasure of appreciation pode decair em need-pleasure,
como no caso do prazer em apreciar um bom vinho, que pode se tornar um alcoolismo a partir
do momento em que a bebida se torna uma necessidade e nem sequer é “apreciada”. Para
Lewis, parece bastante óbvio como os need-pleasures prenunciam o need-love, e através desta
comparação pode-se descobrir como, da mesma forma que o need-pleasure termina com a
necessidade, pode também ocorrer o mesmo com o need-love se ele não for alimentado. No caso
do amor por Deus, Lewis lembra que a nossa necessidade dele nunca termina – embora nossa
percepção dela possa, levando junto também o amor. No entanto, para Lewis não fica tão clara
a relação entre pleasure of appreciation e o gift-love. Por isso, ele sente a necessidade de distinguir
ainda outro tipo de amor: o appreciative-love, ou amor apreciativo:

O Need-love clama a Deus da nossa pobreza; o Gift-love anseia em servir, ou
mesmo sofrer, por Deus; o Appreaciative love diz: “Damos graças a Ti por tua
imensa glória”. O Need-love diz de uma mulher “eu não posso viver sem ela”;
o Gift-love anseia em dar a ela felicidade, conforto, proteção – se possível,
prosperidade; o Appreciative love contempla, e prende a respiração, e fica em
silêncio, se regozija que tal maravilha deva existir mesmo que não para ele,
não ficará inteiramente desanimado em perdê-la, prefere tê-la assim do que
nunca tê-la visto de maneira alguma (p. 21).
Outro capítulo trata especificamente do tipo de amor caracterizado como “Afeição”,
que é para Lewis o mais difundido e humilde de todos os amores. É também o que os gregos
chamavam de storge, o que originalmente se destinava ao amor de pais para com seus filhos. A
Afeição pode ser sentida por qualquer pessoa, e qualquer pessoa também pode ser objeto dela.
Lewis a chamou de “o menos discriminador dos amores” (p. 34). Entretanto, a Afeição possui
seu critério de escolha: seu objeto deve ser algo familiar. Ela não tem nada do amor apreciativo
em si, é o mais modesto dos amores, no qual ninguém se orgulha nem de senti-lo, e nem de ser
objeto dele.

Freqüentemente, a Afeição vem acompanhada de outros amores, como o amor erótico
e a Amizade, completando-os e unindo mais as pessoas. A Afeição pode ainda fazer surgir
sentimentos de amor apreciativo onde eles não existiam antes. É quando se começa a ver algo
naquela pessoa que sempre esteve presente, mas que nunca tínhamos reparado antes, e
passamos a admitir que ela se trata, afinal, de uma ótima pessoa, a seu próprio modo. Esse “a
seu próprio modo”, para Lewis, é libertador, pois “nos leva além de nossas próprias
idiossincrasias, nos fazendo aprender a apreciar a bondade e a inteligência em si mesmas, e não
apenas a que for temperada e servida para agradar ao nosso próprio paladar” (p. 37).
Olhando para tudo o que foi colocado até aqui, pode-se até pensar que a Afeição se
trata exatamente do amor supremo, daquele próprio amor que é Deus em si. Entretanto Lewis
nos adverte que uma coisa não tem nada que ver com a outra. Em seguida ele descreverá
algumas perversões da Afeição, falando primeiramente sobre quando ela se manifesta como
need-love, e depois como gift-love.
O need-love aparece, pois todas as pessoas desejam ser objeto de Afeição de alguém – e
assim esperam que aconteça. Justamente por não ser um amor discriminatório, ele acaba sendo
tomado como algo natural, “embutido” em qualquer família, sem que ninguém nunca tenha de
fazer nada para merecê-lo. Entretanto, Lewis adverte que não temos um “direito de esperar”
sermos objeto de Afeição, mas uma “expectativa razoável” de que iremos, se formos pessoas
comuns. Porém, Lewis lembra que podemos ser insuportáveis. Neste caso, a “natureza” se
voltará contra nós (p. 41), e onde poderia surgir uma Afeição, surge um ódio, antigo e
profundo como a própria Afeição.
Há pessoas que pensam que em casa podem se comportar de qualquer jeito, “ficar à
vontade”, não se esforçar para serem amáveis com ninguém, e mesmo assim esperar serem
amadas. A Afeição de fato toma certas liberdades de poder, por exemplo, dizer certas coisas
em casa que não se diria em público. Nem por isso pode faltar cortesia. Para Lewis, a cortesia
que se deve ter em casa é diferente da que se deve ter em ambientes públicos, bem menos
formal, mas a regra de não dar a preferência a si mesmo deve ser mantida, e até mesmo
mostrar sua maior expressão e essência aqui. A educação e a polidez que se tem em público
como um ritual, deve acontecer de verdade em casa.

O próximo aspecto da Afeição descrito por Lewis é o ciúme. No caso específico da
Afeição, o ciúme ocorre com a mudança. Um membro da família descobre alguma novidade
como as artes, a poesia, ou até mesmo a Deus. Ele muda, começa a se empolgar com coisas
que seus velhos não entendem. Na mesma hora o ciúme chega e deixa um fortíssimo
sentimento de deserção e abandono, como se alguém tivesse roubado aquela pessoa do
convívio de seus velhos semelhantes. “Ele que era um de Nós se tornou um Deles. Que direito
tinha alguém de fazer isso? Ele é nosso.” (p. 46).
Estas perversões da Afeição descritas por Lewis até aqui foram perversões do need-love.

Todavia a Afeição também tem suas perversões como gift-love. Essencialmente, o gift-love se
corrompe quando se torna um need-love, ou seja, quando dar, se torna uma necessidade. A
pessoa precisa ser necessária, e por isso, ou manterá a quem ama em constante necessidade, ou
criará novas necessidades que só possam ser supridas por ela.

Para aqueles que pensam que estas perversões só acontecem com gente neurótica e que
são, portanto, algum tipo de doença; Lewis afirma que estão enganados. Egoísmo, avareza, e
sentimentos de auto-piedade não são sintomas patológicos – não se vai ao médico para curálos
– mas antes, pecados, que só uma direção espiritual pode combater. Uma Afeição saudável
precisa estar sempre temperada com decência, bom senso, razão, justiça, bondade, autonegação,
paciência e humildade. É necessário que sempre haja a intervenção de um amor maior
quando a Afeição falhar, pois ela por si só não produz frutos positivos automaticamente. Ela
não é ainda o Amor perfeito, mas um amor humano – que como todos os seres humanos,
falha e nunca é bom por si só.

Os amores naturais descritos até aqui não são amores auto-suficientes. Para Lewis,
“algo mais” precisa vir em auxílio deles se eles quiserem permanecer em seu estado saudável e
bom. Este auxílio, este algo mais, que Lewis tem descrito até aqui como decência e senso
comum, mas que depois se revelou como bondade, é o Amor perfeito, a Caridade.

Até aqui, Lewis têm mostrado como os amores naturais não são perfeitos e sofrem
perversões. O único modo de eles permanecerem amores dentro dos corações humanos é se
forem temperados com algo perfeito e eterno, que sempre os levará pelos caminhos certos que
os manterão longe das perversões, bons e saudáveis. Em seu último capítulo conclusório,
Lewis finalmente se focará apenas neste Amor Perfeito.

Primeiramente Lewis comparou os nossos amores naturais com um belo jardim.

Apesar de sua exuberante beleza, o jardim só pode de fato florescer, e suas plantas só podem
crescer saudáveis por causa da chuva, do sol, e do calor. Estas últimas coisas representam o
papel que a Caridade desempenha em relação aos outros amores.

O amor pode causar tristeza, pode “quebrar corações”, nem por isso se deve desistir
dele, pois nosso objetivo não deve estar simplesmente em buscar nos alegrarmos a nós
mesmos. Não há investimentos seguros no amor, amar é se tornar vulnerável (p. 111). Aquele
que se fecha para o amor com medo de ser magoado, logo se torna impenetrável.
Lewis em seguida fala sobre a preocupação de se amar uma pessoa mais do que a Deus.

Ele acha que o problema não está em amar demais uma pessoa, mas em amar pouco a Deus. A
verdadeira preocupação é saber a quem se deverá obediência acima de todas as coisas; a Deus
ou ao amado? Para o autor, deve-se colocar Deus em primeiro lugar. Especialmente se se
quiser ter um segundo, terceiro, quarto lugar, e etc. Será mais fácil amar mais a Deus do que ao
amado, sem que este se sinta magoado, se ele também compartilhar deste amor maior por
Deus do que pelas outras coisas. O “tudo por amor” não vale a pena, pois não está relacionado
da forma correta com o Amor em si.

Partindo da premissa bíblica, se Deus é amor, e este amor é um gift-love. E Ele
implantou em todas as suas criaturas tanto o gift-love, que inocula e espelha seu próprio amor,
quanto o need-love. Mas o gift-love que recebemos é diferente do de Deus. A nossa busca apenas
dar o que nós mesmos estamos dispostos e capazes de dar, de acordo com o nosso próprio
juízo (falho) do que achamos bom para a pessoa, apenas para aqueles que acharmos amáveis e
merecedores do nosso amor. O gift-love de Deus dá tudo o que for, de fato, o melhor para seus
amados, e ama a todos sem distinção, até mesmo os que não se consideraria amáveis, como
criminosos ou assassinos.

Deus permite inclusive que tenhamos por Ele um gift-love. Apesar de tudo ser d’Ele e
Ele não precisar receber nada de nós, Ele nos dá as nossas vidas, para que possamos oferecer
nossos corações a Ele em amor e devoção. E os cristãos também sabem, afirma Lewis, que
outro modo de dar a Deus é dando aos nossos semelhantes, quando vestimos ou alimentamos
um estranho necessitado, por exemplo. Na Bíblia, Jesus afirma que o que fizermos de bom
para nossos semelhantes, a Ele o fazemos.

Deus também coloca em nós dois tipos de need-love sobrenaturais. Um por Ele, e um
pelas outras pessoas. A primeira coisa que esse need-love por Deus faz em nós é nos mostrar que
apesar de Deus nos amar, não é porque somos amáveis, mas simplesmente porque Ele é amor.

Dessa forma podemos, através da Graça, receber com alegria tudo o que Ele tem para nos dar,
sabendo que aquilo não é de fato “nosso”.

O need-love sobrenatural pelas pessoas age em nós, pois nos ajuda a aceitar que
precisamos muitas vezes do amor e da caridade dos outros ainda quando não formos amáveis.

Contudo, não é o tipo de amor que queremos receber. Queremos ser amados por nossos
próprios méritos. Só poderemos ser amados e perdoados sem merecermos através da
Caridade. A Caridade não substitui os outros amores; ela serve de modelo pelo qual eles devem
se expressar. A Caridade, agindo nos seres humanos, é tanto um need-love grato e sem
constrangimento ou vergonha, quanto um gift-love modesto e altruísta.

Os amores naturais do ser humano só podem se elevar ao nível da Caridade se se
submeterem a Ela, ou seja, a Deus. E o único modo de fazerem isso é através da conversão,
onde se reconhece a própria insuficiência, indefesa e necessitada da condição humana, e se
aceita a Cristo, através da Graça e do infinito gift-love de Deus, para que se possa, através dele,
atingir a perfeição e a plena alegria e paz que só Ele pode dar.

Lewis comenta a respeito da constante dúvida entre muitos cristãos, que é se nós nos
reconheceremos e nos amaremos no Céu da mesma maneira que nos amamos aqui na Terra.

Este autor acredita que se todo o amor que sentimos uns pelos outros neste mundo forem
amores naturais, não há sentido em que ainda existam estes amores imperfeitos num lugar
onde teremos o Amor perfeito. Mas, se tivemos algo do Amor divino uns pelos outros aqui,
este amor só tem a se consolidar e se multiplicar no Céu. De qualquer forma será diferente.
Lewis termina seu livro dizendo que não é só através do need-love e do gift-love que
podemos amar a Deus enquanto a Caridade age em nós através da Graça. Podemos
posteriormente desenvolver por Ele também um amor apreciativo. Para Lewis, este é o dom
mais desejado de todos.

Piper e Lewis: pontos de ruptura e de interseção para o entendimento de uma filosofia
amorosa.

Longe de quaisquer pieguices a educação afetiva e a educação para o amor devem
nortear o ensino. Não podemos acreditar que o amor, venha à existência e ao conhecimento
naturalmente, sem nenhum esforço no sentido de buscá-lo, de sermos a ele apresentados. E
assim não deveríamos contar como pais ou como educadores que ele simplesmente está dentro
de cada ser humano, e que basta permiti-lo aflorar à superfície da nossa consciência. É possível
que a falta da compreensão da dinâmica emocional é uma possível resposta aos dilemas que
nosso tempo presente apresenta. Dessa forma, um entendimento mais adequado dos processos
emocionais envolvidos na constituição da história ontogenética do ser humano é essencial a
função da educação para a formação de sujeitos históricos, críticos e atuantes em seu tempo.

Não se trata de uma leitura desvinculada da realidade: esta é o ponto de partida para inúmeras
reflexões. E aqui tomamos como ponto de partida dois pensadores.
O grande tema que norteia os escritos de Pieper é o homem, a antropologia filosófica.

E o acesso a este objeto de estudo é para o filósofo sempre dado através de caminhos
indiretos. A filosofia de Pieper é muito embasada no fenômeno e na experiência humana, pois
daí se infere um conhecimento que se baseia num contato direto com a realidade. É através da
análise da experiência que o filósofo procura resgatar as grandes verdades a respeito do
homem. Entretanto, grande parte do que uma experiência é e representa é rapidamente
esquecido, pouco tempo depois de acontecer; todo o seu brilho e vivacidade duram apenas os
poucos instantes em que ela se dá.

Este problema na filosofia pieperiana é também um de seus maiores fundamentos: o
homem é um ser que esquece (como já dizia o poeta grego Píndaro13), por isso é que se fala em
um “resgate” das grandes verdades. O que se descobre em filosofia não é novo, é, antes, algo
que já sabíamos, mas que esquecemos (George Orwell parecia concordar com isso quando
escreveu em seu 1984 que, “Os melhores livros são os que nos dizem o que já sabíamos”).
Dessa forma, como então é possível analisar uma experiência humana a fim de
encontrar respostas às grandes questões filosóficas sobre o ser do homem se grande parte do
que o homem experimenta tende a cair no esquecimento? É possível, porque o conteúdo
destas experiências cai, sim, lentamente, no esquecimento das pessoas, mas não desaparece por

13 Cf. Lauand, Jean Filosofia, Linguagem, Arte e Educação, São Paulo, Factash, 2007, p. 123 e ss.

completo do universo. O que acontece é que ele vai aos poucos se transformando nas grandes
instituições humanas, nas próprias formas de agir do homem, e, sobretudo, na linguagem.
Precisamente sobre duas dessas incidências de linguagem, nesse sentido, é que versa
tematicamente este nosso trabalho.

Então, o filosofar de Pieper se baseia no estudo das instituições, do agir humano e,
sobretudo, da linguagem, para chegar, através do mesmo caminho, até as grandes experiências
humanas que contém verdades a respeito do ser humano e que aos poucos foram sendo
esquecidas. Pensarmos acerca da linguagem piperiana, no contexto que atualmente vivemos
isso é um imenso ganho para quem atua com pessoas e aprendizagem, pois possibilita a
construção metacognitiva e cria espaços e tempos de trabalho, onde o fazer pedagógico amplia
suas possibilidades.

Primeiramente deve-se dizer que a linguagem estudada por Pieper é a linguagem
comum, falada no dia-a-dia, a língua viva, fluida e dinâmica do cotidiano. A língua simples.
Para Pieper, o estudo da linguagem simples é o “selo de credibilidade”14 de um bom filósofo.

Os termos mais técnicos, embora muitas vezes mais precisos, são artificiais no sentido de que
não surgiram diretamente das experiências do dia-a-dia das pessoas. São termos criados
especificamente para explicar algo que supostamente já se sabe, não são termos que surgem
das experiências e fenômenos humanos de uma forma natural. Portanto, não se pode esperar
que aí – na terminologia técnica – se vá encontrar resquícios de experiências humanas
esquecidas e sutilmente nela transformadas. O lugar ideal de se procurar por elas é na
linguagem simples: sine plicas, sem dobras, sem complicações (com plicas), mas da maneira que
surgiram naturalmente, ou seja, onde se encontram no estado mais puro e mais próximo
possível da experiência primeira que as originou. Lauand, ainda destaca:

Com isto, tocamos aquele ponto essencial para a educação moral de hoje, o da mútua
alimentação, da relação dialética entre a percepção (e vivenciamento) da realidade
moral e a existência de linguagem viva: O empobrecimento do léxico moral é, hoje,
um dos mais agudos problemas pedagógicos, na medida em que gera um círculo,
literalmente, vicioso: a falta de linguagem viva embota a visão e o vivenciamento da
realidade moral; o definhamento da realidade esvazia (ou deforma) as palavras…
Faltam-nos as palavras, faltam-nos os conceitos, faltam-nos os juízos, falta-nos acesso
à realidade (…). A necessidade da existência de uma linguagem viva para as virtudes e
vícios supera, portanto, o mero âmbito lexical e instala-se no da própria possibilidade
de visualizar a realidade de que se trata15” (Lauand, 2007, p. 54-55).

Precisamente sobre duas preciosas contribuições para a filosofia do amor: uma de
Pieper; outra de Lewis; esta sobre um aspecto da linguagem que distingue; aquela, sobre a que
confunde; é que versa este nosso pequeno exercício filosófico. A princípio, Lewis fala sobre
como muitas vezes utilizamos o verbo amar no sentido de gostar, (por exemplo, nas falas:
“amo arroz com feijão”, “amo andar a cavalo”, e etc.) e como ele e as outras crianças de sua
geração foram reprovados por fazerem isso. Para Lewis: “de fato existe uma continuidade
entre o nosso gostar das coisas elementar e os nossos amores pelas pessoas” (p. 15) e “já que
14 “Über die Schlichtheit in der Philosophie”, publicado em Erkenntnis und Freiheit, pp. 97 a 102.
15 Lauand, Jean Filosofia, Linguagem, Arte e Educação, São Paulo, Factash, 2007, p. 54-55
‘o maior não se sustenta sem o menor’ é melhor começarmos por baixo, com os simples
gostos; e já que ‘gostar’ de alguma coisa significa ter um tipo de prazer nela, devemos começar
com o prazer” (p. 15).
Dessa forma, Lewis segue subdividindo o prazer em duas categorias. Como dizíamos,
o primeiro tipo de prazer que surge seria então o que Lewis chamou de Need-pleasure, o que
estamos traduzindo como “prazer da necessidade”. Este tipo de prazer parte sempre de um
desejo, de um anseio inicial, de uma necessidade, que supõe uma preparação. Por exemplo,
quando um sujeito está com muita sede, beber um copo de água se torna um grande prazer.
Entretanto, beber água, em si, não é algo que as pessoas geralmente fazem por prazer, só se
torna um prazer quando a pessoa está com sede (“preparada”, por exemplo, pelo calor ou por
um esforço físico), e quanto mais sedenta ela estiver, maior será o prazer em saciar a sede. É
um prazer que parte sempre de uma necessidade.
Por conseguinte, há outros prazeres que não partem de uma “preparação”: acontecem
e são um prazer em si mesmos. Como, por exemplo, apreciar o sabor de um vinho, ou o
perfume de um campo florido. Nunca existe uma necessidade envolvida neste tipo de prazer,
ele é como que um presente inesperado que vem ao nosso encontro para o nosso próprio
deleite. A este tipo de prazer, Lewis chamou Pleasures of Appreciation, “prazeres de apreciação”.
Justamente a este prazer de apreciação, ou apreciativo, é que o conceito de teoria se aproxima.
Se no prazer da necessidade se bebe um copo de água apenas quando se está com sede (ou
seja, na necessidade); aqui, no prazer apreciativo, como diz Guimarães Rosa ao falar
justamente a respeito do amor, têm-se “sede depois de se ter bem bebido”.

Lewis coloca que a importância de se falar sobre os prazeres é que eles prenunciam
certas características dos amores. Os Need-pleasures, por exemplo, terminam assim que a
necessidade é saciada, o que pode indicar que se não houver o cuidado de se preservar o amor
que surgir a partir de uma necessidade (Need-love), ele pode também terminar, da mesma forma,
assim que o desejo que levou até ele for satisfeito.

No caso dos prazeres apreciativos, Lewis acha que a maneira como eles prenunciam
certas características no amor não é tão facilmente percebido. Para isso, sente a necessidade de
incluir um terceiro tipo de amor entre os dois já mencionados (need-love e gift-love). Seria o
Appreciative love, ou o que podemos traduzir por amor apreciativo. As descrições de Lewis a
respeito deste amor apreciativo vêm a corresponder ao conceito de theoria de Pieper.

Para Lewis, o amor apreciativo leva a admirar a beleza das coisas de uma forma
desinteressada. O conhecedor de vinhos tem todo um treino e uma habilidade especial para
apreciar da melhor maneira possível tudo o que uma espécie de vinho tem para oferecer. E ele
aprecia este vinho de tal forma que se pode dizer que sente por ele um amor apreciativo. Ele
consideraria um verdadeiro pecado que o finíssimo vinho fosse profanado por um paladar
despreparado, que não o saberia valorizar. Independentemente de ele desfrutar desse prazer,
ele quer preservar seu valor: ele não iria querer desperdiçá-lo: mesmo em seu leito de morte,
espera que seu sabor seja preservado para sempre, ainda que ele mesmo não possa mais
apreciá-lo. Isso é uma espécie de amor. Um amor apreciativo. E é também “a contemplação pura
da verdade e do belo ainda que disso não resulte nada de útil” (“O Filósofo e o Poeta”), ou
seja, a teoria.

Mas o mais importante é como Lewis liga a distinção entre os prazeres – need-pleasures e
pleasures of appreciation – a fatos de linguagem: a estes nos referimos ao objeto e no presente (no
atemporal presente da theoria, poderíamos dizer) “Olha, que cheirinho bom é este”; a aqueles,
enfatizamos o sujeito e falamos no passado “Ufa! eu precisava disto”.

Então, pelo pensamento que confunde – imposto pela língua alemã – Pieper é levado
ao que há de comum nos amores; que o amor fundamentalmente é pôr-se diante do amado e
dizer: “Que bom que você exista!”. Ao observar que, na linguagem, nós nos referimos a certos
prazeres no passado e sublinhando o sujeito; enquanto, em outros, falamos do objeto no
presente, Lewis descobre a rica distinção entre “prazeres de necessidade” e “prazeres de
apreciação”.

O desafio que aqui se configura, então, é pensar como em nossas escolas, em suas
ações cotidianas, podem organizar ações educativas que atendam a demanda por aprendizagens
significativas e por efetivas construções de conhecimentos, fundamentadas em uma linguagem
do amor, por exemplo tomando como ponto de partida a filosofia pieperiana ou mesmo
norteados pelos ensinamentos de Lewis. Em nosso momento histórico atual, reside nos
projetos político-pedagógicos a busca por coerência entre as práticas de práticas e os novos
paradigmas científicos que, no contexto das emergentes mudanças, devem estar presentes nas
reformulações pedagógicas.

Conclusão

Os desafios anteriormente expostos podem ser enfrentados com novos estudos, novas
inserções teóricas e práticas no campo educacional. A Psicopedagogia, no Brasil, tem
contribuído de modo significativo, para a necessária revisão da prática escolar cotidiana,
inserindo, nos espaços e tempos institucionais, novos paradigmas e novas dimensões para o
ato educativo. E uma das preocupações que aos poucos está sendo evidenciada na educação
das pessoas é a emocional. Infelizmente, este movimento ainda é incipiente e, apesar de sua
evidente importância, o amor, enquanto um conceito, muitas vezes é utilizado
indiscriminadamente pelas pessoas de uma forma errônea. De fato, ele possui uma extensa
variedade de formas e explicações sob diversos prismas. Contudo, ao banalizar os sentimentos,
como, por exemplo, o amor, estamos fazendo com que, paulatinamente, eles percam o seu
verdadeiro sentido. Essa, indubitavelmente, é uma séria ameaça que paira sobre os seres
humanos: banalizar o amor, reduzindo-o efêmeros prazeres que conduzem uma satisfação
mais egoísta do que altruísta.

A evolução do que se concebe por amor certamente evoluiu e continua a evoluir,
acompanhando o pensamento das pessoas na época na qual está inserido. A despeito de sua
importância, observa-se paralelamente uma banalização da busca do amor para firmar os
relacionamentos interpessoais afetivo-sexuais na atualidade. Numa sociedade capitalista, em
que a busca pelo dinheiro e bens materiais é posta em primeiro plano, o individualismo é
gritante e cada um preocupa consigo próprio. Diante disso, o racional e o pragmático são
valorizados em detrimento do emocional. Há cada vez menos tempo para nos dedicarmos ao
estabelecimento de relações amorosas e, principalmente, à manutenção adequada daquelas já
existentes. Dessa forma, há quem goste de desvalorizar o amor. Há quem diga que o amor é
uma emoção instável, um sentimento para tolos, um cárcere, ou ainda, algo relacionado a
deleites idílicos, a sentimentalismos gratuitos, a ilusões que geralmente nunca se consumam.

Por outro lado, busca-se freneticamente o prazer fácil e fugaz, desprovido de laços afetivos.
Com isto, enriquece-se nossa compreensão do amor, a filosofia do amor, e tendo
tornado explícitos e conscientes esses aspectos, passamos a dispor de um referencial
pedagógico, em direção a uma educação para o amor. De acordo com Arendt (2007), “A
educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a
responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a
renovação e a vinda dos novos e dos jovens”. (Arendt, 2007, p. 247).

Referências
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SOLOMON, R. C., (1992). O amor: reinventando o romance em nossos dias. São Paulo: Saraiva.
Tradução por Wladir Dupont.

Gabriele Greggersen

 

Em 1998, quando se festejou o centenário do nascimento de C.S. Lewis, bati na porta de várias editoras com um projetinho para algum evento comemorativo e com propostas para tradução de vários livros. Mas a resposta que obtive foi: “Quem leria C.S. Lewis no Brasil?”

 

De lá para cá, muita coisa mudou: Novas traduções surgiram de vários títulos pela editora Martins Fontes, de Surpreendido pela alegria (Editora Mundo Cristão), de Mero Cristianismo (Editora Quadrante), de vários títulos pela Editora Vida Nova, meus livros da Editora Vida (Pedagogia Cristã na obra de C.S. Lewis) e da Editora Mackenzie (Antropologia Filosófica de C.S. Lewis) e os dois títulos por mim traduzidos para a Editora Ultimato: Um Ano com C.S. Lewis e Deus em Questão. Mas é claro que os títulos da Martins Fontes, que lançou as Crônicas de Nárnia em grande estilo na Bienal do Livro do Rio de Janeiro em 1997, foram os mais importantes, pelo tamanho e alcance (distribuição) da editora.

 

Mas foi depois do lançamento dos filmes das Crônicas… no cinema que o nome de C.S. Lewis se tornou mais conhecido no Brasil, tanto ao público que gostou dos filmes, mas até agora não faz nenhuma relação com o cristianismo (cristão ou não), quanto daquele que fez a relação imediata, mas que nunca havia ouvido falar em C.S. Lewis. Entre os últimos encontram-se os criadores e administrador do portal Mundo Narnia, que se inspirou em Narnia para criar todo um mundo virtual.

 

Há também grupos lewisianos que já estudavam Lewis no Brasil desde 1965, dois anos após a morte do mestre, e de lá para cá se reuniam informalmente, mas que nunca haviam conseguido se organizar para institucionalizar um Grupo Oficial, só conseguindo alguma coisa a partir de seu ingresso na Internet (mais ou menos a partir de 2002), e hoje constituem uma verdadeira escola virtual, com centenas de artigos publicados na Rede e pelo menos 3 (três) livros publicados com base em Lewis ou falando sobre ele (todos publicados pelas editoras Agbook e Clube de Autores). Este grupo de 1965 chama-se Escola de Aprofundamento Teológico (EAT), e seu pessoal conta com três pastores e é dirigido pelo amigo narniano Prof. João Valente.

 

Finalmente, quem sabe, meu site <http://cslewis.com.br> também tenha contribuído de alguma forma para a popularização do autor e da obra, principalmente no meio acadêmico.

 

É preciso considerar que Lewis tem várias facetas, não apenas do escritor de livros imaginativos para todas as idades e apologista cristão. Ele também era um acadêmico de mão cheia na área de literatura, mas também, informalmente, nas de filosofia, teologia e educação.

 

Assim, no ano passado, fui surpreendida por uma nova missão: traduzir a obra acadêmica de C. S. Lewis para o português do Brasil. Trata-se de quatro livros, a começar pela sua dissertação de mestrado: A Alegoria do Amor, já lançado pela Editora É-realizações. Os próximos lançamentos serão: A Imagem Descartada, que é um estudo sobre a visão de mundo medieval via literatura; Estudos de Literatura Medieval e Renascentista; e Prefácio ao Paraíso Perdido, sobre a famosa obra de Milton, mas numa perspectiva comparativa.

 

Esse trabalho gerou várias reflexões da minha parte. Principalmente sobre a questão, se é difícil ou fácil traduzir C.S. Lewis, pergunta essa que é ainda mais importante no caso das suas obras mais “técnicas”.

 

Vou começar pelos seus aspectos “fáceis” de ler e traduzir: seu carisma, que chamaria até de verve; sua paixão pelo que ele conhecia e sabia fazer, e não era pouca coisa; seu lidar com as letras e com os autores; e sua clareza mental; seu equilíbrio e ponderação na argumentação; sua humildade e seu respeito pelo leitor. De uma maneira geral, o aspecto fácil está na própria simplicidade com que ele escreve, com insights regados de genialidade. O leitor sintonizado admira-se: “Nunca parei para pensar nisso” ou (aos ainda mais sintonizados) “sempre pensei isso” e depois “mas como foi que ele conseguiu expressá-lo de forma tão simples?”

 

A parte difícil da tradução da obra de C. S. Lewis, em especial, aquela, escrita para o meio acadêmico é a disparidade de linguagem e cultura entre o a academia brasileira e a inglesa da época dele. Lewis era poliglota e entre as línguas que ele dominava, estava o inglês médio (inglês da Idade Média), língua mais morta do que o latim, de forma que o tradutor tinha que fazer verdadeiros malabarismos para tentar decifrá-las. Sem falar de citações em latim, francês, italiano, britânico, saxônico e grego.

 

E mais: Lewis também usa um estilo que já não é mais usual, nem mesmo nos meios acadêmicos: Frases longas, com uso constante de pronomes, principalmente o “it” (gênero inexistente no português) até se perder de vista a que os mesmos se referem, e o uso de expressões idiomáticas. Todas essas dificuldades fizeram vários tradutores desistir da ousadia de traduzir esse autor, principalmente nessas obras.
Mas o que é fundamental, até para os editores que me lêem: a mensagem de C.S. Lewis sobrevive há décadas, não apenas no mundo cristão, mas até no secular e acadêmico. Digno de nota é a edição recente de An Experiment in Criticism, que foi traduzido pela UNESP para Um Experimento na Crítica Literária (2009), livro esse que já é citado em trabalhos e resenhas acadêmicas.

 

Você me dirá: “Mas eu não entendo nada de literatura, muito menos, da Medieval”, e eu lhe direi que o esforço por ingressar nesse universo será coroado de recompensas inesperadas da filosofia, da teologia e de muitas outras áreas interdisciplinares a cada página de cada um desses livros. E mais: Você sairá com um gosto mais apurado pela literatura ou quiçá até se apaixone por ela (e de quebra também pela filosofia e a teologia).

 

Então, esses livros traduzidos são a prova de que C.S. Lewis não é apenas um nome para veicular o cristianismo através de novos canais de comunicação, como faz crer um artigo recente, que tenta aproximar as suas estratégias à forma de comunicação e de marketing pós-moderna do neopentecostalismo brasileiro, as quais pouco ou nada têm a ver com os meios acadêmicos.

 

C.S. Lewis era um profissional e acadêmico com todas as letras, embora esse seu mérito tenha sido alcançado por ele apenas tardiamente em sua vida e por uma universidade (Cambridge), que não era a dele de origem (Oxford), coisa que essas universidades reconhecem hoje ter sido uma injustiça e um preconceito pela sua genialidade e popularidade nos meios não acadêmicos e cristãos.

 

Nessa semana em que lembramos particularmente do escritor e da obra, que é a que comemoramos todos os anos em novembro, mês em que ocorreu tanto o nascimento (dia 29 de novembro de 1898) e a morte (dia 22 de novembro de 1963) de C.S. Lewis, fica aqui a minha singela contribuição.

 

 

A Semana entre 22 e 29 de novembro de cada ano é muito importante para os admiradores e fãs de C.S. Lewis, pois ela vai respectivamente da data de sua morte até a do nascimento (em 1963 e 1898 respectivamente).

E vejam só o que amigos de Fortaleza (estive lá no ano passado, dando palestras sobre Lewis) estão aprontando:

http://semanacslewisdoceara.blogspot.com.br/p/apresentacao.html

Espero que esse e outros movimentos sirvam de exemplo e inspiração para vários outros pelo Brasil! Vamos nos mobilizar seja na escola, na faculdade, na igreja, entre amigos, e nos mais variados ambientes!