Tolkien e C. S. Lewis

Tolkien e C. S. Lewis

by Eduardo Stark

Antes do grande sucesso de O Senhor dos Anéis, as únicas pessoas que realmente se interessavam em saber mais sobre o mundo da Terra-média eram Christopher Tolkien e o C.S. Lewis. Ambos tiveram o privilégio de escutar o próprio autor lendo e apresentando comentários aos manuscritos.

Pelo fato de Lewis ter essa proximidade há certa presunção de que o Tolkien teria sido influenciado por ele. Mas isso não corresponde ao que realmente aconteceu. Mesmo sendo amigos, e debatendo sobre as histórias da Terra-média, Tolkien não sofreu influência do autor de Crônicas de Nárnia.

J.R.R. Tolkien havia iniciado seus primeiros escritos relacionados ao seu mundo secundário muito antes de conhecer C.S. Lewis. Ele entendia aquele universo como algo privado e decorrência de seu entretenimento pessoal. Sendo assim, Tolkien se sentia desconfortável quando alguém “tentava” intervir em alguma coisa de sua obra, sugerindo alguma mudança ou pedindo que se acrescentasse algo.

O fato de C. S. Lewis ter lançado as Crônicas de Nárnia primeiro que o Senhor dos Anéis gerava a impressão para o público geral que o Tolkien havia se inspirado no seu amigo, quando na verdade o que aconteceu foi o contrário.

Enquanto Tolkien terminou o Senhor dos Anéis em 1948 e enviou uma cópia para leitura ao C. S. Lewis na metade de 1949, o mesmo começou a escrever o primeiro livro de Crônicas de Nárnia logo após a leitura dos escritos do Tolkien. Contudo, o livro de Lewis foi escrito em pouco tempo. Era bem mais fino, menos complexo e, portanto, mais fácil de ser publicado.

Tolkien demorou doze anos para terminar O Senhor dos Anéis (e ainda não considerava bom o suficiente), Lewis começou na metade de 1949 e terminou no mesmo ano, publicando a obra no ano seguinte (1950). Enquanto que o Senhor dos Anéis demorou mais cinco anos até que fosse publicado.

Mas como seria possível analisar se ocorreu ou não influências entre os autores¿ Se apresentasse apenas argumentos, ainda que lógicos e com base no que está posto nas obras, não seria algo que corresponderia a realidade. Isso por que afirmar que um autor foi influenciado por outro requer um entendimento do que se passava na mente dele no momento em que estava escrevendo. Por ser algo muito subjetivo devemos recorrer às declarações dos próprios autores sobre suas influências.

Em vários trechos de cartas tanto do Tolkien quanto do C. S. Lewis, há referências sobre quem influenciou quem. Os trechos parecem se comunicar entre si. É como se o Tolkien estivesse falando com o C. S. Lewis a respeito do mesmo assunto e com a mesma opinião formada.

C. S. Lewis, escritor e amigo de Tolkien

C. S. Lewis, escritor e amigo de Tolkien

As declarações de Tolkien sobre Lewis ter influenciado

C.S. Lewis foi importante como um expectador da origem da obra. Tolkien precisava de um ‘apoio moral’ para continuar sua obra. Afinal ele tinha seus trabalhos como professor, a vida pós-segunda guerra mundial, e as constantes mudanças do mundo tornavam tudo mais cansativo.

Dessa forma, Tolkien reconhecia em Lewis um amigo que pudesse ‘desabafar’ sua criatividade e mostrar o material escrito. Foi por isso que afirmou em carta que:

…foi apenas por seu apoio e por sua amizade que consegui lutar até o fim do trabalho. – Carta 149 – Para Rayner Unwin – 9 setembro de 1954

Pelo fato de C. S. Lewis ter conhecido suas histórias antes de publicar as Crônicas de Nárnia, Tolkien acreditava que isso implicou em ‘apropriação’ de várias expressões e termos naquela obra. Ele cita como exemplo a palavra “Numinor”:

C. S. Lewis é um velho amigo e colega meu, e de fato devo ao seu encorajamento o fato de que, apesar dos obstáculos (incluindo a guerra de 1939!), perseverei e eventualmente terminei O Senhor dos Anéis. Ele ouviu a história ser lida em voz alta, pedaço por pedaço, mas nunca a viu impressa até que sua trilogia foi publicada. Sua Numinor derivou-se, de ouvido, de Númenor, e realmente tinha intenção de se referir à minha obra e outras lendas minhas (não-publicadas) que ele ouvira. Carta 227 E. C. Ossen Drijver 5 de janeiro de 1961.

Não se trata de um plágio, pois Lewis deu um significado diferente ao que Tolkien criou. Mas nota-se nas cartas que há um certo desconforto por parte de Tolkien em relação às Crônicas de Nárnia. Aliás, ele declarava abertamente que não gostava nem um pouco dessa série de livros do Lewis.

Em grande parte dos escritos de C.S. Lewis, o professor Tolkien apresentava discordâncias de ideias. Como pode ser visto no seguinte trecho da Carta 224:

Acabei de receber um exemplar do último livro de C.S.L: Studies in Words. Ai! Sua tolice cansativa está se tornando um estilo permanente. Estou profundamente aliviado por saber que não sou mencionado”. Carta 224 para C. Tolkien, 12 setembro 1960

Frequentemente C.S. Lewis citava o Tolkien em algum trabalho acadêmico ou mesmo livros. E as vezes isso era para Tolkien objeto de constrangimento quando discordava de alguma ideia. Lewis não costumava informar antes de publicar algo que iria citar algo o Tolkien.

Em outra carta, mais uma vez Tolkien nega ter influência de seu amigo com relação ao conteúdo de sua obra. Dessa vez ressaltando o tipo de influência que sofreu de Lewis:

Lewis era um homem impressionável, e isso era estimulado por sua grande generosidade e capacidade para amizade. A dívida impagável que tenho para com ele não foi “influência” como é comumente compreendida, mas puro encorajamento. Por muito tempo ele foi meu único público. Apenas a partir dele tive noção de que meu “material” poderia ser mais do que um passatempo particular. Se não fosse por seu interesse e avidez incessante por mais, eu jamais teria concluído O S. dos A….” Carta 276 para Dick plotz 12 setembro de 1965

Novamente Tolkien ressalta a importância de C.S. Lewis no processo de incentivar a obra, ressaltando como foi essencial essa participação de seu amigo:

Se não fosse pelo encorajamento de C.S.L., não creio que teria terminado ou oferecido para publicação O Senhor dos Anéis. Carta 282 para Clybe S. Kilby. 18 dezembro de 1965

Ainda, em entrevista para o The Telegraph, Tolkien dá detalhes de como era esse incentivo de C.S. Lewis:

Ele costumava insistir na minha leitura em voz alta de passagens que eu havia terminado, e então ele fazia sugestões. Ele ficava furioso quando eu não as aceitava. Uma vez ele disse: “Não adianta tentar influenciar você. Você não é influenciável!”. Mas isso não era bem verdade. Sempre que ele dizia: “Você pode fazer melhor do que isso. Melhor Tolkien, por favor!”Eu costumava tentar. (Entrevista The Man who undertands Hobbits telegraph 1966).

Por todas essas considerações, Tolkien afirmou em várias oportunidades que C.S. Lewis contribuiu sim com a sua obra, mas não quanto ao conteúdo, ele participou dando incentivo ao seu amigo para que continuasse escrevendo.

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As declarações de C.S. Lewis sobre Tolkien ter sido influenciado

Em várias oportunidades Lewis apresenta sua dificuldade em tentar influenciar Tolkien. A primeira referência sobre isso está na Carta para Charles A. Brady, datada de 5 de janeiro de 1957:

…quanto a qualquer pessoa influenciar Tolkien, você poderia também (para adaptar o Rei Branco) tentar influenciar um bandersnatch.

Bandersnatch é um personagem criado por Lewis Caroll, autor de Alice no País das Maravilhas, que é descrito como astuto, feroz e muito rápido. Ou seja, Tolkien dificilmente seria influenciado por alguém.

A segunda referência pode ser lida na Carta para Charles Moorman, de 15 de maio de 1959:

Ninguém jamais influenciou Tolkien – você pode também tentar influenciar um bandersnatch. Ouvimos sua obra, mas apenas podemos afetá-lo com encorajamento. Ele tem só duas reações à crítica: Ou começa toda a obra novamente desde o início ou então não faz absolutamente nenhuma observação.

Novamente C.S. Lewis compara Tolkien a um bandersnatch, para mostrar a dificuldade que é influenciar seu amigo. Assim como Christopher Tolkien, Lewis teve a possibilidade escutar e ler as obras de Tolkien ainda na sua gestação. Mas o autor de O Hobbit não se deixava influenciar. Ele era altamente crítico de seu próprio trabalho. Isso devido a sua forma de lidar com situações de forma peculiar.

Esse perfeccionismo gerou vários e vários manuscritos que se amontoaram em seu escritório. Coube ao seu filho organizar todos de uma forma coerente e foi assim que surgiu a maioria dos livros póstumos que conhecemos atualmente. Tal como a série de doze volumes chamada “The History of Middle” e livros como O Silmarillion, Os Filhos de Húrin, Contos Inacabados e Beren e Lúthien.

Em uma de suas últimas cartas escritas, para Francis Anderson, em 23 de setembro de 1963, C.S. Lewis novamente reafirma que não influenciou Tolkien, mas dessa vez tenta explicar as razões do por que suas obras tem certa semelhança.

Eu não acho que Tolkien me influenciou, e estou certo de que eu não o influenciei. Isto é, não influenciei o que ele escreveu. Meu encorajamento contínuo, levado ao ponto de irritar, influenciou-o muito ao escrever com essa gravidade e extensão. Em outras palavras, agi como parteiro e não como pai.

E nessa mesma carta, Lewis explica que essas comparações e semelhanças podem se dar especialmente por dois fatores:

As semelhanças entre sua obra e a minha são devidas, eu acho à: (a) natureza – temperamento e, (B) a fontes comuns. Nós dois estamos embebidos em mitologia nórdica, contos de fadas de George MacDonald, Homero, Beowulf e romances medievais. Além disso, claramente, nós dois somos cristãos (ele, um C.R.).

Lewis cita alguns autores e obras que eram comuns entre ele e Tolkien, demonstrando que sua base literária seria praticamente a mesma que a do seu amigo.

O fato de Tolkien dizer não ser influenciável, não quer dizer que ele negue todas as fontes que teve contato antes de criar sua própria mitologia. Em carta para L.M. Cutts, em 26 de outubro de 1958, Tolkien explica uma de suas fontes:

… se assim posso dizer, com humildade, a religião cristã (que eu professo) é, de longe, a mais poderosa fonte suprema, num plano inferior: o meu interesse linguístico é a força mais poderosa …

Tolkien reconhecia suas fontes e livros que se inspirou ao criar sua mitologia própria. Porém, ele enfaticamente dizia que não sofreu influência de Lewis e este reafirmava a mesma ideia.

CONCLUSÃO

C.S. Lewis influenciou Tolkien no sentido formal e não material. Ou seja, ele deu apoio psicológico, mas não alterou o conteúdo da obra. Isso devido ao perfeccionismo de Tolkien e o fato de ser a escrita um passatempo particular do autor. A amizade entre os dois produziu longos debates literários, políticos e religiosos e o fruto disso foi o constante incentivo de Lewis para que Tolkien concluísse sua obra máxima O Senhor dos Anéis.

Fonte: http://tolkienbrasil.com/noticias/diversas/j-r-r-tolkien-e-influencia-de-c-s-lewis/