Por Cleber Santos Oliveira

 

 

 

A palavra fez ao homem, muito mais do que ele fez por ela

(Catedral – Carpe Diem)

 

 

De acordo com Paulino “Escrever sobre Dostoiévski é sempre um trabalho ousado” (2012, p.15). O que dizer sobre a aventura de discursar sobre Lewis, um escritor “tão talentoso e altamente conceituado”, considerado “um dos autores mais dotados e versáteis da era moderna”? (Downing,2006, p.15). Para Luigi Pareyson Dostoiévski é o “filósofo ou pensador de quem a filosofia não pode prescindir” (2012, p. 10). Segundo  McGrath (2014, p. 7), C.S. Lewis, é “[…] um dos maiores especialistas do mundo em literatura inglesa”. Estudantes de várias partes da Inglaterra e do mundo lotavam as palestras de Lewis em Oxford e Cambridge, ansiosos e atentos a cada palavra sua.

Como poderia a filosofia desconsiderar o vigor do pensamento e a grandeza da arte de Dostoiévski, “o mais russo de todos os escritores russos” (PAULINO, 2012, p. 17.), “o maior dos metafísicos russos” (Berdiaeff apud PAULINO, 2012, p. 16), cuja concepção filosófica na sua arte está profundamente exposta em seus escritos? Se de acordo com Bezzerra (2013, p. V)  [..]“ a maior vitalidade de uma obra se mede por sua capacidade de ampliar-se na recepção e por sua duração no tempo”, então a qualidade, a força e vitalidade dos livros de Lewis e a dimensão e magnitude do número de leitores que surgem a cada dia apaixonados por suas obras provam que C.S. Lewis está entre os grandes escritores da Literatura Universal e qualquer lista que tentar definir um número exato de clássicos da Literatura Mundial não poderá desconsiderar as obras de literatura do apologista cristão de Oxford.

C.S. Lewis e Fiódor Dostoiévski: dois escritores que marcaram a História da Literatura Mundial. Dois profetas de seu tempo.

 

            Fíodor Mikhaiolovitch Dostoiévski           

Fíodor Mikhaiolovitch Dostoiévski nasceu no dia 30 de outubro de 1821 em Moscou, Rússia. Sua mãe chamava-se Maria Fiodorovna Dostoiévski e seu pai, Mikhail Andreievitch Dostoiévski. Mikhail era médico do Hospital Marínski para os Pobres, localizado nos subúrbios de Moscou.

Dostoiévski tornou-se escritor depois que abdicou da carreira de engenheiro. Foi preso em 1849, acusado de conspiração, e condenado à pena de morte. Entretanto, no derradeiro momento de sua execução obteve o perdão da condenação. Enviado para a Sibéria, Fortaleza de Osmk, cumpriu a pena de trabalhos forçados por quatro anos.

Apontado como um dos maiores escritores da literatura russa e universal, o “Shakespeare russo” segundo o poeta e crítico literário Viatcheslav Ivanov (apud STEINER, 2006, p. 98), Dostoiévski é “[…] sem dúvida, um dos escritores mais conhecidos e lidos no mundo todo, e a complexidade que sua obra apresenta continua a ser um desafio a estudiosos das mais diversas áreas do conhecimento científico, artístico e cultural” (2008, p. 9). Para o filósofo russo Nikolai Berdiaev, conforme citado por Frizero (2009, p. 07) a obra inteira de Dostoiévski representa “a solução de um vasto problema de ideias”.

Dostoiévski foi um escritor que se destacou por sua real consciência da realidade, por sua genialidade em abordar em seus romances as contradições que permeiam a vida humana, as diversidades de personalidades, a realidade do mal e do sofrimento e o processo redentor da dor e soube discursar sobre o mundo numa absoluta sinceridade, fato que possibilita ao seu leitor a oportunidade de refletir sobre algumas pressuposições da vida e da sociedade.

Suas obras literárias são como fios que tecem com maestria e beleza uma trama relacional entre a Teologia, Filosofia e a Literatura. Nelas podemos perceber o filósofo escritor, a palavra, linguagem e pensamento; uma síntese de ideias filosóficas, políticas e religiosas. Para Mikhail Bakhtin,

Dostoievski conhece a fundo a alma humana, sabe que o universo humano é constituído de seres cuja característica mais marcante é a diversidade de personalidades, pontos de vista, posições ideológicas, religiosas, antirreligiosas, nobreza, vilania, gostos, manias, taras, fraquezas, excentricidades, brandura, violência, timidez, exibicionismo, enfim, sabe que o ser humano é esse amálgama de vicissitudes que o tornam irredutível a definições exatas. (BAKHTIN, 2013, p. XI).

 

Desse modo Bakhtin demostra a singularidade do pensamento de Dostoiévski, o impacto de suas ideias e a força significativa desse notável romancista russo que evidentemente afetou todo o curso da literatura e da Filosofia moderna.

Dentre as belas obras que Dostoiévski escreveu dois de seus romances são verdadeiros clássicos da literatura universal: Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov.

   Publicado em 1866 em forma de série o livro “Crime e Castigo” é um dos maiores romances já escrito, cuja síntese peculiar traz um componente utilitarista da ideologia radical que envolve teorias políticas e sociais da época e suscita importantes reflexões a respeito da condição humana e do sofrimento.

Numa montagem extremamente eficiente do romance de Dostoiévski o filme Crime and Punishment produzido pela BBC TV em associação à rede Bravo, dirigido por David Snodin, adaptado paras as telas por Tony Marchant e distribuído no Brasil por Log On Editora Multimídia Ltda é uma envolvente e sombria a adaptação da obra-prima de Dostoiévski para as telas, e carrega todo o dilema moral do romance numa profunda tensão psicológica de conflitos e suspense. De fato, o diretor David Snodin conseguiu captar a constituição complexa do romance: a questão de ordem ética, o indivíduo e sociedade, os conceitos da psicologia social, particularmente a questão da razão em detrimento das emoções, as relações humanas e os conceitos da psicologia social.

O romance Os Irmãos Karamazov é considerado um dos maiores feitos literário de todos os tempos e exerceu bastante influência em pensadores como Lev Shestov, Heidegger, Nietzsche e Freud. Segundo Pareyson “Os irmãos Karamazov” de Dostoiévski “tem uma grandiosidade de concepção, uma força de penetração, um vigor de pensamento, uma amplidão de experiência, uma completude de humanidade, que fazem dela uma obra-prima absoluta” (2012, p. 27). Para a Teóloga Golin (2012), o escritor russo relaciona os personagens da família Karamazov à vida da Rússia da segunda metade do século XIX, personificando-os. Assim, “Os personagens de Os Irmãos Karamazov testemunham a decomposição e degenerescência de toda uma sociedade. ” (GOLIN, 2012, p. 83).

Em 1958 Richard Brooks, diretor cinematográfico, conseguiu com muita propriedade traduzir para o cinema os elementos dramáticos do universo dostoievskiano em “The Brother Karamazov”, com um enredo permeado de multiplicidade de vozes, de convicções existenciais e questionamentos inquietantes com destaque a narrativa filosófica e policial no desenrolar dos acontecimentos. Sendo assim, o telespectador tem a oportunidade de acessar as questões centrais em Dostoiévski acerca do bem e do mal, da liberdade humana, da experiência de Deus, dos problemas e contrastes de ideias. O filme foi distribuído no Brasil pela Versátil Home Vídeo.

Fíodor Dostoiévski morreu em São Petersburgo, Rússia, no dia 28 de janeiro de 1881.

            Clive Staples Lewis

C.S. Lewis, nasceu em 29 de novembro de 1898 na cidade de Belfast na Irlanda do Norte, sua mãe era a sra. Florence Augusta Lewis, considerada sua âncora e fundamento (McGrath, 2013). Florence foi professora de matemática (Greggersen, 2001, p.17). Seu pai, Albert James Lewis, era um advogado. Lewis foi catedrático de filosofia, crítico literário e é considerado um dos maiores influentes cristãos e intelectuais do século XX. O homem escolhido pelo Papa João Paulo II como defensor habilidoso da fé (Downing, 2006, p.15). A popularidade de C.S. Lewis é mundial e suas obras infantis “As Crônicas de Nárnia” foi uma das mais discutidas e comentadas do século XX.

Segundo Colin Duriez (2006) J.R.R. Tolkien, um dos maiores filólogos do mundo, escritor e autor de obras de ficção clássicas e extraordinárias como O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, reconheceu que sem a persistente ajuda de seu amigo e colega de Oxford ele jamais teria terminado sua obra prima The Lord Of The Rings (O Senhor dos Anéis).

Publicado em 1950 a obra de C. S. Lewis: As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa é uma série de contos infantis. As Crônicas de Nárnia é um mundo fantástico cuja narrativa encanta por seus ensinamentos salutares, por seu caráter transcendente. São maravilhosas e autênticas fontes de conhecimento “cheias de verdades escondidas, de mistérios profundos e de tesouros espirituais” (DITCHFIELD, 2003, p. 15.). No apêndice do livro As Crônicas de Nárnia: Três maneiras de escrever para crianças” [edição lançada no Brasil pela Editora Martins Fontes, 2002] C.S. Lewis disse que “nenhum outro tipo de literatura [o conto de fadas] que as crianças poderiam ler lhes daria uma impressão tão verdadeira” (p.746). De fato, a história de Nárnia possibilita aos seus leitores desfrutarem de numerosos elementos do processo do desenvolvimento da moral, dentre eles: origem das más ações no caráter das pessoas; a envolvente atratividade do mal; a consequência de más ações, etc. Nesse sentido, As Crônicas de Nárnia, aperfeiçoa a educação moral e oferece elementos que ajudarão o leitor a construir o caráter. Poucas são as obras de ficção que chegam a isso.

Em dezembro de 2005 o filme As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, baseado na obra prima de C.S. Lewis, estreou nas telas de cinema de todo o mundo e foi um dos filmes mais aguardados. A película foi dirigida por Andrew Adamson e coproduzida pela Walt Disney Pictures e Walden Media. Cabe destacar que dada a indubitabilidade da realidade da imaginação moral apresentados na história de Nárnia o filme, desde sua estreia, tem demostrado ser um recurso eficaz em projetos em salas de aulas como por exemplo o debate sobre Ética, uma vez que o filme possibilita, por meio de sua compreensão, relacioná-los aos aspectos práticos do cotidiano.

Numa época marcantemente materialista as duas faculdades mentais – a fantasia e a imaginação – tem sido cada vez mais rejeitada e o imaginário repudiado. Nesse sentido, o conto de Lewis é fundamental para expandir a consciência e ampliar a relação do indivíduo com o mundo.

C.S. Lewis morreu em Oxford, Inglaterra, no dia 22 de novembro de 1963.

            C.S. Lewis e Fiódor Dostoiévski: Cartas Imaginárias

Lembra do que disse Paulino no início do texto? A minha ousadia foi fruto do que imaginei. Acredito que foi o livro de Peter Kreeft: Sócrates e Jesus, o debate (Ed. Vida, 2006) que me sugeriu a possibilidade de um diálogo imaginário entre C.S. Lewis e Fiódor Dostoiévski. Sendo assim, um pouco relutante, convencido pela criatividade do mago catedrático de Boston College, aceitei participar dessa louca aventura, ainda que outros poderiam executá-la muito melhor do eu. E foi assim, no prazeroso exercício da fantasia e imaginação que me peguei pensando como seria se Lewis e Dostoiévski fossem contemporâneos e se tornassem amigos. Fantasiei trocas de ideias, aconselhamentos; encorajamentos. Imaginei C.S. Lewis e Fiódor Dostoiévski vivendo na mesma época. Na realidade, quando Lewis nasceu, em 1898, Dostoiévski já havia falecido há 17 anos atrás, ou seja, em nenhum momento se encontraram e/ou trocaram correspondências. Mas a ideia foi crescendo e o projeto germinado no coração e como “o coração tem razões que a própria razão desconhece” (Pascal) resolvi levar essa ideia adiante, e “uma vez que tolos e filósofos se aventuram em terrenos onde anjos temeriam pôr os pés” (Kreeft, 2006, 10), assim como o professor Kreeft imaginou e escreveu essa conversa “celestial” entre Sócrates e alguns discípulos confusos de Cristo na Escola de Teologia “Havalarde” em Camp Rich, eu imaginei e escrevi essa conversa “imaginária” por meio de correspondências entre C.S. Lewis e Fiódor Dostoiévski. De fato, Lewis e Dostoiévski viveram em países e épocas diferentes, em circunstâncias informativas distintas, tanto das categorias sociais, econômicas, culturais e materiais cujos fatores de certo modo influenciaram diretamente a forma literária e a sua evolução. Por exemplo, o século XIX foi um período considerado a idade do Ouro da literatura russa com a presença marcante de grandes escritores tais como Aleksandr Segeievitch Puchkin, Ivan Yrievich Krilov, Lev Tolstói dentre outros. Assim como também houveram períodos de alternações vividos principalmente em momentos de crises tantos por Lewis como Dostoiévski que foram condições determinante que mudou todo o curso da vida, da arte, e da espiritualidade de ambos escritores.

Assim sendo, as cartas imaginárias entre C.S. Lewis e Fiódor Dostoiévski é um artigo puramente imaginativo, cujo empreendimento foi favorecido pela ficção e pelo simples desvelo por contar uma história, à semelhança de Kreeft, ou seja, um episódio inventivo entre dois notáveis escritores da literatura universal sem com isso pretender ser original ou academicista. Isto quer dizer que não são cartas escritas em estilo literário, tampouco argumento teórico-crítico ou objeto de interpretação de algum de seus escritos, ainda que tenha lançado mão de referências biográficas para criar o cenário e o enredo dessa possibilidade pitoresca. Enfim, as cartas imaginárias entre Lewis e Dostoiévski é um projeto de alguém que simplesmente gosta de seus livros e usou um pouco da imaginação para interagir com essa possibilidade inventiva.

Cabe destacar também que Lewis e Dostoiévski não gostavam de escrever cartas, entretanto, Lewis “acreditava que empregar tempo para aconselhar e encorajar outro cristão era um modo de oferecer os talentos a Deus e ao mesmo tempo reconhecer a insignificância desses talentos perante o Senhor, além de ser um trabalho do Espírito Santo tão importante quanto o de escrever livros” (Kilby, 2006, p; 8). Dostoiévski, por outro lado, escreveu vasta correspondência. De acordo com Frizero (2009, p. 6.) “Na obra completa do autor, publicada em 1996 pela editora Hayka […], de São Petersburgo, o décimo quinto volume, dedicado às cartas escritas pelo autor, reúne duzentos e quarenta e sete itens do período entre 1834 e 1881, sem com isso esgotar toda a correspondência já catalogada. ” Para Frizero as cartas de Dostoiévski “servem de um precioso guia”.

Por conseguinte, gostaria de fazer duas citações importantes para a compreensão de Cartas Imaginárias: De acordo com McGrath, C.S. Lewis enfatizava na década de 1930 que “[…] o que é importante em relação aos autores são os textos que produzem. O que deve ser considerado é o que os escritos dizem por si sós. O autor em si não deveria constituir um “espetáculo”; ele é a “lente” por meio do qual nós, como leitores, vemos a nós mesmos, o mundo e a grande realidade à qual pertencemos” (2013, p.17,18). E Dostoiévski escrevendo uma carta a Nikolaievitch Strakhov em 26 de fevereiro de 1869 e falando sobre o seu livro “O Idiota” disse: “Em meu livro, há muitos excessos, muito que poderia ter sido aprofundado, muitas falhas de minha parte; mas muito nele é, também, extremamente bom. Não estou defendendo o romance, mas a ideia” (grifo meu) (2009, p. 157). Com essas duas citações o que quero dizer é que acima da história pessoal desses notáveis escritores o que realmente precisamos ficar atentos é com as ideias, e tal como McGrath, examinar o que eles dizem por meio de seus textos e avaliar a sua importância.

Meus agradecimentos a professora Gabriele Greggersen, sempre muito atenciosa com suas dicas, sugestões e incentivo.

 

 

Carta ao Leitor em ocasião à publicação brasileira de:

C.S. Lewis e Fiódor Dostoiévski: Cartas

 

São Paulo, Brasil

 

Prezado leitor,

Acabei de terminar a tradução das últimas cópias datilografadas de correspondências entre C.S. Lewis e Fiódor Dostoiévski. Quis fazer isso para incluí-las nos ensaios que serão apresentados no Simpósio Internacional O Marco Histórico Literário de C.S. Lewis e Fiódor Dostoiévski: Uma Porta Aberta para o Homem do Subsolo. Ao todo, foram oito cartas enviadas por Anna Ivanov (uma colega que conheci no Museu Pushikin em Moscou). Ivanov é tradutora e pesquisadora do Centro de Estudos Dostoiévski e secretária-chefe do Museu de Artes e Literatura Russa Mikhailovich Dostoiévski em São Peterburgo e oito cartas enviadas por Helena Sparsit. Helena é estudante de Teoria Literária e secretária assistente do C.S. Lewis Instituto Literário em Carfax, Oxford. As cartas originais estão no M.A.L.R.M.D em São Petersburgo e na C.S.L.I.L em Carfax. A publicação e tradução destas cartas no Brasil, ora sem fins lucrativos, foram cordialmente autorizadas pelos diretores, sr. Mikhail Tikhorov [M.A.L.R.M.D] e sr. Nathaniel Cornélius [C.S.L.I.L]. Segundo Tikhorov as cartas de Dostoiévski pertenciam ao espólio da sra. Anna Grigórievna, esposa de Dostoiévski, e estavam no Museu de Identidade Literária Russa em Moscou. Posteriormente foram doadas ao Museu de Artes e Literatura Russa Mikhailovich Dostoiévski. As cartas de Lewis pertencem aos responsáveis pelo espólio do escritor. Não se sabe ao certo a quantidade de cartas trocadas entre Lewis e Dostoiévski ao longo dos anos. Conforme Tikhorov, o Museu de Identidade Literária Russa cedeu ao todo 102 cartas originais ao M.A.L.R.M.D, entretanto, não se sabe da existência de mais cartas entre Dostoiévski e Lewis. Recebi autorização para publicar 8 correspondências. No C.S. Lewis Instituto Literário há 87 manuscritos originais catalogados. Recebi autorização para publicar 8 cartas. Um grupo de editores estão reunidos para verificar a possibilidade de publicá-las em forma de livro, porém, a data da publicação e a editora não nos foi informado. Sem dúvida a publicação de um livro de correspondências entre C.S. Lewis e Dostoiévski terá uma considerável repercussão e será um grande deleite entre seus leitores.

As cartas que ora apresento serão distribuídas e publicadas de acordo com o roteiro que me foi entregue. Todas as cartas que eu recebi serão aqui publicadas, isto é, dezesseis cartas. O leitor constatará que há cartas em que estão subtraídos alguns trechos [cabe ressaltar que a tradução das cartas não foi dos manuscritos originais, mas de cópias datilografadas] que nos foram enviadas com os respectivos trechos subtraídos; em algumas cartas o texto é iniciado com a prédica em andamento, ou seja, sem a introdução da carta como de costume [local, saudação, etc.]. Nota-se, entretanto, que estes fatos não alteram a compreensão do teor dos textos.  Destarte, o leitor verificará que ambos os autores evitaram os artifícios literários e priorizaram a informalidade.

 

 

Atenciosamente,

 

Eli Chistyakova

 

 

 

 

 

P.S.:

M.A.L.R.M.D: Museu de Artes e Literatura Russa Mikhailovich Dostoiévski

C.S.L.I.L: C.S. Lewis Instituto Literário

M.I.L.R: Museu de Identidade Literária Russa

 

 

 

 

 

 

FIÓDOR DOSTOIÉVSKI

 

 

PRIMEIRA CARTA

 

Petersburgo

 

 

Saudações, meu querido amigo Lewis!

Agora são 2:30 da madrugada. Deveria estar dormindo, mas minha cabeça não para nem por um minuto. A verdade é que eu queria escrever esta carta faz tempo; estive muito ocupado com “Gente Pobre”; queria terminar em agosto, porém, o livro só foi publicado agora [15 de janeiro]. Confesso que estou ainda um pouco perplexo com toda a repercussão do livro. Tenho a impressão de que toda a Petersburgo só fala de “Gente Pobre”. Até visita às 4h da madrugada eu recebi por causa do romance! Foram dois amigos escritores. Eles estavam tão entusiasmados com meu primeiro romance que não esperaram o nascer do sol para manifestar o contento pela obra. É claro que recebi críticas também. No “Ilustrações” o meu livro foi escarnecido por um autor anônimo, e na revista “Abelha do Norte” um resenhista não poupou a sua desaprovação. Soube que alguns leitores não compreenderam o meu estilo além de achar que o livro é muito comprido.

Bem, o sono está me convidando novamente ao repouso.

 

Até breve,

Fiódor Dostoiévski

 

 

SEGUNDA CARTA

 

Petersburgo

 

 

            Querido Lewis,

Já comecei a trabalhar em o “Duplo”. As ideias estão surgindo como uma avalanche. Algumas pessoas que leram o manuscrito de o “Duplo “consideraram uma bela obra. Veja Lewis, particularmente penso que “O Duplo” é melhor que “Gente Pobre”. Pressuponho que você também considerará. E honestamente, creio que será uma obra-prima. Gostaria muito que você pudesse lê-lo também antes da sua publicação. Sinceramente valorizo muito a sua opinião. Suas análises são muito bem-vindas e agradáveis.

¹[…]

Estive com a saúde abalada e mesmo assim não me dei o luxo de descansar. Além do prazo muito curto para entregar “Gente Pobre” também estive sem dinheiro ultimamente e isso me preocupou um pouco. No início pensei em publicá-lo em um periódico – “Anais da Pátria”. O jornal tem uma tiragem significativa com cerca de cem mil leitores. Com tanta gente assim eu não precisaria fazer propaganda do livro, por outro lado teria dinheiro suficiente para publicá-lo no futuro. No entanto suponho que não será publicado no Anais, mas no “Almanaque de Petersburgo”.

²[…].

Lewis, por favor, conte-me as novidades! Levei comigo The Screwtape Letters quando viajei para Semipalatinsk em março. Não tenho tempo para considerações agora. Perdoe-me por isso amigo. Mas quero adiantar que estou imensamente satisfeito com o rigor literário e a elaboração inventiva de Screwtape. Inegavelmente uma obra-prima. Única e genial.

Até breve!

 

Fiódor Dostoiévski

 

 

P.S.: Você me perguntou na última carta sobre o livro “As suíças raspadas”. É verdade que não toquei mais no assunto. Na verdade, eu abandonei o volume inteiro porque o livro não passava de uma recapitulação de ocorrências longínquas.

 

¹[…] Excerto subtraído.

 

²[…] Excerto subtraído.

 

 

TERCEIRA CARTA

 

Petersburgo

 

 

Querido amigo C.S. Lewis.

Saudações!

Estive hoje com Ivan Turguéniev; um jovem poeta, muito talentoso. Ele esteve recentemente na Inglaterra e trouxe consigo um exemplar de “O Grande Abismo”. Enquanto caminhávamos à tarde ele confessou que o seu romance é uma obra surpreendente e que lhe causou muita comoção. Para Turguéniev se fizesse impressão de O Grande Abismo em solo russo sua ficção daria ao nosso povo a possibilidade de refletir algumas questões importantes no campo da religião e da filosofia sob uma ótica teológica inovadora.

[…]

Lewis, na última carta que escreveu você disse sobre a importância da intimidade com Cristo – da perfeita paz quando O buscamos em oração. Sim, amigo. O cenáculo torna-se um lugar bendito. Um lugar santo onde retiro as sandálias e escuto a voz mansa e suave do Perfeito Salvador. Tal é meu amor por Ele que logo quando me assento me reclino em Seu peito para ouvir Sua doce voz a me consolar. Sua correspondência despertou-me o amor enciumado que tenho por Cristo e me fez lembrar o que havia escrito para à senhora Natalia Dmitrievna Fonvisin em meados de janeiro e fevereiro que “[…] se alguém pudesse me provar que Cristo está fora da verdade, e se a verdade realmente excluísse o Cristo, eu preferiria estar com o Cristo e não com a verdade”. Sim Lewis! Me desligo daquela verdade subjetiva (a falsa verdade) quando a razão se aparta da fé. Uma vez que o homem concebe “o que é” a verdade, mas é alheio a fé, ou quando a razão não é saciada pela fé, então a busca pela verdade caminha em outra direção e acaba por negar a própria realidade da Verdade: “O Deus Encarnado: Jesus, o Caminho, a Verdade e a Vida. O Senhor sobre todas as coisas. Não há mais ninguém a não ser Ele: Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. Assim, já não é mais “o que” é a verdade”. Mas “Quem” é a verdade. A Verdade é uma Pessoa! E Quem é? A isto eu respondo: Eis o Homem: O Cristo! O Filho de Deus encarnado! É Ele que é o “Quem” da verdade! Ele é o “Quem” de Deus!  Eis a Verdade: A Própria Verdade em pé, a nossa frente! O Cordeiro de Deus! Ah, Lewis, que grande é o motivo da nossa alegria, caro amigo: o presente da fé, o perdão gratuito e eterno dos nossos pecados pela fé em Jesus, o Cristo de Deus, a Verdade que nos torna filhos amados do Pai das Luzes.

A Ele a Honra, a Glória e o Louvor por tão imensa graça que com amor nos presenteou com o dom da fé na Verdade.

Preciso terminar agora.

PS: Estou enviado para você uma cópia de Gente Pobre. Minhas saudações a Joy.

 

 

  1. Dostoiévski

 

 

 

QUARTA CARTA

 

Petersburgo

 

 

Querido amigo Lewis,

Como fico feliz receber suas cartas. Estive ocupado procurando um apartamento, quero mudar ainda antes do outono chegar. Passei por uns momentos difíceis; estive sem dinheiro, além disso peguei uma forte gripe quando estive em Moscou e com isso uma tosse seca que durou por mais de uma semana. Fui até Moscou para ver pessoalmente como está a ilustração de “O Duplo”.

Quando estive em Moscou conheci o frade Aliócha Chistyakova Tsípkin. Homem alto. Esguio. Profundo no trato e bastante atencioso. Tsípkin foi um notável médico-pesquisador com artigos científicos publicados no Russian Open Medical Journal e no periódico Science (AAAS). Também frequentou por muitos anos o círculo literário de Beketov e as reuniões no salão literário dos Chtakenschneider.  Disse-me que num dado momento da sua vida perdera aquela fé cristã que um dia tivera na infância; foi sobrepujada por um ceticismo racionalista; e desviando-se da verdade tornou-se um ateu convicto e militante. Passou a acreditar na supremacia tecnológica e que a felicidade podia ser obtida sem a mediação do Cristo. E sob essa falsa ponderação erigiu um altar a um falso deus herético criado pelo determinismo moderno científico, que além de torná-lo cego distorceu virtualmente a verdadeira compreensão da realidade e o sentido da vida, aprisionando-o nas masmorras do despotismo e do autoritarismo. Afinal de contas mal sabia ele que sem Cristo o que resta é tirania.

Entretanto, um certo dia Tsípkin leu a célebre passagem do Evangelho de São João 8:32: (…) e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Nas trevas brilhou a luz que clareou à negrura existencial de Tsípkin e finalmente compreendeu o delírio de viver sem Deus. Encontrou em Jesus Cristo a liberdade que tanto almejava; alcançou a verdade que o libertou da tirania; que o resgatou do poder do pecado. Encontrou Jesus, o Caminho de volta para Deus. Uniu-se a Verdade e a Vida. Disse-me que agora restaurado a fé cristã e procurando conhecer mais a respeito do Reino foi profundamente tocado pelas histórias de vida de São Franscico de Assis. Passou a ler com grande fervor as obras de Tomás de Celano e Giovanni da Fidanza, assim como outros artigos e documentos de importantes eruditos sobre o relato do santo relutante. Profundamente cativado pelos relatos da vida do playboy simpático que se transformou em modelo de servidor do mundo – o “herói humanitário; “o cavaleiro do amor”- cuja vida foi marcada pela virtude e absoluta convicção no Deus de amor, tal como São Francisco, Aliócha se despiu de todo prestígio, influência e ônus que sua carreira proporcionava; decidiu que dali em diante serviria aos humilhados e ofendidos pela polida sociedade russa onde quer que Deus o enviasse. O ilustre médico-pesquisador tornou-se em um penitente médico frade franciscano na aldeia Khleborov na Região Krasnodarskiy Kray. Aliócha, do mesmo modo que Francisco, decidiu seguir o Cristo. Considerou ter achado o tesouro escondido da verdadeira sabedoria e ciência no Cristo nu, pobre e crucificado e apegou-se com aferro a loucura da cruz: a verdadeira porção que preencheu definitivamente o vazio do seu coração. Disse-me que muitos o chamam de louco. Mas, veja Lewis, não pensaram assim de Francesco Bernadone?

 

Vejam aquele moçoilo! É o jovem João,

Filho de Pietro Bernardone, Filho de Pica.

Nu, foi repudiado pelo pai em praça pública.

Ali devolveu-lhes as roupas e disse que Deus seria o seu Pai.

E agora o “francezinho” não dá por aí como um pedinte,

entre bandos e mendigos, entre os Pobres e Leprosos,

mendigando o Pão, restaurando Igrejas em Ruínas,

anunciando o Evangelho do Reino, chamando a morte de Irmã,

conversando com o Sol, tagarelando com as Águas,

proseando com as Pedras, papeando com as Árvores, pregando para os Pássaros!

Em outras bandas Já é chamado de o ‘aloucado de Assis’.

 

Veja Lewis que particularmente não considero Tsípkin insano, como se houvesse perdido a razão. Sua loucura não tem nada a ver com tolice ou alguma estupidez. Ouso dizer que Tsípkin experimentou a liberdade incompreendida pelos homens. Não se trata de uma aparência de fé, mas da permanência na Palavra que possibilitou um conhecimento mais pleno da verdade e consequentemente a sua libertação por meio dela. A liberdade de si (prudência e autocontrole); a liberdade dos homens (o temor do homem ou o medo das pessoas); a liberdade de consciência e a consciência de liberdade em Deus (“Todas as coisas me são permitidas, mas nem todas são saudáveis. Tudo me é lícito realizar, mas eu não permitirei que nada me domine” (1 Co 6:12)). Tsípkin experimentou a liberdade do determinismo-racionalista, ateísta e profana. Quero dizer, Tsípkin encontrou a liberdade em Deus tal qual seu precedente de Assis. Na verdade, Tsípkin, à semelhança de Francisco, percebeu que os espólios do mundo é terreno, temporal e perecível e nunca, de fato, poderia preencher o vazio que havia em seu coração: um vazio, Lewis, que é do tamanho de Deus e que somente Deus pode preencher. Se Francisco e Tsípkin foram loucos? Se julgam que isso é loucura, com toda a certeza! Loucos para o mundo, sábios para Deus! Ignorando os insultos e ultrajes esses dois homens consideraram o valor perene da alegria sobrenatural que advém do despojo de si e dos homens, a magnitude da oração e do silêncio velada na deslumbrante presença do Deus Encarnado.

 

Até breve,

 

Dostoiévski

 

QUINTA CARTA

 

Petersburgo

 

Querido amigo Lewis,

Bom dia!

Agradeço o poema.

[…]

Estive com Apollon Nikolaievtch em meados de outubro. Falou-me com entusiasmo da viagem para a Inglaterra e das reuniões que fora convidado no The Eagle and Child e em seus aposentos no Magdalen. Chamou-lhe bastante a atenção a magnitude do encontro dos Inklings e a relevância do caráter literário das reuniões das terças-feiras. Lembrou com grande deleite de uma terça quando esteve no encontro e ouviu com muito regozijo as leituras de obras que estavam em produção, das críticas e as motivações do grupo. Disse-me repetidas vezes que lhe causou bastante impressão uma história que o professor Tolkien está escrevendo “O Senhor dos Anéis”; disse-me que além de ser uma pessoa muito reservada o professor Tolkien é muito gentil e que em um desses encontros foi lhe dado a grata oportunidade para ler o poema “A Catedral de Klermontski”.

Alegro-me em dizer que estou com um projeto editorial que será intitulado O Diário de um Escritor. Tenho em minha mente a ideia de publicar artigos, ensaios, contos e crônicas sobre meus projetos literários, reflexões sobre assuntos importantes da Rússia como temas relacionados a cultura e enunciações sociopolíticas. Em O Diário eu quero relatar minhas impressões vividas, ouvidas e experimentadas como escritor russo. As autoridades já me deram a permissão para publicá-lo. Vou trabalhar com a noção entre a correspondência desses assuntos aos fatos da realidade tanto da classe instruída como do povo. Na verdade Lewis o que eu tenho em mente com O Diário é um grande romance pela qual vou abordar por meio de um raciocínio teológico e cristocêntrico a perda da fé em Cristo e em Deus e a extinção dos valores morais cristãos entre o povo russo, sobretudo entre a classe instruída. Francamente, o romance vai exigir muito estudo para desenvolvê-lo. Por enquanto tenho algumas ideias em mente: o cenário será numa pequena cidade da Rússia. Ali mora Fiódor Pávlovitch Karamazov, um famoso fazendeiro viúvo e inescrupuloso que convive em conflito com seus quatro filhos: Aliócha (Alieksiéi), filho de seu segundo casamento, o mais moço dos três que vive num mosteiro, Ivan também filho do segundo casamento, ateu e intelectual, o pretensioso Mítia (Dimítri), jovem militar e de forte temperamento, o mais velho dos três, e Smierdiákov que foi criado pela família Karamazov, um sujeito reservado e irônico. Também tenho a ideia de um personagem ancião que será muito importante para o conto: seu nome é Zózima, ele será um líder religioso, mentor de Aliócha, um homem muito respeitado não somente no mosteiro, mas também fora dele.

Bem, por enquanto é isso! Aliás, já falei muito sobre mim. Para você e Joy a minha mais sincera estima.

 

Um abraço,

  1. Dostoiévski

 

 

 

 

SEXTA CARTA

 

Petersburgo

 

Nota da Tradutora

A carta publicada abaixo foi enviada à redação de O Cidadão. É muito provável que o autor seja outro sujeito, não àquele “sujeito” que enviou para a redação de O Cidadão vinte e oito cartas em apenas dois meses, uma delas publicada no Diário por Dostoiévski com o título de Meia carta de “um sujeito”. Tudo o que se sabe é que não há outras cartas desse outro sujeito e que a carta publicada abaixo não foi veiculada no  Diário. Dostoiévski enviou uma copia desta missiva para C.S. Lewis. Cabe destacar que a pedido do sr. Mikhail Tikhorov optou-se por cortar a missiva com uma tesoura e não publicá-la na íntegra, dando-lhe o título de Meia carta de “outro sujeito”. A epístola está assinada por “outro observador silencioso”. Quero adverti-los que tratasse do pseudônimo de “outro sujeito”.

 

Anna Ivanov

 

Tradutora e Pesquisadora do Centro de Estudos Dostoiévski

Secretária Chefe do Museu de Artes e Literatura Russa Dostoiévski

 

 

 

 

[Meia carta de “outro sujeito”]

 

[…] e não me admiro que boa parte deles seja os mesmos que se apoiam no falacioso axioma da visão científico-racionalista aliada a concepções ateias e ideias niilistas, fruto da defluência europeia e de uma fé filosófica arruinada e apinhada de falsas ideologias, ou seja, amálgama de influências do iluminismo e do humanismo progressista saturado de racionalismo. E veja que dentre esses há também aqueles que preconizam as ideias tradicionais da religião, da imortalidade, a bondade de Deus e Sua preeminência, entretanto, no bojo de sua doutrina existe a tensão de considerar Deus apenas como uma ideia do homem. Partindo de um raciocínio dúbio quer atingir um corolário ateu e niilista [um modo rebuscado de ateísmo sagaz, isto é, uma arapuca para os desacautelados]. Observe que esses “filósofos” assentem ser o ser humano uma mera parte de um grande mecanismo limitado pelo conhecimento científico. Eles se ancoram única e exclusivamente na razão. E quão passivamente grande parte da população se submete a esses “filósofos”! Para esses distintos “intelectuais” o ser humano é apenas um objeto e nada mais. Já dizia sabiamente Sperandio que “ciência e técnica que não levam a Deus é a mesma coisa que lixo. Nada valem. Deus está em tudo e em todos, e o homem o elimina para colocar-se no seu lugar. E quando se percebe, está no vazio de si mesmo”.

E veja que desmedida é a estultícia da Nova Sociedade: querem destruir os Estados nacionais e suas raízes cristãs, ou seja, demolição da Igreja e da sociedade! Querem que o Cristo vá embora e que não volte nunca mais! Oh, que grande absurdo! Não há nada mais adorável, profundo, compassivo, racional, viril e perfeito que o Salvador; digo a mim mesmo, com amor enciumado, que não só não há ninguém como Ele, mas que não poderia haver ninguém. Jesus Cristo não é meramente uma ideia insigne ou uma sapiência teórica. Jesus é o próprio Homem; A pessoa mais bela que pode haver. Totalmente divino e perfeitamente humano. Deus Verbo. Deus-homem. A Palavra de Deus. O logos. A revelação de Deus. A Verdade de Deus. O milagre absoluto. O Filho de Deus. O princípio definitivo para o conhecimento humano. Ponto. É lógico que eles repudiam essa ideia. Na verdade, eles não veem o grande lapso que é repudiar o Cristo. O caos, a desordem, a balbúrdia que advém dessa Nova Sociedade apartada de Cristo, desprovida de absoluto moral e anticristã em todos os seus princípios. Não percebem que a não ser que o homem se volte para o seu Criador nunca poderá conhecer a si mesmo. Eis o fiasco de todo e qualquer substituto laico sob forma de ideias “iluminados” em detrimento a elevadíssima proposta do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, loucura de Deus, loucura que salva. Eu fico me perguntando o que o que conjecturar de um corpo social que zombam do Santo Evangelho, da Igreja, da Cruz, das Sagradas Escrituras e da Família? O resultado é que não demorará muito para que os homens se tornem frouxos e aceitem com a maior naturalidade possível leis que vão contra eles mesmos. Leis totalmente nefastas e desajuizadas! Ora, quais as consequências que podemos esperar de uma sociedade que profana o projeto mais belo da criação: a concepção? Que considera o nascituro um mero objeto que pode ser descartado em saco de lixo? Não lembram as belas palavras de Santa Teresa de Calcutá? “Mas eu sinto que o maior destruidor da paz hoje é o aborto, porque Jesus disse: ‘Qualquer um que recebe uma criança em meu nome, me recebe”! Que promovem a ideia de autodestruição de seus anciões doentes sob falsos pretextos escusos? Ai! Ai! Vaidades das vaidades! Sob a tutela de sua própria vontade e dos caprichos de sua consciência autônoma pensam que podem ocupar o trono de Deus e edificar uma cidade e uma torre que os identifiquem como homens poderosos e autossuficientes – querem transformar o mundo por meio da força humana – e mergulhados no pecado da autossuficiência e orgulho anseiam estabelecer uma Nova Ordem Mundial, criar uma sociedade paradisíaca sem a presença de Deus ou de Jesus Cristo. E querem fazê-lo promovendo a autodestruição do outro, o assassinato covarde com despotismo e a extinção da descendência! E ainda justificam suas babáreis com discussões especulativas. Belo presente de grego!

“Quando os homens desprezam a lei e a graça de Deus e exaltam a si mesmos, a catástrofe é inevitável”.

 

 outro observador silencioso

 

 

SÉTIMA CARTA

 

Petersburgo

 

 

Prezado Lewis,

Como foi sua visita a Gemäldegalerie? Lindo cartão postal. Muito obrigado. Lembro-me de quando residia em Dresden eu ia até Gemäldegalerie. Ficava encantado com a Madona Sistina, de Rafael. A beleza daquela figura me detinha. Retinha o meu olhar. Parece-me a mais linda de todas as pinturas. Confesso que foi amor à primeira vista. Fiquei completamente encantado com toda aquela beleza; fascinado com a experiência estética que tal figura me proporcionava, a cada visita que fazia aquele lugar. É uma encantadora representação da Mãe de Nosso Senhor. Cousa que os italianos sabem fazer muito bem. A muito tempo atrás Ana me presenteou com uma figura de Madona Sistina. Emoldurou a pintura e agora está aqui em meu quarto, em cima do leito. Sou muito grato a Ana por isso. A mera beleza desta pintura me causa uma satisfação singela.

[…]

Sabe Lewis, há alguns críticos das minhas obras que insistem em situar-me na direção do ateísmo. Nada mais absurdo! Esses tais insistem que a expressão positiva do bem requer muito esforço. Pensam que a “arte positiva” é única cabível para a fé cristã. Ora, mas nem a arte e nem o cristianismo se acomoda nessa concepção! O que eles não compreendem é que penetrando tão profundamente no subterrâneo busco assertos, procuro a luz na outra extremidade, quero dizer, a porta aberta, de onde vêm a claridade que desobscurece a alma encarcerada. Afinal de contas, não é como menino que creio em Cristo e o confesso. Foi através do crisol da dúvida que meu hosana se fez.

 

Seu amigo,

Fiódor M. Dostoiévski

 

 

OITÁVA CARTA

 

Petersburgo

 

Prezado C.S. Lewis,

Quando fui suboficial em Semipalatinsk, a muitos anos atrás, um colega trouxe-me um pequeno de pedaço de papel pardo e nele havia um poema escrito à mão (estava amassado) de A mulher de Lot, de Anna Akmátova. Confesso que fiquei tão comovido com aquelas linhas que por muitos dias guardava aquele pequeno fragmento no bolso de minha calça. E mesmo seco e amassado (esqueci de tirar do bolso quando lavei a calça!), e com a tinta borrada eu conseguia ler o poema e evocar algumas lembranças remotas. Transcrevi o poema nesta carta.

A mulher de Lot

[Anna Akhmátova]

 

A mulher de Lot, que o seguia, olhou para trás            

E transformou-se numa estátua de sal. (Gênesis)

 

E o homem justo seguiu o enviado de Deus,

Alto e brilhante, pelas negras montanhas.

Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:

“Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar

 

as rubras torres de tua Sodoma natal,

a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,

as janelas vazias da casa elevada

onde destes filhos ao homem bem-amado”

 

Ela olhou e – paralisada pela dor mortal -,

Seus olhos nada mais puderam ver.

E converteu-se o corpo em transparente sal

e os ágeis pés no chão se enraizaram.

 

Quem há de chorar por essa mulher?

Não é insignificante demais para que a lamentem?

E, no entanto, meu coração nunca esquecera

quem deu a própria vida por um único olhar.

 

 

Seu amigo,

Fiódor Dostoiévski

 

 

 

 

*

CLIVE STAPLES LEWIS

 

PRIMEIRA CARTA

 

Magdalen College

Oxford

 

Prezado amigo Dostoiévski,

Agradeço sua carta. É animador saber que está bem e sobre a repercussão de “Gente Pobre”. Sem dúvida não somente São Petersburgo falará sobre está obra, mas toda Rússia. Sinceramente acredito que o romance será um marco histórico na comunidade literária. Fico feliz em saber que além de meus trabalhos você aprecia minhas observações também.

Lamento pela sua saúde Fíodor. Também lamento não dispor de tempo hoje para estender um pouco mais esta carta. Teria um imenso prazer em falar sobre meus planos literários e as impressões sobre algumas obras cujos autores você também aprecia [“Ana Karênina, de Tostói e “O Rei Lear” de Shakespeare]. Ah, como é vantajoso essa troca de ideias uma vez que o romance tem esse encanto de falar a cada leitor de um modo pessoal. Entretanto, precisaria de mais tempo; quem sabe na próxima carta eu possa fazê-lo, pelo menos um pouco?

Agradeço sua generosidade pelos livros que enviou. Joy pediu para agradecer os sonetos de Victor Hugo!

Tenha certeza que orarei por você sempre.

 

PS.: Junto com esta carta estou enviando para você as primeiras páginas – na verdade um fragmento manuscrito de Fumaça da Montanha. Um livro que Joy começou a escrever.

Nossas lembranças.

 

 

Atenciosamente,

JACK LEWIS

 

 

 

SEGUNDA CARTA

 

Magdalen College

Oxford

 

Prezado amigo Dostoiévski.

Como é animador saber que em qualquer lugar e a qualquer hora podemos nos achegar a Deus em oração, conversar com o Deus, louvá-lo e adorá-lo.

Confesso que enquanto lia a sua carta ao mesmo tempo eu refletia sobre a graça. Não pude deixar de pensar sobre o que disse Guyon sobre experimentar Deus através da oração. Guyon dizia que Deus muito se agrada quando vê em seus filhos a pura e inocente confiança. Ah, graça abundante, prezado amigo! A possibilidade da intimidade com Jesus por meio da oração! Bendita intimidade! Lembro-me em uma de suas cartas que você disse algo sobre a necessidade de ter sede de fé “qual erva seca“ e sobre a “nostalgia da fé” e dos momentos de perfeita paz que Deus te dá quando algumas situações confrontam a sua fé. Creio amigo que o momento da oração é um desses momentos em que o Senhor vem nos preencher com a sua presença. Quando clamamos por fé a presença do Senhor alimenta a chama da nossa fé. O Senhor vem, retira os nossos fardos, nossos medos, nossas dúvidas. Bendito o Deus de toda a consolação que nos socorre em nossa insuficiência e incapacidade de se expressar por meio da oração.  A nostalgia da fé é preenchida pela presença Bendita do Deus Vivo. Edward Bounds dizia que “A fé cresce ao ler e meditar na Palavra de Deus. Acima de tudo, a fé se desenvolve na atmosfera da oração”. A oração é como o orvalho que rega a vegetação seca da nossa alma. Orar é um cumprir um chamado divino. Lembre-se amigo: “Nossas orações são orações dEle: essa é a mais pura verdade. Ele fala consigo por meio de nós”. Nunca se esqueça disso. Como disse Guyon “Porque somos chamados para a salvação, somos chamados a orar”.  Bendita obra consumada na Cruz no Calvário.

Desejo-lhe tudo de bom,

 

C.S. Lewis

 

 

TERCEIRA CARTA

 

The Kilns

Headington Quarry

Oxford

 

 

No Cenáculo

 

Jesus.

Oh doce Nome!

Recanto inviolável,

Égide inabalável,

Broquel imaculado,

Torre Forte,

onde descansa a minha alma,

Em Jesus,

Deus poderoso,

Bom,

E Eterno.

 

Oh, que doce companhia;

Arrimado em teu peito,

poder te escutar!

O Teu favor me concede a graça

de poder aprender de Ti.

A Tua companhia

é o melhor lugar:

para aprender;

para observar;

para te ouvir;

 

Em oração,

o meu coração não te é oculto.

Tu sabes tudo!

Nada te é oculto,

Tudo vê!

 

Tu és

A minha Rocha Firme,

A minha Salvação.

Ancorado em Teu coração,

Lugar Secreto,

Refúgio Seguro,

Ainda que as altas ondas bravias

Tentem me jogar ao mar;

E me fazer desistir;

Mesmo açoitado pelos ventos,

Sei que seguro estou;

Porque o Senhor é:

O meu Refúgio Seguro,

A minha Fortaleza,

A minha Segurança,

O meu Abrigo.

 

Jesus.

Oh doce Nome!

Recanto inviolável,

Égide inabalável,

Broquel imaculado,

A minha Torre Forte,

onde descansa a minha alma,

Em Jesus,

Deus Todo-Poderoso,

Bom,

E Eterno.

 

Oh, Bendito Senhor!

Ah, Bendita intimidade!

Oh, Bendito Amigo!

 

Para sempre,

eu quero estar,

em intimidade,

Contigo

Jesus.

 

 

Atenciosamente,

JACK LEWIS

 

 

QUARTA CARTA

 

Magdalen College

Oxford

 

Prezado Dostoiévski,

Acabei de receber sua carta e o recorte que me enviou de O Cidadão, nº 10. Verdade seja dita ficamos felizes com a visita de Apollon Nikolaievtch. Aliás, quando Apollon esteve conosco estava muito frio. Era primavera, a mais fria que já houve na Inglaterra, entretanto da mesma forma que está acostumado com o inverno Russo Nikolaievtch adaptou-se perfeitamente ao frio da Inglaterra. Quanto aos Inklings aprecio muito aqueles encontros. Seja onde for sinto-me em casa quando estou reunido com aquele grupo de amigos.

Outrossim, como é animador saber sobre seus novos projetos literários. Achei formidável a ideia de O Diário e estou particularmente impressionado com a sua proposta para o grande romance. Fiquei muito satisfeito com suas ideias.  Tenho apreciado muito seus trabalhos. Tenho certeza de que além de substancioso será uma obra com valor perene, tanto para a literatura russa quanto para a literatura universal. Você procura de forma apropriada encarar de frente o problema da ausência da fé em Deus, do abandono da fé em Cristo e da decadência moral do povo Russo. [Pense na ideia de relação entre a vida neste mundo, à luz da eternidade, e o quanto essa ideia precisamente afeta muito diretamente o estilo de vida aqui]. Aliás, não é por meio do romance, especificamente, que apelamos à razão e à imaginação do leitor e o convidamos a refletir sobre a realidade? E por falar nisso caro amigo, para que possamos apreciar Jesus Cristo mais plenamente é necessário expandir a nossa visão e nosso alcance intelectual ao invés de aprisioná-lO em um cubículo teológico. No fim das contas as ideias são demarcadas e determinadas pela realidade, não o contrário.

[…]

O que posso dizer Fiódor é que o cristão pode sim ser um bom filósofo e lançar mão da filosofia como uma ferramenta eficaz para a construção de uma argumentação filosófica coerente e inteligível em defesa do cristianismo:  a boa filosofia deve existir. Se não por outra razão, porque a má filosofia precisa de resposta. Muitos cristãos, por não compreenderem a finalidade, utilidade e o valor prático da atitude filosófica tem rejeitado o estudo da Filosofia. Com o pensamento colonizado, indefesos e inconscientes dessa situação essas pessoas abrem mão de “viver uma vida que não é examinada”, e desse modo acabam se tornando alvos dos manipuladores das massas e fáceis vítimas daqueles interessados na alienação e mediocridade. Já dizia Pascal: “aquele que protesta contra a Filosofia é ele mesmo um filósofo”.

[…]

Penso, Fiódor, que aqui está a importância do Conto de Fadas. Reconheço o valor da razão. Ela é um instrumento de Deus, porém, ela tem seus limites. O que quero dizer é que a razão está submetida a regras e leis. Aliás, observe como o Deus Criador estabeleceu limites nas obras criadas: “Fixou as nuvens em cima e estabeleceu as fontes do abismo, quando determinou as fronteiras do mar para que as águas não ultrapassassem seu ornamento, quando assinalou as balizas dos alicerces” (Pv 8:28-30a). O agir instrumental têm colonizado os pensamentos e reduzindo-o ao formalismo lógico. Veja a personagem Lúcia do meu livro As Crônicas de Nárnia: o leão, a feiticeira e o guarda-roupa. É um bom exemplo do que eu quero dizer: quando seus quatro irmãos relataram ao professor Kirke o que havia se passado com Lúcia (sobre a sua visita a Terra Mágica de Nárnia) o professor respondeu:  – “Acham que ela está louca? – perguntou, calmamente, o professor. – Podem ficar descansados: basta olhar para ela, ouvi-la um instante para ver que não está louca”. Quando o professor foi questionado sobre a possibilidade de existir um outro mundo, sua resposta foi: “É muito provável – disse o professor, tirando os óculos para limpá-los. – Eu gostaria de saber o que estas crianças aprendem na escola! – Murmurou para si mesmo”. Não é fato, Dostoiévski, que o pensamento pragmático e instrumental quer provas? Afinal de contas, não foi o saber racional que arrancou do mito o desencantamento da realidade? Logo, o agir instrumental têm ocupado os pensamentos e reduzindo-o ao formalismo lógico e, sob o domínio da razão e da realidade, as relações passam a ser estabelecidas pela racionalidade. Ah! Na sala vazia, além do guarda-roupa, existe uma outra porta. Ela é concreta, não me diga que não é! Porém, ela guarda um mistério oculto; na verdade um outro mundo que nenhum filósofo ousou entrar. Lembra da mosca morta? Pois é, ficou lá, solitária! Um adito inexplorado! Para muitos apenas um mero inseto. Aliás, uma mosca morta não incomoda ninguém, não é? Mas ainda assim é uma mosca. Nosso conhecimento é tão débil que nenhum filósofo jamais pôde investigar perfeitamente a essência de uma mosca. (O Senhor, porém, dele se ri!)

 

C.S. Lewis

 

 

QUINTA CARTA

 

Magdalen College

Oxford

Prezado amigo Dostoiévski,

Agradeço a sua carta do dia 7. Que bom vocês estão bem. Joy está imensamente agradecida pelos selos postais russos que Anna enviou. Recebemos no dia 12 de outubro. Há um em especial, o selo de um samovar russo, que lhe despertou um saudosismo dos tempos de quando era criança. Disse-me que fez questão de enviar uma carta de agradecimento para vocês no mesmo dia que recebeu o presente. Joy recorda-se que na casa de seus pais havia um lindo samovar russo dourado e muito antigo; guarda com muita saudade quando reunidos preparavam o chá. Disse-me que seu pai ganhou de um escritor russo da província de Yaroslavkaya Oblast. Foram grandes amigos por toda a vida. Inclusive sua família aprendeu com os russos as regras do ritual tradicional russo, uma verdadeira cerimônia, diga-se de passagem, para a preparação do chá. Ah, como era gostoso, disse-me Joy, aquelas tardes quando toda a família se reuniam em volta do samovar; a mesa coberta com uma toalha de renda. Para as crianças eram uma verdadeira festa: todos aqueles doces, pães, bombons, cubos de açúcar!

Concordo Fiódor: a oração, o silêncio e a sintonia com a Palavra moldaram o homem de Assis. Francisco discernia todas as coisas. Superou a impotência moral de seu tempo com a “chave de ouro” que recebeu com o presente da fé: Jesus Cristo. E ali, abraçou a cruz, a santidade e a sensibilidade do amor perfeito. De modo nenhum ele era um alienado. Seu sonho fazia parte da sua vida. Seu sonho era nobre não uma fantasia idealista. A realidade era por demais desagradável e incômoda para contentar-se apenas com uma “adocicada compaixão filantrópica humanitária e idealista”, isto é, um filantropismo socializante, quero dizer, uma política da autopromoção. A igreja estava em ruínas! Essa era a verdade. A hipocrisia reinava soberana nas falsas “nobres” ideias da consciência moral religiosa.  “A Igreja ameaçava cair”! Mas Deus transforma o mal e bem; a tragédia em benção. Por mais escura que seja a noite, o sol sempre brilha pela manhã! É certo que o mal não foi de todo superado, mas na dor a porta da redenção foi aberta e com isso a experiência da liberdade do mal. A dádiva dos olhos da fé em meio as dificuldades. Francisco de Assis entendia que a dor de agora é parte da felicidade futura. Acreditava na fidelidade de Deus. Na Sua bondade e na Sua sabedoria infinita. Considerava que o Nosso Senhor sabe usar tudo para o bem daqueles que nEle esperam. Acreditava na Verdade. Acreditava no Evangelho acima de qualquer instituição ou organização. A nobreza do santo relutante é evidenciada pela sua fidelidade ao chamado de Deus. Enquanto orava em frente ao crucifixo ouviu uma voz que lhe dizia: Francisco, não vês que a minha igreja está em ruínas? Vai e reconstrói a minha igreja! Esse foi seu chamado. Essa era a sua missão! Em São Damião, lugar desgastado e de pedras caídas, Francisco sabia que o tesouro escondido, “A Palavra”, brilharia em meio ao caos com todo o fulgor celestial. Francisco sonhou o sonho de Deus e fez parte desse sonho: o de reerguer a Sua Igreja e fundamentado em Jesus Cristo e na Sua Palavra dedicou-se por inteiro ao serviço do Reino. Oro para que o Senhor reacenda em nós essa chama viva e transformadora que ardia no coração de São Francisco de Assis e que possamos vivenciar o amor de fato. Praticá-lo muito mais que apenas discursos platônicos acerca do amor. Eu mesmo sou devedor desse amor fraternal.

 

Atenciosamente,

C.S. Lewis

 

 

SEXTA CARTA

 

Magdalen College

Oxford

 

 

Prezado Dostoiévski,

Muito obrigado por sua carta. Demorei para escrever porque estive muito ocupado. Viagens, cartas e visitas. Aliás, caro amigo, em meio a tudo isso tenho exames em Cambrigde (Magdalen College) e cartas e mais cartas para responder.

Você me pergunta sobre a contribuição das vozes da cultura popular. Decerto, Fiódor, de certa forma as vozes que ecoam na cultura popular ajustam-se a uma trama narrativa que se cruzam: da escrita numa folha de papel em branco, um pensamento, uma ideia, uma doce melodia que toca a alma, ao encontro entre a rima e o ritmo, assim o artista vai criando mundos que toca o mundo real. Aqui temos a oportunidade de refletir e considerar o clamor dessas vozes representados tanto na literatura quanto na música, por exemplo. Muitas delas são um conjunto de questões significativas e apropriadas para refletir sobre a fé cristã, por exemplo, e sobre as adversidades que afligem o nosso mundo.

Subscrevo o que disse, caro amigo. Decerto, quando lemos a narrativa de Jó e o testemunho da revelação redentora de Deus, compreendemos que o Deus é um Deus de livramentos e que a Sua sabedoria é insondável. Ele reina sobre tudo. É por meio do sofrimento desse servo fiel que podemos vislumbrar a bondade do Senhor, a Sua soberania e o Seu livramento. O propósito e significado para o sofrimento na História é levar o homem ao arrependimento; o sofrimento é o megafone de Deus para despertar um mundo adormecido. Devido ao fato de que Deus nos ama é que nos ofereça o dom do sofrimento.

 

 

Atenciosamente,

C.S. LEWIS

 

SÉTIMA CARTA

 

Magdalen College

Oxford

 

Prezado Fiódor Dostoiévski,

Acabei de receber a notícia. Fico feliz em saber que seu irmão Mikhail fará a tradução de As Crônicas de Nárnia para o russo. De fato, as Crônicas é uma obra com farta bagagem pedagógica. Tenho procurado por meio dessa fábula oferecer orientações fundamentais sobre a conduta humana e a possibilidade de pensar nas questões sérias da vida e da sociedade. Assim sendo, todo leitor pode, por meio das personagens do conto, refletir sobre a admiração, o respeito, a gratidão, à beleza, a afeição e a dignidade da pessoa humana, além de conduzi-lo ao terreno fértil das Sagradas Escrituras (passagens bíblicas). É uma obra que de certo modo aperfeiçoa a educação moral e oferece elementos que ajudarão o leitor a construir o caráter.

De fato, Fiódor, Lev Tolstói abordou de modo excepcional os três tipos de amor: o amor belo, o amor abnegado e amor ativo. Não é cômico o proceder dos indivíduos entusiastas do amor abnegado conforme descreve Tolstói? Uma verdadeira caricatura. Faltando-lhes a clareza da reciprocidade e desconsiderando pequenas demonstrações de amor no cotidiano, esses se fixam tão somente na satisfação do autossacrifício em detrimento das necessidades fundamentais da pessoa amada, tais como a alegria, a alimentação e o bom sono, por exemplo. Sobre Amor-Doação em Os quatro amores, de fato, Fiódor, os amores humanos podem ser imagens do amor divino, sim. Aliás, Santo Agostinho dizia que “os que vivem sem amor são pesados para si mesmos, enquanto que, os que amam, carregam-se mutuamente”. Nesse sentido, a marca característica desse amor é o conforto, proteção, misericórdia, benignidade, amar o que não é amável, longanimidade e paciência. É o amor Absoluto em ação de Deus no homem. Trata-se, sobretudo, da urgência de aprender iniciativas. Uma característica inescusável da vida humana em que não há espaço para o isolamento, afinal, o homem isolado, absolutamente só, é algo que não existe, não é mesmo?

 

Atenciosamente,

C.S LEWIS

 

 

OITAVA CARTA

 

Magdalen College

Oxford

 

Meu caro Dostoiévski,

Agradeço sua carta. Lamento pela demora. Não foram poucas tentativas para escrevê-la. Além dos compromissos inadiáveis eu e Joy recebemos uma visita inesperada: uma forte gripe!

Mudando de assunto. Estamos planejamento uma viagem para a Grécia. Como estamos felizes por poder ir à Acrópole, pisar em Ática, estar em Rodes!

[…]

Ainda nesta semana estive no Merton College com os professores J. R.R.Tolkien  e George Gordon, e falávamos sobre o potencial didático de histórias de fadas nos currículos escolares. Concordamos que a Literatura é um ato de relação do eu, com o outro e com o mundo. E é justamente nesse sentido que a esfera de visão mágica do mundo tem muita relevância. Ao contrário do que alguns pensam, o conto de fadas é uma porta aberta para verdades humanas encobertas. Nesse sentido, ele tem o seu lugar no mundo. É maravilhoso o que acontece quando o leitor entra por essa porta aberta e deixa de ver a literatura como uma mera fantasia. E nesse movimento de sublevação de tempo e lugar, o leitor pode reencontrar o sentido última da vida e obter respostas para questões cruciais acerca da vida. Como você mesmo sabe, Fiódor, estamos numa era marcantemente materialista e a fantasia e a imaginação tem sido depreciada e rejeitada. Isso acontece porque o crítico não reconhece o potencial que existe de expansão da consciência e da estreita relação do leitor com o mundo real. Ele prefere relegá-la à perspectiva de escapismo. Acredita que a literatura realista tem mais relevância para a vida real do que o conto de fadas e o romance.

Essas pessoas argumentam que o conto de fadas e o romance “dão uma falsa imagem da vida”, ou seja, é uma literatura que ilude as pessoas. Não acho que seja assim. Pelo contrário. Se eu não for convencido de que o que você diz é verdade, logo ninguém conseguirá me iludir. Ora, isso vale para todo leitor. Na verdade, o romântico depurado tem muito menos capacidade para iludir do que o aparentemente realista, e a Fantasia admitida é precisamente o tipo de literatura que nunca consegue iludir ninguém. Escrevi sobre isso no meu livro A Experiência de Ler. Enquanto conversávamos no Merton College naquele dia o professor Tolkien disse algo fundamental: “A Fantasia é uma atividade humana natural. Certamente ela não destrói, muito menos insulta a razão; e não abranda o apetite pela verdade científica nem obscurece a percepção dela. Ao contrário. Quanto mais aguçada e clara for a razão, melhor fantasia produzirá”. Tolkien disse-me isso enquanto tomávamos um chá inglês às quatro horas da tarde. E a neve caindo!

 

 

Atenciosamente,

C.S. Lewis

 

 

 

 

 

Fim

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AKHMÁTOVA, Anna. Antologia Poética. Seleção, tradução do russo, apresentação e notas:  Lauro M. Coelho. Porto Alegre, RS: L&PM, 2014, p. 81-82 (A mulher de Lot).

BEZERRA, Paulo. Prefácio. In: BAKHTIN, Mikhail. Problemas da Poética de Dostoiévski. Tradução, notas e prefácio: Paulo Bezerra. – 5. Ed. – Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013, p. V, XI.

BÍBLIA. Português. Novo Testamento com Salmos e Provérbios: (Com notas, comentários, estudos bíblicos e ajudas ao Leitor). Tradução e revisão: Comitê Internacional e permanente de tradução e revisão da Bíblia King James Atualizada (KJA) – São Paulo – Abba Press, 2007, p. 394.

BOUNDS, Edward M. A Necessidade da oração. – (Série Vida de Oração). Trad. Onofre Muniz. – São Paulo : Editora Vida, 2016, p. 27.

 

COELHO, Nelly Novaes. O Conto de Fadas: símbolos – mitos  – arquétipos.  São Paulo: Paulinas, 2012, p. 18, 23.

 

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Filmes:

 

Crime e Castigo.  Direção: David Snodin. Intérpretes: John Simm; Ian McDiarmid; Shaun Dingwall; Geraldine James; Kate Ashfield; Lara Belmont; David Haig; Katrin Cartlidge e outros. Produtor: David Snodin; Diretor: Julian Jarrold; Adaptação: Tony Marchant. DVD2: 90 min, widescreen, colorido. Uma produção BBC TV em associação à rede Bravo. Produzido e distribuído no Brasil por Log On Editora Multimídia Ltda. Baseado no romance de Fiódor Dostoiévski.

Os Irmãos Karamazov.  Direção: Richard Brooks. Produção: Pandro S. Berman; Kathryn Hereford. Intérpretes: Yul Brynner; Maria Schell; Claire Bloom; Lee J. Cobb; William Shatner; Richard Basehart e outros. Roteiro: Richard Brooks; Julius J. Epstein; Philip G. Epstein. Música: Bronislau Kaper. 1 DVD (140 min), widescreen, colorido. Produzido por Versátil Home Vídeo. Baseado na obra homônima de Fiódor Dostoiévski.

Terra das Sombras. (Shadowlands). Produção e Direção: Richard Attenborough. Produção: Brian Eastman. Intérpretes: Anthony Hopkins; Debra Winger; Joseph Mazzello; Edward Hardwicke; John Wood; Julian Fellowes; James Frain; Toby Whitehouse; Daniel Goode; Scott Handy. Roteiro e Peça Original: William Nicholson. Fotografia: Roger Pratt. Ano: 1993. DVD: 125 min. aprox. Letterbox 16:9. Distribuído no Brasil por Classicline. Baseado na vida do autor C.S. Lewis.

 

 

NOTAS EXPLICATIVAS

 

1.Gente Pobre foi o primeiro romance escrito por Fiódor Dostoiévski. Obra aclamada pelo público.

 

  1. Os dois amigos que visitaram Dostoiévski às 4 horas da manhã foram: Nicolai Alekseievitch Nekrassov (1821-1878) um poeta russo e Dimitri Vassilievitch Grigorovitch (1822-1899), um escritor russo. De acordo com o professor Robertson Frizero Grigorovitch “foi colega de Dostoiévski na Escola Militar de Engenharia” (Fonte: Dostoiévski: Correspondência: 1838-1880, Trad. Robertson Frizero, Porto Alegre: 8Inverso, 2009, p. 33).
  2. “Metade de São Petersburgo está falando de Gente Pobre”. Veja sobre este fato em Dostoiévski: Correspondência: 1838-1880, Trad. Robertson Frizero, Porto Alegre: 8Inverso, 2009, p. 33.

 

  1. Já comecei a trabalhar em o “Duplo”. Sobre o processo de publicação de Gente Pobre e O Duplo leia a VIII. Carta ao seu irmão Mikhail: Petersburgo, 8 de outubro de 1845 em: [Dostoiévski: Correspondência: 1838-1880, Trad. Robertson Frizero, Porto Alegre: 8Inverso, 2009, p. 33].

 

  1. Anais da Pátria: jornal russo. De acordo com Dostoiévski numa carta datada e 4 de maio de 1845 ao seu irmão Mikhail os Anais da Pátria “[…] tinha uma tiragem de duas mil e quinhentas cópias; logo é lido por pelo menos cem mil pessoas”. Fonte: Dostoiévski: Correspondência: 1838-1880, Trad. Robertson Frizero, Porto Alegre: 8Inverso, 2009, p. 31.

 

  1. The Screwtape Letters (Cartas de um diabo a seu aprendiz) é um livro de ficção satírico escrito por C.S. Lewis em fevereiro de 1942.

 

  1. Críticas ao livro “Gente Pobre” leia Veja sobre este fato em Dostoiévski: Correspondência: 1838-1880, Trad. Robertson Frizero, Porto Alegre: 8Inverso, 2009, p. 39.

 

  1. “As suíças raspadas”. Dostoiévski: Correspondência: 1838-1880, Trad. Robertson Frizero, Porto Alegre: 8Inverso, 2009, p. 47.

 

 

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