de George MacDonald

Trad. Gabriele Greggersen

O velho Ralf Rinkelmann ganhava a vida com a apresentação de pequenas peças de comédia. E gastava quase tudo novamente para financiar os seus poemas trágicos. Então ele era o homem ideal para ser eleito rei do mundo das fadas, pois no reino das fadas deve haver eleições para a escolha o governante.

Mas elas não tinham a intenção de o obrigar a vier morar ali de vez; pois elas precisavam da sua presença só em ocasiões especiais. Entretanto era preciso, antes de tudo, achar um meio de traze-lo para a sua coroação. Uma vez que o coroassem, elas poderiam dispor dele, o quanto lhes aprouvesse, mas havia um probleminha a ser resolvido antes da cerimônia. Pois as fadas só têm poder para transportar os mortais em idade adulta para o seu país em situações de vida ou de morte. Assim, elas tiriam que esperar até que surgisse alguma boa oportunidade.

Por sorte elas não tiveram que aguardar muito tempo. Pois o velho Ralf ficou extremamente doente; e enquanto ele pairava entre a vida e a morte, elas aproveitaram para transportar e coroar o rei do Mundo das Fadas. Só que é evidente, levando em conta o seu estado de saúde, que ele não teria condições de ficar assentado no seu trono no momento seguinte. E com isso, muitos seres terríveis e maldosos, como gnomos e duendes, que vivem nos buracos e cantos do reino, tiraram proveito do seu estado, fazendo-se de loucos, fazendo todo o tipo de arte com ele, embora já fosse o seu rei. Ficavam zombando do seu reinado, subindo e descendo as escadas. Eles chegaram até a arranha-lo e roer as suas orelhas e olhos, feito ratos, de modo que ele não pudesse ver, nem pensar em mais nada. Mas, para já, preciso contar outro detalhe importante nesta parte das suas aventuras. Graças à sua enorme dedicação e esforço legítimo, depois enfrentar outros tantos problemas e sofrimentoa, ele acabou conseguindo domar os seus súditos rebeldes, fazendo tudo voltar à vida normal. Aqueles seres foram se esconder em seus respectivos cantos e buracos. E quando voltou à realidade humana, o rei Ralf viu-se devolta no seu leito, escorado em seus travesseiros.

Mas o quarto continuava cheio de criaturas obscuras, que pulavam em redor, surtindo efeitos estranhos à luz do fogo. Isso fez com que ele suspeitasse a princípio até, que alguns daqueles duendes rebeldes não foram totalmente subjugados, e que resolveram segui-lo para lá dos limites do Mundo das Fadas, até a sua casa, que se situava em Londres. Que outra explicação poderia haver para o fato desses monstrinhos malucos e brutos estarem o aterrorizando assim Ralf Rinkelmann no seu quarto? Mas ele descobriu logo que, embora eles fossem iguaizinhos àqueles duendes subterrâneos, por outro lado, eles também eram bem diferentes, e demandariam um tratamento bastante diferenciado. Ele estava convencido de que eles haviam aceitado submeter-se à condição de súditos, mas que ele devia tê-los ofendido de alguma forma no dia da sua coroação, se é que eles estavam realmente presentes; pois ele não conseguia lembrar de já ter visto seres semelhante a eles antes. Daí que ele tivesse resolvido, dar uma atenção redobrada aos seus hábitos, formas e caráter; do contrário, ele tinha plena consciência disso. Dentro em breve eles acabariam por subir à sua cabeça; pelo menos era o que esta invasão dos seus aposentos, onde a Sra. Rinkelmann claramente anunciava. Eles nem sequer tiveram em conta a presença da esposa dele, que afinal de contas, se ele era o rei, era a rainha, tomando o seu chá ao lado do fogo. Mas ela notou que ele estava olhando ao redor com uma das expressões de rosto mais serrenas que ela havia visto, por todos aqueles dias. Agora ele já ia de lá para cá rápida e silenciosamente, com seu rosto radiante de alegria. Neste meio tempo, à medida que o fogo ardia, cada vez mais animado, o comportamento das aparições ia ficando mais e mais retraído e formal, recolidas contra a parede, como serviçais bem treinados. Depois de servir-se de um pouco de chá e torradas, o rei do reino das fadas reclinou-se nas suas almofadas, e já ia pegar no sono; mas não conseguia ter descanso, pois continuava observando os invasores.

No momento em que a rainha saiu da sala para servir chá aos seus anjinhos; o fogo começou a ficar mais fraco; e era possível observar as figuras ficarem gradativamente mais escuras, e cada vez mais desvairadas, aprontando das suas, como de costume! Ao que parecia suas brincadeiras favoritas eram de esconde-esconde; estátua; queimada e muitas outras do gênero; e não era só isto; de modo que a situação foi se tornando cada vez mais alarmante. A situação estava quase tão grave quanto, se a casa tivesse sido invadida por criaturas, que não são mencionadas nem sequer nos contos de fada, já que o reino das fadas, no que depender dele, não quer ter nada a ver com eles.

Ainda bem que ao menos eles estão usando *sapatos, disse o rei a si mesmo, pois ele estava com dor de cabeça.

Então ele se deitou, com os seus olhos semicerrados, já cansado demais para prestar atenção nas brincadeiras, mas sentindo-se ao mesmo tempo, de uma maneira geral, muito mais distraído, do que propriamente ofendido com toda essa liberdade que elas se concediam. Pois, na verdade, as criaturas pareciam alegres e de boa índole, e não realmente mal intencionadas. Foi então só que ele se deu subitamente conta de que duas delas se destacavam na parede, dando um passo à frente. Pois à moda da maioria dos insetos, a grande maioria daquelas criaturas preferia espalhar-se por todos os lados. Mas naquele momento, elas se postaram no meio do corredor, aos pés da cama de vossa majestade, curvando-se para reverenciar e exalta-lo num dos mais primitivos gestos de cortesia; e, de quando em quando, eles se viravam com ar solene formando uma roda, evidentemente supondo que este gesto seria o maior sinal de respeito que alguém seria capazes de demonstrar.

  • O que é que vocês desejam?
  • Que vossa majestade nos faça o favor de nos dar mais atenção. – responderam eles. – Somos seus súditos, vossa majestade.
  • Eu sei muito bem quem vocês são: e isto me deixa muito contente.
  • Mas nós não somos o que vossa majestade está supondo que sejamos. Não somos tão estúpidos, quanto vossa majestade nos considera.
  • Não consigo associar vocês a qualquer coisa que eu já tenha visto antes – replicou o rei, que queria fazê-los falar, dizendo a primeira coisa que lhe viesse à mente- vocês não conseguem ficar suficientemente parados e quietos no lugar para que eu pudesse considerá-los soldados, marinheiros ou qualquer coisa do tipo. Suponho que, na verdade, vocês devem pertencer à brigada de incêndio, pelo menos eu os vejo o tempo todo apagando fogo.

– Pedimos que não brinque conosco, vossa majestade, por favor.

E foram estas as suas palavras, pois ambos falavam ao mesmo tempo ao longo de toda a entrevista, o que fazia o rei ficar profundamente deprimido.

– Não estou brincando – contestou ele – muito menos com vocês! Vocês é que não param de se divertir às minhas custas. Vocês são o quê, afinal?

– Somos sombras, senhor. E, se é que estamos brincando, as nossas brincadeiras sempre tem um lado sério. Mas talvez vossa majestade não esteja conseguindo nos reconhecer com clareza.

– Eu os vejo perfeitamente bem – replicou o rei.

– Permita-me, contudo – retrucou uma das sombras; e na medida em que ela falava, aproximava-se gradativamente do rei, até que, levantando o seu tenebroso dedo indicador, passou-o de leve, e com todo o cuidado, por cima de toda a superfície enrugada da sua testa. O rei sentiu o toque escorrendo suavemente feito água para dentro de todos os seus poros, inundando até os cumes das cordilheiras dos seus pensamentos. Ele havia involuntariamente fechado os olhos durante o, e quando ele os abriu novamente, assim que o dedo se afastou, teve a sensação de que num outro sentido ele os havia mantido é bem abertos. As paredes do quarto pareciam ter se expandido por todos os lados, até perder de vista, de modo que ele já não podia mais distinguir onde elas se encontravam exatamente; e as sombras permaneciam imóveis espalhadas por todo o campo. Elas eram altas e pomposas, mas, na realidade tinham uma aparência bastante assustadora, apesar de elas terem alguns traços bem grosseiros, muito semelhantes aos dos puritanos da época da reforma, com seus braços e pernas extremamente compridos e finos, dos quais pendiam grandes e pés soltos. Já nos seus rostos compridos o que se destacava eram o queixo e o nariz. A solenidade de sua aparência, entretanto, sobrepujava toda a peculiaridade da sua forma, de modo que no fundo, qualquer um ficaria  encantado em olhar para elas, vestidas assim de preto como que para um funeral. Mas o rei só teve permissão de dar uma só olhada, pois naquele instante, uma das sombras tapou os seus olhos com as suas mãos tenebrosas, de modo que tudo o que o rei pudesse enxergar fossem as paredes iluminadas pelo fogo e as formas escuras dançando sobre elas. As duas sombras que haviam falado no lugar de todas as demais também pareciam ter desaparecido. Mas no final, o rei acabou por descobrí-las paradas, uma de cada lado da lareira. Elas se encontravam próximas à chaminé e estavam conversando por sobre a lareira, evitando assim, que fossem atingidas pelos raios diretos da luz do fogo, que, embora fossem luminosos, eram necessários, para que elas se tornassem visíveis aos olhos humanos, coisa que não se justifica totalmente– pois elas nasciam dotadas de uma luminosidade bem menor do que esta, como o rei ficaria sabendo em breve. Depois de alguns poucos minutos, eles voltaram a se aproximar da cama, dizendo o seguinte:

– Por favor, vossa majestade, já está ficando escuro agora. Quero dizer– lá fora, na neve, pelo menos. Vossa majestade poderá reconhecer ali na luz fria do véu – aquela peça famosa, por sobre a qual as sombras costumam dançar. Vossa majestade poderá vê-lo daí mesmo, do lugar em que está deitado. Os nossos irmãos e irmãs todas devem estar na igreja agora, preparando-se para o serviço noturno.

  • Elas sempre vão à igreja antes de ir para o trabalho?
  • Sim, elas sempre dão uma passadinha na igreja antes.
  • E onde ela fica?
  • No país do gelo. Vossa majestade gostaria de conhecê-la?
  • Como eu poderia ir visitá-la, se você sabem muito bem que eu estou doente de cama? Além disso, tenho certeza de que eu acabaria pegando um resfriado numa noite gelada como esta, mesmo se eu vestindo uma capa e mesmo, me cobrindo com uma grossa coberta de penas.

O rosto da sombra parecia estar tremendo, mas a impressão mesmo era que era uma risada. Todos os rostos começaram a se abalar e tremer, como uma espécie de massa gelatinosa escuro, até que gradativamente elas foram voltando à sua expressão calma usual. Então uma das sombras abriu as cortinas diante da cama. Enquanto elas estavam fechadas, o brilho alvo da noite havia ficado do lado de fora, longe das vistas do rei, que lutava contra o excesso de escuridão que ameaçava tragá-lo; semelhante ao que acontece com um céu, repleto de estrelas lampejantes e brilhantes feito diamantes. A outra sombra dirigiu-se para o fogo e desapareceu dentro dele.

Alguns grupos de sombras começaram então imediatamente a dançar desvairadamente por todo o quarto, desaparecendo, uma a uma, através da janela aberta e deslizando de forma tenebrosa por sobre a face da neve branca, pois a janela dava diretamente num jardim coberto de neve. Depois de poucos minutos, o quarto ficou em silêncio total e livre de sombras, mas, ao invés de ficar aliviado com a sua ausência delas, o rei sentiu logo, como se estivesse numa casa de mortos, ficando com dificuldade até de respirar, devido ao sentimento de vazio e desolação em que ele recaiu. Mas enquanto observava a neve, que se estendia alva e extensa diante dele, deitado na sua cama, ele viu ao longe uma fileira escura, aproximando-se cada vez mais, e que acabou se revelando, no final, como sendo toda composta por sombras, que caminhavam em uma linha dupla, carregando algo parecido com um cesto. Elas sumiram no batente da janela, reaparecendo logo em seguida, depois de terem, de alguma forma, dado conta de escalar a parede da casa, pois elas entraram em fila indiana pela janela, fundindo-se com a transparência do vidro.

Elas carregavam uma espécie de cesto. Ele estava coberto das mais ricas peles e cabeças de majestosas feras selvagens, cujos olhos haviam sido substituídos por safiras e esmeraldas, que brilhavam e cintilavam à luz do fogo e do reflexo da neve. As camadas de cima reluziam ainda mais, devido à crosta de gelo, mas as de baixo estavam macias, quentes e secas, como se se encontrassem sob as asas de um cisne. As sombras aproximaram-se da cama, e jogaram o cesto sobre ela. Então, algumas delas tiraram um manto de pele enorme, colocando-o em torno dos ombros do rei, e o fizeram deitar no cesto em meio às peles. Ninguém jamais no mundo transportou alguém de modo mais gentil e reverenciador. Ao rei nem sequer passou pela cabeça recusar-se a ir. Em seguida eles colocaram algo sobre a sua cabeça e, levantando o cesto, deram uma volta com ele pela sala, só para ensaiar o passo. Quando o cesto passou diante do espelho, o rei viu que ele estava repleto de peles reais, e que sobre a sua cabeça havia uma maravilhosa coroa –toda de ouro, revestida de uma imensa variedade de pedras preciosas: rubis, esmeraldas, pedras de jade e outras tantas precisidades, cujo nome ele nem saberia especificar, elas brilhavam gloriosamente em torno da sua cabeça como a salamandrina, a essência de todos os fogos que alegram o Natal de tanta gente. Naquele instante, um espectro depositou um cetro de ébano ao lado dele, com um diamante de formato cônico na ponta, que, se fosse cortado em pedaços, certamente refletiria todas as cores do arco-íris. Ele espalhava seus raios coloridos por todos os lados, criando sombras infinitamente mais numinosas, do que aquelas que o haviam aborrecido. Em seguida as sombras o levantaram com todo o cuidado até a janela, e o ajudaram a pulá-la, pelo que ele foi para em um campo coberto de neve. Este sería o início de uma longa jornada que parecia mais um vôo coletivo, do que uma caminhada sobre uma superfície congelada.

As sombras se revezavam para carregar o rei, enquanto percorriam o campo com a suavidade de um pensamento, em uma linha reta, rumo ao norte. A estrela d´Alva nasceu por sobre as suas cabeças com crescente visibilidade, pois, na verdade, eles estavam avançando tão rápido, quanto os pensamentos mais tristes, ainda que não, na mesma velocidade que os mais felizes desejos. Aquele estranha comitiva composta de sombras, a carregar um rei, percorreu toda a Inglaterra, a Escócia. Passou por cima de rios e lagos flutuando ou deslizando. Eles escalaram altas montanhas, e cruzaram vales, como se não sentissem o peso; até que chegaram à casa de *John O´Groat no Mar Báltico. O mar não estava congelado; pois as estrelas refletidas piscavam com tanta força das suas profundezas dos lagos, quanto brilhavam as estrelas do céu acima de suas cabeças. E, à medida que os carregadores deslizavam por sobre a superfície azul-acinzentada, sem qualquer obstáculo no caminho, o rei notou que não podia enxergar a superfície da água abaixo dele, de tão iluminada que estava, muito menos o fundo, o que lhe dava a impressão de estar flutuando através da esfera azul do céu, com estrelas acima dele, e estrelas também em baixo dele, e, entre as estrelas e ele, nada mais, do que vazio. Agora, pela primeira vez em toda a sua vida, o rei sentia que a sua alma tinha conquistado o espaço que merecia.

Daí à mais algum tempo, eles chegaram até as paredes rochosas da Islândia, onde resolveram acampar, para dar continuidade à viagem só no dia seguinte. E o rei não pegou nenhum só resfriado; pois as pedras vermelhas da sua coroa o mantinham aquecido, e os olhos de esmerada e safira dos animais selvagens impediam que o gelo se formasse sobre o seu veículo.

No meio do caminho a comitiva tivera que passar por diversas florestas, cavernas e passagens escuras nas rochas, uma das quais estava tão escura, que de início, o rei ficou com medo de perder todas as sombras de vista. Mas, assim que eles entravam em lugares assim, o diamante do cetro começava a brilhar, cintilar e radiar, emitindo feixes de luz de tantas cores quantas a alma de um pintor poderia imaginar. Era tal esta luz, que tornava as sombras cada vez mais vivas e mais fortes, do que nunca. Foi assim que eles conseguiram atravessar apressadamente todos aqueles túneis escuros, numa velocidade superior à da luz. Vistas assim à luz dos diamantes, algumas das sombras também foram parecendo mais simples e humanas, enquanto outras pareciam ficar cada vez mais absurdas e selvagens.

Uma vez atravessada a caverna, o rei viu que os seus olhos eram de fato estranhos, olhos de sombra: ele nunca havia visto olhos como aqueles antes. Mas, no mesmo momento em que ele conseguiu ver os olhos deles, também teve uma visão melhor dos seus rostos, pois eles os haviam voltado completamente para ele por um instante; e as outras sombras, ao vê-lo, encolheram-se e começaram a tremer tanto, que quase desapareceram. Que adoráveis semblantes tinham eles. O rei ficou profundamente pensativo, depois de ter visto aquelas faces, e permaneceu assim impressionado pelo resto da viagem. Ele não contava com a existência de olhos tão vivos naqueles rostos, ainda mais, considerando que se tratava da face de sombras.

Finalmente a comitiva subiu pelo leito de um pequeno riacho, para em seguida, atravessar um desfiladeiro rochoso e estreito e dar subitamente em um dos lados da montanha, que dava uma maravilhosa vista para um lago azul congelado, situado no coração das majestosas montanhas. A aurora boreal se mostrava com todo o seu explendor, com um brilho que parecia o reflexo do sol lançado por milhões de espadas de soldados na batalha… Acontece que os raios de luz do tão agitados e brilhantes do céu do norte, disparavam em todas as direções, e as sombras que se encontravam na superfície do lago em baixo dele; ora se juntavam em grupos, ora ficavam tremendo, parecendo que iam afundar, ora cobrindo toda a superfície do lago, para se juntar em uma só, formando um nó escuro. De quando em quando era possível ver nas montanhas brancas duas sombras, disparando em direção dos picos, e desaparecendo por trás deles. Na verdade as sombras estava diminuindo gradativamente em quantidade, ainda que de forma pouco perceptível.

  • Com licença, vossa majestade – disseram as sombras – queira nos deixar apresentar: esta é a nossa igreja – a igreja das sombras.

E dizendo isso, o guarda-costas do rei sentou-se por um instante numa pedra para interagir com a multidão. Mas ele voltou logo para conduzir o rei até o meio do lago. As sombras reuniram-se todas em seu redor, de forma respeitosa, mas destemida. Certamente olhos mortais jamais viram uma reunião assim tão burlesca. O rei já havia visto todo o tipo de gnomos, duendes e seres tenebrosos no dia da sua coroação, mas tratava-se até que de figuras bastante homogêneas, se comparadas com a forma incongruente e desregrada de que se orgulhavam tanto as sombras; e os pulos mais selvagens daqueles seres, podiam até parecer uma dança cerimonial entre eles, sem falar da aparente falta de objetivos e improvisações aleatórias e metamorfoses que empreendiam na sua forma física. Entretanto, para a surpresa do rei, toda sombra tinha a sua identidade própria, e cada uma mantinha o seu próprio estilo, que era misteriosamente perceptível para além de toda mudança. O que interessa destacar aqui é a idéia essencial de que cada sombra tinha a sua própria forma de encanto, da mesma forma como tinha o seu estilo de efetuar mudanças radicais e às vezes até ridículas à que estavam sujeitas a qualquer momento.

  • O que é que são vocês? – perguntou o rei, apoiado sobre o seu cotovelo e olhando em redor.
  • Nós somos as sombras, majestade – responderam várias vozes imediatamente.
  • Que tipo de sombras?
  • Sombras humanas. As sombras de homens e mulheres e dos seus filhos.
  • Não seriam vocês as mesmas sombras de cadeiras, mesas ou então, fantasmas?

Esta questão gerou uma estranha e inesperada comoção no meio daquela comunidade, que ficou sinceramente chocada. Muitas das aparições se inflaram, até atingir as alturas dos céus, entretanto, voltaram imediatamente ao tamanho humano, como se querendo controlar os seus sentimentos, por puro respeito em relação a quem os havia despertado. Uma das sombras, que já havia percorrido todas aquelas redondezas, conquistando até os mais altos picos cobertos de neve, apresentou-se repentinamente à frente de todo o resto, como o porta-voz das sombras daí para frente.

  • Perdoe a nossa ansiedade, vossa majestade – disse ele – vejo que vossa majestade ainda não conseguiu muito bem familiarizar-se com a nossa natureza e costumes.
  • Estou disposto a isso – respondeu o rei.
  • Nós somos sombras – repetiu a Sombra em tom solene.
  • E daí? – disse o rei.
  • Não costumamos aparecer com muita freqüência aos homens.
  • Ah é ? – disse o rei.

– Nós não temos absolutamente nenhuma relação com raio do sol. Passamos totalmente despercebidos. Mas sempre que o homem passa diante de um de nós com tanta arrogância, bem que ele nota uma presença desconhecida.

  • Ah é? Disse o rei novamente.
  • Só na penumbra do fogo ou quando certo homem ou certa mulher estão sozinhos, diante de seu candelabro solitário, ou quando um número qualquer de pessoas compartilha do mesmo sentimento ao mesmo tempo tornando-se um só, é que a verdade das coisas se manifesta.
  • Então quer dizer que os amantes da noite existem de verdade? -perguntou o rei.
  • A escuridão é a monitora da luz – respondeu a sombra.
  • Mas quem me diz que não é quem faz pouco caso das sombras que está com a verdade? – perguntou o rei.
  • A verdade percorre como uma tempestade o mundo, sem qualquer forma, nem fundo – respondeu a sombra.
  • Ah! Ah! – pensou Ralf Rinkelmann, isto até rimou. A sombra está respondendo a todas as minhas perguntas de maneira tão singular. Isso é muito estranho! – e com isso ele voltou a se entreter com os seus pensamentos profundos.

A sombra foi a primeira a retomar a palavra.

  • Por favor, vossa majestade, será que nós poderíamos agora fazer o nosso pedido?
  • Com toda a certeza – respondeu o rei –acontece que eu ainda não estou bem o suficiente para recebe-lo da forma mais apropriada.
  • Não tem importância, vossa majestade. Não nos importamos muito com cerimônias; e, de fato nenhuma de nós está se sentindo muito bem no momento. O objeto do nosso pedido está pesando sobre nós.
  • Vá em frente, disse o rei.
  • Senhor,- começou a sombra, – a nossa existência está em perigo. São tantos os tipos de luz artificial, que se encontra nas casas e nos próprios homens, mulheres e crianças que eles estão ameaçando acabar conosco. O consumo e disposição de luzes a gás, que é especialmente alto nos centros, ameaçam cegar os nossos olhos, que são os únicos através do quais nós podemos ser vistos. Todos nós fomos sumariamente banidos das cidades. Fomos levados para as vilas e casas solitárias, e especialmente para as velhas fazendas, das quais, até mesmo as nossas amigas, as fadas, estão desaparecendo rapidamente. Por isso é que o nosso pedido junto ao nosso rei, é que com o poder de sua arte, ele nos restitua o nosso direito de morar nas casas e nos corações das pessoas.

“´Mas, disse o rei, ´não se esqueça que você assustou as crianças.´

“‘Isso só ocorreu raras vezes, vossa majestade; e mesmo nos casos em que aconteceu, foi só para o bem delas. É raro nós procuramos meter medo em alguém. O que nós queremos mesmo é fazer as pessoas ficarem quietas por um momento, para refletirem, fazendo-as sentirem um pouco de terror, vossa majestade.

“‘É mais provável que vocês as façam rir,’ disse o rei.

“‘Será mesmo?’ disse a sombra.”

E, aproximando-se um pouco do rei, ele ficou por alguns instantes parado. O diamante do cetro do rei estava irradiando um brilho vivo de cor violeta, e o rei fitou a sombra em silêncio, até que o seu lábio inferior começou a tremer.

“‘O problema,’ replicou a sombra, ‘é que se nós não mantemos os pensamentos fixos em algum objeto particular, os nossos corpos ficam sujeitos a qualquer tipo de interferência elementar. Entre os homens e mulheres ordinários deste mundo, basta nós nos atermos a alguma peça de mobília ou de roupa; e eles nunca desconfiam de que nós sejamos mais do que meros efeitos bobos e imprecisos das incidências dos feixes da luz sobre os objetos sólidos, das quais as sua casas estão cheias. Nós nem nos preocupamos em dizer-lhes a verdade, pois eles jamais acreditariam. Mas um dia este homem —- ou mulher ordinários do mundo —- quem sabe —- ‘

Entre uma e outra reticência siginificativa como esta, a multidão de sombras aplaudia e começava a agitar-se de emoção, mas a agitação não durava muito, e a multidão voltava logo ao seu silêncio contemplativo.

E, no mesmo instante que a sombra representante já ensaiava a sua retomada da palavra, todos levantaram os olhos, e o rei, acompanhando o olhar deles, viu que a aurora estava começavando a empalidecer.

“‘A lua está nascendo,’ disse a sombra. Assim que ela aparecer por cima das montanhas, inundando o vale com sua luz, nós teremos que ter ido, pois temos muita coisa a fazer sob a lua: nós ficamos energizadas com a sua luz. Mas, se vossa majestade vier aqui amanhã à noite, poderá aprender muitas coisas mais sobre nós, e julgar por si mesmo, se é apropriado concordar com o nosso pedido; pois neste caso nós faremos a nossa grande assembléia anual, na qual nós reportamos aos nossos chefes todos nossos feitos, e os bons ou maus resultados a que chegamos.

“‘Se você me chamar,’ respondeu o rei, ‘certamente que eu irei.’

“Antes que a sombra pudesse responder, uma pontinha da lua crescente surgiu por trás de um monte de gelo, e um raio delgado caiu sobre o lago. Mas ele não incindiu sobre nenhuma das sombras. Antes que os olhos do rei conseguissem novamente vilumbrar a terra, depois de contemplar os primeiros raios da lua, todas as sombras desapareceram e a superfície do lago passou a brilhar fria e azul no esplendor pálido do luar.

“Lá estava o rei, sozinho no meio do lago congelado, com a lua a raiar sobre ele. Mas, depois de algum tempo, ele ouviu uma voz conhecida que lhe dizia:

“‘Você aceita outra xícara de chá, meu amor?’ disse a Sra. Rinkelmann; e Ralf, recobrando lentamente a consciência, notou que estava deitado na sua própria cama.

“‘Sim, aceito, obrigado,’ respondeu ele; ‘ e uma boa fatia de torrada, se for possível, por favor; pois eu empreendi uma longa jornada, desde a última vez que eu a vi.’

“‘Ele ainda não está bem consciente,’ disse a Sra. Rinkelmann, para si mesma.

“‘Será que você ficaria muito surpresa,´continuou Ralf` se eu lhe contasse onde estive, e tudo o mais.’

“Confesso que ficaria,’ respondeu a sua esposa.

“‘Então eu vou lhe contar,’ celebrou Ralf.

“Mas naquele momento, uma grande sombra pulou de dentro do fogo, com um enorme salto, encobrindo a sala toda. Em seguida ele se recolheu em um canto e Ralf viu que ele estava lhe fazendo gestos de ameaça com a mão cerrada atada ao seu braço ridículo. Esta foi a maneira que ele emcontrou para passar o seu recado e manter a sua paz de espírito. E isso lhe fez bem. Pois a estas alturas eu mesmo já conhecia as sombras o bastante; e sabia que, se ele ameaçasse contar tudo sobre eles à sua esposa naquele momento, eles certamente viriam busca-lo na noite seguinte.

“Assim, o rei deitou , depois de tomar o café e comer a sua torrada e olhou em volta. E as sombras dançantes do seu quarto lhe pareciam ainda mais estranhas e inexplicáveis do que nunca. Todo o seu quarto estava repleto de mistério. E se isto já era verdade de uma maneira geral, agora o ambiente era mais misterioso do que nunca. Depois de tudo o que ele viu na igreja das sombras, no seu próprio quarto, ele achou que as sombras estavam ainda mais maravilhosas e insondáveis do que aquelas.

Com isso tudo ficava mais verossímil do que se ele tivesse tido uma visão de verdade; pois, ao invés de faze-lo considerar o corriqueiro parecer um lugar comum, como as visões enganosas costumam fazer, tudo aquilo fez com que ele tivesse a visão ampliada para o maravilhoso que há nas coisas do dia a dia.

“‘O mesmo vale para toda arte verdadeira,’ pensou Ralf Rinkelmann.

“Na tarde seguinte, na medida em que o crepúsculo ia se escurecendo, o rei foi se deitar com uma só dúvida: será que as sombras mandariam buscá-lo de novo? Ele desejava muito partir, pois adorou aquelas viagens, além do que, estava louco para ouvir as histórias de alguns fantasmas. No entanto, a escuridão foi se aprofundando cada vez mais, e as sombras não apareceram. É que a Sra. Rinkelmann continuava sentada junto ao fogo no crepúsculo e eles não tinham como levar o rei, enquanto ela estivesse ali. Alguns deles tentaram assustá-la, projetando as mais estranhas sombras nas paredes, no chão e no teto; mas nada disso surtiu o efeito desejado: a rainha apenas sorriu, pois ela tinha uma consciência tranqüila. No entanto, de repente ouviu-se um grito terrível do quarto das crianças, e a Sra. Rinkelmann precipitou-se escadas acima para ver o que estava acontecendo. Mal ela chegou lá, apareceram os dois vigias dos cantos da chaminé e se postaram no meio da sala, dizendo em voz baixa:

 

“´Vossa majestade está pronto?’

 

“‘Será que vocês não têm coração?’ disse o rei; ‘ou serão eles tão escuros, quanto os seus rostos? Isso não foi um grito de criança? Preciso saber o que está acontecendo lá em cima, antes de eu ir.’

 

“‘Vossa majestade há de convir que este é uma boa forma de concentrar a mente,’ responderam os vigilantes. ‘Nós imaginamos tudo o que nos veio à mente, para nos livrar da vossa majestade, a rainha, mas não tivemos sucesso. Foi então que uma sombra desvairada, meio contra a vontade dos mais velhos entre nós, precipitou-se escada acima, até o quarto das crianças e sem dúvida nenhuma, teve sucesso em assustar o bebê, pois ela é bastante flexível e rápida nas pernas.

-E agora, vossa majestade?’

 

“‘Não quero que ninguém faça mais este tipo de brincadeira no quarto das minhas crianças,’ disse o rei muito nervoso. ‘Vocês podiam ter feito a criança ficar totalmente fora de si.’”

 

“‘Então, neste caso teríamos um clone, vossa majestade. E nós gostamos muito de gêmeos.’

 

“‘Não quero mais saber dos seus miseráveis gracejos! O que quero dizer é que vocês poderiam ter feito a criança perder a cabeça…’

 

“‘Isso é impossível, senhor, pois ela nem sequer tem uma cabeça para perder ainda…’

 

“Suma daqui”, disse o rei.

 

“‘Perdoe-nos, vossa majestade. Na verdade, isso vai fazer bem à criança, pois aquela sombra passará a ser um símbolo de tudo o que é feio e do mal, por toda a sua vida. Quando ela se sentir tentada a odiar ou sentir inveja de alguém, aquela sombra voltará à sua mente e lhe dará calafrios.’

 

“‘Tudo bem’ disse o rei ‘ Esta idéia já me agrada mais. Vamos embora.’

 

“As sombras empreenderam os mesmos rituais e preparações de outrora, durante as quais, a mencionada sombra jovem que tramou a história de fazer caretas, mantinha o bebê aterrorizado e a rainha no quarto dela, até que tudo estivesse acabado. Em seguida, com um impulso que o arremessou contra o teto e um ponta-pé no seu próprio traseiro, ele desapareceu pela porta do quarto de crianças, alcançando a câmara de dormir do rei, bem a tempo de sair junto com as últimas sombras pela janela, seguindo a cesta e assumindo o seu posto na neve bem embaixo dela.

E assim, eles foram embora, formando uma enorme sombra que deslizava por sobre o carpete branco, da mesma forma como fizeram anteriormente. E era Véspera de Natal.

 

“Quando, a certa altura, eles reconheceram o lago da montanha, o rei viu que toda a superfície estava coberta por uma mistura mutante de sombras. Todas elas estavam falando e ouvindo alternativamente, aos pares, trios, e grupos de todos os tamanhos. Lá e cá havia confrarias enormes com toda a atenção concentrada em uma determinada sombra que se destacava do resto. Ela não estava falando de nenhum púlpito ou plataforma, mas sobre as suas próprias longas pernas, que ele alongou especialmente para o evento.

A aurora, bem acima da cabeça deles, iluminava o lago e as laterais das montanhas, enviando grandes ondas de vapores luminousos, que brilhavam em todas as cores do arco-íris do seu cume, quase até a superfície do lago.

 

Entretanto, enquanto as palavras se espalhavam por todos os lados, não havia praticamente nenhuma palavra capaz de alcançar os ouvidos do rei: o discurso das sombras não podia ser captado pelos seus órgãos corpóreos. Entretanto, um dos líderes das sombras, vendo que o rei estava tentando entender e não conseguia, começou a manipular a sua cabeça e ouvidos de maneira muito estranha; e com isso ele passou a entender tudo perfeitamente, embora somente as sombras para as quais ele voltava a sua atenção. Isto, entretanto, acabou sendo uma grande vantagem, que o rei quis até levar consigo devolta para o mundo dos mortais.

 

Naquele momento o rei percebeu que aquela não era só uma igreja das sombras, mas ao mesmo tempo também o seu lugar de troca de novidades. Pois, como as sombras não têm escrita ou imprensa, a única forma pela qual eles podem informar-se uns aos outros sobre os seus feitos e pensamentos, era de se encontrar e trocar idéias neste mercado de idéias que era o parlamento de sombras. E como as pessoas deste mundo preferem ler os seus autores favoritos e dão preferência a dar ouvidos aos seus preletores favoritos, as sombras também buscam as suas preletoras favoritas para ouvir acerca das suas aventuras e geralmente dão ouvidos ao que elas têm a dizer.

 

“Sentindo-se bastante forte, o rei levantou-se e começou a andar entre elas, enrolado na sua túnica de pele, com a sua coroa vermelha na cabeça, e o seu cetro de diamantes na sua mão. Cada grupo de sombras de que ele se aproximava, parava de falar, assim que eles o viam se aproximar, mas depois de um aceno as sombras continuavam imediatamente a conversar e relatar e comentar, como se ninguém estivesse lá que não fosse do mesmo calão e nível deles mesmos.

Assim o rei acabou ouvindo uma série de histórias; algumas o fizeram rir, e outras, o levaram a chorar. Mas, se as histórias que as sombras contavam fossem impressas, elas teriam que escrever um livro que nenhum editor seria capaz de produzir rápido o bastante para satisfazer os seus compradores. Eu registrei algumas das coisas que o rei ouviu, que ele me contou logo depois. O fato é que eu fui o secretário particular dele por algum tempo. Foi assim que eu fiquei sabendo de todas estas aventuras.

 

“‘Eu o fiz alguém se confessar um assassinato no prazo de uma só semana,’ disse uma sombra com ar sombrio.

 

“‘Mas que vantagem teve isso?’ disse um jovem de ar alegre; ‘isso não pode desfazer o que já foi feito.’

 

“‘Pode, sim. ‘

 

“´O quê! Trazer os mortos devolta à vida?’

 

“‘Não; mas pode trazer conforto ao assassino. Eu não suportaria jamais continuar assistindo à miséria de dar dó, em que ele se encontrava. Ele seria muito mais feliz com a corda amarrada ao pescoço, do que ele foi com a carteira recehada no seu bolso. Eu também o salvei de quere r de se matar.’

 

“‘Como você o fez confessar?’

 

“‘Foi só lançar algumas sombras na parede..’

 

“‘Como isso poderia faze-lo falar?’

 

“‘Ele sabe muito bem.’

 

“A sombra ficou em silêncio; e o rei voltou-se para outra.

 

“‘E eu fiz uma mãe moderna arrepender-se.’

 

“‘E como foi isso?’ em muitas vozes podia-se ouvir um certo tom de incredulidade.

 

“‘Foi só imitar a sombra de um pequeno caixão na parede,’ foi a resposta.

 

“‘E então a mãe moderna confessou?’

 

“‘Ela não tinha nada a confessar, que todos já não soubessem.’

 

“‘O que é, então, que todo mundo já sabia?’

 

“‘Que ela podia beijar uma criança viva, enquanto estava querendo seguir uma criança morta para o túmulo. O próximo filhos será menos custoso.’

 

“‘E eu acabei com um noivado,’ disse outro.

 

“‘Que coisa horrível você fez!’ observou um demônio poético.

 

“Como foi isso?’ perguntaram os outros. ‘Conte-nos, como foi isso.’

 

“‘Eu simplesmente imitei a sombra de parte do corpo de uma bela garota.-eles ainda não eram casados, e eu não acredito que eles jamais casariam. Mas eu amava o rapaz que a amou. Que interessante foi, como tudo começou! Aquilo foi uma revelação para ele.’

 

“‘Mas isso não o deixouconfuso?’

 

“‘Bem pelo contrário.’

 

“‘Mas tratava-se só de uma sombra forjada, e de nenhuma sombra que pertencesse a uma garota real.’

 

“‘É verdade. Pode-se dizer que sim. Mas isso foi o bastante para que lhe caísse a trave do olho– sim, de toda a sua face, que, ocasionalmente deixava perturbada a sua juventude. Todo o seu semblante, nariz arrebitado, lábios pujantes, queixo destacado, entendeu-se num instante com aquela escuridão que havia entre as suas sombrancelhas. O rapaz o percebeu imediatamente e voltou para casa, sentindo-se miserável. E eles não casaram até hoje.’

 

“‘Eu peguei um bêbado sozinho, em cima do seu garrafão de vinho do porto,’ disse uma sombra bem escura; ‘e não permiti que ele bebesse! Primeiro eu fiz tive um trimilique desvairado; e depois eu comecei a encenar um funeral, percorrendo devagarinho toda a parede da sala de jantar. E inventei muitas plumas e carruagens de luto. E depois eu me ofereci para organizar um funeral como esse, só o que eu não consegui arranjar de jeito nenhum foi uma batina branca, que ficaria muito melhor em um pecador com aquele. O desgraçado hesitou, até que a sua face passou de púrpura para cinzenta, e na verdade ele só estava sendo obrigado renunciar ao seu quinto copo e, para a sua máxima surpresa, ele foi buscar refúgio precisamente no seu quarto, com a sua esposa e os seus filhos. Acredito que, na verdade, ele estava bebendo um copo de chá e, por mais que o visitasse novamente, eu pelo menos nunca mais o vi bebendo sozinho.’

 

“‘Mas ele passou a beber menos? Será que você fez algum bem a ele?’

 

“‘Eu espero que sim; mas lamento muito confessar que não posso dize-lo com muita certeza.’

 

“‘Hum! Hum! Hum!’ grunhiram várias sombras.

 

“‘E eu me diverti tanto certa vez!’ berrou outro. ‘Com uma peça que eu preguei em um jovem padre!’

 

“‘Você não tem o direito pregar peças em ninguém.’

 

“‘Ah, sim. Tenho sim, se é para o próprio bem da pessoa. Você acha mesmo que ele costumava preparar os seus sermões?’

 

“Considerando o seu estudo, é evidente que sim.’

 

“‘Sim e não. Continue advinhando.’

 

“‘Eles se inspirava nas expressões de rosto das pessoas na rua.’

 

“‘Adivinhe novamente.’

 

“‘Em lugares que ainda estão verdes na cidade?’

 

“Tente mais uma vez.’

 

“´Em livros antigos?’

 

“´E mais uma.’

 

“‘Não, não. Chega! Conte logo.’

 

“‘No espelho. Ha! ha! ha!’

 

“‘Esta é boa; uma bela piada de sombra.’

 

“‘Eu também achei. E eu me diverti tanto com ele uma noite na parede! Ele teve bom senso o bastante para perceber que era ele mesmo que ele estava vendo e que ele estava se parecendo muito com um macaco. Então ele ficou com vergonha, virou o espelho com a face para a parede, e começou a pensar um pouco mais no seu povo, e um pouco menos em si mesmo. Eu fiquei muito contente; pois, por favor vossa majestade,’- e neste momento ele se dirigiu para o rei -‘nós não gostamos das pessoas que vivem nos espelhos. Vocês os chamam de fantasmas, não é?’

 

“Antes que o rei pudesse responder, outra sombra começou a falar. Mas só a menção do padre despertou no rei o desejo de ouvir um dos sermões do padre qualquer dia. Então ele se voltou para uma sombra comprida, que estava pregando para uma multidão muito silenciosa e atenta. Ele já estava na parte final do seu sermão.

 

“Portanto, queridas sombras, é ainda mais necessário que nós, as sombras, nos amemos umas às outras o máximo que pudermos, porque isso não é querer demais. Não temos desculpa para não amar, como os mortais têm, pois nós não morremos como eles. Eu imagino que seja é esta morte que faça com que eles odeiem tanto. Além disso, nós costumamos dormir o dia todo, pelo menos a maioria de nós, e não à noite, como os homens fazem. E todos sabem muito bem que nós esquecemos tudo o que aconteceu na noite anterior; por isso, temos que amar bem, pois o amor é breve. Ah! Querida sombra, que eu amo agora com toda a minha alma sombria, provavelmente eu não as amarei mais amanhã à noite, pois já nem terei como as conhecer, devo passar por vocês na multidão, sem nem imaginar que a sombra que eu amo agora pode estar bem do meu lado então. Abençoadas sombras! Por só nos lembrarmos das nossas histórias até que as tenhamos contado aqui, para depois elas desaparecerem pelo patio sombrio da igreja, onde tudo o que nós só enterramos são os nossos egos mortos. Ah! Irmãos, quem quer ser um homem para lembrar? Quem quer ser homem para chorar? Na verdade, nós temos que amar uns aos outros, porque só nós é que herdamos o dom do esquecimento; só nós somos renovados continuamente com o nascimento eterno; somente nós não acumulamos o peso dos anos. Preciso lhes contar acerca do destino cruel de uma sombra que se rebelou contra a sua natureza, e buscou lembrar-se do passado. Ela disse, ‘a partir de hoje eu hei de lembrarar de tudo.’Ela ainda estava lutando contra as influências benéficas do sono benigno, quando o sol nasceu em um dia iluminado e terrivelmente mórbido. Embora ele não tivesse conseguido ficar totalmente acordado, ela sonhou a respeito do ocorrido na tarde anterior e nunca mais esqueceu-se do seu sonho. Depois ela tentou novamente na noite seguinte e na próxima e na seguinte; e passou a tentar outra sombra a fazer a experiência junto com ela. Finalmente a sua terrível sina recaiu sobre elas; e, ao invé de continuarem sendo sombras, elss começaram a ter corpos aderidos a elas; e foram engrossando e engrossando, até que desapareceram do nosso mundo; e agora elas estão condenadas a zanzar sobre a Terra, um homem e uma mulher sob a ameaça da morte, e memórias dentro delas. Ah, irmão sombras! É preciso nos amarmos umas às outras, pois só nós é que poderemos esquecer rapidamente. Nós não somos humanos, e sim sombras.’

 

“O rei virou as costas e ficou com mais pena daquelas pobres sombras, do que daquele homem e mulher.

 

“‘Oh! Como nós brincamos com aquele músico certa noite!’ exclamou outro grupo, ao qual o rei havia dirigido um pensamento passageiro. Ele parou para ouvir.

-‘Nós subíamos e descíamos por sobre as teclas e abafadores do seu piano. Mas ele se vingou de nós. Pois depois que ficou nos observando meia hora na penumbra, ele se levantou e dirigiu até o seu instrumento. Daí ele passou a tocar a “dança das sombras” que nos prendeu a todas em forma de som para sempre. Cada uma de nós poderia até contar o significado que cada nota teve para ela; e à medida que ele tocava, nós não podíamos mais parar, mas só continuar dançando e dançando com todo o prazer de acordo com a música, como se ele fosse um mágico – estou falando do músico – E ele até que inventou uma boa punição; pois ele quase nos fez dançar para fora das nossas pernas e fora da nossa forma até que viramos um monte exausto de escuridão palpitante e colapsa. Nós nem sequer chegamos perto dele denovo por algum tempo, e nunca cehgaríamos, se pudéssemos nos lembrar de tudo aquilo. Ele se sentiu muito miserável por todo aquele dia, pois era tão pobre que; e não conseguíamos imaginar outra forma de conforta-lo, a não ser, fazendo-o rir. Nós não tivemos sucesso, nem mesmo empenhando os maiores esforços; mas, no final tudo acabou melhor do que esperávamos, pois a dança das sombras o tornou celebre e famoso, e ele é bastante popular até hoje, ganhando dinheiro rápido.-Se ele não tomar cuidado, nós acabaremos pregando outra peça nele de quando em quando, pobre rapaz!’

 

“‘Eu mais outras colegas fizemos o mesmo para um pobre diretor de teatro certa vez. Ele estava precisando escrever uma peça de natal e, como não era nenhum gênio em originalidade, não conseguiu pensar em nada que já não tivesse sido criado e repetido mais de vinte vezes. Eu entendi a enrascada em que ele estava, e, juntando-me com mais algumas poucas sombras errantes, nós apresentamos uma peça, muda, é claro. Aquele foi o teoatro do absurdo mais engraçado que já inventamos; e obteve considerável sucesso. O pobre rapaz observou cada movimento, urrando de rir de nós, e de prazer pelas idéias que nós lhe demos. Ele transformou tudo em palavras e cenas e ações; e a peça “fez o maior sucesso”, sem precedentes nos registros daquele teatro;”-pelo menos foi isso que o repórter do Palpiteiro Fuxiqueiro disse.’

 

“‘Mas quanto tempo será que teremos que esperar para ter uma chance de fazer algo que realmente vale a pena!’ disse uma sombra especialmente longa, esbelta e lúgubre. ‘Da minha parte eu só realizei uma façanha digna de menção, desde a última vez que nós nos encontramos. Mas eu estou orgulhosa disso.’

 

“‘O que foi que aconteceu? ‘ perguntaram umas vinte vozes.

 

“‘Eu invadi uma sala de jantar no cair de uma tarde, logo depois do último dia das comemorações de Natal. Eu havia sido atraído para lá pelo brilho de um grande fogo através das cortinas vermelhas da janela. Primeiro eu pensei que não houvesse ninguém ali, e já estava a ponto de abandonar o quarto para sair novamente para a rua coberta de neve, quando eu subitamente captei o cintilar de olhos, e notei que eles pertenciam a um pequeno garoto que se encontrava deitado e paralisado no sofá. Então eu resolvi ficar no quarto em um canto escuro, atrás do batente da porta e ficar olhando para ele. Ele parecia muito triste, e não fazia nada, a não ser olhar fixamente para o fogo. No final, ele deu um suspiro nostálgico: ‘Eu queria que a mamãe voltasse para casa.’ ‘Pobre menino!’ pensei comigo, ‘não há quem possa ajuda-lo a não ser a mãe dele.’ Mesmo assim eu vou tentar fazer o tempo passar mais depressa para ele. Assim, eu estiquei o meu longo braço de sombra para fora do meu canto, passando por cima de todo o teto, e simulei estar tentando seqüestrá-lo. Primeiro ele ficou muito assustado; mas ele era um garoto valente, e logo viu que tudo não passava só de uma brincadeira. Assim, quando eu repeti o gesto, ele me agarrou com força; e depois disso ele passou a se divertir a valer! Pois embora ele continuasse suspirando freqüentemente, desejando que a mamãe voltasse para casa, ele sempre recomeçava a brincadeira comigo; e nós ficamos brincando assim selvagemente. Até que finalmente pudemos ouvir a mãe batendo à porta, e, num salto de prazer, ele correu para o hall para se encontrar com ela, esquecendo tudo sobre a minha pobre pessoa escura. Mas, no final, eu não liguei nada para isso; pois quando eu deslizei atrás dele para o hall, eu fui bem recompensado pelo meu esforço, quando ouvi a sua mãe lhe dizendo: ‘Que surpresa boa, Charlie, meu amor, você está com uma cara mil vezes melhor desde que eu te deixei!’ Naquele momento eu saí pela porta antes que ela fosse fechada, e, enquanto eu corria por sobre a neve, ouvi a mãe dizer ainda: ‘Que sombra pode ter sido aquela, passando tão rápido?’ E Charlie respondeu com um mero riso: ‘Oh! mamãe, acho que deve ser a sombra engraçada que esteve fazendo aquelas brincadeiras comigo, enquanto você esteve fora.’ Assim que a porta foi fechada, eu arrastei-me ao longo da parede e olhei para dentro da janela da sala de jantar. E ouvi a sua mãe dizer, enquanto ela o levava para o quarto: ‘Que imaginação que este garoto tem!’ Ha! ha! ha! Então ela olhou para ele com muita seriedade por um minuto, e as lágrimas vieram aos seus olhos; e quando ela parou, curvando-se sobre ele, eu ouvi algo que parecia um beijo, misturado com choro.'”

 

“‘Eu sempre saio em busca de berçários cheios de crianças,’ disse outro; ‘e neste inverno eu tive uma sorte especial. Tenho certeza de que nós pertencemos de uma maneira especial às crianças. Certa noite, enquanto eu perambulava pela cidade grande, eu olhei, através de uma janela para dentro de um grande berçário, em que a odiosa lâmpada a gás ainda não havia sido acesa. Em volta do fogo estava assentada uma turma das crianças mais bonitinhas que eu já vi no mundo. Elas estavam aguardando pacientemente o seu chá. Esta era uma oportunidade boa demais para ser desperdiçada. Eu corri para juntar vinte das melhores sombras que eu pude encontrar, e voltei em alguns segundos para o berçário. Ali nós começamos a dançar na parede, uma das nossas melhores danças. Podem ter certeza de que estávamos improvisando, mas conseguimos manter uma certa harmonia, cantando uma canção que eu fui criando, enquanto dançávamos. É claro que as crianças não tinham como ouvir aquilo; pois só podiam ver os movimentos. Mas elas pareciam, de fato, estar extremamente felizes em ver aquilo.

(…)

 

“‘Que enormes que são estas sombras!’ disse uma das crianças – uma menininha pensativa.

 

“‘Gostaria de saber de onde elas vêm.’ disse um garoto pequeno e sonolento.

 

“‘Eu acho que elas nascem para fora da parede,’ respondeu a garotinha; ‘pois eu os estive observando chegando; primeiro uma e depois outra, até que chegou uma enorme quantidade delas. Tenho certeza de que elas nascem para fora das paredes.’

 

“‘Talvez elas tenham mamães e papais,’ disse um menino mais velho, com um sorriso.

 

“‘Sim, sim, o doutor os traz em seu bolso,’ disse uma outra pequena garota conclusivamente.

 

“‘Não; Eu preciso lhes dizer,’ disse o garoto mais velho. ‘Eles são fantasmas.’

 

“‘Mas como, se os fantasmas são brancos.’

 

“‘Oh! Estes ficaram pretos ao descer pela chaminé. ‘

 

“‘Não,’ disse um menino de aparência curiosa e quatorze anos de idade, que estava lendo junto à luz do fogo, e parou para ouvir a conversa dos menores.; ‘eles são fantasmas de corpo; eles não são fantasmas de alma.’

 

“Seguiu-se um silêncio, quebrado pelo primeiro garoto, o do olhar sonhador, que disse:

 

“‘Eu espero que eles não me tenham criado;’ o que fez todos cair na maior risada, bem na hora em que a crecheira lhes trouxe o chá. Quando ela se voltou para ligar a lâmpada a gás nós desaparecemos.

 

“‘Eu impedi um assassinato,’ gritou outra sombra.

 

“Como? Como?Como?’

 

“‘Calma, que vou lhes contar.-Estava eu à caça de um quarto de repouso, em que um pobre avaro estava deitado doente há algum tempo, aparentemente morrendo. Eu não estava gostando nada daquele lugar, mas eu me senti como se estivesse sendo desejado ali. Havia muitos lugares para se esconder por lá, pois ele estava repleto de toda a espécie de móveis, – especialmente armários, cofres e prensas. Acho que ele mantinha naquele quarto cada peça de sua propriedade que ele passou a vida toda para juntar. E eu sabia que ele tinha um monte de ouro naqueles lugares, pois uma noite, quando a sua enfermeira estava fora, ele levantou da cama, resmungando e tremendo, e deu um jeito de abrir um dos seus cofres, embora ele quase tivesse desmaiado devido ao esforço. Eu estava besbilhotando por sobre o seu ombro, e um brilho tão grande de ouro caiu sobre mim, que quase me matou. Mas quando se podia ouvir a enfermeira voltando, ele fechou a tampa, e eu me recuperei. Eu bem que me empenhei com todas as minhas forças, mas não consegui fazer-lhe nenhum bem. Pois, por mais que eu criasse todos os tipos de sombras nas paredes e teto, representando as más ações que ele havia cometido, que eram tantas, que ficava difícil escolher, não fui capaz de criar nenhuma sombra na sua cabeça ou consciência. Ele não tinha olhos para nada, a não ser para o ouro. E foi assim que aconteceu que a sua enfermeira não tinha nem olhos, nem coração para mais nada.

 

“‘Um dia, quando ela estava sentada ao lado da cama dele, mas em um lugar de onde ele não podia vê-la, mexendo algum tipo de mingau em uma bacia, para esfria-lo para ele, eu a vi tirar um pequeno frasco do seu decote, e eu soube, pela expressão do rosto dela, tanto o que era quando o que ela viria a fazer com aquilo. Felizmente a rosca era um pouco difícil de tirar, e isso me deu um momento para pensar.

 

“‘O quarto estava tão lotado com todo o tipo de coisas, que embora não houvesse curtinas na cama de quatro níveis para esconder das vistas do avaro os seus tesouros preciosos, havia entretanto ali ainda um único ponto no teto adequado para que eu pudesse aparecer na forma que eu desejava assumir. E aquele ponto era difícil de alcançar. Mas eu descobri que sobre este preciso ponto, incidia um raio largo da luz do fogo, lançado de um espelho estranho, velho e empoeirado, largado em algum canto, então eu me coloquei diante do fogo, espiando onde o espelho estava, joguei-me sobre ele, e confinei-me da sua face sobre a piscina larga de luz turva no teto, assumindo, enquanto passava, a forma de uma velha bruxa corcunda, vertendo algo do frasco em uma baxia. Eu formei o cabo da colher com o meu próprio nariz, ha! ha!’

 

“E uma mão sombria acariciou a ponta sombria do nariz de sombra antes de que a língua da sombra retornasse.

 

“‘O velho avaro me viu. Ele não viria a provar o mingau naquela noite, por mais que a sua enfermeira o procurasse seduzir e ralhasse com ele até que ambos ficarem exaustos. Ela fez de conta que o estava provando, e que estava muito bom, e no final retirou-se para um canto, fazendo de conta que o estava comendo ela mesma, mas eu via que ela estava tomando cuidado para expelir tudo novamente.’

 

“‘Mas chegaria uma hora em que ela divia ter tido sucesso, ou acabaria por matá-lo de fome.’

 

“‘Nem te conto.’

 

“‘Mas,’ interveio outro, ´ele não era digno de ser salvo.’

 

“‘Ele podia se arrepender,’ disse uma outra sombra mais benevolente.

 

“‘Nem pensar,’ replicou o primeiro. ‘Os avaros nunca fazem isso. O amor pelo dinheiro tem menos cura em si mesmo do que qualquer outra fraqueza em que os seres humanos desgraçados podem cair.

Que bênção que é, ter nascido como sombra. As fraquezas não nos atingem. Que interesse poderiamos nós ter em ouro! Não passa de lixo.’

“‘Amén! Amén! Amén!’ ouviu-se de uma centena de vozes de sombra.

“‘Você deveria tê-la deixado matar-te e com isso estaria tudo acabado com ele.’

“‘E além disso, afinal, que chance tinha ele de ter escapado? Ele jamais teria como se livrar dela.

“‘Eu bem que ia lhes contra,’ repetiu o narrador, ‘é só que você me interrompeu com tantas observações de sombra que não me deixava.’

 

“‘Prossiga, prossiga.’

 

“‘Havia uma pequena neta que costumava vir e visitá-lo às vezes a única criatura com a qual o avaro se preocupava. A mãe dela foi a sua filha, mas o velho nunca ia vê-la, porque ela casou contra a vontade dele. O seu marido estava morto agora, mas ele ainda não a perdoou.

Depois que ele viu a sombra, entretanto, ele disse a ele mesmo, enquanto estava deitado acordado aquele noite – e eu via as palavras escritas no seu rosto -‘Como é que eu vou fazer para me livrar daquele velho diabo? Se eu não comer, acabarei morrendo. Gostaria que a pequena Mary viesse amanhã. Ah! A sua mão jamais me trataria desse jeito, nem se eu vivesse uns cem anos mais.’ Ele ficou assim deitado em vigília, pensando e remoendo estas coisas thinking a noite toda, e eu fiquei parado observando-o de um canto escuro, até o raiar do dia, que me espantou. Quando eu voltei na noite seguinte, o quarto estava limpo e arrumado. A sua própria filha, que tinha uma feição triste, mas era ainda uma bela mulher, sentou-se a seu lado, e a pequena Maria estava enrolada no chão, junto ao fogo, imitando-nos, projetando sombras estranhas no teto com as suas mãos enganchadas. Mas ela não podia sequer imaginar como foi que elas apareceram ali. E não é de estranhar, pois eu ajudei a criar algumas das mais incontáveis.’

 

“‘Eu também tenho uma história sobre uma netinha,’ disse uma outra, na mesma hora em que o outro narrador terminou.

 

“‘Conte. Conte.’

 

“‘No Natal passado,’ começou ele, ‘eu e um grupo de sombras saímos pela penumbra afora, para encontrar alguma casa, onde todos nós pudéssemos ter algo a fazer; pois nós havíamos decidido agir em conjunto. Nós procuramos e vários lugares, mas encontramos objeções a todos eles. Finalmente demos uma espiada numa ampla casa de campo, e nos precipitamos na sua direção, onde encontramos várias pessoas ocupadas em grandes preparativos para o jantar de natal. Nós entramos, quase nos atropelamos, e decidimos na hora que ali daria certo. Nós nos divertimos primeiro no quarto das crianças, onde havia diversas crianças sendo vestidas para o jantar.

Geralmente nós nos dirigimos primeiro para o quarto das crianças, vossa majestade. Desta vez estávamos especialmente encantados com uma pequena garota de mais ou menos cinco anos de idade que bateu palmas e dançava por aí com prazer devido às travessuras que nós empreendemos; e nós dissemos que faríamos algo para ela se tivéssemos chance para isso. A companhia começou a comparecer; e a cada chegada, corríamos para o hall, e damos maravilhosas cambalhotas de boas-vindas. No meio tempo, nós voamos embora para ver, como as coisas estavam indo.

Uma garota de mais ou menos dezoito anos dava gosto de ver. Ela se vestia, como se não tivesse ligado muito para aquilo, mas não podia deixar de faze-lo de modo bonito. Quando ela deu a sua última olhada no vulto no espelho, ela deu um meio sorriso para ele.

– Mas nós não gostamos nada, nada daquelas criaturas que aparecem nos espelhos, vossa majestade. Nós não as entendemos. Elas são assombrosas para nós.

-Ela parecia muito séria e pálida, mas muito doce e cheia de esperanças. Nós queríamos saber tudo sobre ela, e logo descobrimos que ela era uma parente distante e grande favorita de um cavaleiro da casa, um senhor de idade, com uma expressão de benevolência misturada com obstinação e uma profunda sombra com algo de tirânico. Nós não conseguiríamos admirá-lo muito; mas nós não mudaríamos de opinião todos ao mesmo tempo: as sombras nunca fazem isto.

 

“‘O sinal de jantar tocou e nós nos precipitamos escadas abaixo. Todas as crianças pareciam contentes, e nós estávamos felizes. Havia um camarada entre os serventes que aguardava ansioso. Como nós o atormentamos! E como nós nos divertimos! Quando ele estava pondo os pratos, nós esperamos deitados por ele por todos os cantos e pulamos sobre ele do chão e por sobre os corrimões, e para baixo das cornijas. Ele pulou, cambaleou e zanzou por aí, de modo que os seus colegas serventes começaram a achar que ele estava bêbado. Uma vez ele derrubou uma bandeja, e teve que reunir todos os pedaços, e fugiu com eles.

E como nós o perseguimos e eprturbamos no trabalho! Sorte dele foi que o seu chefe não o viu; mas nós tomamos cuidado para que ele não entrasse em nenhuma complicação mais séria, embora os seus olhos estivessem ficado bastante ofuscados com o sumiço das incontáveis sombras. Algumas vezes ele achou como se a parede estivesse caindo sobre ele; outras vezes, que o chão estava se abrindo para tragá-lo; outras ainda, que ele seria espancado e rasgado em pedaços correndo para cima e para baixo ou que fosse sucumbir na multidão negra.

 

“‘Quando o medroso foi trazido para dentro, nós promovemos um perfeito carnaval de sombras em torno dele, dançando e nos transformando em chamas azuis, como demônios enlouquecidos. E como as crianças gritaram de prazer!

 

“‘O velho cavaleiro, que gostava muito de crianças, riu com uma risada que vinha do mais fundo do seu coração, quando alguém bateu fortemente na porta do hall. A bela menina deu um pulo, ficou mais pálida e em seguida, vermelha como o fogo do Natal. Eu o vi, e arremessei as minhas mãos por sobre o seu rosto. Ela ficou muito contente, e eu sei que ela disse no seu coração, “Minhas sombras do coração!” o que deceu muito bem. Em seguida eu segui o resto para o hall, e encontrei um marinheiro muito jovial, bonito, de face bronzeada pelo sol, evidentemente era algum filho da casa. O velho o recebeu com lágrimas nos olhos, e as crianças com gritos de alegria. A garotinha escapou na confusão em tempo somente de salvar a si mesma de um desmaio. Nós nos reunimos sob a lâmpada para esconder a sua fuga, e quase a deixamos a descoberto. O mordomo não conseguiu acendê-lo enquanto ela não escorregasse novamente para o seu lugar, muito feliz por encontrar a sala tão escura. Foi só o marinheiro ver ela sair, que ele se sentou ao lado dela e, sem uma só palavra, pegou na sua mão na penumbra. Mas agora nós todos nos dispersamos pelas paredes e cantos; e a lâmpada foi novamente acesa, e ele largou da mão dela.

 

“‘Por todo o resto do jantar, o velho observeou os dois e viu que havia algo entre eles, e ficou muito bravo. Pois ele era um homem importante na sua própria estimative e eles nunca o consultaram. O fato era que eles mesmos nem sabiam ao certo o que lhes estava acontecendo, até que o marinheiro foi embora para a sua última viagem; e eles só conheceram um ao outro naquele momento.

-Nós descobrimos tudo observando-os, e depois conversando sobre isso juntos depois.

-O velho cavaleiro viu também que o seu favorito, que estava sob tal obrigação em relação a ele por amá-la tanto, amava o seu filho mais do que a ele; e isso o deixou tão enciumado, que em pouco tempo ele estava lançando uma nuvem negra sobre toda a mesa com o seu olhar moroso e respostas curtas.

Este tipo de sombra é muito diferente da nossa; e a sobremesa de Natal acabou ficando tão deprimente que nós as sombras não conseguimos suporta-lo, e ficamos felizes quando as senhoras se levantaram para ir até a sala de estar. Os cavaleiros não iriam atrás das damas, nem para provar do bem conhecido vinho. Então o anfitrião mal-humorado, não obstante a sua hospitalidade, foi abandonado sozinho à mesa, no grande e silencioso salão. Nós seguimos a comitiva escada acima para a sala de visitas e depois para o quarto das crianças para brincar de “pega-dragão”. Enquanto elas se ocupavam com este jogo, que é um dos mais sombrios, quase todas as sombras dispararam escadas abaixo novamente para a sala de jantar, onde o velho ainda se encontrava assentado, remoendo o osso duro do seu próprio egocentrismo. Elas invadiram a sala e usando todo o tipo de método para se expandir e inflar como bolhas de sabão, elas obtiverma sucesso em preencher toda a sala com uma sombra depois da outra. Eles se fizeram o mais gordas possível em torno do fogo e da lâmpada, até que finalmente elas quase que inundaram todo o ambiente com montes de escuridão.

 

“‘Antes de terem conseguido tudo isso, as crianças, cansadas de tanto divertimento e bagunça foram postas para dormir. Mas a pequena garota de cinco anos de idade, com a qual nós ficamos tão enquantados quando chegamos pela primeira vez não conseguia or dormir. Ela tinha pouco espaço para si; e eu a estava observando na cama e agora a mantinha acordada saltitando nos raios da luz noturna. Quando os olhos dela ficaram certo dia fixos sobre mim, eu assumi as formas do avô dela, representando-o na parede, assentado na sua cadeira, com a sua cabeça baixa, e os seus braços indiferentes frouxos soltos a seu lado. E a criança lembrou que foi assim precisamente que ela o havia visto pela última vez; pois acontece que ela havia dado uma espiada pela porta da sala de jantar, depois que todo o mundo se levantou e subiu as escadas. “E se ele ainda estiver sentado ali,” pensou ela, “abandonado sozinho no escuro!” Ela desceu da cama e engatinhou para baixo.

 

“‘Neste meio tempo os outros fizeram o quarto de baixo ficar tão escuro, que apenas a face e cabelos broncos do velho homem podiam ser vagamente discernidos em meio à multidão de sombras. Pois ele havia enchido a sua própria mente com sombras, que nós, as Sombras, desejávamos expulsar dele. Aquelas sombras eram bem diferentes de nós, vossa majesta bem o sabe. Ele estava pensando em todos os decepções que ele já teve na vida, e de toda a ingratidão que ele encontrou. Ele pensou muito mais no bem que ele havia feito, do que no bem que outros lhe fizeram. “Depois de tudo o que eu fiz para eles,” disse ele, com um suspiro de amargura, “nenhum deles me dá um só pingo de atenção. Meus próprios filhos ficarão contentes quando eu me for!” Naquele instante ele levantou os olhos e viu, parada junto à porta, uma figura delicada em uma camisola. A porta atrás dela estava fechada. Era a minha pequena amiga que havia entrado sem fazer barualho. Uma forte pontada de gelado pavor tomou o coração do homem velho – mas ele derreteu-se rapidamente, pois nós fizemos um corredor entre nós, para que um só raio de luz do fogo caísse sobre a face da pequena fada, e ele achou que fosse um dos seus filhos que havia morrido quando tinha exatamente a mesma idade da sua pequena neta, que estava agora olhando para o seu avô por entre as sombras. Ele pensou que ela havia se levantado do seu túmulo na velha escuridão para perguntar, porque é que o seu pai estava ali sentado, sozinho no dia do Natal. E ele sentiu que não tinha resposta alguma a dar para a sua pequena fantasma, a não ser alguma coisa que ele ficaria envergonhado de lhe dizer. Mas a pequena garota o havia visto agora. Ela caminhou até ele com uma dignidade infantile, entre um tropeço e outro, no que lhe parecia ser uma corda comprida. Abrindo o seu caminho entre as sombras amontoadas, ela o alcançou, subiu no seu colo, deitou a sua cabecinha de cabelos compridos nos seus ombros e disse: “Vô! Ce ta tiste? Não é natal para você também, vovô?”

 

“‘Uma nova onda de amor parecia jorrar do fundo do coração do velho homem. Ele deu um abraço apertado na criança e começou a chorar. Em seguida, sem uma só palavra, ele a levantou nos seus braços, carregou-a para cima até o quarto dela e a deitou na sua caminha, cobriu-a, beijou a sua pequena boca doce, sem dar-se conta de qualquer censura, e depois seguiu para a sala de visitas.

 

“‘Assim que entrou, viu os réus sozinhos em um canto silencioso. Ele se dirigiu a eles, pegou na mão de cada um e predeu-as nas dele, dizendo: “Deus os abençoe a todos!” Então ele se dirigiu para o resto do grupo, e disse “Agora, vamos celebrar o natal.”

– E eles devem ter comemorado bastante, pois por mais visitas que eu tenha feito àquela casa, eu nunca mais o vi deprimido desde aquele dia; e eu tenho certeza de que isso deve ter lhe custado bastante esforço.’

 

“‘Nós acabamos de chegar de um arrojado palácio,’ disse outra sombra, ‘onde ficamos sabendo que havia muitas crianças, e onde pensamos ter ouvido vozes contentes, e vimos rostos com aparência real e feliz. Mas, assim que nós entramos, nós nos demos conta de que uma grande e poderosa sombra encobria o todo; e que aquela sombra se aprofundava cada vez mais, até que ele se consolidou tanto em escuridão, até que sossegou na forma de um sábio príncipe. Quando nós o vimos, não conseguimos mais nos mover, mas batíamos fortemente nas paredes, pelo nosso silêncio acrescido à tristeza da hora. E quando nós vimos a mãe daquele povo chorando cabisbaixa pela perda daquele em quem ela confiava, nós fomos acometidos de um desejo tão grande de deixarmos de ser sombras, mas anjos alados, que são as sombras alvas criados nos céus pela Luz de todas as Luzes, então, para juntar em torno dela, e fazer pairar sobre ela um consolo tal, que desaparecemos das paredes e nos encontramos flutuando bem acima das torres do palácio, onde nós nos encontramos com os anjos no seu caminho; e sabíamos que o nosso serviço não estava sendo demandado. ‘

 

“Naquele momento houve um brilho de uma luz luar que se aproximava, e o rei comecou a ver vários daquelas Sombras estrangeiras, com rostos humanos e olhos, que se moviam entre a multidão. Ele sabia de imediato que eles não pertenciam ao seu domínio. Eles olharam para ele, e se aproximaram dele, e passaram rapidamente, mas eles nunca fizeram qualquer reverência, ou deram sinais de respeito e admiração. E o que os seus olhos diziam a ele, só o rei seria capaz de dizer. Mas ele não disse.

 

“‘O que são aquelas outras sombras que estão se movendo através da multidão?’ disse ele para um de seus súditos que estava próximo dele.

 

“A sombra começou, olhando ao redor, e tremendo um pouco, colocou um dedo sobre os seus lábios. Em seguida, puxando o rei um pouco de lado, e olhando com atenção para ele mais uma vez, disse em um tom baixo:

 

“‘Eu não sei bem o que eles são. Ouvi dizer muito a seu respeito, mas eu só vi um deles certa vez em toda a minha vida. Isso foi quando alguns de nós prestamos certa vez uma visita a um homem que ficava muito sozinho, e diziam que ele costumava pensar muito. Nós vimos dois dels sentados no quarto jutno com ele, e ele estava tão pálido quanto eles eram. Não conseguimos cruzar a soleira da porta, mas começamos a temer e tremitar, e estávamos prontos para derreter totalmente. Vossa majestade também não tem medo deles?’

 

“Mas o rei não deu resposta; e antes de conseguirmos falar novamente, a lua se elevou acima dos poderosos pilares da igreja das sombras, e olhou para dentro da grande janela do céu.

 

“As sombras desapareceram todas e o rei, levantando os seus olhos novamente, não via mais nada a não ser a parede do seu próprio quarto, na qual trimulava a sombra de uma pequena criança. Ele olhou para baixo e ali, sentado em uma cadeirinho junto ao fogo, ele viu um dos seus filhos, esperando para desejar boa noite para o seu pai, e ir para a cama cedo, para que pudesse acordar igualmente cedo e ser muito bonzinho e feliz no dia do natal.

 

“E Ralf Rinkelmann sentiu-se muito grato por ser um ser humano, e nenhuma sombra. ”

Fonte:

http://kirov.seanet.com/~eldrbarry/mous/bibl/csr.htm

http:www.geocities.com/Athens/Atlantes/6510/col-chesterton.htm

 

 

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