Por Maurício Avolleta Jr.
Obs.: O texto a seguir é um resumo de um projeto em andamento previsto para ser publicado no início de 2017, portanto, não se aprofundara tanto nos assuntos propostos, assim como algumas perguntas que serão levantadas neste texto, serão respondidas e aprofundadas apenas no trabalho final.

Neste texto, buscaremos levantar algumas perguntas e diálogos em cima do Imaginarium do Professor Tolkien relacionados ao problema do mal, pois assim como o Professor Carlos Caldas, entendemos que, O Silmarillion, é uma Teodiceia, ou seja, uma explicação para o problema do mal [1].Dito isso, podemos observar semelhanças entre a criação de , que o próprio Tolkien se referiu como sendo o mito de sua sub-criação [2], e a criação do mundo, narrada nos primeiros capítulos do Gênesis.

O-Silmarillion

Havia Eru, o Único, que em Arda é chamado de Ilúvatar. Ele criou primeiro os Ainur, os Sagrados, Gerados por seu pensamento, e eles lhe faziam companhia antes que tudo o mais fosse criado. E ele lhes falou, propondo-lhes temas musicais; e eles cantaram em sua presença, e ele se alegrou. [3]

Assim como na narrativa Bíblica, o mito de Tolkien nos apresenta apenas um deus soberano e que ele se encontra fora do tempo, em outros trechos, podemos encontrar outros atributos semelhantes ao Deus Bíblico como ser pré-existente, criador e criativo, não se revelava por completo, é soberano sobre sua criação, se revela parcialmente através das coisas criadas e mais alguns outros. Podemos também identificar os Ainur como correspondentes aos anjos da mitologia cristã. Outro ponto interessante para prestarmos atenção, é que toda a criação é gerada a partir de temas sugeridos pelo próprio Ilúvatar, nos remetendo a ideia da Teologia Paulina que diz que tudo nEle subsiste (Cl 1:17).

O Professor e Teólogo Carlos Caldas, cita que a ideia da música ser divina está presente em uma antiga tradição rabínica, o que torna plausível a influência não só da tradição rabínica e judaica, como da tradição cristã sobre a sub-criação de Tolkien.

Parece que Tolkien e Lewis encontram inspiração para esse ponto (a criação do mundo pela música) não em mitologias nórdicas ou celtas, mas em uma antiga tradição rabínica, que diz ser a música uma linguagem divina. Ainda que nenhuma tradição rabínica afirme explicitamente que Deus criou o mundo pela música, é razoável inferir que a fala de Deus se expressou com musicalidade. Com criatividade, Tolkien combina um pano de fundo escandinavo com uma antiga tradição da sabedoria judaica. Essa mescla, assaz curiosa, é um louvor ao Criados. [4]

Voltando para O Silmarillion, vemos que Tolkien descreve um Ainur que se rebela contra Ilúvatar, pois desejava possuir a chama imperecível, que dava a quem a possuía, a possibilidade de trazer seus pensamentos a realidade. Melkor se rebela contra Ilúvatar por um desejo de ser igual a deus, semelhante ao que ensina a Tradição Cristã a respeito da queda de Satanás.

Tolkien diz o seguinte em, O Silmarillion:

Enquanto o tema se desenvolvia, no entanto, surgiu no coração de Melkor o impulso de entremear motivos da sua própria imaginação que não estavam em harmonia com o tema de Ilúvatar; com isso procurava aumentar o poder e a glória do papel a ele designado. [5]

Aqui podemos perceber, que além de um aparente diálogo com a Tradição Cristã quando a queda de Satanás, encontramos também a ideia do mal como corrupção de algo primariamente bom, no caso, Melkor, um Ainur que por desejar a chama imperecível para assim ser como Ilúvatar, corrompeu-se e se tornou um ser mal.

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A ideia do mal como corrupção é presente na Teologia e na Filosofia de C. S. Lewis, que partilhou de uma longa amizade com Tolkien e que explicitamente se influenciaram mutuamente na criação de suas estórias. Em seu livro, Cristianismo Puro e Simples, Lewis elabora sua ideia a respeito da existência do mal. Lewis entendia que o mal não era algo em si, mas uma consequência de um agente moralmente livre. Para Lewis, o mal era a corrupção gerada pela escolha errada de alguma criatura.

Para ser mau, ele tem de querer algo de bom e buscá-lo de forma errada: tem de ter impulsos originariamente bons para depois pervertê-los. Mas, se é mau, não pode fornecer a si mesmo nem as coisas boas e desejáveis nem os bons impulsos passíveis de perversão. [6]

Lewis, ainda acrescenta que:

Para que seja mau, esse poder tem de existir e ter inteligência e vontade. Ora, a existência, a inteligência e a vontade são, em si mesmas, coisas boas. […] o Mal é um parasita, não um ente original. [7]

Contudo, não foi Lewis quem primeiro concebeu a ideia do mal como corrupção, na verdade, essa ideia nasce com Santo Agostinho. Em suas confissões, como resposta a seita Maniqueísta da qual fez parte durante sua juventude, Santo Agostinho chega a seguinte conclusão a respeito do que seria o mal:

Vi claramente que as coisas corruptíveis são boas. Não se poderiam corromper se fossem sumamente boas, ou se não fossem boas. Se fossem absolutamente boas, não seriam corruptíveis. E se não fossem boas nada haveria a corromper. A corrupção de fato é um mal, porém, não seria nociva se não diminuísse um bem real. Portanto, ou a corrupção não é um mal, o que é impossível, ou – e isto é certo – tudo que se corrompe sofre diminuição de bem. [8]sant_agostino_di_canterbury

Frente a isso, voltamos para O Silmarillion, onde podemos observar um eco da Teologia de Lewis e Agostinho quanto o mal na Sub-criação de Tolkien. Tolkien narra o seguinte:

Alguns desses pensamentos ele agora entrelaçava em sua música e logo a dissonância surgiu ao seu redor. Muitos dos que cantavam próximo perderam o ânimo, seu pensamento foi perturbado e sua música hesitou; mas alguns começaram a afinar sua música à de Melkor, em vez de manter a fidelidade ao pensamento que haviam tido no início. [9]

Vemos nesse trecho da narrativa, os aspectos levantados por Lewis e Santo Agostinho a respeito do mal como corrupção, principalmente no momento onde a canção de Melkor destoa da canção original de Ilúvatar e corrompe os outros Ainur que estavam ao seu redor, mostrando que realmente existe um diálogo de ideias. Em uma de suas cartas, Tolkien explicita a ideia da corrupção em seu Imagiarium.

Sauron, é claro, não era “mau” em origem. Foi um “espírito” corrompido pelo Primeiro Senhor do Escuro (o Primeiro Rebelde subcriativo), Morgoth. [10]

Facilmente podemos notar a ideia agostiniana de mal como corrupção na obra de Tolkien, no entanto, alguns problemas a mais podem ser são levantados. Agostinho, como já observado, não atribuía ao mal uma forma física, mas aparentemente, Tolkien parece atribuir a Melkor a figura do mal, ou seja, seria Melkor o mal físico?

Em O Silmarillion, observa-se o seguinte:

Cresceu-lhe então muito mais a inveja; e ele também assumiu forma visível; mas, em virtude de seu ânimo e do rancor que nele ardia, essa forma era escura e terrível. E ele desceu sobre Arda com poder e majestade maiores do que os de qualquer outro Valar, como uma montanha que avançava sobre o mar e tem seu topo acima das nuvens, que é revestida de gelo e coroada de fumaça e fogo; e a luz dos olhos de Melkor era como uma chama que faz murchar com seu calor e perfura com uma frio mortal. [11]

Um pouco mais adiante, o autor escreve o seguinte:

Diz-se, porém, entre os eldar que os Valar sempre se esforçaram, apesar de Melkor, para governar a Terra e prepará-la para a chegada dos Primogênitos: e eles criaram terras, e Melkor as destruía; sulcavam vales, e Melkor os erguia; esculpiam montanhas, e Melkor as derrubava; abriam cavidades para os mares, e Melkor os fazia transbordar; e nada tinha paz ou se desenvolvia, pois mal os Valar começavam algum trabalho, Melkor o desfazia ou corrompia. [12]

Nestes trechos, nota-se uma diferença com a Teologia agostiniana e o que ainda não sabemos se é o pensamento de Tolkien, ou apenas parte da Teologia de sua Sub-criação. Percebemos que Melkor foi criado como todos os Ainur, mas que assim como entendia Santo Agostinho, por não ser totalmente bom, tinha a possibilidade, através do livre-arbítrio, de se corromper com desejos ruins, e foi o que aconteceu com Melkor, a ponto de o mesmo, como observado nos trechos acima, ter sua aparência alterada devido a estes desejos ruins e corruptíveis. Vemos também que o autor passa a atribuir a Melkor o ato de corromper: Contudo, devemos nos lembrar que antes de ele tomar uma “forma má” e passar a ser o agente de corrupção, ele foi antes corrompido, mas pelo fato de não nos ser informado em nenhuma parte d’O Silmarillion e nem em qualquer outra obra de Tolkien de um “mal pré-Melkor”, ficamos com as seguintes perguntas: seria Melkor realmente uma forma física do mal? Se sim, essa ideia de um mal com forma física seria parte da teologia de Tolkien ou apenas parte de sua Sub-criação?

Outro problema nos é apresentado em O Silmarillion, causando-nos algumas dúvidas semelhantes as que acabei de apresentar. Tolkien diz o seguinte:

Já os filhos dos homens morrem de verdade e deixam o mundo; motivo pelo qual são chamados Hóspedes ou Forasteiros. A morte é seu destino, o dom de Ilúvatar, que, com o passar do tempo, até os Poderes hão de invejar. Melkor, porém, lançou sua sombra sobre esse dom, confundindo-o com as trevas; e fez surgir o mal do bem; e o medo, da esperança. [14]

Estaria Tolkien nos dizendo que existia uma “morte pré-queda? Vemos nesse trecho que a morte, ao invés de ser um fruto de uma queda, como acredita a Tradição Cristã, seria na verdade um dom corrompido, mas tudo isso na Teologia interna da sub-criação de Tolkien. Contudo, em um nota feita em uma de suas cartas, Tolkien faz algumas considerações interessantes sobre isso:

Visto que a “mortalidade” é assim representada como uma dádiva especial de Deus [15] à segunda Raça dos Filhos (os Eruhíni, os Filhos do Deus Único) e não como uma punição por uma Queda, o senhor pode chamar isso de “má teologia”. Talvez o seja, no mundo primário, mas é uma imaginação capaz de elucidar a verdade, e uma base legítima de lendas. [16]

Tolkien confirma que essa ideia é realmente presente em sua obra e o mesmo se refere a ela como uma má teologia no mundo primário, mas perfeitamente possível em sua Sub-criação por se tratar apenas de um mundo que reflete a realidade, mas que não é a realidade em si. Como dizia Tolkien em alguns ensaios e cartas, esse mundo contém apenas a essência da verdade mas não o verdadeiro. Mas o que levanta hipóteses de isto ser parte da Teologia pessoal de Tolkien são as últimas linhas: “Talvez o seja, no mundo primário, mas é uma imaginação capaz de elucidar a verdade, e uma base legítima de lendas.”

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Em seu ensaio, Sobre Contos de Fadas, Tolkien elabora a ideia de Faërie, o mundo encantado das fadas, onde as coisas lá existentes são reflexos da realidade, embora como já dissemos, não é a realidade em si, e portanto, não são necessariamente mentiras, mas “verdades em potencial”.

A história muitas vezes se parece com o “Mito”, porque ambos, em última análise, compõem-se da mesma matéria. Se de fato Ingeld e Freawaru jamais viveram, ou pelo menos jamais amaram, então em última análise eles obtêm sua história de um homem e uma mulher anônimos, ou melhor, entraram na história deles. [17]

Michael White, em sua biografia de Tolkien, acrescenta o seguinte sobre a teoria de Tolkien sobre histórias de fadas: “Mitos, (…) com certeza não são mentiras. Mitos derivam de um núcleo verdadeiro e carregam consigo um significado cultural muito específico” [18]. Ou seja, se um conto de fadas reflete uma verdade, logo certos pontos dessa Sub-criação são, se levarmos em conta a teoria de Tolkien, verdade. Sendo assim, afirmar que a ideia de uma morte pré-queda e de que a morte haveria tido seu entendimento corrompido com a queda e se tornado algo ruim é razoável não só na Teologia do mundo Sub-criativo de Tolkien, como provavelmente também faz parte de sua Teologia pessoal, assim como parte da teodiceia aqui encontrada, justamente por dialogar com o “mundo primário”, assim como Tolkien pressupõe que um mito deve fazer.

Por fim, gostaria de deixar claro que isso não é a palavra final dizendo: “Foi isso que Tolkien quis passar SIM!” ou “Essa é sim a ‘Teologia Tolkieniana’”. Como já afirmei no início, isso é apenas parte de uma pesquisa maior que está em andamento. A real intenção desse breve artigo foi apenas incentivar amantes de Tolkien e de fantasia em geral, a ler com um olhar mais crítico e atencioso para perceber que a Literatura tem muito para nos ensinar.

Referências e notas:

[1] CALDAS, Carlos. Religião e Literatura – Reflexões sobre O Silmarillion. São Paulo. Ed. Mackenzie. 2003. p. 151.

[2] TOLKIEN, J. R. R. As Cartas de J. R. R. Tolkien. Curitiba. Arte e Letra Editora. 2006. p. 242.

[3] ______. O Silmarillion. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 3.

[4] CALDAS, Carlos. Religião e Literatura – Reflexões sobre O Silmarillion. São Paulo. Ed. Mackenzie. 2003. p. 142

[5] TOLKIEN, J. R. R.. O Silmarillion. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 4.

[6] LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2014. p. 59.

[7] ______. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2014. p. 60.

[8] SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo. Ed. Paulus. 2013. p. 191.

[9] TOLKIEN, J. R. R.. O Silmarillion. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 4-5.

[10] TOLKIEN, J. R. R. As Cartas de J. R. R. Tolkien. Curitiba. Arte e Letra Editora. 2006. p. 183.

[11] TOLKIEN, J. R. R.. O Silmarillion. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 12.

[12] ______. O Silmarillion. São Paulo. WMF. Martins Fontes. 2015. p. 12.

[13] Idem.

[14] Ibdem, p. 37.

[15] Em suas cartas, Tolkien se refere a Erú Ilúvatar, o deus soberano de sua Sub-criação apenas como Deus, as vezes também como LORD, Lord, ou até mesmo “Ele”.

[16] TOLKIEN, J. R. R. As Cartas de J. R. R. Tolkien. Curitiba. Arte e Letra Editora. 2006. p. 182.

[17] TOLKIEN, J. R. R. Árvore e Folha. São Paulo. WMF Martins Fontes. 2014. p. 29.

[18] WHITE, Michael. J. R. R. Tolkien; o senhor da fantasia. Rio de Janeiro. Darkside. 2013. p. 131.

Fonte: https://becounderground.wordpress.com/2016/06/02/sobre-tolkien-e-a-teodiceia-de-o-silmarillion/

  1. A existência do mal/sofrimento é o maior desafio para qualquer crença na existência de um Deus justo e perfeito.

    A coisa já vem desde os Gregos, uns cinco séculos antes de Cristo com o famoso Paradoxo de Epicuro. A questão do mal é o maior espinho na carne de qualquer fé que tenha por premissa um Deus bom e justo.

    Leibnitz introduziu a palavra certa para esse problema sem solução, teodiceia, e David Hume massacrou os teólogos que se aventuravam por uma justificativa plausível afirmando corretamente a validade do paradoxo de Epicuro que permanecia sem resposta e, resumidamente, pode ser escrito assim:

    Se Deus, sendo Deus, não consegue impedir o mal, logo é incapaz; se todo-poderoso, dá no mesmo, continua incapaz e agora impotente; e se não deseja acabar com o mal, contemporiza com o malévolo.

    É uma questão simplesmente insolúvel. Tanto Lewis e Tolkien, que não eram por formação nem teólogos e nem filósofos, fizeram o que puderam para enfrentar o vespeiro via literatura.

    • Oi Eduardo,

      Muito bom o seu comentário, sobre a questão do sofrimento em Tolkien e Lewis. Realmente, eles não eram filósofos e trataram a questão via literatura. Se bem que em O Problema do Sofrimento tenhamos uma obra que também trate da questão do ponto de vista filosófico e teológico.

      Abraço

      Gabriele

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